Morashá
Filho de imigrantes GRANDE TEMPLO ISRAELITA DO RIO DE JANEIRO

Filho de imigrantes

por Zevi Ghivelder

O relato a seguir é uma breve lembrança da vida dos meus pais, que saíram no século passado da Bessarábia, uma bela e conturbada região localizada entre a Romênia e a Rússia, e se radicaram no Brasil, no Rio de Janeiro. Espero que meus netos e os netos dos meus netos, se vierem a tomar conhecimento desta narrativa, renovem o orgulho por terem atravessado o Mar Vermelho guiados por Moisés, e sempre se empenhem pela sobrevivência do Povo Judeu.

Edição 108 - Setembro de 2020


Em 1913, um judeu chamado Menachem Mendel Beilis, habitante da cidade de Kiev, na Ucrânia czarista, foi preso e acusado de assassinar um filho pequeno de camponeses e usar seu sangue para um suposto ritual satânico judaico. Esse absurdo ganhou repercussão internacional e, mais uma vez, expôs o cruel antissemitismo russo. Levado a julgamento, Beilis foi absolvido.

Meu pai, Saul, costumava contar que uma de suas memórias mais remotas da infância, quando tinha oito anos de idade, foi percorrer o shtetl (pequena cidade) de Britshon, na Bessarábia, numa carruagem aberta, ao lado do pai, Moshe, que tocava um sino e gritava em iídiche: “Atenção, atenção, judeus! Beilis está livre! Beilis está livre! ”

Meu avô desempenhava as funções de rabino de Estado, com poderes para emitir certidões e praticar diferentes atos administrativos inerentes à comunidade judaica que compreendia 90 por cento dos habitantes de Britshon. Embora não fosse ortodoxo, mantinha o título de rabino. Era inflamado ativista sionista e se notabilizara como excepcional orador, conforme pude atestar.

Em abril de 1961, eu estava em Jerusalém cobrindo o julgamento do criminoso de guerra nazista Eichmann para a revista Manchete, quando um jornal local publicou que, dentre as centenas de correspondentes especiais do mundo inteiro, eu era o mais jovem. Certo dia, fui chamado à recepção na entrada do tribunal. Aguardavam-me dois senhores com capotes pretos e barbas brancas. Um deles perguntou: “Vimos seu nome no jornal. Você é da família do grande Moshe Ghivelder?” Confirmei ser seu neto e ele completou: “Nós viemos de Tel Aviv só para tocá-lo”. Ambos me abraçaram, me beijaram, se despediram sem dizer mais nada, e sumiram na dobra da primeira esquina.

Há um livro sobre Britshon, publicado em Israel, metade em hebraico e metade em iídiche, no qual Moshe figura com destaque. Junto com minha avó Ella, mais uma filha e o genro, emigrou para a antiga Palestina em 1933. Morreu quatro anos depois, atropelado por um carro em Tel Aviv.

Em 1917, por consequência da revolução bolchevique, a Rússia perdeu o domínio da Bessarábia que se tornou uma província da Romênia. Para todos os que lá viviam, sobretudo para os judeus, foi um choque cultural devastador e uma perda de identidade que, bem ou mal, se alinhava na Rússia imperial. As afinidades dos judeus com os romenos eram semelhantes às afinidades com os esquimós. Todos falavam iídiche e russo e o idioma da Romênia, de raiz latina, lhes era totalmente estranho.

Meu pai cursou todo o ensino médio no idioma romeno, o que deve ter sido bem penoso. Em seguida, foi para Tchernovitz (atual Cernovici), cidade moderna e cosmopolita, onde pretendia cursar a faculdade de direito. Foi rejeitado pelo fato de ser judeu. Voltou para a cidade natal e passou a lecionar hebraico. Casou-se com minha mãe, Fanny, e sentiu que as perspectivas por uma vida melhor estavam a uma distância abissal.Em 1929, decidiu assuntar o Brasil, seguindo o rumo de mais de uma dezena de amigos que já haviam partido para o Rio de Janeiro e São Paulo. Se tudo desse certo, a mulher viria no ano seguinte, como de fato aconteceu. O plano era juntar dinheiro e, quando a conta fechasse, iriam para a Palestina ao encontro da família. A eclosão da guerra, em 1939, acabou com o propósito de deixar o Brasil.

