Morashá
Guerra de Yom Kipur: A luta pelo Sinai Foto Ilustrativa

Guerra de Yom Kipur: A luta pelo Sinai

O mais dramático confronto militar na história do Estado de Israel, a batalha pelo Sinai, foi decisiva para a vitória israelense na Guerra de Yom Kipur. O ataque-surpresa sofrido por Israel e a reviravolta extraordinária foram, respectivamente, o nadir e o ápice da história militar do país.

Edição 82 - Dezembro de 2013


Tel Aviv, 6 de outubro de 1973, Yom Kipur, 10 horas. Na “Sala de Crise”, estavam reunidos o Estado Maior israelense e seu chefe, o General David Elazar; os Comandantes Gerais do Comando Norte e Sul e Moshé Dayan, Ministro da Defesa. Na pauta, a informação que Zvi Zamir, chefe do Mossad, transmitira naquela madrugada: “a Fonte”, codinome de importante fonte egípcia, informara-lhe que Egito e Síria atacariam Israel, simultaneamente, antes do anoitecer. (V. Morashá 81).

Às 12h20, no Sinai, os israelenses captam uma mensagem transmitida por um posto da ONU, alertando sobre um iminente ataque da artilharia egípcia.

No Cairo, às 13h30, o presidente do Egito, Anwar el-Sadat e o ministro da Defesa, Hafiz Ismail, chegam ao “Centro Dez”, a partir de onde a guerra seria gerenciada. Meia hora depois, teria início a operação Badr.
Na Base de Tasa, no Sinai, às 14h, o Coronel Amnon Reshef ouviu, pelo rádio, o sinal de invasão de espaço aéreo pelo inimigo. O Egito iniciara o ataque.

Os aviões egípcios foram os primeiros a bombardear as linhas israelenses, seguidos por um intenso fogo da artilharia. As 14h15, na margem ocidental do Canal do Suez, homens da infantaria iniciavam a travessia do Canal. Três horas mais tarde, 32 mil egípcios já estavam na margem oriental, tendo estabelecido cinco cabeças-de-ponte. No início da noite, concluída a montagem de 12 pontes sobre o Canal, a primeira leva de tanques o atravessa. Na manhã seguinte, haviam atravessado o Canal 1.020 tanques – chegariam a 1.350 até o final do dia; 14.000 veículos militares e 90 mil homens. Às 14h, o número chegaria a 100 mil.

Para rechaçar o ataque egípcio, ao longo de uma fronteira de centenas de quilômetros, Israel contava com apenas 488 soldados, a maioria reservistas da Brigada Etzioni, e 291 tanques.

Os soldados estavam distribuídos em 16 postos fortificados ao longo da Linha Bar-Lev, que se estendia da costa mediterrânea até o Golfo de Suez. Era grande a distância entre um posto fortificado e outro, e isso iria facilitar a penetração egípcia no Sinai. Em apoio à Linha Bar Lev, Israel construiu um sistema de estradas. As três principais corriam no sentido norte-sul. A primeira, Lexicon Road (Estrada da Infantaria), ao longo do Canal, permitia que os israelenses se movimentassem entre as fortificações. A segunda, a Estrada da Artilharia, a uns 12 km do Canal, ligava áreas de concentração de blindados e bases logísticas. A Lateral Road (Estrada de Suprimentos), a 30 km do Canal, visava permitir a concentração de reservas operacionais. Violentas batalhas seriam travadas para o controle dessas estradas.

Os 290 tanques israelenses estacionados no Sinai faziam parte da 252ª Divisão de Blindados, comandada pelo General Avraham Mendler. Noventa e um desses tanques, a brigada do Coronel Amnon Reshef, estavam posicionados na zona do Canal e outros 200 na Estrada da Artilharia.

“Os judeus estão adormecidos”

Os relatórios da Inteligência egípcia sobre a falta de indícios de que Israel estivesse desconfiado das reais intenções de Sadat preocupavam o Alto Comando militar egípcio, que chegou a suspeitar de uma armadilha dos israelenses. Na noite de 5 de outubro, os batedores enviados ao lado israelense retornaram com a mesma mensagem: “Os judeus estão adormecidos”.

