O silêncio é uma presença
permanente nos corredores do Yad Vashem, o museu
do Holocausto situado no Monte Herzl, em Jerusalém. Mais
do que devido à imposição dos cartazes, o silêncio
surge naturalmente dentro de cada visitante que chega ao local construído
para lembrar, reverenciar e manter viva a memória dos seis
milhões de judeus que pereceram durante o Holocausto. Invariavelmente,
os que visitam o Yad Vashem ficam emocionalmente abalados
com o que vêem: a lista de nomes das comunidades varridas
do mapa, das milhões de vítimas e das milhões
de crianças; as fotos, os documentos, a luz que permanece
acesa em memória eterna. Dor, raiva, perplexidade perante
tanta maldade, vergonha de pertencer à mesma humanidade que
perpetrou ou que permitiu tamanha barbaridade - são sentimentos
que tomam conta dos visitantes. O coração fica apertado,
um nó fecha a garganta e lágrimas banham os rostos
dos milhares que por lá passam. Muitos nem conseguem terminar
o roteiro.
Durante sua visita à instituição, em 2000,
o papa João Paulo II declarou: “Não há
palavras fortes o suficiente para lamentar a terrível tragédia
da Shoá... Aqui, como em Auschwitz e em muitos outros
lugares da Europa, somos esmagados pelo eco dos lamentos. Homens,
mulheres e crianças gritam para nós das profundezas
do horror que conheceram. Como falhamos em não ouvi-los?...
Nós queremos lembrar. Mas lembrar com um objetivo, para garantir
que o mal jamais volte a prevalecer!”
O Instituto Yad Vashem foi criado em 1953, através
de uma lei do Knesset. No entanto, já em meados da década
de 40, durante a Segunda Guerra Mundial, ativistas sionistas em
Eretz Israel acreditavam ser necessário erguer um
monumento para as vítimas do nazismo. A verdade sobre a extensão
da tragédia que se abatera sobre os judeus da Europa durante
a guerra, apenas trazida à luz após 1945, tornou imperativa
a criação de um memorial em honra dos seis milhões
de mártires.
Yad Vashem foi o primeiro museu do mundo dedicado ao Holocausto
e, desde sua idealização, nasceu com uma missão
sagrada: documentar a história e a trajetória dos
judeus durante a Shoá, preservando a memória
e a lembrança de cada uma das seis milhões de vítimas
e transmitindo o legado do Holocausto às novas gerações.
Liskor veló Lishkoach, “lembrar e não
esquecer”. Esta é a razão de existir do Yad
Vashem e um mandamento para as gerações futuras
- manter a Shoá viva em sua memória.
No decorrer dos 50 anos desde a sua fundação, o Yad
Vashem se transformou em uma instituição com
inúmeras facetas, não se limitando a arquivar e relembrar.
Ampliou a sua missão, incluindo atividades nas áreas
de educação, pesquisa e publicação de
material e livros. Como resultado, possui atualmente o maior arquivo
documentado do mundo sobre a Shoá, incluindo um
banco de dados computadorizado com o nome das vítimas judias
das atrocidades nazistas.
A cada ano, a Escola Internacional de Estudos sobre o Holocausto,
criada em 1999, recebe dezenas de milhares de alunos e professores
de Israel e do exterior. O Instituto Internacional para Pesquisa
do Holocausto, por sua vez, organiza seminários e conferências,
além de editar inúmeras publicações.
Dentro deste setor, o Instituto já publicou 18 dos 32 volumes
da Enciclopédia das Comunidades, uma obra histórica
e geográfica sobre cada comunidade judaica destruída
pelos nazistas e seus colaboradores.
O desafio do futuro
No dia 16 de setembro de 2003, foram oficialmente abertas as comemorações
dos 50 anos de fundação do Instituto para a Recordação
dos Mártires e Heróis do Holocausto - Yad Vashem,
em Jerusalém. Realizada na Esplanada do Gueto de Varsóvia,
a cerimônia de abertura contou com a presença de inúmeras
autoridades, entre as quais, o primeiro-ministro Ariel Sharon; o
presidente de Israel, Moshe Katsav; o presidente do Knesset
(Parlamento), Reuven Rivlin; o presidente da instituição
e seu presidente-honorário, Avner Shalev e Shevah Weiss,
respectivamente, além de inúmeras outras personalidades
que têm dedicado sua vida à preservação
do legado do Holocausto. Entre estas, Simone Veil, Serge Klarsfeld
e o cineasta Claude Lanzmann. Como parte da programação,
a Orquestra Sinfônica de Jerusalém fez uma apresentação
especial, com a participação do violinista Shlomo
Mintz.
Nos últimos anos, a instituição vem-se preparando
para enfrentar um grande desafio - a preservação do
legado do Holocausto e sua transmissão às novas gerações
quando desaparecerem os últimos sobreviventes da Shoá.
Para enfrentá-lo, foi lançado no final da década
de 90 o projeto Yad Vashem 2001, que previa a construção
de um novo complexo, como uma extensão da estrutura existente,
utilizando as mais modernas tecnologias. A idealização
do projeto ficou a cargo do renomado arquiteto israelense, internacionalmente
consagrado, Moshe Safdie. A realização da ampliação
foi totalmente financiada por doações.
Considerado o segundo lugar mais visitado de Israel, depois do Muro
das Lamentações, o Yad Vashem recebeu mais
de dois milhões de visitantes nos últimos anos. Diante
desses números, o atual presidente da instituição,
Avner Shalev, afirma que o interesse pelo tema do Holocausto vem
crescendo igualmente entre a população judaica e a
não judaica. Segundo ele, é cada vez maior o número
de escolas em todo o mundo que ministram cursos sobre o tema, no
Ensino Médio. Mais e mais países estão implantando
centros educacionais e de pesquisa sobre a Shoá.
Para ele, tais iniciativas provavelmente estão relacionadas
com a recente virada do século e com uma certa necessidade
que os indivíduos sentem de reavaliar o século passado.
“Não há dúvida de que o Holocausto é
o maior símbolo do grande mal do século XX um século
que se iniciou com grande otimismo, devido à crença
de que a tecnologia construiria um mundo melhor”.
O mais importante, dentro da missão do Yad Vashem, é
oferecer aos visitantes uma experiência única e inesquecível
sobre a tragédia que se abateu sobre o povo judeu, durante
a Segunda Guerra Mundial, e não apenas uma visita a um memorial.
A estrutura idealizada por Safdie permite aos visitantes passar
do ambiente da Jerusalém urbana, da qual vieram, para o verde
vale do Yad Vashem, levando-os gradativamente a uma retrospectiva
das décadas de 1930 e 40, retratadas nas diferentes alas
da instituição. Isto faz despertar sua consciência
para a extensão da tragédia.
Desde a sua eleição para o cargo de presidente do
Yad Vashem, em 1992, Shalev vem-se dedicando a uma meta
- fazer com que a essência da Shoá penetre
na consciência de cada ser humano. Profundamente voltado à
transmissão da memória do Holocausto às futuras
gerações, é um dos principais responsáveis
por inúmeros projetos educativos. Para ele, a comemoração
do jubileu da instituição que dirige é o momento
exato para se fazer uma reflexão sobre as realizações
do Yad Vashem e também sobre o seu futuro. Como
diz, a instituição surgiu para atender uma necessidade
dos judeus da Diáspora e de Israel de erguer um monumento
central, onde todos, sem exceção, pudessem lembrar-se
dos fatos, tornando-se também um local para a reconstrução
da memória coletiva, que, assim, seria transmitida a seus
filhos e netos.
Essa preocupação está presente nas horas de
depoimentos que o Yad Vashem vem recolhendo, ao longo dos anos,
possibilitando a organização de um acervo único.
Shalev, no entanto, não aceita que a instituição
seja denominada ou considerada apenas um “museu”. Para
ele, o aspecto museográfico é apenas uma pequena parte
dentro de todo o conjunto da “Colina da Recordação”.