A partir da década de 20, a imigração em grande massa de judeus da Rússia, Polônia e Bessarábia chegou ao Brasil e à Argentina. Os que ficaram em países europeus jamais poderiam imaginar a tragédia existente em seus horizontes.

Quando a Bessarábia foi ocupada pela Alemanha nazista, em 1940, minha avó materna, Esther, e sua filha, minha tia Hannah, atravessaram o rio Dniester e fugiram para a Ucrânia. Meu avô, Itsik, ficou de encontrá-las em seguida porque ainda queria vender algumas coisas e liquidar os negócios. Porém, os nazistas chegaram e o assassinaram de imediato, junto com outros judeus. As duas mulheres continuaram fugindo e só pararam em Alma-Ata, no Cazaquistão, onde ficaram durante toda a guerra nas mais adversas condições. Depois, voltaram para a Romênia e se radicaram na cidade de Jassi. Foi só então que minha mãe recebeu uma carta e ficou sabendo que sua mãe e a irmã tinham sobrevivido. Esther veio para o Brasil em 1949 e aqui viveu longos anos.

Dentre os milhares de imigrantes recém-chegados ao Brasil, poucos possuíam algum dinheiro para começar um negócio. A imensa maioria só tinha dinheiro guardado para se sustentar por um semestre, se tanto. Aqueles que detinham qualificação profissional continuaram a exercer suas atividades de origem, lutando conta a tormentosa barreira do novo idioma que, de qualquer maneira, foram obrigados a assimilar.

Na década de 20, vieram também, em quantidade bem menor, os sefaradim, oriundos sobretudo da Síria e do Líbano. Ao contrário dos ashquenazim, judeus do leste Europeu, eram mais religiosos e menos nacionalistas.

A maioria dos imigrantes foi levada a se dedicar a um comércio específico: vender produtos de porta em porta, cobrando prestações mensais e assim incorporando à paisagem brasileira a figura do “judeu da prestação”. O lucro das vendas era precário, mas dava para viver, mesmo porque o sistema de prestações era bem acolhido, já que o comércio tradicional só operava com pagamentos à vista. Assim os judeus se especializaram em “clapn clientele” (bater clientela, em iídiche). Esses imigrantes eram chamados de clienteltchics. Sob chuva ou sol, percorriam a pé inesgotáveis quilômetros dos bairros da cidade em busca de freguesia. Meu pai, de formação intelectual, jamais tinha lidado com qualquer tipo de comércio na vida; começou a “bater clientela” vendendo bonecas. Sentiu vergonha dele mesmo, vendo o filho do grande Moshe, batendo de porta em porta no percurso de uma desconhecida paisagem tropical. As bonecas foram péssima escolha, porque se ele obtinha algum sucesso na parte da manhã, gastava a metade do dinheiro para pagar o rapaz que carregava a mercadoria. Por isso, os prestamistas preferiam vender joias, relógios e bijuterias, que levavam nos bolsos. Boa parte dos judeus foi viver nos maiores ainda aprazíveis subúrbios cariocas, Meier, Cascadura e Madureira, ao mesmo tempo em que se concentraram na Praça Onze, bairro de classe média baixa, perto do centro da cidade. Outros se radicaram em subúrbios longínquos, como Nilópolis, onde construíram uma sinagoga, hoje em ruinas.

Os clienteltchiks e seus pares foram heróis anônimos da continuidade judaica no Rio de Janeiro. Trabalhavam sem trégua para manter suas mulheres e filhos, sob um clima que jamais haviam presenciado na Europa. Ganhavam pouco, muito pouco. De modo geral, a vida lhes era adversa. Mas, apesar de tudo, tiveram determinação e se empenharam no sentido de fazer prevalecer o bem comum. Era um instinto ancestral, através do qual levantaram os recursos necessários para fixar os alicerces da comunidade. Esses imigrantes, muitos dos quais rudes e desprovidos de instrução, partiram do zero, criaram e sedimentaram entidades que atravessaram de duas a três gerações.