A verdade é que a Inteligência militar israelense (conhecida pelo acrônimo hebraico AMAN) monitorava as atividades egípcias. Mas, ao descartar, a priori, os indícios de que tanto Sadat como Assad se preparavam para uma guerra, a AMAN “desligara” o seu sistema de alerta. Sabia, por exemplo, do deslocamento para a margem do Canal de Suez de um grande contingente de tropas egípcias, de 300 caminhões repletos de munição e de baterias de mísseis superfície-ar, os SAMs, que ampliariam seu raio de defesa antiaérea sobre o Sinai. Mas, os atribuíra a um exercício militar que o Egito realizaria de 1 a 7 de outubro. Desconsideraram o fato de a primeira semana de outubro cair durante o Ramadã, durante o qual os muçulmanos praticam o seu jejum ritual. Jamais os egípcios realizariam um mero exercício militar nesse mês.
 
Nos dias que antecederam a eclosão do conflito, o General Mendler via com crescente nervosismo as movimentações egípcias. No dia 1º, um oficial da Inteligência o alertara sobre os fortes indícios de que o exercício militar egípcio culminaria com um ataque através do Canal. Mendler ficou ainda mais preocupado ao analisar fotografias aéreas tiradas no dia 4, mostrando uma concentração sem precedentes, na área do Canal, de tanques, infantaria e SAMs. Levou sua preocupação de que o Egito se preparava para guerra ao General Shmuel Gonen, se tornara o Comandante Geral do Comando Sul em julho do mesmo ano, quando o General Ariel Sharon deixara o posto. Gonen lhe respondeu que, segundo a AMAN, era apenas um exercício militar. Mesmo assim, Mendler colocou sua Divisão de Blindados em alerta máximo.

As primeiras horas

Nas primeiras horas da Guerra de Yom Kipur, a defesa da frente do Suez coube aos tanques da Brigada do Cel. Reshef e aos soldados estacionados nos fortes ao longo da Linha Bar-Lev.

Os tanques chegaram à sua posição de tiro em menos de 20 minutos, mas foram surpreendidos por uma saraivada de mísseis. Aguardava-os a infantaria egípcia, armada com mísseis antitanques Saggers. Durante três horas a brigada do Cel. Reshef lutou sozinha até a chegada das duas outras brigadas da Divisão do Sinai.

Nesse primeiro dia de Guerra, assim como no Golã, os israelenses lutaram com grande garra e coragem tentando impedir o avanço egípcio. Inúmeros atos de heroísmo foram registrados. Um único tanque fez frente a um pelotão de tanques egípcios durante 30 minutos. Para sua surpresa, os egípcios descobriram que toda a guarnição do tanque estava morta, à exceção de um homem, ferido, que lutara sozinho.

As guarnições nos fortes resistiram como e enquanto puderam, mas nem mesmo as mais experientes unidades de combate teriam feito qualquer diferença dada a assombrosa superioridade numérica dos egípcios.

Os aviões da Força Aérea de Israel (FAI) também não conseguiram deter os egípcios. O fogo intenso dos mísseis antiaéreos SAM-6 os impedia de sobrevoar as posições egípcias para destruir as pontes sobre o Canal. Apesar do perigo, executaram 120 saídas. Quatro Phantoms foram perdidos nas primeiras horas de guerra.

Domingo, 7 de outubro

Após um dia de Guerra, os israelenses não tinham o que comemorar. Embora tivessem infligido perdas aos egípcios, a operação Badr seguia avançando. Os egípcios passavam, desimpedidos, entre os enormes vazios entre fortificações. Pelotões israelenses haviam sido emboscados e dizimados e 153 tanques da Divisão do Sinai, foram postos fora de combate. A situação dos homens nas fortificações da Linha Bar-Lev também era precária, e as baixas, pesadas. As FDI fizeram várias tentativas para alcançar os fortes cercados para resgatar os sobreviventes, sofrendo pesadas perdas. Os que conseguiram abandonar os fortes retornavam a pé para as linhas israelenses.

O Comando Sul acreditava que a situação seria revertida com a chegada de duas divisões de reserva de blindados. A 162ª, comandada pelo General Avraham “Bren” Adan, que iria atuar no norte do Sinai; e a 143ª, sob as ordens do General Ariel “Arik” Sharon, no sul.

O General Mendler e os oficias sentiram-se aliviados quando viram Sharon entrar na sala de guerra, em Refidim, principal base no Sinai. Mendler relatou que os egípcios já estavam a 8 km a leste do canal. Relatou, também, que Israel sofrera muitas baixas e que sua Divisão perdera mais da metade dos tanques. O que restava da brigada de Reshef estava enfrentando a linha de frente do Segundo Exército egípcio, e a brigada de Shomron, a do Terceiro Exército.

Em suas memórias, Sharon conta suas impressões ao chegar à base de Tasa: “Vi algo estranho em seus rostos, não medo, mas perplexidade. De repente, algo lhes acontecia como nunca antes (...) uma geração que nunca experimentara uma derrota. Agora estavam em estado de choque. Como era possível que os egípcios estivessem avançando e, nós, sendo derrotados?”

Para Sharon, Israel só tinha um caminho – contra-atacar com força total, com duas divisões de blindados, antes que os egípcios reforçassem suas cabeças-de-ponte. Seu objetivo, escreveria Sharon, era “criar nos árabes uma psicologia de derrota, vencê-los todas as vezes e arrasá-los de uma forma tão categórica que eles ficassem convictos de que jamais venceriam”.

Começo dos contra-ataques

O General Elazar ficou exultante ao saber da rápida chegada de duas divisões de reserva de blindados à frente do Sinai. O Alto Comando decidiu que Israel iniciaria um contra-ataque na 2ª feira de manhã, apenas 36 horas após o início da guerra. Elazar acreditava que seria possível bloquear os egípcios. “Por que não deveríamos vencer?” afirmara. “Os comandantes de divisões e de brigadas são os nossos melhores soldados. Arik (Sharon), Bren (Adan), Albert (Mendler) são a liga principal das FDI... todos tão experientes em combate, todos conhecem tão bem o Sinai...”.

De acordo com o plano traçado por Elazar, as duas divisões, cerca de 600 tanques deveriam participar do contra-ataque. Sharon se incumbiria de arrasar o Terceiro Exército no Sul; atravessaria então o Canal sobre uma ponte egípcia e estabeleceria uma linha de defesa de cerca de 20 km a oeste. Adan faria mais ou menos o mesmo no Norte.

As 2 h da manhã do dia 8, Israel iniciou o contra-ataque. O General Gonen, porém, abandonou o plano do General Elazar, fato que custaria muito caro. Suas ordens não eram claras e mudavam constantemente. Queria que Adan, com apenas meia divisão e virtualmente sem artilharia e suporte aéreo, enfrentasse três divisões egípcias. Para piorar a situação, através de uma série de ordens e contra ordens, Gonen fez a Divisão de Sharon passar a maior parte do dia se movimentando em círculos, sem conseguir enfrentar o inimigo.

As informações que Adan recebia dos comandantes de suas brigadas eram alarmantes. “Eles estão vindo em uma frente muito ampla e em número assustador”; “Não temos força suficiente”, avisavam pelo rádio. Seu maior medo se tornara realidade: seus tanques estavam atacando a principal cabeça-de-ponte do Segundo Exército sem cobertura da artilharia ou da Força Aérea. Estavam completamente sós. No meio da batalha Adan se perguntava se no final do dia ainda lhe restaria uma divisão sequer.

Como em um pesadelo, numa inacreditável sequência de erros provocada pela total desconexão entre o Comandante Geral e as forças no campo de batalha, Israel perdera a chance de destruir as cabeças-de-ponte egípcias.

Sharon estava furioso, pois acreditava que Israel perdera uma oportunidade de mudar o rumo da guerra. Ele acreditava que ainda era possível vencer os egípcios, mas precisava de uma ação radical – e duvidava que aqueles que estavam à frente da guerra fossem capazes de fazê-lo. Acreditava que as FDI deviam cruzar o Canal sem demora.

Ao ser informado de que o contra-ataque fora um grande fiasco, Elazar ordenou ao Comando do Sul que restringisse suas ações, nos dias seguintes, a ações defensivas, enquanto as forças se reestruturavam. As FDI iriam concentrar-se seus esforços em derrotar a Síria no Golã.

O dia 8 de outubro ficaria gravado na memória como o pior da História Militar de Israel; um golpe profundo na autoconfiança de suas forças armadas. O fracasso do contra-ataque no Sinai, juntamente com a derrota da Brigada Golani na tentativa de retomada do Monte Hermon, na manhã daquele mesmo dia, no Golã, mostrara que a estratégia de guerra deveria ser revista de imediato. O futuro dependia das lições a serem extraídas desse dia agonizante.

A “fenda” na frente egípcia

Em pouco mais de 24 horas após o desastre de 8 de outubro, Israel encontrou a chave que reverteria o curso do conflito na Frente Sul.

O Cel. Amnon Reshef, então à frente da 14ª Brigada da Divisão de Sharon, após penetrar o setor chamado de “Fazenda Chinesa”1, enviou um batalhão de reconhecimento à área que demarcava a fronteira entre o Segundo e o Terceiro Exército egípcios.

O Segundo Exército havia cruzado o Canal, ao norte do Grande Lago Amargo, e o Terceiro Exército, ao sul. O Segundo Exército negligentemente descansara seu flanco sul na Estrada Tirtur, e não na extremidade do lago. Isso deixou quase 2 km do Canal de Suez desprotegido – a área entre Tirtur e o lago.

Ao receber a informação Sharon se deu conta de que o batalhão descobrira uma “fenda” entre o Segundo e o Terceiro Exércitos. A área era suficientemente ampla para permitir que sua divisão pudesse avançar até o Canal sem ter que abrir caminho através da cabeça-de-ponte egípcia. A “fenda” chegava até o Forte Matsmed, onde Sharon, quando era Comandante Geral do Comando Sul, preparara uma área para uma travessia do Canal. A descoberta iria mudar o curso da guerra.

Dia 12 de outubro

Sexta-feira, 12 de outubro foi um dia de decisões vitais em Tel Aviv e no Cairo.

Em Tel Aviv, o General Elazar reuniu-se com os oficiais seniores para decidir a próxima etapa da Guerra de Yom Kipur. Depois de oito dias de Guerra, iriam concentrar-se no front egípcio. A luta no Golã chegara a um impasse, e se era para ocorrer uma virada estratégica no curso da Guerra, seria no Sinai.

Elazar não acreditava que Israel teria como derrotar o Egito, a curto prazo. Seu objetivo era conseguir um cessar-fogo estável que permitisse reconstruir suas forças armadas, mas estava convencido de que Sadat não o aceitaria a não ser que fosse sacudido por alguma ação militar drástica. Elazar estava inclinado a autorizar uma travessia do Canal, porque “não lhe ocorria outra forma de provocar Sadat”. Mas era uma ação de risco. Entre outros motivos, o Egito ainda tinha estacionado duas divisões de blindados do outro lado do Canal...

O General Bar-Lev, que após o desastre do dia 8 assumira o Comando Sul, também acreditava que essa operação desequilibraria os egípcios. Naquela tarde, os Generais Elazar e Bar-Lev e outros membros do Estado-Maior, além do chefe do Mossad, Zvi Zamir, reuniram-se com Golda Meir e Dayan e os outros ministros do Gabinete. Elazar queria a aprovação política para o cruzamento do Canal de Suez. Durante a reunião, Zamir recebeu informações de um agente do Mossad no Cairo de que os egípcios se preparavam para atacar as Passagens de Gidi e Mitla no sábado, 13, ou no domingo, 14.

Elazar não poderia esperar por melhores notícias – o ataque egípcio poderia mudar o curso da guerra. Fossem quais fossem os traumas que os Saggers tinham infligido às FDI, estas não tinham perdido a confiança em sua habilidade para lidar com os tanques inimigos.

O dia 10 de outubro foi também decisivo para os egípcios. As forças armadas tinham atingido o objetivo determinado por Sadat – uma posição segura a partir da qual ele poderia obter a retirada de Israel do Sinai através da diplomacia.

Mas, um apelo de Assad pedindo a Sadat para atacar Israel e assim diminuir a pressão das FDI sobre Damasco iria mudar os rumos da guerra. O contra-ataque das FDI no Golã não conseguira tirar a Síria da guerra, mas, ao forçar Damasco a pedir ajuda ao Egito, acabou dando aos israelenses o que estavam esperando – uma grande batalha de tanques no Sinai.

O Alto Comando egípcio opunha-se fortemente à ideia de suas forças armadas tentarem tomar as Passagens de Gidi e Mitla. Todos concordavam que muito provavelmente o ataque mudaria o rumo do conflito a favor de Israel. Eles estariam ainda mais preocupados se soubessem que os israelenses já estavam cientes do ataque e estavam se preparando.

Mas, Sadat estava decidido. Naquele dia ele rejeitara mais um cessar-fogo, acreditando que o Egito controlava o campo de batalha e que teria uma vitória memorável sobre Israel.

Batalha do Sinai

Era grande a expectativa do Alto Comando israelense, pois acreditavam que uma batalha de tanques poderia reduzir significativamente a força egípcia no Sinai. Se isso acontecesse, a decisão de Israel de cruzar o Canal e levar a guerra para território egípcio não seria apenas uma manobra para convencer Sadat a aceitar o cessar-fogo – poderia ser a chave para vencer o confronto.

Na alvorada de domingo, 14 de outubro, os egípcios iniciaram o ataque ao longo da Estrada da Artilharia, mas dessa vez os israelenses os estavam esperando. No norte, a Divisão do General Adan forçou os egípcios a recuarem até suas posições iniciais; no centro a do General Sharon infligiu pesadas perdas ao inimigo e no sul a do General Magen contivera o avanço egípcio rumo às Passagens de Gidi e Mitla. Tanques e soldados egípcios que saíram do escudo protetor das baterias SAMs foram castigados pela força aérea israelense. Na Batalha do Sinai, o Egito perdeu 260 tanques e Israel 20.

Depois da semana mais difícil até então registrada na história do país, Israel tinha motivos para celebrar.

Operação “Homens Intrépidos”

Ganha a Batalha do Sinai, o general Elazar deu início à operação “Homens Intrépidos”. O plano era atravessar o Canal de Suez e surpreender os egípcios. A operação era tão ousada quanto arriscada e seu sucesso dependia em grande parte da iniciativa dos comandantes.

Desde 7 de outubro, Sharon pressionava o Alto Comando para obter a permissão de cruzar o Canal, e agora sua divisão recebera a missão de liderar a operação. Sua habilidade intuitiva de rapidamente avaliar uma complexa situação militar lhe seria de grande benefício nos dias que se seguiriam. As lideranças militares decidiram que as FDI cruzariam o Canal em Matsmed, um ponto fortificado abandonado, da Linha Bar-Lev, a cerca de 800 metros ao sul da Fazenda Chinesa, onde os egípcios estavam entrincheirados. Mais precisamente em um local conhecido como o “Pátio”. Protegido por muros de areia, o local havia sido preparado por Sharon enquanto era Comandante Geral para abrigar os equipamentos pesados e volumosos das pontes, caso Israel decidisse atravessar o Canal. Em sua volta haviam sido abertas estradas para facilitar o acesso ao local: a Akavish ligava o “Pátio” à base de Tasa, e a Tirtur o ligava a Matzmed.

Por uma feliz coincidência o Pátio estava localizado na “fenda” que existia entre o Segundo e o Terceiro Exército egípcios. Os israelenses não teriam que lutar para abrir o caminho através das cabeças-de-ponte inimigas, porém precisariam criar um corredor seguro que permitisse o trânsito de tropas e peças para montar as pontes sobre o Canal.
Caberia à divisão de Sharon tomar o Pátio, abrir as estradas de Akavish e Tirtur; proteger o local da travessia de uma intervenção egípcia e estabelecer uma cabeça-de-ponte do Canal até Deversoir. Para manter a estrada de Tirtur aberta, os israelenses teriam que desalojar os egípcios da Fazenda Chinesa.

Uma vez que as pontes sobre o Canal estivessem prontas, a divisão do General Adan atravessaria o Canal e, em seguida, a do General Magen.

A Batalha da Fazenda Chinesa

Sharon elaborou um plano complexo para suas brigadas abrirem o caminho de modo que o equipamento necessário para a travessia chegasse rapidamente ao Pátio. Na tarde do dia 15, ele enviou a Brigada do Coronel Raviv para atacar os egípcios, enquanto a do Coronel Reshef seguiria pela “fenda”, avançando no coração das linhas egípcias. Suas ordens eram capturar o Pátio, abrir a estrada de Akavish e tomar a Fazenda Chinesa.

Os israelenses conseguiram avançar 32 km antes de serem detectados pelos egípcios. Depois de alcançar a Estrada Lexicon, a unidade de reconhecimento tomou facilmente Matzmed, o Pátio e a Estrada de Akavish. Mas, o Coronel Reshef sabia que, para tomar a Fazenda Chinesa, sua Brigada teria que enfrentar uma batalha violenta, da qual poucos sairiam incólumes.

A luta pelo controle da Fazenda Chinesa, assim como no cruzamento das Estradas Tirtur e Lexicon, foi feroz. Egípcios e israelenses lutaram incessantemente durante dez horas sem divisórias que separassem “nós” “deles”. Fora uma noite surreal. Ao amanhecer, havia tanques israelenses e egípcios carbonizados enfileirados e corpos largados na areia. Ainda assim, tanto a Fazenda como Tirtur ainda estavam em mãos egípcias.
Nos dias seguintes, os israelenses continuaram a lutar. Israel precisava, a qualquer preço, manter abertas as estradas, caso contrário não haveria pontes, e, sem pontes, não haveria travessia sobre o Canal. Com os homens da Divisão de Sharon exaustos e sem munição, a Divisão do General Adan continuou a luta.

A Batalha da Fazenda Chinesa, que se estendeu até o dia 17, foi uma das mais brutais da Guerra de Yom Kipur. As duas brigadas israelenses mais envolvidas sofreram mais de 50% de baixas. Sharon, que perdeu mais de 300 homens e 70 tanques durante a batalha, escreveu que ao chegar ao local viu “centenas e centenas de veículos queimados, retorcidos… Aqui e ali, tanques egípcios e israelenses tinham destruído uns aos outros a poucos metros de distância… Dentro dos tanques e próximos a eles estavam suas guarnições, todos mortos… Nenhuma fotografia poderia captar o horror da cena”.

Exaustos pelos violentos combates, os egípcios desocupam a Fazenda Chinesa e a estrada Akavish e os equipamentos das pontes de pontões conseguiram chegar ao Canal. Sob intenso ataque aéreo egípcio são montadas as pontes flutuantes.

Com a abertura da estrada Tirtur, consegue chegar até o Pátio uma ponte rolante pré-fabricada. Idealizada para ser usada no caso das FDI precisarem atravessar o Canal, pesando por volta de 400 toneladas e medindo 200 metros, a ponte rolante foi fundamental para o sucesso da operação. A ponte chegou ao Pátio no dia 17, mas ficou operacional nas primeiras horas do dia 19.

“Acapulco”

Na noite de 15 para 16 de outubro, enquanto a batalha pela Fazenda Chinesa era travada, Sharon ordenou ao Coronel. Dani Matt que atravessasse com seus homens o Canal de Suez. Não queria atrasar a operação e, vendo que as pontes de pontões não chegariam a tempo, Sharon mandara trazer botes anfíbios.

Os relógios marcavam 1h35 quando as primeiras forças de Israel a bordo dos botes anfíbios chegaram ao lado oriental do Canal, no lado da “África”. Na mesma hora, nos quarteis generais de Sharon no Comando Sul e em Tel Aviv, oficiais ansiosos ouviram pelo rádio a voz de Matt dizendo: “Acapulco”, o código para “sucesso”.

Após atravessar, com 27 tanques e sete APCs (veículos blindados para transporte de pessoal), os israelenses se movimentaram rapidamente em terra. Às 8h00 da manhã do dia 16, a cabeça-de-ponte israelense já atingira 5 km de profundidade. A Brigada do Coronel Erez, composta de 21 tanques, juntou-se à de Matt – o objetivo era destruir as baterias SAMs. Por alguns dias a forças israelenses não encontraram resistência.

Com sua divisão, o General Adan, aproximou-se do Canal de Suez à meia-noite de quarta-feira. Antes do amanhecer do dia 18, Adan já tinha duas brigadas de tanque do lado egípcio do Canal. O objetivo da Divisão era a Cidade de Suez, a 56 km ao sul, para onde convergiam as rotas de suprimento do Terceiro Exército. Mas, um ataque desimpedido já não seria possível. Para a divisão de Adan avançar além da cabeça-de-ponte israelense teria que lutar.

