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Naftali Herz Imber, o autor de ‘Hatikva’ Foto Ilustrativa

Naftali Herz Imber, o autor de ‘Hatikva’

Poeta em cuja alma ardia o amor a Eretz Israel, Imber expressou em versos a derradeira esperança judaica, após dois milênios no exílio: ‘viver como povo livre na terra de Sion, Jerusalém’. Estes versos fazem parte do ‘Hatikva’, o hino nacional de Israel.

Edição 57 - Junho de 2007


Judeu da Galícia, de personalidade marcante, quem o conheceu descreve-o como boêmio, excêntrico, dono de afiado senso de humor, idealista, sionista convicto. Era, também um acadêmico e grande lingüista, com total domínio, da "língua sagrada", Lashon Hakadosh, o hebraico. Imber escrevia nesta língua poesia e prosa, numa época em que o hebraico, que por 16 séculos fora exclusivamente usado nas sinagogas e textos sagrados, dava os primeiros passos em direção a seu renascimento como idioma vivo.

Fortemente influenciado pelo movimento sionista e suas aspirações de retorno à terra ancestral, Imber acompanhava de perto a movimentação em Eretz Israel, com genuíno interesse em tudo o que se relacionava à "Primeira Aliá", primeira leva dos pioneiros judeus imigrantes.

A fundação, em 1878, de Petach Tikva (em hebraico, Portal da Esperança), primeiro assentamento judaico em Eretz Israel, emocionou-o profundamente e, influenciado por um capítulo do profeta Ezequiel, escreveu o poema Tikvatenu, "Nossa esperança". Seus primeiros versos e o refrão se converteriam no hino, "Hatikva".

Sua vida

Naftali Herz Imber, também conhecido como Naftali Tzvi Imber, nasceu em uma família de chassidim, em 1856, na cidade de Zloczov, na Galícia, então parte do Império Austríaco. A exemplo de muitos jovens de sua geração, recebeu educação judaica tradicional, estudando a Torá e o Talmud, além de gramática e língua hebraica. Com apenas 10 anos de idade, começou a escrever poemas e, em 1870, seu talento literário se tornou público ao receber um prêmio, em dinheiro, do Imperador Franz Joseph, por um poema, em hebraico, sobre tema nacionalista austríaco.

A morte do pai, pouco tempo depois, teve um grande impacto sobre o jovem poeta, que começou a viajar pelo mundo. Costumava hospedar-se em casa de judeus abastados, que tinham gosto pela poesia e apreciavam ouvi-lo recitar suas obras. Após ter estado na Hungria, Sérvia e Romênia, foi para Viena e, de lá, para Constantinopla.

Nesta cidade, conheceu um filo-semita, Sir Laurence Oliphant, (1829-1888), que imediatamente simpatizou com o jovem e o convidou a viver em sua casa, exercendo as funções de secretário particular. Os conhecimentos de Imber sobre o Talmud e a Cabalá muito contribuíram para a aproximação do poeta com essa família. Profundo admirador de Israel, Sir Oliphant defendera o direito do povo judeu de retornar a Eretz Israel, duas décadas antes que Herzl escrevesse a obra "O Estado Judeu". A idéia de Oliphant, que não teve sucesso quando a apresentou ao governo turco, era arrendar grande parte do Norte da então Palestina e implantar um projeto de colonização para absorver um número significativo de judeus. Quando, em 1882, após o ataque inglês a Alexandria e a conquista, pelos mesmos, de Eretz Israel, Sir Laurence e sua esposa, Alice, decidem ir para a então Palestina, levam Imber em sua companhia.

Enquanto viveu em Eretz Israel, Imber costumava visitar a cavalo os assentamentos judaicos, entretendo os jovens pioneiros, os Chalutzim, com suas poesias. Cada vez que lhes declamava uma de suas criações, onde quer que estivesse, era sempre ovacionado. E, em especial, quando recitava "Tikvatenu". Em 1882, durante uma de suas visitas a Rishon Letzion, Samuel Cohen, um dos membros da comunidade, adapta ao poema uma melodia. Nascia o canto da esperança, "Hatikva".

O poeta morou em Eretz Israel até 1888 e, nos seis anos de sua permanência, escreveu poesias e artigos em hebraico para jornais e revistas. Em 1886 lançou a coletânea "Barkai" ("Estrela da Manhã"), em hebraico, na qual está incluído "Hatikva", dedicando-a a Sir Oliphant. Após a morte do amigo, Imber deixa Eretz Israel e decide conhecer o mundo.

Passa um tempo no Egito, onde renasce seu interesse pelo misticismo. Torna-se especialista em temas esotéricos, escrevendo artigos e livros que atraíram a atenção dos mais variados públicos.

Tempos depois, Imber foi para Londres, onde conheceu o autor de "Children of the Gheto", Israel Zangwill, de quem se torna muito amigo. Sua vida e personalidade servem de inspiração para um dos personagens da obra, o poeta Melchitsedek Pinchas, a quem Zangwill descreve da seguinte forma: "O poeta era magro, um homenzinho com longos cabelos negros. Sua face era muito bem esculpida. Seus olhos tinham um brilho astuto. Sempre tinha um maço de papéis, em uma das mãos, e um cigarro apagado, na outra". Era o retrato vivo de Imber.

Em 1892, o irrequieto Imber emigra para os Estados Unidos, país onde continua a escrever. Graças à sua personalidade singular e humor irônico, facilmente se tornava conhecido onde quer que aportasse. Muitas de suas excentricidades estão registradas na obra de Rebecca Kohut, intitulada "As I Know Them" (Da forma como os conheço). Na obra, a escritora conta que Imber presenteou o texto original do poema "Tikvatenu" ao seu filho, Dr. Alexandre Kohut, que, mais tarde, doou-o à biblioteca da Universidade de Yale.

Em 1902, seus irmãos, que ainda viviam em Zloczov, publicaram outra coletânea de seus poemas, com o título "Barkai HeHadash" ("A Nova Estrela da Manhã"). Infelizmente, grande parte das cópias da obra perderam-se em um incêndio. Em 1905, após o pogrom de Kishinev, foi publicado mais um volume de seus poemas, obra que o autor dedicou ao imperador do Japão - país que então estava em guerra com a Rússia. Cinco anos antes, Imber escrevera um pequeno livro, onde previa a guerra russo-japonesa e a conseqüente vitória do Japão. O forte anti-semitismo dos czares russos fizera dele defensor fervoroso do Império do Sol Nascente.

Em 1909, a boemia lhe cobra o seu preço. Doente, foi internado em um hospital nova-iorquino, em total pobreza. Mas, mesmo à beira da morte, pediu que cantassem o "Hatikva" e, ao ouvi-lo, levantou-se da cama para cantar. Contam que certa vez, ao ser expulso de um encontro do Movimento Sionista por estar provocando tumulto, teria bradado: "Podem expulsar-me; mas que cantem a minha música!".

Imber faleceu em 8 de outubro de 1909. Em seu enterro, milhares de judeus acompanharam-no cantando "Hatikva". Quarenta e quatro anos após sua morte, o Estado de Israel atendeu o pedido do poeta e seus restos mortais foram levados para Jerusalém.

O nome de Imber, no entanto, jamais foi tão conhecido quanto o poema, que se tornaria um dos principais sinônimos do Estado de Israel. Talvez ele tenha sido excêntrico, boêmio, um bon-vivant; mas foi, sem sombra de dúvida, um sionista apaixonado.

Seu nome viverá entre os grandes de Sion e de Israel. Sua canção levou esperança a milhões de pessoas e continua a inspirar o povo de Israel, até hoje.

Bibliografia:

"The Man Behind Hatikvah", publicado no livro The Jewish People Almanac, compilado por David C. Gross.

Artigo de Joseph Lowin, "Whose Hatikvah is it Anyway?" , National Center for the Hebrew Language, http://www.ivrit.org/html/literary/whose_hatikva.htm

http://www.jewishvirtuallibrary.org