Em um domingo de 1920, um pequeno grupo de judeus embarcou num trem na estação Leopoldina e desceu, quarenta minutos depois, no afastado subúrbio de São João do Meriti. Não havia transporte público e eles tiveram que caminhar sob um calor de 40 graus por uma estrada de terra para inspecionar um grande terreno, na localidade de Vila Rosali, que pretendiam adquirir para lá instalar o cemitério comunitário. Um dos integrantes do grupo anos depois comentou para meu pai: “Parecia que a gente estava percorrendo o deserto e que caminharia por 40 anos”.

O cemitério de Vila Rosali passou a ser administrado pela Chevra Kadisha, entidade que já existia. Certa noite, já na década de 40, os diretores da sociedade deixavam a sede da instituição, após uma reunião, quando viram um caixão solitário, contendo um homem, que seria levado para o cemitério no dia seguinte. Um dos presentes disse: “Podem ir que eu vou ficar com ele”. Perguntaram: “Você o conhece?” Respondeu: “Não, mas um judeu não deixa outro judeu sozinho na hora da morte”. E ficou ali sentado numa cadeira até de manhã, quando chegou alguém da família do morto.

Desde o primeiro dia de sua chegada ao Rio de Janeiro, o sentimento dos imigrantes judeus era a certeza de que valiam quaisquer sacrifícios por uma vida melhor para cada qual, para todos e para suas mulheres e filhos, vivenciando algo que podiam apalpar: a beleza da sobrevivência. Nessa esteira, ao longo dos anos, viram crescer instituições destinadas a beneficiar e confortar seres humanos dos 8 aos 80 anos de idade: do Lar da Criança ao Lar da Velhice.

A solidariedade entre os imigrantes não era favor, tinha quase o rigor de obrigação. Aconteceu que um judeu era sócio de uma firma que faliu, acusada de fraude. Como não prestou atenção ao processo, foi julgado e preso. Disse para os filhos que ia demorar numa viagem de negócios para os Estados Unidos. Quando se aproximou o fim do cumprimento da pena, seus amigos se reuniram, fizeram uma coleta e compraram brinquedos americanos importados para ele dar aos filhos no suposto retorno da viagem.

No curso da tradição milenar do povo judeu, a educação teve prioridade. Na década de 40 já existiam no Rio duas escolas judaicas de bom porte: o Ginásio Hebreu-Brasileiro e o Colégio Sholem Aleichem, no qual fiz o curso primário. Mas, não foi fácil. A escola ficava na zona norte, na Tijuca, e eu morava na zona sul, no Flamengo. No Rio daquele tempo inexistiam grandes túneis e viadutos. O percurso de uma zona para outra superava cerca de uma hora, mesmo de carro. Para mim e outras crianças da zona sul o colégio era praticamente inacessível. O diretor da escola, o professor Tabak, teve uma ideia inédita: contratou um táxi que ia nos buscar, um por um, e trazer de volta. Éramos seis, dois no banco da frente, quatro no banco de trás. O táxi rodava, rodava, e parecia que a viagem nunca ia acabar. Ainda me lembro do dia em que, em sinal de luto, as aulas foram suspensas porque tinha chegado ao Brasil a tardia notícia da eliminação dos combatentes do gueto de Varsóvia.

