Morashá
Meu irmão Jonathan

Meu irmão Jonathan

por Zevi Ghivelder

Quem hoje tem 40 anos de idade, ou está chegando aos 50, decerto não vivenciou aqueles dias tensos de junho e julho de 1976, portanto há quatro décadas, quando um avião da Air France, partindo de Tel Aviv, foi sequestrado por terroristas e levado para o aeroporto de Entebe, em Uganda. A aeronave conduzia 246 passageiros, dos quais 77 eram cidadãos de Israel. No dia 4 de julho, uma espetacular ação de comandos israelenses pôs fim ao cativeiro dos reféns.

Edição 93 - Setembro de 2016


Na operação disparada pelo exército de Israel para libertá-los só houve uma vítima fatal, o coronel Jonathan Nethanyahu, então com 30 anos de idade, justamente o comandante da tropa de elite que executou o extraordinário resgate.  A vida e a carreira de Yoni, como era chamado por seus familiares e amigos, estão registradas num livro escrito com ternura e admiração por seu irmão Iddo, seis anos mais moço do que Yoni, e três anos mais jovem do que seu outro irmão, Benjamin, atual primeiro-ministro de Israel. O relato de Iddo é mais focado nas qualidades de líder militar de Jonathan do que em recordações do convívio íntimo com os pais e irmãos. Neste sentido, ele se dedicou a uma exaustiva pesquisa sobre o resgate em Entebe, colhendo entrevistas com mais de 70 pessoas, entre civis e militares envolvidos na operação no aeroporto em Uganda, além de ter consultado centenas de documentos. De qualquer maneira, sua narrativa compõe um atraente perfil da personalidade e do caráter de Yoni, além de transcrever trechos de cartas por ele escritas e de acrescentar diversos pormenores que contribuem para enriquecer a biografia de seu irmão. Na verdade, o livro é mais eloquente para a memória de Jonathan do que seria uma estátua em praça pública ou quaisquer outras homenagens rotineiras.

Iddo é formado em medicina pela Universidade Hebraica de Jerusalém e fez doutorado em radiologia no Georgetown University Hospital, em Washington. Atualmente dedica a maior parte de seu tempo à literatura. É autor de cinco livros e de peças de teatro encenadas na Europa e na Rússia. A rigor, tudo aquilo que ele narra sobre Entebe assume a dimensão de palavra definitiva.

Jonathan Nethanyahu nasceu no dia 13 de março de 1946, em Nova York, onde seus pais, Benzion e Cela, atuavam na Organização Sionista. Benzion, renomado estudioso da história judaica, ali se encontrava na qualidade de secretário de Jabotinsky, formulador e líder do sionismo revisionista. Benzion assumira a chefia do movimento após a morte de Jabotinsky, em 1940. Logo após a proclamação da independência de Israel os Nethanyahu se fixaram em Jerusalém, onde nasceram Benjamin e Iddo. Anos mais tarde, a família retornou aos Estados Unidos onde Benzion intensificou suas pesquisas acadêmicas sobre os judeus na época da Inquisição, assunto a respeito do qual escreveu um livro que até hoje é tido como referência. Em 1964, depois de concluir o ensino médio em Filadélfia, Yoni voltou para Israel. Ao ter que prestar o serviço militar obrigatório, optou pelo corpo de paraquedistas. Três anos mais tarde, já aceito pela Universidade de Harvard, adiou a ida para os Estados Unidos e combateu na Guerra dos Seis Dias, tendo participado de batalhas no Sinai e no Golã. Em seguida,  antes de embarcar, casou-se com Tuti, sua namorada desde a adolescência. Os dois regressaram a Israel no ano seguinte e se matricularam na Universidade Hebraica onde Jonathan optou pelos cursos de matemática e filosofia. No entanto, antes de terminar esses cursos, decidiu reingressar no exército. Por suas qualidades, acabou assumindo o subcomando da unidade Sayeret Matkal, consagrado grupo de comandos a cujos integrantes chegam a ser atribuídas façanhas fantásticas que nem têm como ser confirmadas por motivos de segurança. Iddo não revela as ações das quais Yoni participou, mas sabe-se que esteve à frente do sequestro de oficiais sírios de alto escalão, dentro do próprio território sírio, que posteriormente foram trocados por pilotos israelenses prisioneiros em Damasco.