Depois de ter cruzado o Canal, a Divisão de Sharon dirigiu-se ao sul em paralelo à de Adan, para depois atacar ao norte, na direção de Ismailiya.
Numa reunião do Alto Comando, na quinta-feira dia 18, o consenso entre os presentes era de que a fase da guerra de sobrevivência já terminara para Israel; e que o Egito teria que pagar um preço por ter iniciado a guerra. Na frente síria, isto já tinha sido alcançado ao empurrar os sírios bem além da linha anterior de cessar-fogo. No caso do Egito, um cerco ao Terceiro Exército seria o final ideal para a Guerra de Yom Kipur.

Para tanto, as FDI teriam que deslocar para a África todas as forças de combate disponíveis. Em 19 de outubro, as divisões de Adan e Magen iniciam seu avanço para isolar o Terceiro Exército egípcio. Ao avançar, os blindados esmagam as posições egípcias e aniquilam as baterias SAM.

Simultaneamente, brigadas da Divisão de Sharon prosseguem para o norte ao longo da margem ocidental do Canal, em direção a Ismailya, com o objetivo de isolar o Segundo Exército e destruir sua retaguarda, artilharia e instalações de SAMs. Mas Sharon foi-se deparando com férrea resistência, pois os egípcios sabiam que o destino do Segundo Exército estava em suas mãos.

O cessar-fogo

Por alguns dias, a presença israelense na margem ocidental do Suez não despertou alarme no Alto Comando Egípcio. Quando o General Shazly fez uma última tentativa de persuadir Sadat a transferir quatro brigadas da margem oriental a ocidental, Sadat respondeu que não ia mover um único soldado.

Mas quando entendeu que havia motivo de preocupação, ele soube que já não podia mais protelar o cessar-fogo se não quisesse que o cenário que construíra tão cuidadosamente explodisse em seu rosto. Uma semana antes, era Elazar quem buscara avidamente um cessar-fogo. Agora era a vez do Comandante-em-chefe do Egito...

O Presidente Sadat aceita a oferta soviética de intermediar um cessar-fogo, dizendo que o aceitaria nas linhas existentes – uma mudança de direção em sua insistência anterior de que um cessar-fogo fosse vinculado à retirada israelense às fronteiras de 1967. Sadat imediatamente comunicou ao Presidente Assad a sua decisão. O presidente sírio ficou furioso, mas percebeu que não poderia lutar sozinho.

Os soviéticos não perderam tempo. Mais dos que os americanos, não estavam dispostos a arriscar por causa do conflito armado entre árabes e Israel a détente em que tanto se haviam empenhado.

Seu Embaixador em Washington, Dobrynin, ligou para Henry Kissinger, Secretário de Estado americano, na sexta-feira, dia 19, pela manhã, com uma mensagem urgente de Brezhnev para o Presidente Nixon.

Kissinger, que, no decorrer da guerra, pressionara Israel a reconquistar os territórios que havia perdido, sabia da importância de deter a guerra, mas não antes que Israel tivesse avançado o bastante para, no mínimo, igualar estrategicamente as conquistas árabes. Kissinger avisou Dayan que adiaria a implementação do cessar-fogo o máximo que pudesse, pressionando-o a agir rapidamente para recuperar a posição de superioridade, ao menos em uma das frentes.

Kissinger chega no sábado, 20, a Moscou para negociar os termos do cessar-fogo com Leonid Brezhnev. Quando as negociações se iniciaram, no domingo, levou apenas quatro horas para chegarem num acordo que atendesse cada uma das exigências de Kissinger. O cessar-fogo entraria em vigor doze horas após o Conselho de Segurança da ONU adotar sua resolução.

Mais do que nunca, uma dimensão política agora guiava Dayan ao ponderar as ações militares. Ele queria que as FDI mantivessem uma linha de frente sólida no lado africano do Canal, de Ismailiya ao Suez, quando a luta cessasse. Isso contrabalançaria os ganhos egípcios na margem do Sinai.

Elazar não estava certo se as FDI poderiam completar o cerco ao Terceiro Exército no tempo disponível. O resultado da guerra dependia agora mais de Kissinger do que das FDI.

Na reunião do Gabinete, no sábado à noite, Dayan afirmou que se aproximava o fim daquela guerra de duas semanas. “Uma guerra que se iniciou empurrando-nos para fora da margem oriental do Canal do Suez e que termina conosco assentados na margem ocidental, em uma tremenda vitória”.

O General Elazar ia de helicóptero para o Comando Norte, monitorar o ataque ao Monte Hermon, quando recebeu ordens de retornar imediatamente a Tel Aviv, pois chegara a notificação de Kissinger acerca do iminente cessar-fogo. Em Nova York, o Conselho de Segurança adotara uma resolução de cessar-fogo que entraria em vigor em 22 de outubro às 18:52h, hora de Israel. O país tinha 12 horas para tentar quebrar a espinha dorsal do exército egípcio.

Encontrando-se com Dayan, Elazar concorda que, no tempo que lhes restava, Adan continuaria em sua tentativa de cercar o Terceiro Exército, mas o mais importante era completar a recaptura do Monte Hermon, no Golã.

A Divisão de Sharon prosseguia para o norte, capturando as pontes na principal estrada de Ismailya a Suez, através do Canal de Água Doce, quando o cessar-fogo entra em vigor e sua Divisão recebe ordens de permanecer onde estava.

O cessar-fogo deixava as unidades egípcias e israelenses misturadas. A situação convidava a que ocorressem violações no cessar-fogo.Às 8h do dia seguinte, Elazar informa a Dayan: “Ontem à noite, os egípcios destruíram nove de nossos tanques e agora estão atacando vários lugares, tentando reconquistar territórios. Quero informar ao Comando Sul que estão livres para agir no setor do Terceiro Exército”. Dayan deu sua aprovação apesar de saber da forte pressão que imediatamente desencadearia por parte das superpotências. Com sua aprovação foi retomada de uma ofensiva intensa nesse setor.

Quando foi cortada a última ligação de estrada com os 30.000 homens do Terceiro Exército no Sinai, uma importante nova realidade estratégica tinha sido imposta no front egípcio, com implicações de longo alcance. Para Israel, o cerco ao Terceiro Exército era alimento psicológico do tipo que eles buscavam, desesperadamente, desde Yom Kipur, uma reafirmação de força após o mais severo teste de sua história.

Em 25 de outubro, duas outras resoluções do Conselho de Segurança, pedindo uma volta do cessar-fogo, levaram a Guerra de Outubro ao fim. As baixas israelenses no Sinai foram pesadas: 2.687 mortos (metade, guarnições de tanques); 7.251 feridos. Apesar da desastrosa abertura da guerra para Israel, no final, Israel saiu com mais território do que no início – mais território, de fato, do que jamais tivera.

Bibliografia:
Rabinovich, Abraham, The Yom Kippur War: The Epic Encounter That Transformed the Middle East, Ed. Schocken
Dunstan, Simon e Lyles Kevin, Yom Kippur War 1973: The Sinai, Osprey

A Guerra do Yom Kipur se iniciou com um ataque-surpresa, mas a História, a mestra do paradoxo, providenciou um final ainda mais surpreendente. Israel não apenas emergiu vitorioso do conflito, mas a guerra plantou as sementes de um futuro acordo de paz, que, por mais frágil que fosse, foi duradouro. Nem mesmo Sadat poderia ter tido a visão tão surrealista de sua ida, alguns anos mais tarde, a Jerusalém. Para o Egito, apesar da derrota, a guerra foi uma importante realização. As vitórias iniciais restauraram o orgulho egípcio, permitindo ao país firmar o acordo de paz com o Estado Judeu. Já para Israel, a guerra foi um terremoto existencial: o trauma do ataque sofrido, perpetrado pelo Egito e Síria, não foi um pesadelo a ser esquecido, uma página a ser virada na História. Mas, muito pelo contrário, uma memória nacional que deve ser perpetuada, por ser um lembrete permanente dos perigos inerentes a atitudes complacentes. A reviravolta de Israel no campo de batalha simboliza a coragem e audácia de um povo que tem a extraordinária capacidade de superar as maiores dificuldades, mesmo em meio ao caos. Acima de tudo, é prova do sacrifício de seus jovens, que nas horas mais sombrias na História de Israel, defenderam a pátria com bravura e absoluto sacrifício.