Na segunda metade da década de 30, a efervescência política que abalava a Europa atingiu em cheio o Brasil, configurada nas ações comunistas e integralistas, ambas reprimidas pelo governo Vargas. Contudo, os imigrantes judeus passavam ao largo daqueles movimentos e se empenhavam em outro vigoroso embate: sionistas contra antissionistas, chamados em iídiche de roiter (vermelhos). Os sionistas, dentre os quais meu pai, alimentavam um sonho que parecia impossível, uma pátria judaica. Os roiter, seduzidos pelo comunismo, se apegavam à seguinte formulação teórica: o antissemitismo era resultante da luta de classes; portanto, se as classes sociais deixassem de existir, o antissemitismo também seria extinto. Até a invasão da Polônia, em 1939, fingiam ignorar que, mesmo sem classes sociais definidas, o antissemitismo continuava sendo uma predileção soviética. No ano seguinte, persistiram na sua ideologia, mesmo quando Hitler e Stalin assinaram um pacto de não-agressão. Depois da 2ª Guerra Mundial, as cinzas do Holocausto fizeram com que muitos roiter abandonassem suas obsessivas posições. Convenceram-se de que se já existisse um estado judeu na antiga Palestina, a matança não alcançaria seis milhões. Entretanto, parte considerável dos roiter permaneceu antissionista mesmo depois da criação de Israel. Meu pai costumava dizer: “Preciso nascer de novo para entender como um judeu pode não ser sionista”.

Naquele tempo, entre as partes conflitantes havia pontos comuns. Primeiro, evitar que a violenta repressão posterior ao fracassado movimento rebelde comunista, em 1935, viesse a atingir de alguma forma a comunidade. Depois, o temor pela crescente ascensão da Ação Integralista Brasileira. Seu líder, o paulista Plínio Salgado, tinha como inspiração política o fascismo de Benito Mussolini, vitorioso na Itália. A exemplo do ditador italiano, Salgado organizou milícias agressivas que desfilavam pelas capitais do país usando camisas verdes. Os imigrantes assistiam àquelas demonstrações nacionalistas com total sensação de impotência. Perguntei ao meu pai se os judeus pelo menos pensavam em esboçar uma reação e ele respondeu que simplesmente não havia o que fazer. O senso comum indicava que o melhor era ficarem todos quietos, sem chamar qualquer atenção.

A situação piorou quando o protagonismo do integralismo foi assumido pelo intelectual Gustavo Barroso, cearense nascido em 1888. Com 35 anos de idade já tinha assinado mais de uma dúzia de livros, sendo acolhido na Academia Brasileira de Letras. Orador articulado e bom escritor, dedicou todas as suas virtudes para divulgar o integralismo e incrementar suas fileiras. Barroso foi além do fascismo de Plínio Salgado, impregnando-se dos discursos antissemitas do nazismo e sabendo reproduzi-los.

Os imigrantes judeus já conheciam a difamação que sofriam de conspiração internacional contida no livro apócrifo “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, editado pelo regime czarista, que Barroso traduziu para o português. Sua pregação racista e insultuosa ultrapassava todos os limites da decência. Em um de seus textos chamou os judeus de vermina (conjunto de insetos) e maléficos. Os imigrantes sequer conheciam o significado das palavras vermina e maléfico, mas sabiam que por trás delas havia um fermento de ódio que poderia explodir a qualquer momento. Em outro texto escreveu que “os judeus são o que há de pior na espécie humana”. Baseado nos “Protocolos” insistia em alertar para o “perigo judaico”, chegando à paranoia de escrever sobre um ritual de sangue feito por judeus no sertão baiano, que poderia se espalhar por todo o país. Apesar dessa monstruosidade, os imigrantes não tinham condições para reagir. Porém, o silêncio dos judeus era perturbado e eloquente.

Em novembro de 1937, o presidente Getúlio Vargas cancelou as eleições marcadas para o ano seguinte e decretou a instauração do Estado Novo, um regime autocrático à semelhança dos que existiam na Alemanha nazista e na Itália fascista. O componente antissemita ficou oculto, mas não deixaria de mais tarde se manifestar.

No dia 11 de maio de 1938, a Ação Integralista Brasileira, apoiada por um destacamento naval, pegou em armas e atacou o Palácio Guanabara, residência do ditador Getúlio, com o intuito de prendê-lo e tomar o poder. O levante fracassou, 1.500 integralistas foram presos e Plínio Salgado partiu para o exílio. O exacerbado antissemitismo de Gustavo Barroso caiu em silêncio até sua morte, em 1959. Não consta que ele jamais se tenha arrependido da militância em favor do nazismo. E os imigrantes e seus filhos jamais o perdoaram.