Em 1973, novamente resolveu estudar em Harvard. Divorciou-se de Tuti e, mais uma vez, teve que adiar seus planos em função da irrupção da Guerra do Yom Kipur. Neste conflito, Yoni foi condecorado após comandar uma operação que resgatou com vida o tenente-coronel Yossi Ben Hanan, que jazia ferido atrás das linhas inimigas. Dois anos depois foi nomeado comandante do Sayeret Matkal, posto que já fora ocupado por Ehud Barak, mais tarde primeiro-ministro de Israel. Esta era a função de Jonathan quando ocorreu o sequestro do avião da Air France. Conforme assinalei, para quem não acompanhou ao vivo os acontecimentos daquele fim de junho e começo de julho 1976, impõe-se fazer um resumo.

Era domingo, 27 de junho, dia da habitual reunião semanal do gabinete israelense. Assim, tanto o primeiro-ministro Rabin como os demais ministros foram informados ao mesmo tempo sobre o que acontecera com o Airbus da Air France. Os presentes à reunião foram incumbidos de diferentes tarefas como a do responsável pelas relações exteriores, Igal Allon, que entrou em contato com o ministro do mesmo nível em Paris. 

O Airbus pousou no aeroporto de Entebe às 3h15m da manhã de segunda-feira. Em Jerusalém, o ministro da defesa, Shimon Peres, ponderava com seus auxiliares, sem se dar conta de que estava sendo profético, que talvez fosse possível enviar até Uganda aviões do tipo Hércules, enormes, destinados ao transporte de carga e de tropas.

Na terça-feira, Peres recebeu uma lista com os nomes de terroristas presos em Israel, Alemanha,  França e Suíça, com a proposta  dos sequestradores de que todos,  num total de 53, fossem trocados pelos reféns. O prazo para a aceitação da proposta era o dia  1 de julho, às 14 horas. À noite, o chefe do Estado-Maior, Motta Gur, e o comandante da Força Aérea, Benny Peled, se reuniram com Peres. Sim, insistiu Peled, era possível fazer os Hércules voarem até Uganda sem escalas. Enquanto isso, no quartel do Sayeret Matkal, Jonathan falava a seus comandados: “Nossa missão será chegar de alguma forma até Entebe e libertar os reféns. Pode parecer exagero, mas sei que isto é possível”. Nenhum dos oficiais presentes fez qualquer pergunta. Pelo contrário. Falaram entre cochichos que fariam treinamentos, que ajustariam seus equipamentos e que tudo daria em nada porque o gabinete jamais aprovaria um plano tão sem base como aquele. Além disso, ficaram sabendo que o ditador de Uganda, Idi Amin, estava em conluio com os sequestradores, o que tornava qualquer iniciativa para o uso da força praticamente inviável. Às 11 horas da manhã de quarta-feira, dia 30, Peres, Gur e Peled decidiram convocar, para trocar ideias, dois militares nos quais depositavam total confiança: o general Dan Shomron e o coronel Jonathan Netanyahu. Ambos acabariam desempenhando funções cruciais em todas as etapas da operação de resgate. Mas, naquele momento, as opções ainda eram muito nebulosas.

No dia do prazo fatal, quinta-feira, soube-se que as renovações no aeroporto de Entebe, incluindo o velho terminal onde se encontravam os reféns, haviam sido feitas por uma companhia construtora israelense que logo forneceu às autoridades as plantas dos prédios do aeroporto. As coisas começavam a se clarear. Às dez horas daquela manhã o gabinete se reuniu para decidir, em princípio, se Israel empreenderia, ou não, uma ação militar. Enquanto o gabinete discutia, Dan Shomron elaborou um plano de ação de comandos que entregou a Peres às três da tarde. Este logo determinou que os comandantes do Exército e da Força Aérea traçassem um detalhado plano de entrosamento com vistas a uma incursão em Entebe, a chamada Operação Trovão.

O serviço de inteligência de Israel fez construir uma maquete, em tamanho real, das edificações no aeroporto de Uganda, que serviria para o treinamento dos homens do Sayeret Matkal. Na tarde daquele dia 2 de julho foram dados os retoques finais do plano de ação de resgate, que consistia em mandar três aviões Hércules até Entebe e mais um, do mesmo tipo, transformado em hospital voador. Motta Gur relutou, mas Shomron lhe disse que o mais importante de tudo era a manutenção do fator surpresa, tal como havia sido concebido, a partir de uma eficiente colaboração prestada por Yoni Nethaniahu, especialista em ações de comandos, sempre rápidas, contundentes e inesperadas. O general Gur objetou, arguindo que os Hércules estariam impossibilitados de aterrar em Entebe, nas pistas sem luzes do aeroporto. Foi a vez de Peled intervir: “Há muitos voos comerciais chegando e saindo de Entebe. Duvido que a torre de controle ugandense se preocupe em apagar as luzes das pistas”. Em seguida, um dos principais formuladores do plano de ação, o general Kuti Adam, teve uma excelente ideia: um dos Hércules deveria levar uma limusine preta, da marca Mercedes Benz, pois este era o tipo de veículo usado por Idi Amin em suas eventuais idas ao aeroporto. Se a Mercedes chegasse a rodar na pista de Entebe, a torre de controle acreditaria tratar-se do ditador ali chegando após participar de uma conferência fora do país. Enquanto isso, era febril a atividade de Yoni à frente do Sayeret Matkal. Os militares sob seu comando treinavam até a exaustão: como agiriam depois de atingir o terminal antigo do aeroporto e como usariam suas armas de modo a atingir somente os terroristas e a evitar ferimentos ou mortes entre os reféns.

A principal motivação de Jonathan era reduzir o tempo de duração de cada investida. Entre um exercício e outro a diminuição de apenas um minuto ou pouco mais era motivo de celebração. Pouco depois da meia-noite, Yoni deu o treinamento por encerrado e foi para casa a fim de dormir algumas poucas horas antes de voar rumo a Uganda. Sua nova mulher, Bruria, lembra-se de que o viu no chuveiro, com a água escorrendo sobre o corpo, encostado na parede e com os olhos fechados. Estava dormindo em pé. Ao escrever sobre este momento na vida de seu irmão, Iddo diz que, no começo do treinamento, Yoni estava um tanto desgostoso por causa de uma supervisão informal de seu trabalho feita por Ehud Barak que, àquela altura, já se havia aposentado do Sayeret Matkal. 
Assim, Jonathan respirou aliviado, e até se desdobrou, quando Barak foi enviado para o Quênia, com a missão de obter a permissão das autoridades para que os Hércules vindos de Uganda, depois do resgate, pudessem ser reabastecidos no aeroporto de Nairóbi. Se Barak não fosse bem sucedido, todo o plano da Operação Trovão seria jogado no lixo. Foi com enorme alívio que Rabin e Peres receberam seu comunicado de que estava tudo acertado com o governo do Quênia.

À uma hora da manhã de sábado, 3 de julho, Gur informou a Peres que tudo estava pronto para a operação salvo um pequeno ajuste, o hospital voador seria um Boeing acompanhando quatro Hércules designados para a missão. Em seguida, o primeiro-ministro Rabin indagou a Gur a que horas os aviões deveriam decolar. Resposta precisa: sairiam de Sharm El Sheik, ao sul de Israel, à uma hora da tarde. Rabin convocou uma reunião do gabinete para as 14 horas no sentido de obter a necessária aprovação para o ousado plano de resgate. Alguns ministros ficaram perplexos, mas, mesmo assim, aprovaram. Outros preferiam um acordo com os sequestradores mesmo que não fosse apenas para ganhar tempo. O gabinete ignorava que os Hércules já haviam acionado seus motores para partir rumo a Uganda, tomando o maior cuidado para não serem detectados pelos radares egípcios ou da Arábia Saudita já que estariam voando perto da Península Arábica e sobre grande parte do Mar Vermelho, costeando o continente africano. Um dos ministros perguntou a Gur quantas baixas ele calculava para aquela ação. Gur respondeu que antecipava poucas baixas para os militares israelenses, mas admitia que cerca de vinte reféns pudessem ser atingidos: “É impossível prever o número de mortos e feridos numa operação dessa natureza”. Depois de muita discussão, Rabin advertiu aos presentes: “Fiquem cientes de que se o resgate fracassar, nós todos teremos que renunciar aos nossos postos no governo”. Foi chamada uma votação na qual os ministros aprovaram em caráter unânime a Operação Trovão. Aquela tinha sido a mais angustiante decisão tomada por um governo de Israel desde a independência do país.

No Hércules 1 os militares estavam imprensados entre armamentos, equipamentos e dois veículos do tipo Land-Rover, que acompanhariam a Mercedes, tal como fazia Idi Amin. Os rapazes falavam pouco entre si e em voz baixa. A certa altura do voo puderam avistar o deserto saudita que se estendia até o Oceano Índico. A bordo, Jonathan e o oficial Muki se empenhavam em dar instruções detalhadas ao oficial Amos Goren que embarcara no último momento, substituindo um militar que adoecera. Anos depois, Goren recordou: “Foi no meio da explanação que Jonathan me dava que nos chegou a notícia de que o gabinete tinha aprovado a operação. Jonathan continuou a falar na maior calma como se fossemos fazer apenas mais um treinamento”. Em seguida, Yoni e Muki sentaram no banco da frente da Mercedes e o primeiro começou a ler um livro. (Iddo jamais conseguiu saber que livro era). Eles viram o oficial Amitzur colocar na antena da Mercedes uma pequena bandeira de Uganda. Amitzur se lembra de ter conversado com Yoni naquele momento: “Ele não me falou sobre o que faríamos no aeroporto de Entebe. Enfatizou, isto sim, como era importante tudo o que estávamos a ponto de fazer”.

Durante o voo, mais ou menos a cada vinte minutos, Dan Shomron e Netanyahu indagavam ao navegador sobre a exata posição do Hércules e o acompanhamento do plano de voo. Por enquanto tudo estava perfeito. Shomron lembra que a certa altura um oficial chamado Einstein começou a distribuir pedaços de bolo para os soldados. Yoni pegou o seu e mais um. Ofereceu-o ao copiloto, que lhe respondeu: “Não, obrigado, eu quero um pedaço do meio e não da ponta”. Shomron disse a Jonathan o que lhe passara pela cabeça naquele instante: “Se alguém ainda consegue ser arrogante numa hora como essa, é sinal de que estamos no bom caminho”. A bordo, Jonathan encontrou-se com o tenente-coronel Chaim Oren, a quem conhecia desde o tempo em que servira no corpo de paraquedistas. Conforme Iddo apurou, foi seu irmão quem disse, a certa altura da conversa: “Se ele estiver lá, eu vou acabar com ele”. - “Ele quem?” - “Ora, Idi Amin”. - “Você precisaria de autorização oficial para fazer isso”. - “Não vou pedir autorização a ninguém. Acabo com ele”. Essa atitude, segundo Iddo, era um traço marcante da personalidade do irmão: “Yoni achava que os fatos se justificavam por eles mesmos. Não era necessário procurar maiores explanações”.

Manobrando na direção oeste, os Hércules atingiram o continente africano sobre a Etiópia. Por causa da turbulência os aviões teriam que se aproximar da fronteira do Sudão, mas era pouco provável que os radares em terra viessem a constatar que se tratava de aviões israelenses. Nas proximidades do lago Vitória a tempestade era tão forte que os Hércules tiveram que subir até 40 mil pés. O Hércules-guia enfrentou a adversidade enquanto os três outros ficaram voando em círculos, esperando a tempestade amainar. Foi nessa quadra dos acontecimentos que Yoni começou a despertar seus homens que dormiam. Instruiu-lhes que rechecassem suas armas e munições, pois em poucos minutos estariam pousando em Entebe. E acrescentou para cada pequeno grupo de soldados: “Nada de ter medo. Nós somos o que há de melhor em matéria de ação militar”. De súbito, uma preocupação: onde estava Amitzur, que ninguém conseguia achar dentro do avião? Estava dormindo embaixo da Mercedes. Um dos comandos, Shlomo, também tinha uma preocupação: queria saber que roupa usar, se estava frio ou quente em Entebe. O copiloto informou-lhe: mais para o quente. O soldado Alik passou a maior parte do voo dormindo no banco traseiro de uma das camionetes. Quando foi acordado por Yoni, disse que estava morrendo de fome porque não comia desde a decolagem em Sharm El Sheik. Iddo não informa em seu minucioso relato se o rapaz encontrou algo para comer naquelas circunstâncias.

A enorme porta traseira do Hércules começou a ser aberta antes ainda que o avião tocasse o solo. Eram 23h1m de sábado, 3 de julho. O piloto não teve dificuldade para aterrar porque as luzes da pista estavam acesas. Os primeiros comandos que desceram do Hércules acenderam lanternas ao longo da pista para facilitar a chegada dos demais aparelhos caso as luzes viessem a ser apagadas. Yoni mandou que Amitzur pusesse para funcionar a Mercedes que, rapidamente, acompanhada pelas Land-Rovers, posicionou-se para seguir em frente na pista do aeroporto, na direção ao velho terminal onde se encontravam 105 reféns, mais a tripulação do Airbus.

No entanto, antes da limusine poder seguir o rumo traçado, Yoni percebeu a aproximação de duas sentinelas ugandenses, um pela direita e outro pela esquerda da Mercedes. Não hesitou em mandar que os dois fossem eliminados com silenciadores. Amitzur recordou: “O que mais me impressionou naquele momento foi a calma de Yoni”. À medida que os comandos começaram a avançar, tiveram que se proteger de rajadas vindas da torre de controle e de outras janelas do terminal novo. Com disparos precisos, Kuti Adam tirou dois soldados ugandenses para fora do combate.

Um dos sequestradores chegou até a porta do terminal e percebendo o que ocorria, engatilhou sua metralhadora, voltou para dentro e passou a atirar sobre os reféns. Foi atingido por dois tiros disparados por Adam. Isso permitiu que os comandos entrassem no terminal, eliminassem os terroristas, e gritassem para os reféns: “Todos deitados no chão! Somos nós! O exército de Israel! Vocês vão para casa!” No entanto, alguns reféns sequer se mexeram porque realmente não entendiam o que estava acontecendo. Enquanto isso, outro Hércules descia em Entebe, trazendo a segunda unidade de assalto, comandada por Shaul Mofaz, que viria a ser chefe do Estado-Maior e ministro da defesa de Israel. Competia-lhe a missão de eliminar quem estivesse na torre de controle, a rigor o único lugar de forte resistência no aeroporto. Mofaz e seus homens foram bem sucedidos. Antes, porém, em seus estertores, um soldado de Idi Amin postado na torre de controle, fez um disparo de fuzil na direção do pátio de manobras do aeroporto. Um só tiro que atingiu o coração do coronel Jonathan Netanyahu.

Por instinto, Kuti Adam correu até o pátio e ali encontrou um médico debruçado sobre Yoni. Pediu uma avaliação. O médico apenas murmurou: “É grave, é muito grave”. Desde a aterragem do primeiro Hércules até aquele trágico desfecho, pouco mais de três minutos haviam transcorrido. Na falta de Yoni, seu amigo Adam assumiu o comando do Sayeret e ordenou que os reféns fossem levados para o primeiro avião que deveria decolar logo em seguida. Ele temia que chegassem reforços de Kampala, a capital de Uganda, situada a poucos quilômetros do aeroporto. O Hércules levantou voo às 23h52m, ou seja, 51 minutos depois de sua chegada a Entebe, conduzindo os reféns, dentre os quais havia sete feridos, e o corpo inanimado de Yoni. Não tinha sido possível qualquer procedimento de fato eficaz para salvá-lo. Segundo o relato de Iddo, dois médicos militares tentaram de tudo para ressuscitar o comandante, porém a perda de sangue era irreparável. Um médico disse para o outro: “Não adianta”. Ao que este respondeu: “Tem que adiantar. É o Yoni...”

Há dez anos escrevi aqui para a revista um texto a propósito do  30o aniversário do resgate em Entebe. Acho importante reproduzir parte do último parágrafo, dado sua atualidade. Em setembro de 1976, dois meses depois da Operação Trovão, tive o privilégio de ser recebido para jantar com Itzhak e Leah Rabin em seu apartamento em Tel Aviv. Ao longo das conversas, Rabin insistiu em dois pontos: “Jamais, em qualquer circunstância, um estado soberano deve negociar com terroristas. E a principal lição de Entebe é nossos inimigos saberem que o braço de Israel pode ser muito longo”.

Bibliografia
Netanyahu, Iddo, EntebbeA Defining Moment in the War on Terrorism, editora Balfour Books, EUA, 2004.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista