Morashá
Herzl depois de Herzl THEODOR HERZL, NA BASILÉIA, NA VARANDA DO HOTEL THREE KINGS, EM 1897, DURANTE O PRIMEIRO CONGRESSO SIONISTA

Herzl depois de Herzl

por Zevi Ghivelder

Algumas biografias de Theodor Herzl se circunscrevem à sua trajetória desde a publicação de “O Estado Judeu” até a realização do Primeiro Congresso Sionista Mundial. No entanto, foi depois do Congresso que sua atuação política assumiu uma proporção caudalosa e sua vida pessoal avultou como um enigma.

Edição 111 - Junho de 2021


Em agosto de 1897, quando, depois de três dias de intensas sessões, o Primeiro Congresso Sionista Mundial terminou, na Basileia, Suíça, o jovem Theodor Herzl embarcou num trem rumo a Viena, onde residia. Ele tinha sido o inspirador e realizador do mais extraordinário evento até então vivido pelo povo judeu em dois mil anos de dispersão. Estava atordoado com o êxito alcançado por seu inusitado e inesperado empreendimento, muito bem-sucedido a despeito de todos os obstáculos que havia transposto. Ainda sentia a vibração dos aplausos que recebera desde o início até o encerramento do Congresso e, sobretudo, pelo eco de uma voz feminina, que não sabia de onde havia partido, dentre os duzentos delegados: “Temos um rei!”.

Theodor Herzl, ou Binyamin Zeev, em hebraico, como alguns de seus seguidores preferiam chamá-lo, tinha, então, 37 anos de idade, porém dava a impressão de ser mais velho por causa de sua volumosa barba negra. Ele mesmo se assombrava com os acontecimentos que haviam norteado sua vida nos últimos meses. Mas, quando olhava para trás, não precisava alongar demais a visão. Desde a publicação de O Estado Judeu, um livro de leitura concisa e árida que havia despertado os anseios das massas judaicas na Europa, apenas dois anos tinham transcorrido. Não há na história da humanidade o registro de algum líder de um movimento nacional que tenha alcançado tanto em tão ínfimo espaço de tempo. Em meros dois anos, de 1895 a 1897, ele conseguiu atrair as atenções das poderosas famílias de filantropos judeus europeus, que a princípio o desprezaram. O mesmo aconteceu por parte da intelectualidade judaica da época, que muito relutou até dar crédito às suas ideias, tidas como utópicas e, portanto, descartáveis.

Na manhã do primeiro dia de setembro, quando deixava a Basileia, Herzl escreveu em seu diário que ali mesmo, naquela pequena cidade suíça, tinha fundado o Estado Judeu. Não teve o receio de ser visto como um sonhador inconsequente ou um profeta arrogante, acrescentando que o dito estado seria uma realidade, talvez não em cinco anos, mas com certeza em cinquenta.

Durante o Congresso, Herzl havia criado uma atmosfera de tal maneira eletrizante, que os delegados chegaram a se sentir elevados à condição de participantes de uma assembleia nacional de um país judaico soberano. O país era inexistente naquele momento, mas decerto algum dia se concretizaria. Um dos delegados lhe entregara uma carta, guardada para ler no trem. O texto dizia que o congresso havia colocado o sionismo em sua verdadeira dimensão e proporção, que seu ideal havia mobilizado os rabinos, os pensadores e milhões de judeus anônimos que doravante podiam se julgar pertencentes a umasó comunidade internacional.

A rigor, essa radical transformação também se tinha estendido ao próprio Herzl. Meses depois de retornar a Viena, escreveu um conto publicado no jornal Die Welt, que reflete seu estado de espírito no final daquele ano. O conto tem o título A Menorá(tradicional candelabro com sete braços) e conta a história de um jovem artista que havia ignorado sua raiz judaica, mas, àcerta altura, tendo a consciência despertada pelo sofrimento do povo judeu, lhe vem à memória seu tempo de criança com a celebração da festividade de Chanucá (a vitória dos Macabeus contra os invasores gregos no templo de Jerusalém). O artista compra uma menorá e acende, conforme o ritual, a primeira vela num ambiente ainda sombrio; porém, a cada dia, a cada vela que acende, passa a enxergar tudo com mais clareza porque ele mesmo se sente interiormente iluminado. Atrai, então, a seu redor, levas de pessoas que prezam a justiça, a verdade, a liberdade, o progresso e a beleza da humanidade.

