Morashá
O resgate dos judeus romenos Foto Ilustrativa

O resgate dos judeus romenos

por por Zevi Ghivelder

A emigração dos Judeus da Romênia para Israel teve características odiosas. Ao longo dos anos, o governo de Israel comprou-os dos romenos por muitos milhões de dólares. Esse uso de seres humanos como moeda de troca correspondeu a uma amarga reminiscência do antigo comércio de escravos. As transações entre Israel e a Romênia, que ocorreram em segredo, foram um dos mais aviltantes subprodutos do comunismo, no século 20.

Edição 79 - Março de 2013


Quando os nazistas invadiram a Romênia, em 1940, não precisaram dar lições de antissemitismo aos romenos porque ali já encontraram um campo fértil e bem irrigado nessa prática. A partir de meados do século 19, a ojeriza aos judeus estava impregnada tanto no comportamento dos camponeses e operários quanto na burguesia que então começava a ocupar posições de comando no país. A maioria dos judeus, tida como estrangeiros, dedicava-se ao pequeno comércio e era apontada como um “perigo social”. Duas leis datadas de 1893 abriram a educação média e universitária gratuita aos filhos dos cidadãos romenos. Aos judeus foram reservadas reduzidas cotas e seu eventual ingresso no ensino superior estava sujeito a anuidades fixadas com valores abusivos. Assim, entre 1899 e 1914, cerca de 150 mil judeus deixaram a Romênia, cumprindo suas jornadas muitas vezes a pé, mendigando abrigo e comida às comunidades judaicas por onde passavam no Leste europeu. Grandes levas de imigrantes saíram, sobretudo da Bessarábia, tendo como destino final a antiga Palestina, a Argentina e o Brasil.

Já no século 20, em 1937, o rei da Romênia, Carol II, apoiou a subida ao poder do Partido Nacional Cristão, declaradamente antissemita, que logo tratou de revogar as leis que ainda permitiam aos judeus o exercício de algumas poucas profissões. A ascensão deste partido teve curta duração, mas as restrições aos judeus permaneceram. O rei assumiu plenos poderes e aplicou contra a população judaica uma legislação inspirada nas leis raciais decretadas pelo nazismo em Nuremberg, em 1933. Pouco depois da invasão nazista, em 1940, uma série de turbulências internas no governo de Bucareste resultou na renúncia do monarca e conduziu ao poder, de forma ditatorial, o militar Ion Antonescu, que deu prosseguimento à perseguição aos judeus.

A postura de Antonescu, com relação ao que chamava de “questão judaica”, conteve sucessivas ambiguidades que se alternavam entre explosões de ódio e espasmos de paternalismo. Em determinado momento, isentou os judeus de portarem a estrela amarela e permitiu a emigração dos que tivessem posses para a Espanha e Portugal. Em outra ocasião, garantiu ao seu gabinete que faria uma “limpeza étnica” dos judeus que habitavam as regiões da Bessarábia e da Bucovina. Ao mesmo tempo em que dividia a população judaica entre “úteis” e “inúteis”, passou a se preocupar com a imagem da Romênia perante o mundo ocidental e mandou suspender o extermínio dos judeus, a ponto de contrariar ordens recebidas diretamente de Himmler, que mandou voltar da Romênia os oficiais das fileiras SS peritos em assassinatos em massa.

De qualquer maneira, o fato é que Antonescu recebeu os invasores nazistas de braços abertos. Era um admirador de Hitler, que também o tinha em alta estima, tanto que lhe confidenciou dez dias antes sobre a invasão que lançaria contra a União Soviética. Antonescu não hesitou em aliar seu exército às tropas do Terceiro Reich e forneceu de graça aos alemães as reservas de petróleo existentes em seu território. Mas, a derrota dos nazistas e dos romenos em Stalingrado e o avassalador avanço do exército vermelho rumo a Berlim fizeram com que a popularidade de Antonescu se esvaísse e ele caísse em desgraça. Depois da guerra, em maio de 1946, com a Romênia já sob o manto de Moscou, Antonescu foi levado a julgamento como traidor da pátria e executado no primeiro dia de junho.

Antes da 2ª Guerra Mundial, a população judaica na Romênia era de cerca de 800 mil almas. Ao fim do conflito, restaram 428 mil, dos quais 350 mil emigraram para o Estado de Israel na década de 50. A libertação dos judeus de uma nação comunista, ao contrário do que acontecia nos demais países atrelados à União Soviética, deveu-se à ação decisiva de uma mulher chamada Ana Pauker, primeira mulher a alcançar um alto posto governamental no século passado, na qualidade de ministra das relações exteriores da Romênia comunista.

Nascida em 1893 na Moldávia, no seio de uma família judaica ortodoxa, seu nome de solteira era Ana Rabinsohn, filha de um funcionário da sinagoga de Bucareste. Casou-se aos 24 anos de idade com o judeu comunista Marcel Pauker. Os dois foram viver em Moscou, onde Ana, por sua inteligência e articulada oratória, logo se destacou nas fileiras do Comintern (braço internacional do regime comunista). O marido, acusado de cosmopolitismo judaico, foi executado por ocasião do grande expurgo de 1936. Mas, apesar de sua tragédia pessoal, ela permaneceu fanaticamente fiel à sua ideologia, tendo Stalin como guia infalível e iluminado. Foi na condição de chanceler que Ana Pauker legitimou a emigração maciça dos judeus romenos para Israel, após a 2ª Guerra, apesar da política oficial antissemita em curso na União Soviética. Ela teve a coragem de se opor àquela política, discordando da teoria marxista-leninista segundo a qual a questão judaica seria resolvida quando não mais houvesse a chamada luta de classes.

Argumentava que os judeus, fosse qual fosse sua classe social, eram vítimas de igual antissemitismo. Ana se opunha ferrenhamente ao sionismo e nem mudou de idéia quando Zalman, um de seus irmãos, emigrou com a família para Israel. Este ali permaneceu por cinco anos e, sempre fiel à ortodoxia, regressou à Romênia para pedir à poderosa irmã que interviesse em favor dos líderes sionistas perseguidos pelo regime. Moses Rosen, rabino-chefe da comunidade judaica da Romênia, relata em sua autobiografia o encontro entre Zalman e Ana. Ela o abraçou e disse: “Que bom que você voltou para casa!” Ao que ele respondeu: “Não, a minha casa, que também é a sua, fica em Israel”.

A partir desse contato fraternal, Ana, uma personalidade quase mítica em seu país, foi enredada nas intrigas do governo de Bucareste e, de acordo com o estilo soviético, acusaram-na de espiã dos Estados Unidos e agente do “sionismo internacional”.

Ela foi presa, porém seu julgamento foi interrompido por causa da morte de Stalin, em 1953. As autoridades então permitiram que ela permanecesse em prisão domiciliar junto com seus filhos, em Bucareste, onde morreu no ostracismo em junho de 1960. Sua morte coincidiu com o fim das permissões conferidas aos judeus para se estabelecerem em Israel. Entretanto, as emigrações continuavam, embora com números reduzidos e de forma clandestina.

Em 1958, o embaixador da República Árabe Unida em Bucareste protestou junto à chancelaria romena sobre a saída dos judeus. No ano seguinte, o jornal egípcio Al-Ahram publicou violentos editoriais contra aquela emigração, alcançando grande repercussão. Em Jerusalém, o primeiro-ministro Ben Gurion fez um pronunciamento denunciando a Romênia que “está-se curvando sob pressões dos países árabes”.

A título de resposta, o jornal Scinteia, órgão oficial do partido comunista romeno, dedicou diversas edições de suas primeira páginas a vitriólicos ataques contra o sionismo. Em seguida, o governo anunciou que as emigrações para Israel estavam suspensas e cancelou centenas de vistos já emitidos. Líderes sionistas foram presos, inclusive um rabino chamado Zissu Portugal, da Congregação Agudat Israel. Jovens judeus foram expulsos das escolas e das universidades.

O rabino Rosen pediu uma audiência ao presidente romeno, Ion Gheorghe Maurer, durante a qual pretendia pedir o relaxamento das prisões. Maurer ficou furioso e lhe respondeu: “Sim, prendemos o rabino Portugal porque sabemos muito bem o que ele representa em termos de sionismo. Nós, aqui na Romênia, decidimos resolver o problema judeu abrindo inscrições para as pessoas que de fato estavam dispostas a partir. Esperávamos receber de dez a vinte mil pedidos. Sabe quantos foram feitos? Cento e trinta mil! Quem podia imaginar tal número? Por que vocês tanto nos desprezam? O embaixador do Egito veio queixar-se de que estamos mandando mais soldados para Israel. Eu respondi que somente os idosos estavam sendo liberados. Aí a imprensa em Israel escreve todos os dias sobre quantos jovens profissionais judeus romenos, médicos e engenheiros, chegaram ao país. O Ocidente nos trata como marginais quando fechamos nossas fronteiras e continuam nos tratando como marginais quando as abrimos. Então é melhor fechar logo de uma vez e acabar com o problema que estamos enfrentando com os árabes!”

O arrebatamento de Maurer, na verdade, era uma válvula de escape para os angustiantes problemas econômicos que a Romênia vivia, porque a União Soviética jamais cumpria suas repetidas promessas de ajuda e o relacionamento entre os dois países foi-se deteriorando. Maurer, então, tomou o caminho da Casa Branca, afirmando que estava disposto a discutir reparações de guerra e outros assuntos de interesse americano. Isto logo lhe valeu 60 milhões de dólares (enorme quantia para a época) em contratos com empresas ocidentais. Ao mesmo tempo, o governo comunista se desdobrava no sentido de melhorar sua imagem perante o mundo ocidental, a ponto de permitir que o rabino Rosen viajasse para uma temporada nos Estados Unidos. Na área das exportações, os romenos se esforçavam para vender de tudo, contanto que recebessem em moeda forte. Esse tudo passou a incluir seres humanos.

É quando entra em cena Henry Jacober, judeu nascido na Hungria, rico homem de negócios, possuidor de cidadania britânica, baseado em Londres. No fim da década de 50, ele se aproximou de famílias no Ocidente e em Israel que tinham parentes na Romênia, presos ou soltos, judeus ou não judeus, afirmando que podia viabilizar sua saída do país em troca de pagamentos em dinheiro. Os vistos variavam entre quatro e seis mil dólares e as quantias deviam ser depositadas em nome do próprio Jacober no banco Crédit Suisse, em Lucerna, Suíça. Em seguida, enviava as quantias arrecadadas com os nomes dos beneficiados à Securitate, o órgão de inteligência da Romênia, e retinha uma comissão. No início da década de 1960, os romenos lhe informaram que, em vez de dinheiro, os pagamentos deveriam ser feitos em produtos agrícolas. Como ele era dono de duas empresas de importação e exportação, foi-lhe conveniente assumir as novas operações. Comprava, por exemplo, gado na Holanda e remetia o lote para a Romênia, mas sem abrir mão de comissões. Seu interlocutor em Bucareste era o general Gheorghe Marcu, responsável pelos serviços romenos de espionagem externa. As atividades de Jacober chegaram ao conhecimento do governo de Israel que convocou um agente chamado Shaike Dan para cuidar da questão.

Nascido num vilarejo da Romênia, Dan emigrara para um kibutz (comunidade coletiva) na antiga Palestina em 1935. Durante a 2ª Guerra Mundial, ao lado de dois outros companheiros, arriscou a vida saltando de paraquedas atrás das linhas alemãs com a missão de salvar o maior número possível de judeus. Findo o conflito, permaneceu na Europa.

Conhecido por sua coragem pessoal e rara capacidade de organização, dedicou-se à emigração clandestina de refugiados para Israel, juntamente com armas e munições cujas aquisições exigiam aventuras mirabolantes. Sua primeira iniciativa, no caso romeno, foi pedir à Embaixada de Israel em Londres que chamasse Jacober para uma conversa. Os dois se encontraram para um almoço no elegante Hotel Dorchester e Dan estava tão excitado que mal tocou na comida. Ele revelou a seu biógrafo que jamais na vida tinha feito uso de uma linguagem tão violenta como aquela que despejou sobre Jacober. Disse-lhe sem rodeios que interrompesse imediatamente suas transações com os romenos e acrescentou uma sutil ameaça: “Você sabe, tão bem como eu, que o rio Tâmisa tem águas profundas”. Disse, ainda, que daquele momento em diante, Jacober só agiria seguindo suas estritas instruções na qualidade de intermediário. Cedeu neste ponto porque sabia que os conhecimentos e contatos de Jacober seriam valiosos a curto prazo. Em Londres, foi ao encontro de Shaul Avigur, um dos mais proeminentes pais da pátria de Israel, tendo sido responsável pelas mais importantes ações da Aliá Beit (imigração clandestina) e atuado como ministro da defesa durante a Guerra da Independência. Fundador do Mossad, foi um homem dotado de rígidos princípios e de inabalável pragmatismo. Avigur não aprovou o acordo de Dan com Jacober. Argumentou que tratar com tal tipo de pessoa e mais os chefes corruptos da Romênia não preenchia nenhum espaço em sua formação ética. Dan insistiu: “Se quisermos salvar os judeus da Romênia, não podemos nos valer das doçuras dos rabinos-chefes. Vamos ter que nos envolver de fato com toda essa gente desprezível”.

Entretanto, Avigur se manteve irredutível. Em face da desavença, ambos decidiram que o assunto deveria ser levado à consideração de Ben Gurion. Em Jerusalém, reuniram-se o primeiro-ministro, Golda Meir, Shaul Avigur e Shaike Dan. Os dois últimos expuseram suas razões a favor e contra o próximo passo a ser tomado.
No fim do encontro, a palavra foi de Ben Gurion: “O que Shaike está propondo, é sério e grave. Mas, na argumentação dele, vejo fervor, visão e a certeza de que tudo vai dar certo. Portanto, Shaike fica com poderes para agir da melhor maneira que julgar conveniente”. Avigur respondeu: “Então, eu insisto que essa autorização seja dada por escrito”. Ben Gurion concordou e Golda optou pela abstenção.

Pouco depois, Jacober, muito tenso, procurou o general Marcu e colocou-o a par do que havia acertado com Shaike Dan. Afirmou que o governo israelense estava disposto a pagar em dinheiro vivo por cada judeu que emigrasse. Em princípio, o romeno rejeitou a proposta. Para demonstrar sua boa intenção, Jacober propôs instalar na Romênia, a título de experiência, um moderno aviário na cidade de Peris (com fundos naturalmente vindos de Israel) desde que fossem emitidos vistos de saída para quinhentas famílias judaicas. Meses depois, o novo presidente, Gheorghiu-Dej visitou o aviário e ficou tão impressionado que ordenou a emissão de mais 500 vistos, além de pedir a instalação de mais cinco aviários. Assim, o que havia começado como uma pequena experiência tornou-se uma operação de grande vulto.

É quando entra em cena Henry Jacober, judeu nascido na Hungria, rico homem de negócios, possuidor de cidadania britânica, baseado em Londres. No fim da década de 50, ele se aproximou de famílias no Ocidente e em Israel que tinham parentes na Romênia, presos ou soltos, judeus ou não judeus, afirmando que podia viabilizar sua saída do país em troca de pagamentos em dinheiro. Os vistos variavam entre quatro e seis mil dólares e as quantias deviam ser depositadas em nome do próprio Jacober no banco Crédit Suisse, em Lucerna, Suíça. Em seguida, enviava as quantias arrecadadas com os nomes dos beneficiados à Securitate, o órgão de inteligência da Romênia, e retinha uma comissão. No início da década de 1960, os romenos lhe informaram que, em vez de dinheiro, os pagamentos deveriam ser feitos em produtos agrícolas. Como ele era dono de duas empresas de importação e exportação, foi-lhe conveniente assumir as novas operações. Comprava, por exemplo, gado na Holanda e remetia o lote para a Romênia, mas sem abrir mão de comissões. Seu interlocutor em Bucareste era o general Gheorghe Marcu, responsável pelos serviços romenos de espionagem externa. As atividades de Jacober chegaram ao conhecimento do governo de Israel que convocou um agente chamado Shaike Dan para cuidar da questão.

Nascido num vilarejo da Romênia, Dan emigrara para um kibutz (comunidade coletiva) na antiga Palestina em 1935. Durante a 2ª Guerra Mundial, ao lado de dois outros companheiros, arriscou a vida saltando de paraquedas atrás das linhas alemãs com a missão de salvar o maior número possível de judeus. Findo o conflito, permaneceu na Europa.

Conhecido por sua coragem pessoal e rara capacidade de organização, dedicou-se à emigração clandestina de refugiados para Israel, juntamente com armas e munições cujas aquisições exigiam aventuras mirabolantes. Sua primeira iniciativa, no caso romeno, foi pedir à Embaixada de Israel em Londres que chamasse Jacober para uma conversa. Os dois se encontraram para um almoço no elegante Hotel Dorchester e Dan estava tão excitado que mal tocou na comida. Ele revelou a seu biógrafo que jamais na vida tinha feito uso de uma linguagem tão violenta como aquela que despejou sobre Jacober. Disse-lhe sem rodeios que interrompesse imediatamente suas transações com os romenos e acrescentou uma sutil ameaça: “Você sabe, tão bem como eu, que o rio Tâmisa tem águas profundas”. Disse, ainda, que daquele momento em diante, Jacober só agiria seguindo suas estritas instruções na qualidade de intermediário. Cedeu neste ponto porque sabia que os conhecimentos e contatos de Jacober seriam valiosos a curto prazo. Em Londres, foi ao encontro de Shaul Avigur, um dos mais proeminentes pais da pátria de Israel, tendo sido responsável pelas mais importantes ações da Aliá Beit (imigração clandestina) e atuado como ministro da defesa durante a Guerra da Independência. Fundador do Mossad, foi um homem dotado de rígidos princípios e de inabalável pragmatismo. Avigur não aprovou o acordo de Dan com Jacober. Argumentou que tratar com tal tipo de pessoa e mais os chefes corruptos da Romênia não preenchia nenhum espaço em sua formação ética. Dan insistiu: “Se quisermos salvar os judeus da Romênia, não podemos nos valer das doçuras dos rabinos-chefes. Vamos ter que nos envolver de fato com toda essa gente desprezível”.

Entretanto, Avigur se manteve irredutível. Em face da desavença, ambos decidiram que o assunto deveria ser levado à consideração de Ben Gurion. Em Jerusalém, reuniram-se o primeiro-ministro, Golda Meir, Shaul Avigur e Shaike Dan. Os dois últimos expuseram suas razões a favor e contra o próximo passo a ser tomado.
No fim do encontro, a palavra foi de Ben Gurion: “O que Shaike está propondo, é sério e grave. Mas, na argumentação dele, vejo fervor, visão e a certeza de que tudo vai dar certo. Portanto, Shaike fica com poderes para agir da melhor maneira que julgar conveniente”. Avigur respondeu: “Então, eu insisto que essa autorização seja dada por escrito”. Ben Gurion concordou e Golda optou pela abstenção.

Pouco depois, Jacober, muito tenso, procurou o general Marcu e colocou-o a par do que havia acertado com Shaike Dan. Afirmou que o governo israelense estava disposto a pagar em dinheiro vivo por cada judeu que emigrasse. Em princípio, o romeno rejeitou a proposta. Para demonstrar sua boa intenção, Jacober propôs instalar na Romênia, a título de experiência, um moderno aviário na cidade de Peris (com fundos naturalmente vindos de Israel) desde que fossem emitidos vistos de saída para quinhentas famílias judaicas. Meses depois, o novo presidente, Gheorghiu-Dej visitou o aviário e ficou tão impressionado que ordenou a emissão de mais 500 vistos, além de pedir a instalação de mais cinco aviários. Assim, o que havia começado como uma pequena experiência tornou-se uma operação de grande vulto.

Ion Pacepa, chefe da Securitate, que anos depois desertou para os Estados Unidos, escreveu em seu livro Horizontes Vermelhos: “Em 1964, o Ministério do Interior da Romênia tinha-se tornado um extraordinário produtor de alimentos. Possuía aviários de frangos e de perus, criações de porcos e fazendas de gado com mais de cem mil cabeças, convergindo tudo para exportações que rendiam de oito a dez milhões de dólares por ano”. Nessas propriedades, os trabalhos eram feitos por prisioneiros e a expansão foi tão formidável que, em determinado ponto, começou a faltar mão de obra. Pacepa relata que quando o ministro do interior levou essa preocupação ao presidente, este disse: “Estão faltando prisioneiros? Então prenda mais gente!” Esses empreendimentos, que até parecem surrealistas, eram do conhecimento apenas de Gheorghiu-Dej e de um círculo muito restrito ao qual nem o general Marcu tinha acesso. A participação de Israel naquilo tudo, além dos pagamentos em diferentes moedas, era um segredo guardado a mil chaves.

Em 1965, após a morte de Gheorghiu-Dej, o governo da Romênia foi assumido por Nicolae Ceausescu, com amplos poderes ditatoriais. Quando ele soube que Israel estava pagando pela saída dos judeus ficou indignado, julgando que tal comércio, se revelado, exporia a Romênia à execração internacional. No entanto, dois anos depois, Ceausescu tratou de indagar se Jacober ainda estava disponível. Em seguida, mudou de idéia e achou melhor que Shaike Dan mantivesse contatos diretos com o general Marcu, trazido às boas graças do poder. Ordenou o abandono da maior parte da produção de alimentos e determinou que os judeus seriam libertados exclusivamente a troco de pagamentos em dólares americanos. Porém, os preços por cabeça variavam. Para estipular as quantias, eram avaliadas a idade, a educação, a profissão e a condição familiar de cada judeu. O próprio Ceausescu acompanhava de perto esses cálculos. A partir desse cenário, Dan e Marcu passaram a se encontrar mensalmente nas embaixadas romenas localizadas na Alemanha Ocidental, Áustria e Suíça. Em novembro de 1969 os dois concordaram com um protocolo oral (era arriscado demais fazê-lo por escrito), válido por três anos, segundo o qual a Romênia permitiria a emigração de 40 mil judeus, de acordo com a seguinte distribuição: 2 mil naquele mesmo ano, 12.800 em 1970, 16 mil em 1971 e 9.200 entre janeiro e outubro de 1972.

A par do entendimento, Marcu exigiu, por ordem do ditador, que Israel libertasse um agente da Securitate que havia sido preso por espionagem em Israel e cumpria uma pena de seis anos. Israel respeitou o acordo, mas, no fim das contas, os romenos não honraram o dito protocolo. Os números de imigrantes sempre foram menores do que os combinados.

Para que as transações monetárias seguissem um curso contínuo, Shaike Dan julgou que seriam importantes algumas visitas de dignitários israelenses à Romênia. Nesse contexto, Golda Meir desembarcou em Bucareste em maio de 1972. Na sexta-feira, dia 5, Ion Pacepa, que ainda não havia desertado para o Ocidente, recebeu informações oriundas de Beirute de que quatro árabes haviam deixado o Cairo rumo a Bucareste com a missão de assassinar Golda Meir quando ela estivesse entrando na sinagoga Chorale. Pacepa conseguiu interceptá-los e ficou surpreso com a quantidade de metralhadoras e granadas que possuíam. Ceausescu ficou furioso e ordenou que todos os terroristas fossem executados. No dia seguinte, porém, apenas mandou que eles fossem fichados, fotografados e expulsos do país. (Um dos quatro era Abu Daud, que comandou o ataque aos atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique). Assim, Golda Meir pôde entrar sem qualquer obstáculo na sinagoga lotada, onde foi saudada por um coro de crianças que cantou Shalom Aleichem (Paz para todos).

Em dezembro de 1973, Ceausescu manteve reunião com uma delegação do Congresso Judaico Mundial, vinda de Nova York, na qual garantiu que os judeus que quisessem poderiam partir para Israel, mas guardava a esperança que de 50 a 60 mil ficassem na Romênia “para participar da construção de um sólido socialismo econômico e social”. No dia 12 de agosto de 1977, o primeiro-ministro Menahem Begin desembarcou na Romênia. Shaike preveniu-o de que Ceausescu estava disposto a servir de intermediário entre Israel e o Egito. De fato, Begin encontrou-se em Bucareste com Said Merei, presidente da Assembléia Nacional egípcia. Dessa reunião resultou a viagem de Sadat a Jerusalém e a posterior assinatura do acordo de paz em Camp David.

Begin e Sadat receberam o Prêmio Nobel da Paz e Ceausescu julgou que também merecia ser agraciado. Em 1978, foi a vez de Moshe Dayan visitar a Romênia, onde, entre outros assuntos, pretendia abordar a questão da emigração judaica. Shaike Dan preveniu-o no sentido de que, no encontro com o ditador romeno, jamais usasse a palavra emigração. Que falasse em reunificação familiar, termo adotado por ambas as partes, sempre guardando o segredo dos pagamentos em dinheiro. Àquela altura, Ceausescu se empenhava em manter uma boa imagem no Ocidente com o intuito de expandir as relações comerciais de seu país. Pediu a Dayan que ele interviesse junto aos americanos para que a Romênia recebesse de Washington a condição de nação favorecida. Dayan apenas respondeu que faria o possível e até hoje não se sabe se tomou qualquer iniciativa dessa natureza. Em agosto de 1987, o primeiro-ministro Itzhak Shamir compareceu à principal sinagoga de Bucareste, acompanhado pelo rabino Rosen. Falou em iídiche, afirmando aos judeus presentes que eles sempre contariam com o apoio de Israel e terminou emocionado: “No ano que vem em Jerusalém!”

Pacepa narra em seu livro que, em julho de 1978, caminhava ao lado de Ceausescu nas margens do belo lago Terchigiol, cuja lama, diziam, continha poderes medicinais. A certa altura, o ditador perguntou: “Quanto recebemos no mês passado pelos jidani?(pejorativo para judeus em gíria romena). Pacepa respondeu: “122 mil dólares em dinheiro vivo”. Ceausescu não gostou: “Só isso?”. Quando o comunismo romeno caiu, o ditador e a mulher, Elena, foram presos e submetidos a um julgamento sumário. Perguntaram quais eram os números de suas contas nos bancos suíços. Apenas respondeu: “Contas? Que contas?”. Pouco depois foram ambos fuzilados.

A par da sordidez, o resgate dos judeus romenos teve momentos bizarros. Em 1974, um passageiro romeno embarcou num vôo em Zurique, rumo a Bucareste. Ao desembarcar, constatou com horror que uma de suas malas não havia chegado. O passageiro era o general Marcu. A bagagem extraviada continha um milhão de dólares que havia recebido de Shaike Dan.

Por incrível que pareça, ele recuperou a mala, intacta, dias depois em Zurique. Em outra ocasião, um agente israelense entregou a um agente romeno uma sacola de plástico recheada de dinheiro. O romeno pediu: “Será que da próxima vez você não se incomodaria em me trazer uma Samsonite?”...

Bibliografia:
Ioanid, Radu, The Ransom of the Jews, editora Ivan R. Dee, EUA, 2005
Pacepa. Ion Mihai, Red Horizons: Chronicles of a Communist Spy Chief, editora Regnery Co., EUA, 1987
Ettinger, Amos, Blind Jump: The Story of Shaike Dan, editora Cornwall Books, 1992, EUA

 

População judaica na Romênia depois da
Segunda Guerra

1945

428.300

1951

280.000

1960

200.000

1970

70.000

1980

33.000

1990

17.000

2000

11.000

2010

9.700*