Em 16 de outubro de 1986, o navegador Ron Arad
teve de saltar de pára-quedas depois que seu jato Phantom F-4
foi atingido quando sobrevoava a cidade de Sidon, no Líbano.
O militar israelense caiu prisioneiro da milícia islâmica
libanesa Amal. Dezessete anos depois, seu paradeiro continua um mistério.
Acredita-se que ainda esteja vivo, provavelmente encarcerado no Irã,
embora exista a hipótese de ele estar preso em solo libanês,
por grupos financiados por Teerã.
Recentemente, a Comissão Vinograd, criada pela cúpula
militar israelense para estudar o caso, concluiu que Ron Arad ainda
deve estar vivo. A imprensa israelense, em outubro, jogou algumas
luzes sobre a escuridão que cerca a tragédia. Segundo
o diário "Yediot Aharonot" , três dissidentes
iranianos que vivem na Europa afirmaram que Ron Arad está vivo,
numa prisão nas cercanias de Teerã. O Irã nunca
admitiu ter vinculação com o destino do militar israelense.
O relato do "Yediot Aharonot" ofereceu diversos detalhes.
Uma das fontes afirmou ter trabalhado na prisão onde estaria
Ron Arad e declarou que teria chegado a conversar com ele. O militar
israelense, ainda de acordo com os dissidentes iranianos, chegou a
ser hospitalizado duas vezes, no final dos anos 90, devido a problemas
cardíacos.
"Nós sempre dissemos ter certeza de que Ron está
vivo, embora recentemente tenhamos recebido informações
não confirmadas de que ele poderia estar muito doente",
declarou ao site "Israelin-sider", Yoske Hara-ri, um dos
principais ativistas das campanhas pela libertação de
Arad. A conclusão da Comissão Vinograd também
foi elogiada por Dudu, irmão do militar desaparecido. "Estamos
satisfeitos em ouvir que não somos loucos, que há uma
comissão, criada por uma pessoa que foi chefe do Estado Maior
do Exército israelense e que é atualmente ministro da
Defesa, e que está comissão determinou que Ron ainda
está vivo". Dudu Arad referia-se a Shaul Mofaz.
Os esforços para obter a libertação de Ron Arad
não cessam. Governo, família e amigos já promoveram
diversas iniciativas, nos campos militar, social e diplomático.
Israel chegou a capturar dois líderes fundamentalistas libaneses,
Abd Al Karim Obeid e Mustafa Dirani, em busca, por exemplo, de informações
sobre o destino de Ron Arad. A atividade continua, e, embora haja
controvérsias sobre as estratégias mais adequadas a
serem seguidas, não existem dúvidas sobre a necessidade
de manter a chama acesa e de preservar a célebre doutrina israelense
de não deixar para trás os soldados que caem nos campos
de batalha.
No último dia 16 de outubro, milhares de pessoas se reuniram
em frente ao Museu de Tel Aviv para marcar a passagem de 17 anos desde
o desaparecimento do navegador da Força Aérea. Os discursos
foram pontuados por falas dirigidas diretamente a Ron, num claro sinal
da crença de que ele ainda está vivo.
Depois de sua captura na região de Sidon, em 1986, Ron Arad
foi levado a Beirute. O então chefe de segurança da
milícia fundamentalista Amal, Mustafa Dirani, exigiu a "posse"
do prisioneiro. Em 1988, Dirani, por questões ideológicas,
abandonou a Amal, fundou a organização "Resistência
dos Fiéis" e levou Arad consigo. No ano seguinte, o líder
xiita "vendeu" o prisioneiro israelense, provavelmente aos
"Guardas Revolucionários" , fundamentalistas iranianos
que agem no Líbano e que mantêm laços estreitos
com o Hezbolá. Em meados de 1994, Ron Arad teria sido levado
ao Irã, passando pela Síria.
Cerca de um ano depois da captura, Israel recebeu cartas e fotos de
Ron Arad. Sua mulher Tami se tornou um símbolo da campanha
pela libertação do militar israelense, aparecendo por
vezes acompanhada de outros parentes. A família, segundo o
jornal "Jerusalem Post", oferece US$ 10 milhões como
recompensa por informações que levem ao paradeiro de
um navegador obrigado a atravessar um martírio que já
se estende por quase duas décadas.
Nascido em 5 de maio de 1958, filho de Batya e Dov Arad, Ron cursava
o segundo ano de engenharia química no prestigioso Instituto
Technion, de Haifa, quando foi chamado para seu serviço de
reservista, em 1986. A construção de sua casa, em Givat
Elah, estava ainda no início. A filha Yuval era pequena. Em
2003, a casa nova já está pronta há quase uma
década, à espera de Ron. E Yuval, ao completar dezoito
anos, prepara-se para ingressar numa unidade especial do Exército
de Defesa de Israel.
O jornalista Jaime Spitzcovsky é diretor do site www.primepagina.com.br
e articulista da Folha de S. Paulo. Foi editor internacional e correspondente
do jornal em Moscou e em Pequim.
|