Morashá
A incrível história do Instituto Ayalon Simulação da fabricação da munição

A incrível história do Instituto Ayalon

Décadas de 1930-1940, Eretz Israel, anos marcados pela luta dos pioneiros sionistas contra os árabes e o domínio inglês pela criação de um Estado Judeu na região. Encurralados, por um lado, após a instauração do Livro Branco1, e pela rígida legislação do Mandato Britânico restringindo a imigração judaica e, pelo outro, pela crescente violência árabe contra seus núcleos e povoados, os judeus já anteviam o que lhes esperava no dia que os ingleses saíssem da então Palestina.

Edição 95 - Março de 2017


Era consenso entre as lideranças sionistas  da época ser preciso armar-se e preparar-se para o inevitável conflito com as nações árabes vizinhas. Foi em meio a esse contexto que, entre as cidades de  Nes Ziona e Rehovot, no antigo Kibutz Hill, sob os olhos dos ingleses, mas com seu total desconhecimento, que foi construída uma das mais importantes fábricas clandestinas de munição embaixo da lavandeira e da padaria do Kibutz. O objetivo do projeto, cujo codinome era “Instituto Ayalon”, era fornecer balas para as armas dos combatentes judeus que lutavam em defesa da população judaica e pelo futuro Estado de Israel.   

O Instituto Ayalon não foi a única fábrica clandestina da época, mas, com certeza, foi uma das mais importantes e cruciais para a vitória das forças judaicas na Guerra da Independência. Em seu auge, a unidade produzia cerca de 40 mil balas por dia e cada uma tinha a gravação EA – em referência a Eretz Israel e Ayalon. Entre 1945 e 1948 foram fabricados mais de dois milhões de balas de 9 mm, ideais para as metralhadoras Sten então contrabandeadas ou montadas em outras fábricas secretas em toda a região.

À frente da iniciativa estava Yosef Avidar, então  chefe da indústria militar clandestina de Eretz Israel. Seu plano incluía também o contrabando de equipamentos para o funcionamento da fábrica, pois, apesar de ter sido possível comprar máquinas da Polônia em 1938, os judeus não conseguiram fazê-las entrar na então Palestina. Tiveram que ficar escondidas em Beirute durante quatro anos, até serem trazidas por judeus que durante a guerra serviam no exército britânico. A implantação da fábrica foi feita por membros do movimento Hatzofim Aleph, da Haganá e, posteriormente, contou com a colaboração do Palmach.

Construir uma fábrica clandestina em um kibutz  era um projeto bastante ousado, considerando-se  que, nas proximidades, havia uma base britânica  cujos soldados visitavam o local sem avisar. A organização e a discrição dos moradores e trabalhadores do Hill, no entanto, eram tamanhas que, a nenhum momento, durante anos, os ingleses sequer suspeitaram o que acontecia embaixo da lavanderia e da padaria. Para eles, o Kibutz Hill era exatamente igual aos demais espalhados ao longo do território sob seu controle.

Para esconder a fábrica foram construídas moradias, um refeitório, um galinheiro, um estábulo, várias oficinas, uma lavanderia, uma padaria e uma horta, estruturas adequadas ao dia-a-dia de um kibutz. Sob a padaria e lavanderia foi escavada uma ampla sala subterrânea com cerca de 200 m2 e aproximadamente quatro metros de profundidade. As paredes de tijolos e o teto possuíam cerca de meio metro. A obra foi totalmente executada em 22 dias.

Em uma das extremidades da fábrica, na superfície, construiu-se a padaria, sendo que a entrada de ar era feita através das tubulações conectadas a um forno de 10 toneladas que servia também de camuflagem para a entrada secreta. A lavanderia foi erguida exatamente acima da fábrica e suas tubulações permitiam a saída do ar poluído do subterrâneo. Para camuflar o barulho dos equipamentos, a lavanderia funcionava 24 horas por dia.  Foi feita, ainda, uma outra entrada para a fábrica embaixo do principal tambor da máquina, que poderia ser rapidamente aberta e fechada. O serviço da lavanderia era tão eficiente que os oficiais britânicos costumavam enviar seus uniformes para serem lavados no Kibutz. Para manter os soldados longe do local, foi criado um serviço de entregas para a base.

Quarenta e cinco pessoas trabalhavam 24 horas por dia divididas em dois turnos. Era um trabalho duro, em um espaço relativamente escuro, empoeirado e claustrofóbico. Além de arriscado era sujeito a duras punições, por se tratar de atividade considerada ilegal. O castigo para esses casos era a morte.

Como permaneciam durante muitas horas em ambiente fechado, a liderança temia que os britânicos percebessem a palidez dos moradores do Kibutz. Para resolver esta questão, recorreram à outra ideia inovadora e ousada. A situação dos judeus na então Palestina, no entanto, exigia ousadia e criatividade para poderem sobreviver.

Para a produção das balas era necessário importar cobre e os pioneiros justificaram seu pedido perante os ingleses dizendo que precisavam da matéria-prima para a fabricação de batons casher. O pedido foi aceito e, em retribuição, foram enviadas inúmeras caixas de batom à base inglesa.

Mas o Kibutz era constantemente vigiado e visitado por soldados ingleses. Certa vez, durante uma das visitas inesperadas, serviram-lhes cerveja. Eles queixaram-se de que estava quente. Em resposta, foi-lhes dito que se fossem informados com antecedência sobre tais visitas poderiam providenciar cerveja gelada. Os ingleses morderam a isca, o que permitiu aos judeus se prepararem para tais ocasiões, adotando medidas cada vez maiores de segurança para que a fábrica não fosse descoberta.

Produzir a munição foi um passo importante, mas o próximo desafio era enviá-la às unidades de combate da Haganá e do Palmach. A primeira ideia  foi colocar as balas em latas de leite, mas os recipientes ficavam muito pesados e poderiam chamar a atenção dos ingleses. Depois de inúmeras tentativas, optou-se pela construção de compartimentos secretos em caminhões de combustível.  A munição foi distribuída por toda região sem que os ingleses desconfiassem.

Assim foi feito até a criação do Estado de Israel, em 1948, quando já não havia mais necessidade de manter a clandestinidade da indústria de armamentos. Logo após a independência, todas as fábricas da Haganá foram integradas à chamada Indústria Militar de Israel. No entanto, os pioneiros que criaram o Instituto Ayalon optaram por permanecer juntos e fundaram, em 1949, um novo kibutz próximo ao mar e à cidade de Zichron Ya’acov, considerado hoje um dos mais importantes e desenvolvidos de Israel, com atividades na área de agricultura e piscicultura, entre outras.

O Instituto Ayalon encerrou suas atividades em 1948, mas sua história só veio a público em 1975. Em 1987 a fábrica foi totalmente restaurada e transformada em um museu. Para visitar o local, muito procurado pelos turistas estrangeiros, é preciso agendar uma visita.