No dia 30 de setembro de 1937, às sete da noite, o general Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, ocupou o microfone da Hora do Brasil, transmissão oficial do governo, para anunciar que as autoridades haviam descoberto um plano de origem comunista, destinado a derrubar o poder vigente, além de prender e assassinar civis e militares. O dito plano recebeu o nome de Plano Cohen, por ter sido redigido por um comunista de sobrenome Cohen. O anúncio do general passou ao largo de especificar ou dar pormenores mais consistentes sobre quando, onde e como o documento tinha sido apreendido, mas o uso do sobrenome Cohen correspondia a uma provocação antissemita, tanto grosseira quanto gritante, já que Cohen era, e continua sendo, o mais comum dos sobrenomes judaicos desde séculos. O tal plano, conforme exposto, era oriundo do Partido Comunista Brasileiro em conjunto com partidos comunistas internacionais. Essa conexão de caráter mundial e conspiratório ia justamente de encontro à infâmia existente nos “Protocolos”. Com a intenção de justificar a ditadura tramada nos porões do governo. Em novembro, o presidente Vargas fez um discurso no qual afirmou que, em vista da ameaça do Plano Cohen, o país se encontrava em estado de guerra. Portanto, o Congresso seria fechado, dando lugar a um novo regime, o Estado Novo. Mais uma vez, a comunidade optou por permanecer passiva. Os judeus logo deduziram que tudo não passava de uma grotesca falsificação, porém não tinham acesso aos jornais e estações de rádio para contestar o plano e tampouco queriam estar envolvidos na repressão ao comunismo. Havia um só jornalista judeu que tinha alcançado notoriedade na imprensa, Samuel Wainer, filho de imigrantes da Bessarábia, mas ele era alheio às causas judaicas.

O Estado Novo teve impactos sobre judeus, tanto no Brasil como na Europa. No Rio de Janeiro foi proibida a circulação do jornal Idishe Presse (Imprensa Israelita), escrito em iídiche, e também foi proibido um programa de rádio parcialmente falado no mesmo idioma. Quando, em agosto de 1942, o Brasil declarou guerra ao chamado Eixo (Alemanha, Itália e Japão), as restrições aos estrangeiros se tornaram mais severas. Foram fechados clubes sociais e recreativos e de imigrantes ou cidadãos de origem alemã ou italiana. No Rio de Janeiro, foram permitidos eventos somente falados em português. Se eventualmente chegasse um emissário sionista da Agência Judaica, os imigrantes se reuniam para ouvi-lo no Grande Templo, como se estivessem participando de uma cerimônia religiosa. O famoso ator e diretor polonês Zygmund Turkow ensaiava uma peça com amadores a ser representada em iídiche e teve que abandonar o projeto. (Em 1943, Turkow revolucionou o teatro no Brasil com a encenação da peça “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues).

O impacto mais cruel desferido pelo Estado Novo foi a proibição da concessão de vistos especificamente para judeus, conforme memorando enviado pelo Ministério das Relações Exteriores a todas as embaixadas e consulados brasileiros. A ditadura Vargas ignorou as levas de refugiados judeus que convergiam para a Espanha e Portugal, de onde pretendiam alcançar as Américas. Os que tiveram mais sorte conseguiram vistos para a Bolívia, com trânsito pelo Rio, aonde muitos desembarcaram e decidiram permanecer em situação ilegal.

A ditadura de Getúlio Vargas, feroz e impiedosa, durou oito anos. Quando caiu, em 1945, o mesmo general Góes Monteiro declarou que o Plano Cohen tinha sido uma farsa. Justificou o nome Cohen afirmando que era uma alusão a Bela Kuhn, evolucionário comunista, judeu húngaro, que chegou a presidir a Hungria durante quatro meses, em 1919. Foi uma declaração tão insossa quanto ridícula. O fato é que o nome Cohen ficou associado a traição e conspiração, no melhor estilo antissemita.