Historiadores e pesquisadores veem neste conto uma autêntica manifestação autobiográfica de Herzl, uma revelação do caminho por ele próprio percorrido, até encontrar sua verdadeira identidade. Sentia-se como um novo judeu depois de anos de assimilação aos costumes laicos de Viena. A propósito do conto A Menorá, em correspondência para Jacob de Haas, delegado ao congresso e pioneiro do sionismo nos Estados Unidos, escreveu: “Na luz emanada das velas eu avisto a radiosa luminosidade de Jerusalém”.

Os historiadores judeus e não-judeus afirmam com frequência que a ideia central de Theodor Herzl, voltada para a necessidade da criação de um estado judeu, não era uma ideia original. Na verdade, ele mesmo reconheceu isso logo nas primeiras linhas de seu livro revolucionário, ao expor um conceito mais poético do que político: “Se quiserem, não será uma lenda”. (No original em alemão, usa o equivalente a “sonho”, e a tradução para o hebraico usa o termo agadá, correspondente a lenda ou narrativa). Conforme acentua o historiador americano Rick Richman, num magnífico ensaio, Herzl concentra na essência de seu pensamento a certeza de que antes de possuírem uma nação, os judeus deveriam se empenhar por uma profunda transformação, algo semelhante ao que havia ocorrido com a geração nascida durante a peregrinação de quarenta anos pelo deserto até chegar à Terra Prometida. Seu segundo conceito, igualmente incisivo, e desta vez objetivo, sustentava que os judeus deveriam esquecer os imaginários benefícios resultantes de ações das grandes famílias filantrópicas judaicas, como os Rothschild e os Hirsch, uma experiência adversa que ele mesmo tinha experimentado ao iniciar sua atividade cívica. Insistiu que a chamada questão judaica só se encaminharia para um roteiro produtivo na medida em que essa questão se libertasse de sua letargia e se inserisse no âmbito das inquietações internacionais.

Herzl estava em Viena, depois do Primeiro Congresso, quando chegou a seu conhecimento um panfleto assinado por Ahad Haam, um dos mais importantes pensadores e ativistas judeus do século 19. Nascido na Ucrânia, Haam era o fundador do movimento pré-sionista Hovevei Tsion (Amantes de Sião) que contava com expressivo número de apoiadores. Haam tinha participado do congresso na Basileia, mas não ficou impressionado, pelo contrário. No texto que escreveu, minimizou a figura de Herzl e argumentou que a criação de um estado judeu na Palestina Otomana era uma ideia próxima da loucura. Enfatizou que os judeus poderiam, sim, se radicar na Palestina Otomana para ali estabelecer um “centro de espiritualidade que levaria novo alento para a Diáspora”.

Outras vozes se opuseram ao sionismo, fazendo com que Herzl passasse das palavras à ação. Em primeiro lugar, criou um fundo destinado a gerir as atividades financeiras do movimento. Em 1898, teve ciência de que o Kaiser Guilherme II, da Alemanha, faria uma viagem ao Oriente Médio, com a Palestina Otomana na agenda. Como já tinha tentado uma audiência com o Kaiser, em Berlim, sem obter retorno favorável, decidiu que iria ao seu encontro na Palestina Otomana, onde seria mais provável uma abordagem. Comprou uma passagem do próprio bolso e acompanhado por alguns amigos próximos zarpou para o porto de Jaffa. Ali os judeus correspondiam a apenas dez por cento da população.

Em seguida, fez uma breve escala na então aldeia de Rehovot, onde ficou profundamente emocionado no contato com uma comunidade de agricultores judeus que, se valendo detécnicas de irrigação, davam nova feição à aridez da terra em que trabalhavam. Esse encontro reforçou sua opinião, com boa dose de ingenuidade, de que os árabes da Palestina Otomana aceitariam de bom grado a imigração dos judeus porque estes trariam incremento econômico e progresso em diversos setores, contribuindo de forma significativa para a melhoria de seu padrão de vida e para a valorização de suas propriedades. Contudo, não avaliava a dimensão da opressão turca no Oriente Médio que, na década seguinte, resultaria no despertar armado do nacionalismo árabe. Embarcou num trem, no dia 27 de outubro, sexta-feira, com destino a Jerusalém.

O comboio deveria chegar ao destino duas horas antes do Shabat, mas estava atrasado. Herzl começou a sentir febre e anotou no seu diário: “Minha temperatura aumenta enquanto o Shabat se aproxima”. Já escurecia quando o trem chegou a Jerusalém e ele ficou feliz por estar na Cidade Santa justamente naquela hora. Anos depois, um de seus acompanhantes, chamado David Shuv, relembrou: “Dava para perceber que ele estava fraco e doente. O hotel era longe e eu sugeri que pegássemos uma carruagem, mas Theodor recusou. Disse que fazia questão de respeitar o Shabat”.

Herzl tornou a se emocionar quando viu pessoas saindo de uma sinagoga e, ao passarem por ele, desejaram Shabat Shalom. A caminhada terminou no Hotel Kamnitz, porém os três quartos que havia reservado se encontravam indisponíveis porque o hotel estava superlotado com autoridades turcas e alemãs em função da visita do Kaiser. Outro companheiro de viagem, Aron Hayut, disse numa entrevista anos mais tarde: “Eu me lembro como se fosse ontem. Ele se sentou num degrau da escada em frente ao hotel, cansado, silencioso e febril. Parecia que todos os sofrimentos de dois mil anos do povo judeu estavam estampados na sua face”. O pequeno grupo de judeus vienenses teve que se acomodar numa pensão. Herzl ardia de tanta febre.

Foi com a saúde fragilizada que Herzl pôde falar duas vezes com o Kaiser, de maneira informal. Na primeira oportunidade, pediu sua interferência junto ao sultão Abdul Hamid, do Império Otomano, para a implantação de um território autônomo judaico na Palestina Otomana. O sultão deveria levar em conta que um maior desenvolvimento econômico lhe geraria a cobrança de mais impostos. Na segunda vez, para obter a boa vontade do Kaiser, sugeriu que se o mencionado território viesse a ser autônomo, poderia tornar-se um protetorado alemão. Entretanto, seu esforço resultou num enorme fiasco.

O Kaiser mais ouviu do que falou e, quando falou, limitou-se a evasivas. Na viagem de volta, Herzl parou em Constantinopla1 (atual Istambul), onde, com grande poder de persuasão, acabou sendo recebido também duas vezes pelo sultão Hamid. Mais uma vez teve que se conformar com polidas evasivas.

No regresso a Viena, depois de uma audiência com o presidente do Parlamento austríaco, se debruçou na organização de novo congresso na Basileia. A conferência programada para 1900 teve outro endereço, Londres. Foi um lance estratégico, visando o engajamento das autoridades britânicas à causa sionista. Nesse sentido, pouco alcançou, mas foi convidado a regressar a Londres dois anos depois, na qualidade de consultor junto à Real Comissão de Imigração Estrangeira. Os ingleses estavam preocupados com o enorme fluxo de imigrantes oriundos da Rússia e da Romênia, principalmente porque a comunidade judaica da Grã-Bretanhajácontava mais de 100 mil almas. Antes de cumprir sua função oficial, Herzl dialogou com Lorde Nathaniel Mayer Rothschild. Este queria que Herzl, em seu depoimento, declarasse que os judeus acolhidos na Inglaterra declarariam estar submissos unicamente à condição de súditos fiéis de Sua Majestade. Herzl recusou.

Ao comparecer perante a Real Comissão, enfatizou que os judeus na Inglaterra viviam em extrema pobreza, “muito pior do que quando escrevi meu panfleto, sete anos atrás, e eles aqui vão morrer em números assustadores se não for aberta uma porta de saída para umapátria que lhes pertença”. Lorde Rothschild então pediu que Herzl lhe definisse o conteúdo do sionismo: se era a implantação de um estado judaico na então Palestina Otomana ou a cessão de um território em alguma parte do mundo a ser habitado exclusivamente por judeus. Respondeu: “Uma junção das duas hipóteses”.

Dois meses depois da estada em Londres, Herzl foi convidado a retornar para uma reunião com Joseph Chamberlain (pai do futuro primeiro-ministro Neville), Secretário Colonial e um dos políticos mais influentes do Império Britânico. Foi uma longa e surpreendente conversa. Chamberlain disse que entendia a causa sionista e sugeriu a concessão de um território na ilha de Chipre ou em EL Arish, na costa do Egito. Herzl optou por El Arish, em razão da proximidade com a Palestina. O assunto foi levado à avaliação do alto comissário britânico no Cairo. Este apontou uma série de dificuldades para a execução da proposta e a descartou.

A desistência por El Arish coincidiu com o pogrom (massacre) de judeus, homens, mulheres e crianças, na cidade de Kishinev (atual Chisinau, Moldávia), perpetrado por militares da Rússia czarista nos dias 6 e 7 de abril de 1903, vésperas da realização do sexto Congresso Sionista Mundial na Basileia.

No dia 8 de maio, Herzl escreveu um artigo para o Die Welt: “O que aconteceu com nossos irmãos na Bessarábia não será esquecido e, ao contrário dos pogroms anteriores, este terá uma resposta efetiva, além da simpatia pública”. Tal resposta era alusiva ao fato de, em função do massacre, ter solicitado uma audiência com Vyacheslav Plehve, poderoso ministro da justiça do czar, algo que há seis anos vinha tentando e sendo sempre repelido. Plehve era um notório antissemita, razão pela qual muitos companheiros de Herzl arguiram que ele não deveria se encontrar com uma pessoa tão odiosa. Respondeu: “Nós temos um ponto em comum: ele tem horror à presença de judeus na Rússia e eu quero que eles saiam de lá”. Para isso, pediria ao ministro que intercedesse junto ao sultão otomano para que aceitasse as demandas sionistas. A audiência aconteceu no dia 8 de agosto. O ministro prometeu se reunir com o sultão e também permitir atividades sionistas até então reprimidas no império. Dias depois, afirmou numa carta: “A Rússia vê de modo favorável a criação de um estado judaico na Palestina”. Herzl exultou. Era a primeira vez que uma potência mundial fazia uma declaração de naturezatãoobjetiva, o que concorreria para facilitar novas iniciativas diplomáticas.

No dia 14 de agosto de 1903, o governo britânico, talvez impressionado com a tragédia de Kishinev, emitiu uma declaração na qual oferecia ao movimento sionista um território dentro do território de sua colônia Uganda, na África, para o estabelecimento de um estado judeu com o possível nome de Nova Palestina. Emocionado, Herzl escreveu ao filósofo Max Nordau, seu apoiador desde o Primeiro Congresso: “Temos como aliada uma nação gigantesca, que reconhece nosso direito a uma pátria”. O sexto Congresso Sionista Mundial, aberto dias depois, contou com a presença de 592 delegados, para os quais Herzl pronunciou um comovente discurso inaugural, no qual expôs o oferecimento na África e enfatizou que a causa sionista doravante tinha a seu lado dois grandes impérios, o russo e o britânico. Ele esperava receber uma aclamação, mas ficou estarrecido com a reação dos delegados russos. Inflamados ao extremo, argumentaram que a proposta britânica era um diversionismo para que os judeus esquecessem a Palestina e chegaram a acusar seu líder e guia, Theodor Herzl, de cometer uma traição contra a Terra Prometida.

Os protestos continuaram, embora Max Nordau tentasse aplacar os russos, argumentando que o território na África seria apenas temporário. Em vão. Os russos se retiraram do plenário e só voltaram após umahábil negociação costurada por Herzl. Enfim, os delegados decidiram enviar uma comissão a Uganda, encarregada de fazer um levantamento do local, com bela extensão, designado pelos ingleses. Após seu relatório a discussão seria retomada no próximo congresso. No encerramento, Herzl optou por um tom conciliador. Concluiu seu pronunciamento com um inesperado gesto teatral. Levantou o braço e recitou o Salmo 137 em hebraico: “Se eu te esquecer, ó Jerusalém, que a minha mão direita perca a sua destreza”.

Mesmo assim, a oposição a Uganda não arrefeceu. Um jornal de Varsóvia editado em hebraico publicou: “O senhor Herzl é menos um nacionalista e mais um empreendedor de projetos”. O artigo trazia a assinatura de um jovem ativista sionista, nascido na Rússia e radicado em Londres, chamado Chaim Weizmann.

Herzl deixou a Basileia, rumo a Viena, exausto e deprimido. Anotou em seu diário: “De fato, a Palestina é o único lugar onde o nosso povo poderá encontrar um refúgio”. Apesar de todos os embates, se sentia gratificado por tudo já alcançado em sua breve trajetória transbordante de idealismo. Por que ele tinha alcançado tamanho êxito, enquanto uma importante obra anterior à sua, detentora de uma ideia similar, tinha fracassado?

Porque Herzl, antes de tudo, viu no povo judeu um potencial oprimido, porém capaz de ser despertado, capaz de transpor muros de guetos e de superar a discriminação com vontadesólida, uma vontadetão determinada que o próprio povo ignorava possuir. Depois da publicação de O Estado Judeu, ele admitiu que talvez não tivesse exposto sua convicção pela consecução de uma pátria judaica se soubesse da existência de um livro consistente de Leon Pinsker, publicado em 1882, portanto treze anos antes do seu, que preferia chamar de panfleto. A obra de Pinsker era intitulada Autoemancipação: o apelo de um judeu para seu povo.

Nascido na Polônia e radicado em Odessa, Pinsker viajou para a Alemanha com a finalidade de tentar o apoio para sua ideia junto a filantropos judeus, mas regressou desiludido e de mãos vazias para a Rússia. Ao contrário de Herzl, lhe faltava, em primeiro lugar, um componente essencial: carisma. Em segundo, também ao contrário de Herzl, pragmatismo. Por fim, mais uma vez em contraposição a Herzl, não via o povo judeu como uma só grande nação. A par do carisma, Theodor Herzl era um homem alto (1,81m) com feição muito bonita, sua barba negra, espessa e longa, lhe conferia um ar de austeridade e maturidade. Ele impressionava as plateias e interlocutores por sua elegância natural e também por sempre se apresentar com um vestuário refinado e impecável.

Em novembro de 1903, ainda muito abatido, decidiu renunciar à presidência da Organização Sionista Mundial. Escreveu uma “Carta Aberta ao Povo Judeu”, acentuando concordar com a primazia da Palestina e assim concluiu: “Nos últimos seis anos devotei minhas modestas energias para o despertar do nosso povo. Não me recolho com amargura ou insatisfeito. Fui amplamente recompensado pelo amor que recebi do povo judeu, um bom povo, porém infeliz. Que D’us continue a ampará-lo”. Esta “Carta” jamais chegou a ser divulgada. Foi encontrada entre seus papéis, meses depois de sua morte, no dia 3 de julho do ano seguinte.

O sucesso público de Herzl e sua vida afetiva configuram um contraste dilacerante, pontuado por um casamento muito infeliz. Theodor Herzl e Julie Naschauer se casaram no dia 25 de junho de 1889 em Reichenau, pequena ilha turística localizada no lago Constança, no sul da Alemanha. Ele era um jornalista promissor com 29 anos de idade que trabalhava no jornal austríaco Neue Freie Presse, um dos mais prestigiados da Europa, e autor teatral que começava a ter suas peças encenadas em Viena. Ela, com 21 anos, filha de um rico comerciante de Budapeste. Os biógrafos de Herzl destacam que os dois apresentavam temperamentos incompatíveis desde o início. Enquanto ele tinha um comportamento solene e comedido, ela era uma jovem efervescente e dada a injustificados rompantes de ciúmes. Poucos meses depois de celebrado, já era evidente o fracasso daquela união que conseguia manter a aparência, porém constantemente assinalada por tormentas e apatias.

O escritor Ernst Pawel, no livro pouco documentado que escreveu sobre a vida íntima de Herzl, sustenta uma especulação segundo a qual Herzl de tal maneira dependia emocionalmente da mãe que, após o casamento, alugou um apartamento próximo ao dos pais para a ela recorrer sempre que havia um problema com Julie. Entretanto, no extenso diário ao qual se dedicou anos a fio de forma metódica, não é possível detectar razões para a alegada dependência.

A primeira filha do casal, Pauline, nasceu exatamente nove meses depois do casamento. (Quando Herzl estava na Palestina, mandou para a filha, então com oito anos de idade, uma série de afetuosos cartões postais, enviados de Jerusalém e Constantinopla, porém nenhum para a mulher). Em junho do ano seguinte nasceu o filho, Hans. A anotação no diário, quando o bebê fez um ano é divertida: “Hans puxou minha barba com tanta força, que chegou a doer”.

Trude nasceu em Paris, em 1893, quando Herzl era correspondente do Neue Freie Presse, ganhando apreciável salário e fazendo sucesso com suas matérias, sobretudo as que focalizavam o julgamento do capitão judeu Alfred Dreyfus, ardilosamente acusado de espionagem. Foram reportagens marcadas por indignação em face da injustiça contra Dreyfus e permeadas de revolta pelo antissemitismo existente no alto comando do exército francês.

A moldura contendo a aparência da família Herzl escondia o péssimo relacionamento do casal. Ao mesmo tempo, a saúde de ambos se fragilizava: ele sofria de insônia e palpitações; um médico já lhe havia advertido sobre a existência de um incipiente problema cardíaco, que escondia de todos. Ela dava indícios de desordem mental e começava a se viciar com drogas, com intervalos para reabilitações. O casamento de Theodor e Julie foi tão mal sucedido e corrosivo que gerou uma série de infelicidades para toda a família. Julie, viciada em drogas, morreu em 1907, após sucessivas internações em instituições para doenças mentais. Hans, acometido de esquizofrenia, suicidou-se em 1930, no mesmo dia do funeral de sua irmã, Pauline, 40 anos, morta por causa de uma overdose de heroína. Trude, que também sofria de distúrbios mentais e não se relacionava com os irmãos, morreu junto com o marido, Richard Neumann, no campo de concentração de Theresienstadt, em 1943. O único filho do casal, Stephan Theodor, sobreviveu porque seu pai, já temeroso com a ascensão nazista, pediu à Organização Mundial Sionista, em Viena, que cuidasse do acolhimento do filho, então com 17 anos, por alguma uma família judaica em Londres. Em 1945, logo depois da guerra, durante a qual chegou a capitão da Real Artilharia Britânica, Stephan, autodenominado Stephen, fez uma viagem à Palestina, onde foi calorosamente recebido pelos dirigentes da Agência Judaica. No ano seguinte foi transferido para os Estados Unidos, a fim de trabalhar no escritório do adido militar inglês. Com 29 anos de idade, por motivo rigorosamente desconhecido, suicidou-se, saltando de 30 metros de uma altura na ponte do parque Rock Creek, em Washington. Depois da independência de Israel, os restos mortais de toda a família foram transferidos para Jerusalém. Repousam no Monte Herzl, junto de seu patriarca.

O túmulo de Binyamin Zeev Herzl, no alto da Cidade Santa, é simples e eloquente: um enorme bloco de granito negro com seu sobrenome inscrito. Assim como Moisés, ele não chegou com vida à Terra Prometida. Porém, a exemplo do profeta, tinha conduzido seu povo através de um majestoso e glorioso percurso até a vitória da liberdade.

Bibliografia

Richman, Rick, The Mistery of Theodor Herzl, Mosaic Magazine, janeiro, 2021, EUA.

Pawel, Ernst, Labyrinth of Exile: A Life of Theodor Herzl, Farrar, Strauss & Giroux, 1989, EUA.

Kornberg, Jacques, Theodor Herzl: From Assimilation to Zionism, Indiana University Press, 1983, EUA.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista.