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O Céu Era o Limite - Nasce a Força Aérea de Israel Após início rudimentar, a Força Aérea de Israel possui aeronaves modernas e sofisticadas, inclusive para abastecimento em voo

O Céu Era o Limite - Nasce a Força Aérea de Israel

por Zevi Ghivelder

A Força Aérea de Israel nasceu no calor das mais inusitadas circunstâncias. Foi criada no mesmo dia da independência do país, em 14 de maio de 1948. Suas ações em combate, que contaram com voluntários vindos de diversos países, ignoraram planejamentos de guerra, treinamentos, manuais de manutenção de aeronaves, hierarquias, simulações de voos ou quaisquer regras rígidas.

Edição 103 - Abril de 2019

Tags: Israel


Nada era intransponível no início de sua trajetória para defender a nação que ascendia. Tudo aconteceu e se desenvolveu durante o próprio desenrolar das batalhas aéreas, bem como nas missões para atingir alvos terrestres. A pequena frota de bombardeiros e aviões de caça que compunha essa força era heterogênea e muitas vezes improvisada. Sua melhor opção, no começo das hostilidades, eram os caças alemães do tipo Messerschmitt, remanescentes da Segunda Guerra, abandonados na Checoslováquia e ali adquiridos, antes e depois da independência de Israel.

Boa parte deles se encontrava em estado precário, mas nem por isso deixaram de ser levados porque sempre haveria alguma forma de recuperá-los, como de fato houve.

Os pilotos, navegadores de bordo e mecânicos que se voluntariaram para lutar por Israel eram praticamente todos veteranos da 2ª Guerra Mundial. Eles foram parte dos 3.600 voluntários, entre civis e militares, empenhados em todas as áreas da atividade humana que, com passaportes de 57 países, inclusive do Brasil, acorreram à antiga Palestina logo após a decretação da Partilha e no transcurso do primeiro semestre de 1948.

Eles eram chamados de machalniks, uma vinculação ao acrônimo machal, que, em hebraico, significa voluntários do exterior. Alguns deles se notabilizaram. Paul Kaminitzky, natural de Nova York, serviu na Marinha americana durante a Segunda Guerra. Mal voltou para casa e logo foi para a Europa onde passou a comandar navios clandestinos que levavam sobreviventes do Holocausto para a Palestina. Foi preso junto com o navio Hatikvah, tido como ilegal pelos mandatários ingleses, e levado para a ilha de Chipre. Por causa da nacionalidade americana, removeram-no para o campo de prisioneiros de Atlit, perto de Haifa. Conseguiu fugir e retomou o transporte de imigrantes deslocados. Na Guerra da Independência atuou para estruturar a nascente Força Naval de Israel.

Também era nascida em Nova York a jovem Tzipora Porath. Em 1947, foi para Jerusalém onde pretendia estudar durante um ano na Universidade Hebraica. Em maio do ano seguinte, quando os exércitos árabes invadiram Israel e Jerusalém foi sitiada e isolada, Tzipora permaneceu na cidade, engajou-se na Haganá e foi incessante referência como paramédica. Ao fim da guerra, mudou-se em definitivo para Tel Aviv. Reuniu num volume as cartas que tinha escrito e guardado para a família durante o cerco de Jerusalém, e seu livro foi um best-seller nos Estados Unidos. Outro americano voluntário, chamado Gideon Lichtman, foi o primeiro piloto a abater um avião inimigo. O primeiro comandante da Marinha de Israel foi outro rapaz de Nova York, Paul Shulman. Um jovem de Toronto, Canadá, de nome Ben Dunkman, traçou a trilha que permitiu abrir a Burma Road, uma estrada íngreme que, depois de meses de privações de seus habitantes, abriu o caminho para Jerusalém.

Oriundos de 16 países, a maioria dos pilotos voluntários era dos Estados Unidos, Reino Unido e África do Sul. Eles se uniram aos poucos pilotos sabras (judeus nascidos na antiga Palestina) que deviam suas rudimentares experiências no céu ao seu apoio às organizações clandestinas Haganá e Irgun. A Haganá, tutelada pela Agência Judaica (órgão central do movimento sionista), já tinha criado desde o mês de novembro do ano anterior o Sherut Avir (Serviço Aéreo), que contava com poucos aviões monomotores do tipo teco-teco. Em seus quadros havia um ex-piloto da RAF, Jack Freedman, que, antes da independência, juntou peças avulsas e porções de sucata, conseguindo montar um avião de caça semelhante ao Spitfire.

A partir de fevereiro de 1948, começaram a aterrissar no aeroporto de Sde Dov, perto de Tel Aviv, aviões mais potentes e mais modernos trazidos secretamente da África do Sul. À frente dessa operação estava um jovem piloto chamado Boris Senior. Com incrível coragem, ele tinha atravessado sozinho, no rumo norte, todo o continente africano a bordo de uma aeronave Bonanza, sem instrumentos de rádio ou carta de navegação aérea, perfazendo uma proeza inimaginável.

Boris Senior nasceu em Johanesbur,go, África do Sul, filho de imigrantes da Lituânia que eram ardentes sionistas. Ao eclodir a 2ª Guerra Mundial, alistou-se na RAF, a Força Aérea da Inglaterra. Cumpriu dezenas de missões até seu avião ser abatido nas cercanias de Veneza. Conseguiu ejetar o assento e escapou por milagre de ser preso pelos alemães. Depois da guerra foi estudar economia em Londres onde fez amizade com Ezer Weizmann, também ex-piloto da RAF, sobrinho do proeminente líder sionista e futuro primeiro presidente de Israel, função que ele mesmo também viria a ocupar de 1993 a 2000.

Em 1947, depois da Declaração da Partilha, em novembro, Boris seguiu para a antiga Palestina e passou a atuar como piloto do Sherut Avir. Em fevereiro de 1948, regressou à África do Sul com a finalidade de recrutar pilotos judeus para se juntarem a ele na formação do que seria a Força Aérea do Estado Judeu em gestação.

Por conta de Boris Senior e seus companheiros, a incipiente unidade militar passou a contar com aeronaves do tipo Piper Club, Auster e Bonanza. Foi pilotando seu fiel Bonanza que ele cumpriu a primeira missão oficial da Força Aérea de Israel. No mesmo momento em que Ben-Gurion lia a Declaração de Independência do novo país, Boris voava para uma tarefa de reconhecimento junto à fronteira com a Transjordânia (hoje Jordânia). Ali, um fotógrafo a bordo registrou uma enorme quantidade de tanques, caminhões e veículos bélicos e outros blindados que, à frente de milhares de soldados, se movimentava na direção de Israel. Do alto, viu o Kibutz Kfar Etzion em chamas, já dominado pelo exército do rei Hussein.

Boris Senior lutou como piloto de caça durante a Guerra da Independência, no decorrer da qual, além de outras missões, abateu em voo dois aviões egípcios. Depois do conflito ficou em Israel, incumbido de implantar a estrutura da Força Aérea, da qual se aposentou como coronel em 1952 e, em seguida, dedicou-se à fabricação de filmes fotográficos. Morreu em Kfar Shmariahu, perto de Tel Aviv, em maio de 2004, aos 80 anos de idade.

É certo que Senior tenha feito amizade durante o conflito com o americano Gideon Lichtman, foco de uma emblemática narrativa do voluntariado. Lichtman nasceu em 1923 em Newark, Nova Jersey, onde fez os estudos secundários. Em 1941, depois de ouvir pelo rádio o discurso de Roosevelt em repúdio ao ataque japonês a Pearl Harbor, tomou uma decisão imediata: alistar-se na Força Aérea americana. Em pouco tempo afirmou sua vocação para pilotar aviões de caça, tendo combatido no Pacífico até o fim da guerra. Depois de desmobilizado, matriculou-se na Universidade de Nova York para estudar história e pedagogia, graças à bolsa concedida aos combatentes desmobilizados. Mais uma vez, um evento transmitido pelo rádio mudou seu rumo. Tratava-se das frequentes notícias sobre o drama do navio Exodus, atracado no porto de Haifa, abarrotado por sobreviventes do Holocausto que se aglomeravam a bordo, submetidos à perversidade dos mandatários britânicos.

Indignado, fez contato com o pessoal da Agência Judaica nos Estados Unidos. Foi logo acolhido como voluntário e mandado para Roma onde já se encontrava um grupo de pilotos americanos, também voluntários, à espera de ordens de deslocamento. A primeira incumbência que recebeu foi seguir para Praga onde, no aeroporto de Ceske, deveria buscar um dos aviões adquiridos pela Agência Judaica, um Messerschmitt de origem alemã. Se ocorresse qualquer problema, deveria comunicar-se com um tal de Dr. Felix e levar-lhe café solúvel.

Desembarcou em Praga e, como não tinha visto de entrada, foi logo detido pelas autoridades da imigração. Entrou em contato com o Dr. Felix, que não tardou a aparecer no aeroporto e foi logo perguntando: “Onde está o meu café?” No dia seguinte, acompanhado pelo advogado contratado pela liderança em Jerusalém, foi ao aeroporto militar checo e de lá voou para Tel Aviv. De Sde Dov regressou a Roma, à espera de novas ordens.

Lichtman chegou finalmente a Tel Aviv em junho de 1948. Deveria se apresentar no Park Hotel. Em um salão ao lado da recepção, deparou-se com um numeroso grupo de jovens, homens e mulheres, vestindo uniformes militares que davam a impressão de estar sendo informalmente comandados por um rapaz alto e comunicativo. Era Ezer Weizmann, que o apresentou a dois outros pilotos que também viriam a se destacar na nascente Força Aérea de Israel: Lou Lenart e Milton Rubenfeld. O segundo estava ferido depois de ter saltado de paraquedas de seu avião, abatido na semana anterior.

Numa manhã de junho, Gideon foi acordado na base de Ekron pelo experiente ex-piloto da RAF, Modi Alon, já em traje de combate. A ordem era que seguissem imediatamente para a base militar porque dois Spitfires egípcios tinham sido avistados voando na direção de Tel Aviv. Na pista de decolagem já havia dois aviões de caça à sua espera. Alon disse para Lichtman: “Não haverá comunicação de rádio entre nós. Conforme o que acontecer, farei sinais com as mãos para lhe dar cobertura ou então você me cobre”. Gideon Lichtman aboletou-se no assento do Messerschmitt, com o qual tinha pouca intimidade pois só o havia pilotado uma vez, da Checoslováquia para Israel.

O que aconteceu em seguida é bem semelhante àquelas cenas de batalhas aéreas que nos habituamos a ver no cinema. Assim que ganhou altura e tomou o rumo norte, Lichtman avistou dois Spitfires egípcios. Após inúmeras circunvoluções, ele se posicionou atrás de um caça inimigo, mas não conseguiu alcançar uma distância que lhe permitisse atirar. O fato é que os Spitfires eram mais velozes e mais maleáveis do que o seu Messerschmitt e o de Modi Alon. Por fim, quando obteve uma posição favorável, disparou. Não pode constatar se tinha atingido o alvo porque o egípcio tinha desaparecido atrás de uma nuvem. Naquele momento verificou que estava ficando sem combustível. O Spitfire reapareceu, mas não foi ao seu encalce e nem revelou a intenção de retomar o combate. Assim como Lichtman tinha que voltar para sua base, o mesmo devia estar ocorrendo com o egípcio. A rigor, teve uma certeza: pelo menos naquele dia a cidade de Tel Aviv não seria bombardeada do alto.

Em agosto, Israel e Egito concordaram em fazer uma trégua nas hostilidades, mas isso não significou um descanso para Lichtman. Ele passou a fazer longos voos de reconhecimento sozinho. Em outubro, recebeu uma boa notícia: a Agência Judaica havia adquirido nos Estados Unidos dois aviões do tipo Mustang P-51. Era neste caça que ele se sentia à vontade porque o tinha pilotado durante três anos da guerra no Pacífico, incluindo voos sobre Tóquio. Os aparelhos chegaram ao porto de Haifa desmontados e o próprio Lichtman supervisionou a remontagem. Deu adeus ao Messerschmitt, que dizia ser um mastodonte claustrofóbico. A Bordo do Mustang sentia que o céu era o limite. Um dia, voou na direção do Líbano e ali viu, no aeroporto militar, dezenas de aviões alinhados uns aos outros. Teve que conter uma enorme vontade de bombardeá-los. Porém foi obrigado a cumprir as regras do armistício. Se tivesse disparado, colocaria o novo Estado Judeu numa delicada transgressão internacional. Do Líbano, seguiu para Damasco, na Síria, sem ser importunado. No regresso, resolveu fazer a volta sobre o Sinai onde avistou um avião abaixo do seu. Ficou surpreso e impressionado: era um Sea Fury, o melhor bombardeiro de fabricação britânica, incorporado à força aérea do Egito. Por mais que quisesse, a trégua o impedia de empreender qualquer ataque. Nos dias e semanas seguintes, Lichtman ficou obcecado pelo Sea Fury que, conforme ficou sabendo, era pilotado por Abu Zaid, o mais celebrado comandante egípcio. Tornou a vê-lo em cruzamentos nos céus, com cuidado para não lhe dar a cauda. Acabou desistindo de abater o Sea Fury e comentou com Modi Alon: “Algum dia, alguém ainda vai derrubá-lo”.

Uma semana depois de declarada a independência, Israel comprou na Checoslováquia quatro bombardeiros Avia S-1999 que foram desmontados e acondicionados em caixotes. Tudo foi colocado num avião de carga que partiu para Tel Aviv. Ao aproximar-se do aeroporto de Sde Dov, o aparelho foi envolto por denso nevoeiro. Tentou outro aeroporto militar, Ekron, onde se deparou com a mesma condição. Acabou perdendo o rumo e caiu. Na queda foram perdidas as partes dos aviões comprados e morreu o piloto Moishe Rosenbaum, cuja experiência se limitava ao Sherut Avir. Duas perdas significativas, sendo a material depois compensada pela aquisição de outros bombardeiros de igual quilate.

Na frente terrestre, o recém-formado Exército de Israel enfrentava difíceis embates com as forças egípcias, dotadas de militares bem treinados e bons equipamentos. Para que fosse bem-sucedido, era necessário que o Exército recebesse apoio da Força Aérea. No dia 29 de maio, Ezer Weizmann, Modi Alon, Eddie Cohen e Lou Lenart levantaram voo para impedir o avanço de uma coluna de tanques egípcios que já tinham alcançado o porto de Ashdod, 30 quilômetros ao sul de Tel Aviv.

Os quatro aviões bombardearam os tanques uma vez, fizeram outra volta para despejar nova carga de explosivos e ainda uma terceira volta para mais uma descarga. Todas as três tinham alcançado ótimos resultados. Nessas manobras, o aparelho de Eddie Cohen foi atingido por uma bateria antiaérea e se espatifou no solo, matando Cohen. O avião de Lou Lenart foi danificado por tiros na fuselagem, mas, com muita perícia, ele pilotou até aterrissar em Tel Nof, atrás de Weizmann e de Modi que, também atingido, bateu com uma asa na pista e seu avião se desmantelou com perda total. Ele escapou por milagre. Mas, Tel Aviv estava salva de uma incursão de tanques inimigos que poderia ser catastrófica para a população civil e para o curso do conflito, ao custo da perda de dois aviões e da morte de um excelente piloto.

O americano Lou Lenart, cujo nome verdadeiro era Layos Lenovitz, nasceu numa pequena cidade húngara em 1921. Junto com a família, emigrou para os Estados Unidos com nove anos de idade. Seus pais se estabeleceram na cidade de Wilkes Barr, na Pensilvânia, onde mantinham um negócio de comestíveis e onde Lenart cresceu, às vezes vendendo de porta em porta os finos biscoitos que sua mãe fazia. Em 1942, alistou-se na força aérea da Marinha e teve seu batismo de fogo no Pacífico, na batalha de Okinawa, participando, em seguida, de incursões sobre o Japão. Em 1948, ao tomar conhecimento da morte de 14 de seus familiares no Holocausto, apresentou-se como voluntário à Agência Judaica em Nova York. Sua primeira missão, sob o comando do legendário Al Schwimmer, foi pilotar rumo a Israel um dos aviões comprados por este último na Califórnia, contrariando e desafiando as leis americanas que proibiam a venda de sobras de guerra para finalidades bélicas. Em Israel, foi logo incorporado ao que viria a ser a Força Aérea do país. Após o conflito, passou a ser apontado como “o homem que salvou Tel Aviv”, um aposto do qual se orgulhou durante toda a vida.

Dias depois da salvação de Tel Aviv, Ezer Weizmann e o voluntário americano Milton Rubenfeld voaram na direção de Tul Karm, uma cidade egípcia perto da qual havia um aeroporto militar. Sua intenção era destruir as aeronaves que porventura estivessem no solo. No entanto, foram interceptados por um caça egípcio que atingiu Rubenfeld severamente. Este conseguiu pilotar rumo à costa, nas imediações do moshav (colônia agrícola) Kfar Yona e saltou de paraquedas. As pessoas do moshav, pensando que se tratava de um inimigo, começaram a disparar tiros em sua direção. Já em terra, Rubenfeld, que não sabia uma só palavra em hebraico, levantou os braços e, para provar que era judeu, correu enquanto gritava em iídiche: “Shabes, shabes, guefilte fish!”.

À medida em que as hostilidades contra os árabes se intensificavam, a Força Aérea de Israel foi ganhando um corpo bem mais robusto, sobretudo com a frequente incorporação de pilotos voluntários.

Esse influxo se estendeu até janeiro de 1949 quando foi acordado um cessar-fogo. Porém, o armistício foi assinado em fevereiro de 1949, seguindo-se semelhante formalidade com o Líbano, Síria e Transjordânia. O Iraque jamais assinou o armistício e tecnicamente permanece em guerra contra Israel até hoje.

No total, entre pilotos e pessoal de terra, a Força Aérea de Israel somou 607 voluntários, dos quais 92 não eram judeus. Todos cumpriram suas tarefas com convicção, valendo ênfase para os excepcionais mecânicos, muitos deles veteranos da RAF.

Em julho de 1948, Ben-Gurion convidou dois ex-oficiais judeus da Força Aérea da África do Sul, Cecil Margo e Trevor Sussman, para fazer uma avaliação do desempenho e necessidades prioritárias da Força Aérea de Israel. O coronel Margo possuía grande reputação como piloto e como líder. Na 2ª Guerra Mundial tinha comandado formações de bombardeiros no decorrer de 150 missões. Ele teve carta branca para o trabalho, ao cabo do qual apresentou um extenso relatório.

A nova Força Aérea precisava ser estruturada praticamente a partir do zero no que dizia respeito ao pessoal e aos equipamentos. Era imprescindível padronizar os treinamentos, logística e manutenção, adquirir radares, instrumentos de comunicação e criar um serviço de Inteligência. Nem tudo pôde ser feito de imediato por causa da escassez de recursos, mas o relatório colaborou para que a Força Aérea de Israel se tornasse bem mais ativa e consistente, sobretudo quando seus pilotos e respectivos aviões foram divididos em esquadrões.

No Esquadrão 101 a maioria era constituída de voluntários americanos. Um de seus pilotos, chamado Wayne Peake, fez um bom trabalho quando derrubou um veloz avião egípcio de reconhecimento, que muitas vezes tinha fotografado as bases militares israelenses. O Esquadrão 103 ocupou-se, notadamente, de levar armas e suprimentos para os habitantes próximos do deserto do Neguev. O 106 foi o encarregado de mandar o maior número de pilotos para trazer aviões comprados na Checoslováquia. O Esquadrão Galil recebeu este nome justamente por sua ação na defesa da Galileia, ao norte de Israel. O Esquadrão 69, formado somente por bombardeiros, chegou a atingir o Cairo e a cidade de Rafah.

Nesse contexto, teve atuação proeminente o voluntário americano Mitchell “Mike” Flint. Nascido em Kansas City, no Missouri, em 1923, era filho de Harry Flint, condecorado piloto da 1ª Guerra Mundial. Desde adolescente aprendeu com o pai a pilotar e, aos 18 anos de idade, por via natural, ingressou na Aeronáutica americana.

Assim como outros voluntários, serviu no Pacífico a bordo do porta-aviões USS Wasp. A exemplo de outros de seus companheiros, foi a revelação do Holocausto o que o impulsionou a lutar por um Estado Judeu. Disse à mãe, para não preocupá-la, que ia assistir aos Jogos Olímpicos de Londres e viajou. Em Israel, Flint voou sem trégua e foi um dos principais combatentes que, incursão após incursão, garantiram ao país a posse do estratégico deserto do Neguev.

Em setembro de 1948, seis pilotos, entre os quais se encontravam Boris Senior e Modi Alon, foram à Checoslováquia incumbidos de trazer, com escala na Iugoslávia, seis Spitfires que seriam entregues ao Esquadrão 101. Um deles foi danificado ao aterrissar na Iugoslávia. Os outros cinco prosseguiram rumo a Israel, mas Senior e Alon tiveram que fazer pousos de emergência na ilha de Rhodes por problemas com os combustíveis. Foram presos pelos ingleses, donos do lugar, e libertados somente duas semanas depois. Seus aparelhos, porém, ali permaneceram confiscados. Em outubro, Modi Alon, comandante do 101, regressava de uma missão de bombardeio quando seu avião sofreu uma pane. Ele ainda tentou aterrissar em Tel Nof, mas foi mal sucedido. Deu-se a queda e Alon morreu. Ia completar 27 anos de idade naquele mês.

Foi substituído no comando do Esquadrão 101, também conhecido como Esquadrão Vermelho, por Syd Cohen. Depois da guerra, Syd regressou à África do Sul, onde se formou em medicina. Radicou-se em Israel, em 1960, tendo servido como médico nas guerras dos Seis Dias e do Yom Kipur. Foi o médico-chefe da empresa israelense de aviação comercial El Al. Faleceu em 2011, com 90 anos.

Mitchel “Mike” Flint voltou à Califórnia e foi convocado para servir na guerra da Coréia. Ao regressar, ingressou na faculdade de direito e abriu um escritório de advocacia que obteve grande prestígio. Em 2013, quando completou 90 anos de idade, foi alvo de uma bela homenagem em Jerusalém, onde recebeu o grau de major da Força Aérea de Israel. Morreu em maio de 2017.

Ao término da Guerra da Independência, Lou Lenart permaneceu em Israel e dedicou-se à arriscada missão de resgatar judeus do Iraque. Depois foi para Hollywood, onde trabalhou como produtor de filmes, sendo Águia de Aço o mais conhecido. Voltou para Israel, onde se radicou. Faleceu em 2015, com 94 anos.

Milton Rubenfeld, o do guefilte fish, tornou-se um homem de negócios, primeiro no estado de Nova York e depois na Flórida. Morreu em Sarasota, em 2014, com 84 anos.

Wayne Peake regressou aos Estados Unidos, onde trabalhou como piloto da Flying Tiger Airlines. Morreu de câncer, com 55 anos, e, de acordo com um pedido que deixou por escrito, seu corpo foi levado para Israel e enterrado com honras militares.

Gideon Lichtman voltou para os Estados Unidos, onde alcançou o grau de major da Força Aérea e participou da guerra da Coréia, em 1952. Regressou a Israel em 1960, onde trabalhou como piloto de testes. Estava prestes a voltar para os Estados Unidos, quando Ezer Weizmann chamou-o e disse: “Nós soubemos que os egípcios estão contratando assassinos para eliminar os pilotos americanos que foram voluntários em Israel. É melhor você trocar de nome. Passe a se chamar Rimon (romã, em hebraico). É uma fruta que simboliza a sorte”. Assim, o professor Rimon instalou-se em Miami, onde por décadas lecionou História Contemporânea em escolas secundárias. Ninguém sabia do seu passado. Morreu no dia 11 de março de 2018, com 95 anos. Na oração, o rabino se referiu a seu nome hebraico: Gideon Ben Boaz Halevi. Com o caixão coberto pela bandeira americana, Lichtman foi sepultado no cemitério nacional de Arlington, com honras militares.

Se o leitor vier a percorrer a estrada que liga Jerusalém a Tel Aviv, observe que há uma entrada à direita na altura de Beit Shemesh. Entre e seguindo um pouco adiante, encontrará um memorial em homenagem ao Machal, onde estão inscritos os nomes de 119 homens e 4 mulheres. Fique ali por alguns minutos e reverencie esses voluntários que deram sua vida por Israel.

BIBLIOGRAFIA

Gandt, Robert, Angels in the sky, W.W.Norton&Company, 2017.

Aloni, Shlomo, Arab-Israeli air wars, Oxford Osprey, 2001.

Nordeen, Lon, Fighters over Israel, Orion, 1990.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista