Morashá
TIBERÍADES Foto Ilustrativa

TIBERÍADES

Às margens das águas azuis e cristalinas do lago Kineret, na Galiléia, floresce uma das quatro cidades sagradas do judaísmo - Tiberíades. Fundada em meados do ano 18 da era comum por Herodes Antipas, em homenagem ao imperador romano Tibério. juntamente com Jerusalém, Hebron e Safed, é um dos principais locais de peregrinação judaica, chamados de ir hacodesh.

Edição 45 - Junho de 2004


Tiberíades vem desempenhando um importante papel na história judaica, ao longo dos séculos. Foi parte da terra destinada à tribo de Naftali. No ano de 235 da E.C., Rabi Yudá Ha-Nassi transferiu o Sanhedrin de Séforis para Tiberíades. No século III os sábios que viviam em Tiberíades, inconformados com a origem romana do nome tentaram hebraizá-la, considerando derivado das palavras hebraicas Tov Reia ou belveldere, o que condiz com o panorama que se admira. A cidade também tinha um importante centro de estudos nos períodos mishnaico e talmúdico, tanto que a Mishná foi lá completada em 188 aEC e, sob a supervisão do Rabi Ha Nassi, o Talmud Yerushalmi foi compilado por volta do ano 40 por Rabi Yochanan.

É em Tiberíades, também, que estão enterradas grandes personalidades da história judaica. Interpretações do Midrash e do Zohar indicam que, com a vinda do Messias, aqueles que estão sepultados em Tiberíades ressuscitarão antes dos que estão em Jerusalém. Lá se encontram os túmulos de grandes mestres, como Rabi Yochanan Ben-Zakai, responsável por salvar o judaísmo após a queda do SegundoTemplo; do mártir e místico Rabi Akiva, herói da revolta judaica contra o Império Romano, assim como o de seu famoso aluno, Rabi Meir Baal Haness, que viveu no século II.

O túmulo de Rabi Meir, cujo nome significa "aquele que ilumina", é um dos mais visitados, procurado por fiéis que lá rezam para que o grande sábio interceda perante o Todo-Poderoso para a realização de algum milagre. Há vários relatos na Agadá de episódios milagrosos que ocorreram graças a ele. O complexo arquitetônico onde se encontra seu túmulo é composto de duas cúpulas, uma sob os cuidado dos asquenazitas e outra dos sefaraditas. Na parede está escrito "Eloká de Meir, Aneni" - "D'us de Meir, responda-me ou salva-me". Lá se encontra também o túmulo do grande sábio do século XIII, Rabi Moises Maimônides.

A região de Tiberíades foi, ainda, a escolhida pelos pioneiros sionistas para estabelecer o primeiro kibutz antes da criação do Estado de Israel, em 1909 - Degania Alef, onde nasceu o ex-ministro da Defesa, Moshe Dayan. Em 1911, foi fundado o Kibutz Kineret, próximo ao qual está o cemitério Ohalo, que abriga os túmulos de personalidades israelenses, entre as quais, Rahel Bluwstein (conhecida simplesmente como Raquel, a poetisa), Ber Borochov e Moses Hess. Em 1920, foi fundado o Kibutz Degania Bet, local de nascimento do ex-primeiro-ministro, Levi Eshkol. Quando os exércitos árabes atacaram Israel, em maio de 1948, logo após a declaração da independência, foram repelidos pelos combatentes do Degania Alef. Na entrada do kibutz, ainda pode ser visto um tanque sírio, lá deixado pelos habitantes como um símbolo das batalhas vencidas.

Depois da independência de Israel, milhares de pessoas vieram para a cidade. Atualmente, Tiberíades conta com uma população de aproximadamente 35 mil habitantes. Famosa também pela sua importância para o cristianismo - atraindo milhares de peregrinos para a região, anualmente, a cidade possui mais um atrativo para os viajantes: o clima temperado e a presença de várias fontes naturais termais, no povoado de Hammath-Tiberíades, que levaram à construção de inúmeras casas de banho pelos romanos e a consagraram como local para quem está em busca de lazer e relaxamento.

A região oferece, ainda, uma série de opções para quem gosta de esportes náuticos, além de acomodações em luxuosos e modernos hotéis.

Um pouco de história

Local de várias escavações arqueológicas, Tiberíades oferece constantes surpresas para os estudiosos. Um projeto que está sendo desenvolvido em conjunto com a Universidade Brown (EUA) e a Universidade Hebraica de Jerusalém (UHJ), levou à descoberta de uma corrente de bronze de aproximadamente 1,5 m, muito bem conservada, que está levantando várias suposições. Segundo Katharina Galor, docente da universidade norte-americana e diretora do projeto, o achado data, provavelmente, do século X do período islâmico Fatimida, e pode ter servido de suporte para um lustre pendurado a uma altura de três metros. Próximo à corrente foram encontrados, também, cacos de vidro azul e verde, o que, segundo ela, confirmaria a teoria sobre o lustre.

Três dias após a descoberta, outra novidade na mesma área de escavações era anunciada por Yizhar Hirschfeld, do Instituto de Arqueologia da UHJ: uma estrutura datada do século III, que pode ter sido parte da sede do Sanhedrin, estabelecido em Tiberíades no final do século II. Esta teoria ganhou apoio quando outro historiador, Aharon Oppenheimer, da Universidade de Tel Aviv, comparou a descoberta a um achado muito semelhante, encontrado em Beit She'arim, local das catacumbas dos juízes do Sanhedrin. Não existe consenso, ainda, entre os pesquisadores, sobre as descobertas. Para Galor, a teoria sobre o Sanhedrin precisa de mais indícios, como por exemplo, alguma inscrição que confirme o período.

Hirschfeld, por sua vez, afirma que, por enquanto, tudo é teoria, mas "este é um dos sítios arqueológicos mais bonitos do mundo, um local que tem enorme importância judaica. Com os recursos adequados - financeiros e profissionais - poderia ser feito um trabalho superior ao realizado em Beit She'an, que permitiu a restauração de uma cidade construída no tempo dos romanos. Foram dez anos de escavações, mas o resultado foi surpreendente e o local recebe milhares de turistas por ano". O orçamento do projeto conjunto Brown-UHJ é de aproximadamente US$ 1,5 milhão e tem como objetivo vasculhar o passado da cidade, principalmente sua história judaica.

Os judeus estiveram presentes em Tiberíades desde a construção do Segundo Templo até o século II, sobrevivendo aos impérios romano, bizantino e islâmico. Fugiram no início do segundo milênio da era cristã, quando a cidade foi capturada pelos cruzados, que a transformaram em capital da Galiléia. Em 1187, a cidade foi reconquistada por Saladino, que a tornou parte do Império Islâmico e passou por uma fase de declínio até ser conquistada em 1516, quando passou a fazer parte do Império Otomano.

Foi em Tiberíades que Doña Gracia Nassi e seu sobrinho e genro, D. José Nassi, tentaram criar um lar seguro para os judeus, uma região semi-autônoma onde os judeus poderiam encontrar refúgio e viver em paz. Tendo conseguido do Sultão Suleiman o arrendamento da área por 100 ducados, eles passam a reconstruir a cidade. Segundo um cronista da época, a cidade estava em ruínas, depois de anos de total abandono e de um forte terremoto que a havia devastado. Com a morte de Doña Gracia, o projeto não foi à frente e os poucos judeus foram abandonando novamente o local, com medo de ataques de beduínos e da inimizade da população local.

Em 1700 não havia mais judeus na cidade, mas, em 1740, o rabino Haim Abulafia, de Esmirna, foi convidado por um governante beduíno local para se estabelecer em Tiberíades. Em 1764, um grupo de judeus lituanos também veio para a região. Duas décadas depois, quando um grupo de chassidim da Europa Oriental mudou-se de Safed para Tiberíades, a população judaica chegou a 700 habitantes.

A situação começou a melhorar, no entanto, quando a Inglaterra assumiu o Mandato na então Palestina. Novos bairros foram construídos, entre os quais, Kyriat Shmuel, assim denominado em homenagem a Herbert Samuel, o Alto Comissário britânico para a Palestina, que se tornou conhecido como o primeiro judeu a governar a Terra Santa em aproximadamente dois mil anos.

A exemplo de outras cidades da Israel pré-independência, Tiberíades também sofreu as conseqüências dos conflitos entre árabes e judeus, apesar das tentativas de seus governantes de defender a coexistência. Zaki Elhadeff, por exemplo, o primeiro prefeito judeu da cidade, atuou no sentido de manter a paz entre os moradores, conseguindo controlar a situação até 1938, quando um grupo de árabes se infiltrou em Kiryat Shmuel, matando 19 judeus. Seis semanas mais tarde, ele próprio foi assassinado, encerrando com sua morte um período de relativa calma.

Em abril de 1948, já prevendo a eclosão da guerra com os vizinhos árabes, as forças judaicas da Haganá e do Palmach entraram em Tiberíades. Esta foi, assim, a primeira cidade a ser libertada pelos judeus e desempenhou um papel importante na defesa do país durante a Guerra da Independência. Além disso, foi importante centro de absorção para imigrantes judeus. Desta forma, a população passou de 4 mil para 14 mil habitantes, nos primeiros anos de existência do Estado.

Por estar localizada aos pés das Colinas do Golã, até a Guerra dos Seis Dias, em 1967, era constantemente alvo de ataques das forças sírias. Com a vitória israelense, a tranqüilidade paira na região, desde então. Apesar de atualmente a grande maioria dos 35 mil moradores ter nascido em Israel, boa parte deles tem sua origem em vários países do Oriente Médio, Europa e América do Norte. Há também grande número de imigrantes vindos da ex-União Soviética. A cidade possui um pequeno parque tecnológico que abriga 27 empresas, mas o turismo é o principal vetor da região.

Pedras que falam

Principal fonte de água de Israel, o lago Kineret - que tem o formato de uma harpa, em hebraico, kinor - é chamado de Mar da Galiléia pelos cristãos. Fontes judaicas indicam que, no passado, Tiberíades chegou a ter 13 sinagogas, sendo que as ruínas de uma delas foram descobertas no Cardo, espécie de avenida central, ao norte da cidade antiga. Aos pés do Monte Berenice, foram encontradas ruínas de uma grande construção de 200 E.C., que teria sido ocupada até meados do século VIII. Há suposições de que este local poderia ter sido o Beth ha-Midrash - Casa de Estudos - de Rabi Yochanan, um dos autores do Talmud Yerushalmi.

Foram também descobertas duas sinagogas em Hammath-Tiberíades, um povoado muito próximo da cidade. Uma delas possui um mosaico singular no chão. O primeiro nível da construção data do século I E.C. e o terceiro, do século VIII. O mosaico, composto por três painéis, está no segundo nível e data do século IV. Os estudiosos afirmam que a influência da arte romana e helenística é fortemente visível na obra. A outra sinagoga foi construída em um nível único e possui duas fileiras de colunas; o mosaico do chão foi quase totalmente destruído em meados do século VIII.

O Túmulo das Matriarcas encontra-se na rua Hashomer. Acredita-se que lá estejam enterradas seis heroínas da história judaica: Miriam, a irmã de Moisés; sua mãe, Yocheved; sua esposa, Zipora; a esposa de Aaron, Elisheva; Bilá e Zilpá, esposas de Jacob. Este é um local de peregrinação muito visitado pelas mulheres, que oram em busca de ajuda para seus problemas. Destruída inúmeras vezes por fortes terremotos, Tiberíades foi reconstruída mais ao norte de sua localização original. Ruínas da Tiberíades romana podem ser admiradas nos arredores de Hammath, a zona das fontes termais.

Tempos modernos

Ao lado das escavações que revelam o seu passado, Tiberíades desenvolveu-se como um centro de turismo moderno, oferecendo aos visitantes pousadas rústicas e hotéis modernos e luxuosos, no centro da cidade, ao longo da orla do Lago Kineret e nos diversos kibutzim da região. Estes últimos, representam para os viajantes a possibilidade de conhecer de perto um dos pilares da formação da sociedade israelense - o kibutz. Atrações culturais também fazem parte do calendário da cidade como, por exemplo, o Festival de Música de Câmara da Galiléia, realizado há dez anos no Kibutz Kfar Blum, na Alta Galiléia; o festival de música clássica e jazz, "Sob o Céu da Cidade", ambos em julho e agosto, respectivamente.

Para continuar a crescer, no entanto, a cidade precisa de mais investimentos que poderiam ser atraídos, por exemplo, segundo o prefeito Zohar Oved, se fossem confirmadas novas descobertas arqueológicas na região. Para Oved, caso se confirme a teoria da suposta sede do Sanhedrin, descoberta pelos pesquisadores das universidades Brown e Hebraica de Jerusalém, Tiberíades ganharia nova dimensão, uma espécie de "Parque Arqueológico" que abriria novas possibilidades para o turismo, gerando empregos indiretos em outros segmentos.

Oved afirma, ainda, que a cidade está precisando de uma boa campanha de marketing para mostrar todo o seu potencial turístico ao mercado interno e externo. "Nós temos muito a mostrar aos visitantes", continua o prefeito Oved, ressaltando que, em função da situação política entre Israel e os palestinos, a cidade vem enfrentando uma grave crise econômica.

Para tentar diminuir os efeitos da situação, a Prefeitura está organizando um calendário de atividades para marcar o 800º aniversário da morte de Maimônides, em 2005. Apesar do pessimismo de grande parte da população e da maioria dos jovens estar deixando a cidade em busca de novas oportunidades, alguns acreditam que, gradativamente, a situação melhore. Esta é a opinião do jovem David Smadar, que trabalha a bordo de um barco que atravessa o Kineret, levando turistas de todas as partes do mundo: "Depois de anos viajando ao redor do mundo e de passar três anos nos EUA, posso dizer, sem medo de errar, que não há lugar tão bonito no mundo quanto Tiberíades".