Segundo Elie Wiesel, sobrevivente da Shoá e Prêmio
Nobel da Paz, há muitos museus ligados à temática
do Holocausto em todo o mundo, mas a fonte que os alimenta está
no Yad Vashem. Este é a alma e o coração da
memória judaica.
Uma experiência intensa
Localizado no Har Hazicaron, em hebraico, “Colina da Recordação”,
o Yad Vashem está dividido em inúmeras seções.
A “Avenida dos Justos entre as Nações”
é composta por árvores que formam uma trilha em direção
ao museu. Cada árvore foi plantada em homenagem a um não-judeu
que arriscou sua vida para salvar judeus, durante o Holocausto.
São 19 mil árvores, atualmente, lembrando pessoas
que não tiveram medo de sofrer represálias nazistas
pelo fato de ajudarem a salvar vidas judias. O “Hall dos Nomes”
foi criado para registrar a memória daqueles que tiveram
suas vidas ceifadas pelos carrascos de Hitler. Milhões de
nomes têm sido inscritos desde a inauguração
da ala, em 1968. O “Memorial das Crianças”, aberto
em 1987, é dedicado ao milhão e meio de crianças
assassinadas pelos nazistas. O “Vale das Comunidades”,
inaugurado no início da década de 1990, traz o nome,
em um mapa da Europa, de cerca de cinco mil comunidades judaicas
destruídas durante a Segunda Guerra Mundial pela implacável
máquina nazista.
O Museu Histórico é composto por cinco galerias divididas
cronologicamente. A primeira faz uma retrospectiva das políticas
antijudaicas na Alemanha, de 1933 até 1939, a partir da ascensão
do Partido Nacional Socialista ao poder, a indicação
de Adolf Hitler como chanceler, passando pela aprovação
das Leis de Nuremberg (1935), a Noite dos Cristais (1938), a Conferência
de Evian (1938) e a eclosão da Segunda Guerra (1939).
A segunda galeria retrata a evolução dos guetos na
Polônia, de 1939 a 1941, ressaltando os eventos ligados ao
Gueto de Varsóvia, no qual morreram cerca de 85 mil judeus;
a terceira aborda os assassinatos em massa, a partir de junho de
1941, com a invasão da então União Soviética
pelos alemães e o início da implementação
da chamada “Solução Final”, com a criação
dos campos de morte. Destes, o maior foi o complexo Auschwitz-Birkenau.
A quarta galeria retrata a Resistência Judaica. O primeiro
levante armado judaico aconteceu em Vilna, repetindo-se posteriormente
em Kovno, Cracóvia, Bialistok e Varsóvia. A última
galeria narra a história da libertação dos
campos, a rendição dos alemães, o final do
conflito e o período após 1945. Mostra, ainda, o Julgamento
de Nüremberg, que julgou e condenou os criminosos de guerra
nazistas. Milhares de sobreviventes deixaram a Europa para construir
uma nova vida em Eretz Israel.
No “Hall da Recordação”, uma luz arde
incessantemente. É a chama da luz eterna que brilha em memória
dos milhares exterminados nos campos de concentração.
Ao redor da chama, estão inscritos na parede os nomes dos
22 campos nazistas e dos demais locais de matança. É
ali que os visitantes geralmente recitam o Kadish - a oração
em memória dos que se foram. Esta área foi criada
pelos artistas plásticos israelenses David Palombo e Boris
Schatz.
Em uma de suas inúmeras visitas ao Yad Vashem, Wiesel
disse: “Vamos recitar o Kadish não apenas
pelos mortos, mas também pelos vivos que esqueceram a morte.
E deixemos que a oração seja mais do que uma oração,
mais do que um lamento; deixemos que seja também ultraje,
protesto e desafio. E, acima de tudo, que seja um ato de lembrança.
Pois é isso o que as vítimas desejam: ser lembradas,
ao menos ser lembradas. Da mesma maneira que os assassinos estavam
determinados a apagar a memória judaica, os mártires
e heróis mortos estavam determinados a mantê-la viva.
Agora, eles estão sendo difamados; ou esquecidos - que é
o mesmo que matá-los pela segunda vez. Vamos dizer o Kadish
juntos - e não permitir que outros os difamem postumamente”.
|