Morashá
SIPPORIS

SIPPORIS

“Sipporis (em hebraico Tzipori ) era um ponto de encontro de rabinos e sábios. No entanto, apenas uma sinagoga foi descoberta na região, até hoje. Muitas perguntas estão ainda sem resposta...”.

Edição 37 - Junho de 2002


Sipporis, capital da Galiléia na época da Mishná, foi, sem sombra de dúvidas, um importante centro judaico. Por isso, o fato de que as escavações arqueológicas apenas descobriram uma única sinagoga continua um grande mistério. Nesta cidade a população judaica conviveu com pagãos e, posteriormente, com cristãos. Após a morte de Herodes, a população judaica se rebelou contra o poder romano, dominante na região. Mas a rebelião foi esmagada, a cidade destruída e os judeus vendidos como escravos. Porém, Sipporis não participou da revolta de Bar Kochba. Em 70 e.C., após a queda do Segundo Templo, muitos judeus fugiram para a Galiléia. Vários rabinos e sábios elegeram a cidade como seu domicílio.

Durante 17 anos Sipporis foi a sede do Sanhedrin. Em Sipporis viveu também o grande Rabi Judah ha-Nasi e foi lá que ele compilou a Mishná. Somente após sua morte, a sede do Sanhedrin foi transferida para Tibérias. Em 363 e.C., a cidade foi destruída por um terremoto, sendo mais tarde parcialmente reconstruída. Continuou a ser um centro judaico até o séc V e.C., A partir do séc VI vivia na cidade uma grande população cristã, presidida por um bispo. Os cruzados construíram lá uma fortaleza “Le Sephorie”, cujas ruínas existem até hoje.

As várias escavações ar-queológicas realizadas na área revelaram alguns dos mais lindos exemplos de mosaicos de toda a área , um teatro romano de 4.500 lugares aparentemente datado do séc I e.C., gigantescas canalizações hidráulicas e um mercado com lojas.

Há também um palácio romano construído por volta do século III, onde podem ser admirados magníficos mosaicos, entre os quais destaca-se o retrato de uma mulher chamado de a “Monalisa de Galileu”. Numa outra construção, outros mosaicos de beleza impressionante foram descobertos; retratam o Rio Nilo e pássaros e animais que vivem em suas bordas e até um aparelho para medir a altura da água, decorado com plantas e animais reais ou imaginários.

No entanto, até então não havia sido encontrado nenhum vestígio de sinagoga, apesar de terem sido descobertas várias mikvês, prova de que os judeus que viviam em Sipporis seguiam as leis judaicas. Foi em escavações mais recentes, longe do centro da cidade, que os arqueólogos encontraram finalmente os vestígios de uma sinagoga, fato que aumenta ainda mais os mistérios que envolvem a cidade. A sinagoga encontrada não datava, como era de se supor, do século III, – época da presença do Sanhedrin em Sipporis, mas aproximadamente do século V, quando a cidade já se encontrava em fase de declínio. Curiosamente, o hall principal da sinagoga era direcionado ao oeste e não ao sul, em direção a Jerusalém como manda a tradição . Várias teorias tentam explicar este fato: talvez tenha sido por causa da topografia da colina ou da construção da rua que impedia a direção para o sul...

Outro fato importante a ser levado em consideração é que no séc V, o cristianismo já era a religião oficial do Império Romano o que pode explicar o fato da arquitetura da sinagoga ter sido influenciada pela arquitetura usada na construção das basílicas cristãs. Os muros desta sinagoga eram de pedra e, ao contrário das outras sinagogas da Galiléia, esta não tinha arquibancada em pedra – o que deixava supor que os fiéis se sentavam em bancos de madeira ou sobre tapetes, no chão. Todo o pavimento era decorado com lindos mosaicos coloridos, tendo ao centro um zodíaco; havia painéis com as bordas de linhas geométricas, de cor azul, vermelho, amarelo e preto. Alguns painéis tinham representações dos signos do zodíaco, com seus respectivos nomes hebraicos.

Havia também painéis com símbolos judaicos, entre os quais, uma menorá e a representação das sete espécies; alguns representando uma mesa carregada de pães e um cesto de frutas – imagem provavelmente relacionada à Festa das Primícias (Bikurim). Uma outra cena descreve o sacrifício de Isaac, com dois rapazes e um asno, dois pares de sapatos: um grande e um pequeno.

Há, também, um painel retratando Abraão sentado sob uma árvore com os três anjos à sua mesa, e Sara, vestida em vermelho e com um lenço, espreitando pela fresta da tenda. Outros mosaicos mostram o Templo, a Arca da Aliança e a palavra “Aaron”, escrita em hebraico.

A maioria das inscrições encontradas são em grego ou aramaico, sem nenhuma referência às cenas dos mosaicos. As inscrições em aramaico evocam a identidade dos doadores, enquanto que os epígrafos em grego são os nomes dos artesãos.

Nada, no entanto, conseguiu explicar o porquê do descobrimento de apenas uma sinagoga em Sipporis. Alguns estudiosos dizem que, no período de auge da cidade, as sinagogas eram construídas em locais muito importantes, posteriormente recobertas por outros edifícios. As ruínas do Forte das Cruzadas, que abriga hoje um centro de turismo, poderia estar escondendo o que foi a sinagoga principal de Sipporis.