Em janeiro de 1941, meus pais, eu e dois irmãos fomos morar num apartamento alugado na rua Paissandu, uma bela rua estendida desde a praia do Flamengo até o Palácio Guanabara, com fileiras de palmeiras imperiais nas duas calçadas. Às vezes, o ditador Getúlio fazia a sesta e depois gostava de andar a pé pela rua Paissandu, escoltado à pequena distância por um carro com guarda-costas.

Percorria cerca de um quilômetro e meio, até a esquina da rua Marquês de Abrantes, onde embarcava no carro e seguia para o expediente no Palácio do Catete. Uma das minhas mais longínquas recordações da infância é a de Getúlio Vargas passando pelo nosso prédio com as mãos para trás, seguido por um bando de crianças que gritavam “Doutor Gegê, doutor Gegê!”. Enquanto caminhava, ele ia soltando moedas no solo. Muitas vezes comprei balas com os trocados largados pelo “doutor Gegê”.

Dois anos depois, em função de o Brasil se encontrar em estado de guerra, o governo emitiu um decreto segundo o qual súditos do Eixo estavam impedidos de residir num raio de tantos quilômetros no entorno do Palácio Guanabara, raio que incluía nosso apartamento. No entanto, como éramos judeus, não poderíamos ser enquadrados como perigosos inimigos da Pátria.

Um dia bateu na nossa porta um homem bem vestido, bem falante, que se identificou como Valente, policial. Disse que meus pais haviam chegado ao Brasil com passaporte romeno e como a Romênia se tinha aliado ao regime nazista, ambos eram inequívocos súditos do Eixo. Portanto, estávamos obrigados a morar em algum bairro mais distante. Deu um prazo de quinze dias para a mudança. Meu pai argumentou que como judeu, era um absurdo que tivesse qualquer ligação com o Eixo. O policial respondeu que não se tratava de religião, mas de nacionalidade: “O senhor e sua senhora são romenos e ponto final”. Não adiantou meu pai dizer que tinha três filhos brasileiros, razão pela qual ficava isento de cumprir o decreto. Irredutível, o homem disse que a lei era alheia à paternidade, só considerava a nacionalidade.

Passados quinze dias, o homem voltou. Meu pai explicou que não tinha encontrado outro apartamento por causa da crise imobiliária, decorrente da guerra. O Valente deu-lhe mais quinze dias. Findo o prazo, pediu ao meu pai para acompanhá-lo até o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) para a simples formalidade de preencher um formulário justificativo. Lá chegando, sem dizer uma palavra, trancou meu pai numa cela e foi embora.

Durante cinco dias minha mãe não teve qualquer notícia e, a rigor, não havia como agir. Um grupo de amigos do meu pai se reuniu, tomou coragem, e foi até o DOPS. Um delegado lhes disse para se retirarem de imediato, senão todos seriam presos. Minha mãe pretendeu recorrer ao general, depois marechal, Cordeiro de Farias, nosso vizinho de andar. Este militar tinha atuado como interventor no Rio Grande do Sul e era uma das figuras mais proeminentes do Estado Novo. Assim que regressou ao Rio, interveio pelo meu pai que voltou para casa e ficou sabendo a verdade. O tal Valente, não era policial, mas membro da equipe de guarda-costas do presidente Vargas. Não se comoveu com a nossa situação porque queria morar perto do trabalho no Palácio Guanabara. (Ele foi castigado pelo mal que nos causou de forma indireta: cumpriu dez anos de prisão por ter participado, em 1954, do atentado contra Carlos Lacerda, atentado gerador da crise política que culminou com o suicídio de Getúlio Vargas).

O general disse que, de qualquer maneira, a lei era a lei e nós teríamos que deixar o apartamento o mais rápido possível. Tivemos que nos acomodar, pai, mãe e três filhos num só quarto da pensão da dona Augusta. Apesar de tanta turbulência, eu era feliz – e sabia.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista.