Morashá
Memória de Entebe Foto Ilustrativa

Memória de Entebe

Há 30 anos, no dia 4 de julho de 1976, o exército e a força aérea de Israel completaram uma de suas mais ousadas e bem sucedidas missões: o resgate dos israelenses que, após o seqüestro de um avião, foram reféns de terroristas no aeroporto de Entebe, em Uganda.

Edição 53 - Junho de 2006


Quando, após dias de tensão, o Gabinete de Jerusalém deu o sinal verde para o ataque, o então Primeiro-Ministro Itzhak Rabin foi para casa e, para aliviar o estresse, decidiu jogar tênis com a mulher. Conforme ele mesmo me revelou, "nunca dei raquetadas com tanta violência".

Domingo, 27 de junho de 1976

O vôo número 763 da Singapore Airlilines aterrissou em Atenas, vindo de Bahrain, via Kuwait. Quatro de seus passageiros se dirigiram ao saguão de trânsito e ali aguardaram o vôo 139, da Air France, que deveria decolar de Tel Aviv, duas horas mais tarde, rumo a Paris, com escala na Grécia. Os 58 viajantes que seguiriam para a França passaram sem maiores problemas pela segurança do aeroporto de Atenas. O detector de metais não estava funcionando e os policiais davam pouca atenção ao fluoroscópio que revela o interior das bagagens. Dentre os quatro havia uma mulher de 25 anos com passaporte equatoriano em nome de Ortega, um rapaz louro com passaporte peruano identificado como Garcia e mais dos jovens de pele amorenada com documentos do Bahrain e do Kuwait.

O Airbus da Air France, com seus 246 passageiros, decolou de Israel às 12h20m, logo alcançando o vôo de cruzeiro de 31 mil pés de altura. Enquanto as aeromoças começavam a preparar as refeições, dois deles se posicionaram à frente da classe econômica com armas nas mãos e os demais atravessaram a primeira classe e entraram na cabine de comando. O louro empunhava um revólver na mão direita e uma granada na esquerda.

Poucos minutos depois do seqüestro do Airbus, conduzindo 77 cidadãos israelenses dentre os demais, a torre do aeroporto Ben Gurion e a gerência da Air France em Tel Aviv perderam o contato com o comandante francês, Michel Becos. A notícia foi logo passada para o primeiro-ministro Rabin e para os ministros dos transportes e da defesa que se encontravam na reunião dominical do gabinete.

Às 14hs, o Air France 139 entrou em contato com a torre do aeroporto de Bengazi, na Líbia, pedindo combustível para quatro horas de vôo e a presença na pista de um representante da Frente Popular de Libertação da Palestina. Em Jerusalém, Rabin convocou para uma reunião o ministro da defesa, Shimon Peres, o ministro das relações exteriores, Ygal Allon, o ministro dos transportes Gad Yakobi, o ministro da justiça Chaim Zadok e o ministro sem pasta Israel Galili. Qualquer decisão a ser tomada, caberia a este pequeno grupo. A Allon competiu a tarefa de contatar seu contra-parte na chancelaria de Paris, que deveria exigir a imediata libertação dos reféns, tendo em vista tratar-se de um avião de bandeira francesa. Gad Yakobi foi incumbido de contatar as autoridades internacionais da aviação civil, as famílias dos reféns e atender à mídia.

Segunda-feira, dia 28 de junho

O Airbus pousou no aeroporto de Entebe, em Uganda, às 3h15m da manhã. Em Israel, havia uma dúvida: seria Entebe o ponto final ou a viagem prosseguiria? Os ugandenses seriam cúmplices do seqüestro?

Ao meio-dia os reféns receberam ordem para deixar o avião e foram levados até o antigo terminal do aeroporto, passando por duas fileiras de militares ugandenses com armas apontadas. À tarde apareceu o ditador Idi Amin que lhes fez um discurso exaltando a Frente Popular de Libertação da Palestina.

Em Jerusalém, o ministro mais preocupado era Shimon Peres. Ele dizia que se Adi Amin estivesse envolvido no seqüestro, estaria configurando um gravíssimo precedente porque, até então, nenhum governante, em nenhuma circunstância, havia participado pessoalmente de uma ação daquela natureza.

No que dizia respeito aos setores operacionais das forças armadas de Israel, havia a certeza de que os imensos aviões Hércules, destinados ao transporte de carga e de tropas, poderiam chegar até Entebe porque já tinham feito várias vezes esse percurso. O problema básico era ter conhecimento das novas pistas do aeroporto e seus sistemas de radar e de iluminação.

Terça-feira, dia 29 de junho

A primeira e breve notícia sobre as identidades dos seqüestradores chegou a Jerusalém através do general Rehavam Zeevi (assassinado por terroristas palestinos em outubro de 2001), que se encontrava em Londres.

O grupo inicial de ministros tornou a reunir-se às 17hs, agora com a presença do general Motta Gur, chefe do estado-maior, que foi logo indagado por Rabin se havia algum plano em curso para libertar os reféns. Ainda não; diversas opções estavam sendo avaliadas. Pouco antes do encerramento da reunião, Allon e Peres receberam uma lista de terroristas encarcerados em Israel, na França, Alemanha, Suíça e no Quênia, cuja libertação era exigida pelos seqüestradores em troca dos reféns. Ainda naquela noite, Allon recebeu um telex que continha todos os detalhes pertinentes à troca e um ultimato para as duas horas da tarde do dia 1º de julho, hora de Israel, caso contrário o avião seria explodido junto com os passageiros.

Às 21hs, oficiais de alta patente mantiveram um encontro com Peres e Gur. O general da força aérea, Benny Peled, que desde os primeiros momentos estava debruçado sobre o problema, afirmou de forma categórica que, com certeza, era possível conduzir tropas sem escalas até Entebe.

Enquanto isso, em Uganda, o terrorista louro, que se chamava Wilfried Boese, anunciou aos passageiros que leria uma lista de nomes, sem preocupação de nacionalidades, e que os mencionados deveriam passar para um aposento contíguo. Entretanto, logo ficou claro que os nomes citados eram somente de israelenses e de judeus. Ao mesmo tempo, em Israel, estavam sendo convocados para se apresentarem aos serviços de inteligência todos os pilotos que algum dia haviam estado em Entebe e militares que tinham mantido contato pessoal com Idi Amin, que cumprira um treinamento militar em Jerusalém nos anos 60, época na qual a diplomacia israelense envidara esforços para se aproximar dos países africanos recém-independentes.

Quarta-feira, dia 30 de junho

À uma hora da manhã, Ehud Barak, vice-diretor dos serviços israelenses de inteligência, convocou todos os oficiais da força aérea que conheciam o aeroporto de Entebe. Horas mais tarde, coube a Shimon Peres reunir-se com os militares que haviam mantido contatos com Idi Amin com a intenção de melhor entender seu comportamento e personalidade. O amigo mais chegado a Amin era Burka Bar Lev, coronel aposentado, que telefonou para Kampala enquanto Peres ouvia a conversa na extensão. A instrução de Bar-Lev era exaltar o ego de Amin para ganhar o maior tempo possível em face daquela situação.

Às onze da manhã, o gabinete foi informado de que os governos da França e da Alemanha se recusavam a libertar os terroristas. No quartel-general da força aérea, Benny Peled e seus comandados concluíram que o vôo até Uganda seria possível sem que fosse detectado por radares. Naquela hora, em Entebe, 47 reféns não-judeus foram embarcados em outro avião da Air France que os aguardava, mas o comandante Becos e sua tripulação recusaram-se a acompanhá-los. À tarde, o grupo ministerial decidiu convocar dois militares nos quais depositavam total confiança: o general Dan Shomron e o coronel Yonathan Netanyahu, mais conhecido com Yoni. Ambos ignoravam os planos que estavam sendo traçados.

Às 19hs, Rabin encontrou-se com os editores dos principais jornais israelenses, informou-os sobre o ultimato e pediu-lhes o máximo de discrição na cobertura dos acontecimentos para não prejudicar os planos em andamento. Mais tarde, Rabin voltou a perguntar a Motta Gur se já havia algo de concreto. Ainda não. Enquanto isso, no aeroporto de Orly, em Paris, o ministro das relações exteriores da França, Jean Sauvargnargues, recebia os reféns libertados. Na mesma hora, em meio à confusão da chegada, agentes israelenses anotavam os nomes e os endereços dos passageiros livres em solo francês.

De madrugada, partiram rumo às casas dessas pessoas para interrogá-las. Quantos eram os terroristas? Como estavam vestidos e de que armas dispunham? Onde estavam reunidos os reféns remanescentes? Quando soldados ugandenses se encontravam no aeroporto e como se comportavam? De bom grado, obtiveram respostas para todas as perguntas. Em Tel Aviv, eram expostas opções ao ministro da defesa, Shimon Peres. A mais viável: um lançamento de pára-quedistas no lago Vitória, de onde seguiriam em botes até Entebe e de lá partiriam com os reféns em um avião já à sua espera, caso Idi Amin concordasse em permitir sua aterrissagem. Entretanto, o plano foi abandonado quando ficou evidente que o ditador de Uganda estava em conluio com os terroristas.

Quinta-feira, dia 1º de julho

Nas primeiras horas da manhã, soube-se que a renovação do aeroporto de Entebe, incluindo o antigo terminal, tinha sido feita por uma empreiteira israelense que forneceu as plantas em seu poder de ambos os prédios. No ministério da defesa, Peres cada vez mais se convencia de que a única opção possível era a militar, tão logo todas as peças do quebra-cabeças se encaixassem. Foi o que ele disse aos ministros com os quais conversou às 7h45m da manhã. O encontro terminou às 8h20m, ou seja, menos de seis horas antes do prazo do ultimato. O gabinete completo reuniu-se às 9hs. da manhã.

Rabin desculpou-se por uma breve ausência e seguiu para uma discussão com o comitê de relações exteriores do parlamento, ao qual apresentou a possibilidade de uma negociação com os terroristas. Do gabinete veio uma recomendação: valeria a pena negociar, desde que fosse apenas para ganhar tempo. O comitê, então, deu carta branca a Rabin para que ele agisse conforme julgasse mais eficaz. De volta à reunião do gabinete, Rabin colocou a questão em votação: cada ministro deveria votar sim ou não, sem a possibilidade de abstenção. A aprovação foi unânime no sentido da negociação como recurso para ganhar tempo. Como conseqüência, o coronel Burka voltou a telefonar para Idi Amin que concordou em mediar a prorrogação do prazo para a troca entre prisioneiros e reféns até as 14hs do domingo, dia 4 de julho. Àquela altura, restava um sério problema: informações consistentes sobre as novas pistas do aeroporto de Entebe e o percurso para a taxiagem dos aviões, pois os israelenses ali haviam estado pela última vez quatro anos atrás.

Às 10hs da manhã, enquanto o gabinete votava, o general Dan Shomron expunha a seu colega mais próximo, o general Kuti Adam, as primeiras opções para uma intervenção militar que, às 15h15m, foram apresentadas a Shimon Peres. Este ordenou que o exército se entrosasse com a força aérea e, às 18h30m, um plano mais detalhado, baseado no otimismo de Benny Peled, lhe foi apresentado. Peres aprovou e indicou Shomron para comandar a operação que, de imediato, convocou os responsáveis pelos serviços médicos e de comunicações. Um avião deveria ser transformado em hospital voador e as conexões entre os aviões entre si e a base em Tel Aviv teriam que ser perfeitas.

No quartel-general da força aérea, Peled começou a elaborar uma lista de pilotos e tripulantes, inclusive reservistas, dando preferência àqueles que já tinham cumprido vôos de longa distância sobre o continente africano. As tropas do exército deveriam ser constituídas pelos pára-quedistas comandados por Yoni Netanyahu, mais uma unidade de pára-quedistas e os militares de elite da brigada de infantaria Golani.

Ao longo da noite, Kuti Adam supervisionou a construção de uma maquete em tamanho real do aeroporto de Entebe, baseada em fotografias e nas plantas fornecidas pela empreiteira. O centro de computação recebeu uma coordenada: a ação deveria ser codificada como Operação Trovão.

Sexta-feira, dia 2 de julho

Na madrugada deste dia, o plano ainda não havia sido aprovado por Motta Gur, chefe do estado-maior. Às 8h30m, enquanto três aviões Hércules eram levados até junto da maquete, onde haveria um ensaio da operação, o plano final foi apresentado a Gur, que ainda tinha uma dúvida: os Hércules poderiam aterrissar no escuro, com segurança? Os pilotos responderam que a idéia era chegar ao solo entre a decolagem e o pouso de dois aviões comerciais; assim, em tão pouco tempo, os ugandenses provavelmente não se preocupariam em apagar as luzes das pistas. Motta Gur não se convenceu e pediu para voar num Hércules e verificar pessoalmente a sua capacidade de aterrissar no escuro. Quanto ao reabastecimento dos aviões, isso poderia ser feito em Entebe mesmo, tendo Nairobi, no Quênia, como alternativa. Às 10hs, Yoni comandou o primeiro exercício. Uma unidade atacaria o antigo terminal, enquanto outras estariam incumbidas da torre de controle do aeroporto e dos depósitos de combustíveis.

A principal preocupação era no sentido de garantir o fator surpresa, o que seria particularmente complicado. A unidade de ataque conduzida por um Hércules deveria cumprir um longo percurso até o antigo terminal, não podendo aproximar-se em demasia, a fim de evitar suspeitas, pois o caminho a ser percorrido entre a aeronave e o terminal apresentava grande perigo.

Foi então que o general Adam teve uma idéia. Telefonou para a sede do estado-maior, em Tel Aviv, e pediu que fosse providenciado um automóvel preto da marca Mercedes, tipo limusine. Ante o espanto geral, ele explicou que todos os oficiais de alta patente do exército de Uganda e o próprio Idi Amin usavam esse tipo de veículo, escoltado por duas camionetes Landrover, em suas incursões no aeroporto. Até que os ugandenses percebessem que aquela limusine tinha outra finalidade, seria tarde demais.

Às 17hs, Motta Gur embarcou num Hércules que voou para o sul, rumo à base de Ofir, onde pousou em plena escuridão, sem maiores problemas. Finalmente, o chefe do estado-maior se convencera. Enquanto isso, as unidades comandadas por Yoni repetiam os exercícios na maquete, diminuindo o tempo de ação a cada investida. Foi quando chegou o automóvel Mercedes que, para desespero de Adam era branco. Foi pintado de preto noite a fora.

Sábado, dia 3 de julho

À uma hora da manhã, Motta Gur telefonou para Shimon Peres e o informou de que tudo estava pronto para a operação. Às 8h45m os pilotos e tripulantes receberam suas instruções, enquanto um Boeing, em vez de um Hércules, recebia seus equipamentos hospitalares e uma equipe médica que, até então, não tinha a menor idéia da missão que lhe estava reservada. Israel fingia dar continuidade à negociação, propondo que a troca entre reféns e prisioneiros fosse efetuada em território neutro, de preferência Paris. Os terroristas recusaram. Às 11hs, o pequeno grupo ministerial reuniu-se em Tel Aviv, onde ouviu do general Gur todos os pormenores da Operação Trovão. Rabin perguntou-lhe a que horas os aviões deveriam decolar. Gur foi preciso: no máximo, à uma hora da tarde. Em seguida, foi convocada uma reunião de todo o gabinete, no qual alguns de seus membros ainda preferiam a negociação, mesmo sem a intenção inicial de ganhar tempo. Muitos ficaram atônitos quando Motta Gur especificou a planejada operação.

Às 13h20m, os Hércules, mais o Boeing, começaram os preparativos para decolar rumo a Ofir, na ponta sul do Sinai. Contudo, não iriam pleno sábado, chamaria percorrer a rota de sempre, nem partiriam juntos, porque o contorno habitual sobre o litoral de Tel Aviv, em à atenção. Alçaram vôo um de cada vez, tomando a direção do interior de Israel, mais tarde aterrissando em Ofir e, em seguida, voltando a decolar.

Na reunião do gabinete, Rabin mandou escondido um bilhete para Peres, sugerindo que os aviões poderiam decolar de Tel Aviv e, se fosse o caso, haveria tempo para ordenar seu retorno. Pelo sorriso com que Peres reagiu, Rabin percebeu que a Operação Trovão já estava em curso. Em meio à discussão reinante, o primeiro-ministro deu um basta e submeteu o gabinete à votação. A decisão mais uma vez foi unânime: Israel atacaria Entebe.

Rabin e Peres foram para casa, sabendo da longa e terrível noite que tinham pela frente. Rabin foi jogar tênis e, depois, para afastar suspeitas, telefonou para o general Zeevi, em Paris, pedindo-lhe que interviesse junto aos franceses no sentido de prorrogar o prazo do ultimato. Peres recebeu um grupo para jantar no qual se encontrava o editor de um dos principais jornais de Israel, conhecido por sua postura pacifista. Como quem nada queria, Peres perguntou o que, na opinião do jornalista, deveria ser feito na questão dos reféns de Entebe e ouviu a seguinte resposta: "Mande o exército!" Levou algum tempo até Peres convencê-lo de que tal ação seria impossível. Motta Gur preferiu permanecer na sede do estado-maior.

Manobrando na direção oeste, os Hércules atingiram o continente africano sobre a Etiópia. Por causa da turbulência, os aviões tiveram que chegar até perto da fronteira do Sudão, mas era pouco provável que os radares os identificassem como israelenses. Nas proximidades do Lago Vitória, a tempestade era tão forte que os aparelhos foram obrigados a subir até 40 mil pés. O Hércules-guia, cujo piloto até hoje não teve seu nome divulgado, enfrentou a adversidade, enquanto os demais voaram em círculo para evitar a tormenta. Era preciso chegar a Entebe na hora precisa.

Ao aproximar-se do aeroporto de Uganda, o Hércules percebeu que as luzes das pistas estavam acesas e pousou às 23h1m, com trinta segundos de atraso em relação ao plano. Assim que a porta traseira foi aberta, Yoni e seus pára-quedistas, acompanhados pela Mercedes e os Landrovers, lançaram-se na direção do antigo terminal. Um grupo de militares acendeu lanternas na pista, caso as luzes fossem apagadas.

Um soldado ugandense atirou contra Kuti Adam, que respondeu de forma certeira, matando-o. Um dos terroristas chegou até a porta do terminal e rapidamente voltou para dentro, engatilhou sua metralhadora e disparou sobre os reféns. O próprio Adam atingiu-o com dois tiros. À medida em que entravam no terminal, os soldados gritavam para os reféns: "Abaixem-se todos! Somos nós! O exército de Israel!" A segunda unidade de assalto saiu no encalço de um terrorista que descansava em outro aposento. Ao seu encontro vieram dois homens em trajes civis que, sendo tomados por reféns, não foram atingidos. Entretanto, um deles atirou uma granada e os dois foram mortos na mesma hora. A granada não explodiu. A terceira unidade, comandada por Netanyahu, incumbiu-se dos militares ugandenses que se encontravam no primeiro andar do prédio. Subindo as escadas, depararam-se com dois militares de Amin, que também foram mortos, de imediato. Enquanto os reféns eram acalmados e socorridos pelos israelenses, Kuti Adam foi chamado com urgência para o pátio de manobras. Ali encontrou um médico debruçado sobre Yoni, atingido nas costas por um tiro partido da torre de controle que perfurou seu coração. Desde a aterragem do primeiro Hércules até aquele momento, apenas três minutos tinham decorrido.

Guiados pelas lanternas acesas, chegaram outros dois aviões e o quarto Hércules, este destinado a transportar os reféns. Da sede do estado-maior em Tel Aviv, onde também se encontravam Rabin e Peres, Motta Gur conseguiu contato direto pelo rádio com Adam. Perguntou-lhe como tudo estava correndo e apenas ouviu: "Tudo bem. Estou ocupado. Não posso falar agora".

O Boeing médico pousara em Nairobi às 22h25m, de onde Peled avisou aos pilotos que o reabastecimento poderia ser feito no Quênia. Quando Adam sentiu que a situação estava segura e antes que os ugandenses mandassem reforços, ordenou que o Hércules se aproximasse do antigo terminal e deu início ao embarque dos reféns, cuidando para que cada família se mantivesse junta. Os últimos a embarcar foram o comandante Becos e sua tripulação. No solo do antigo terminal jaziam os corpos de seis terroristas, inclusive a jovem que portava um passaporte equatoriano.

O primeiro Hércules levantou vôo de Entebe às 23h52m, rumo a Nairobi. Havia sete reféns feridos, mais o coronel Yoni. Para trás ficou uma senhora judia, Dora Bloch, que havia sido conduzida a um hospital em Kampala e ali assassinada por ordem de Idi Amin.

Domingo, dia 4 de julho

Aos 40 minutos desse dia, o último avião deixava Entebe, enquanto o jovem coronel Yonathan Netanyahu não resistia ao ferimento fatal. Às três da manhã, durante o longo caminho de volta, um dos pilotos ouviu pela emissora de rádio do exército de Israel o que havia ocorrido em Entebe. Como a Operação Trovão poderia estar sendo anunciada antes ainda de finalizada? Aconteceu que a agência de notícias France Presse, com sede em Kampala, havia transmitido para todo o mundo os acontecimentos em Entebe.

No Hércules, em estado de choque e informados da morte do jovem coronel, os reféns não conseguiam manifestar qualquer sinal de alegria. Quando os Hércules sobrevoaram Tel Aviv, os pilotos ficaram surpresos com a multidão que avistavam nas ruas e lhes acenava com lenços brancos. Depois da euforia do desembarque dos reféns, Rabin perguntou a Adam como Yoni tinha morrido. Ouviu: "Ele foi o primeiro a avançar e por isso foi o primeiro a tombar".

Este relato é baseado num texto da autoria de Louis Williams, major da reserva do exército de Israel, e do que ouvi do próprio Rabin durante um jantar em seu apartamento, em Tel Aviv, em setembro de 1976, pouco depois, portanto, dos acontecimentos em Entebe. Ao longo da conversa, Rabin insistiu em dois pontos: "Jamais, sob qualquer circunstância, um estado soberano deve negociar com terroristas. E a principal lição de Entebe foi nossos inimigos saberem que o braço de Israel pode ser muito longo".

A Operação Trovão chama-se, agora, Operação Yonathan.