A primeira menção a Noé
é feita já no final da primeira porção
da Torá, quando ele surge como a única esperança
de um amanhã para o gênero humano. A narrativa bíblica
aponta a profunda insatisfação do Criador com sua obra-prima
- o ser humano. A Torá relata que D’us “se
arrependera” de ter criado o homem, pois seus filhos se haviam
tornado moralmente corruptos. Tamanha era a maldade e a violência
que reinava entre os seres vivos daquela geração que
D’us decide destruí-los por meio de uma grande inundação.
Quando o mundo parece estar inevitavelmente condenado a um trágico
fim, o último verso da primeira leitura da Torá revela
a existência de um homem que asseguraria a sobrevivência
dos habitantes da terra: “Mas Noé encontrou favor aos
olhos de D’us" (Gênese 6:8). O cataclisma estava
sendo preparado, porém, como ensina o Talmud, “o
remédio para o mal sempre precede o próprio mal”.
A esperança renasce no horizonte quando D’us concentra
Seu amor sobre um homem, Noé, e sua família. É
a partir deles que o Todo Poderoso decide reconstruir o futuro de
Seu mundo. Mas quem era Noé? Sua história, relatada
no livro Gênese, da Torá, serve como prova explícita
de que um único homem justo e bondoso pode salvar toda a humanidade.
A Geração do Dilúvio
Relata a Torá que desde a época de Enosh, filho de Seth
e neto de Adão, os homens se haviam progres-sivamente desviado
do caminho do bem, corrompendo-se moralmente. A geração
que vivia na época de Noé, conhecida como a "Geração
do Dilúvio", era depravada e degenerada em todos os sentidos.
A imoralidade sexual aliada à anarquia moral resultou numa
sociedade monstruosa. Toda a Terra fora pervertida porque os homens
se haviam corrompido por completo.
Além de praticar atos violentos e imorais, os descendentes
de Adão negavam o fato de D ‘us ter criado o Universo
e se voltaram à idolatria. Em poucas gerações,
a humanidade esquecera-se de Seu Criador, passara a adorar ídolos
de “pedra e madeira” e a acreditar em falsos profetas.
Surgiram no meio dos homens grandes mestres de magia negra que acreditavam
ser invencíveis e se autodenominavam "mestres do universo".
Afirmavam não temer nada e ninguém já que acreditavam
controlar todas as forças do universo, inclusive os anjos encarregados
da água e do fogo. Como resposta ao caos moral que reinava
na Terra, D’us por duas vezes ordenou que as forças da
natureza alagassem um terço do mundo civilizado. Mas nem isso
fez os homens se conscientizarem da realidade e se arrependerem.
D’us finalmente decide pôr um fim à maldade reinante,
eliminando da face da Terra todos os seres vivos (Gênese 6:7).
Após a destruição, Ele daria início a
uma nova geração de homens.
Quando Noé tinha 480 anos de idade, D’us a ele se revela.
O Criador alerta Noé que um decreto fora proclamado nos Céus:
um terceiro dilúvio, de magnitude jamais vista, atingiria a
Terra. O Todo-Poderoso revela que contados 120 anos a partir daquela
data, o mundo e todos seus habitantes seriam aniquilados pelas águas.
Toda a humanidade iria perecer; apenas Noé e sua família
seriam poupados.
Noé: a décima geração
“Lemech teve um filho” (Gênese 5:28) e o chamou
de Noé, Noach, em hebraico, que significa descanso,
alívio, conforto. A frase da Torá que anuncia
o nascimento de Noé tem um teor profético. Desde o
início de sua vida, o futuro pai da humanidade fora designado
para vivenciar um milagre (Bereshit Rabá :30).
A Torá lista o nome das dez gerações
de homens desde Adão até Noé. Foi através
dos descendentes de Seth, filho de Adão, que os conhecimentos
sobre o Criador, os segredos da Criação e as tradições
sobre o Jardim do Éden foram fielmente preservados e transmitidos.
Coube a Noé preservar essa sabedoria e transmiti-la às
gerações que vieram após o dilúvio.
Homem de extrema inteligência, Noé era, segundo o Zohar,
um grande erudito. O Midrash revela que ele compilou o
livro de curas que aprendera do Arcanjo Rafael. Ainda segundo o
Zohar, Noé entendia a linguagem de todas as criaturas
e quando entrou na Arca, D’us lhe concedeu a sabedoria necessária
para entender a natureza de cada animal e, assim, conseguir cuidar
de cada um deles.
Mas o mais importante era que D’us amava Noé, um justo
que, como nos conta a Torá, “caminhava com
D ‘us”, obedecendo e servindo-O com sinceridade. Noé
permaneceu moralmente íntegro, apesar de viver no meio da
perversão e da depravação. Sua retidão
era conhecida entre seus contemporâneos, pois uma de suas
principais ocupações era viajar entre os homens para
tentar convencê-los a mudar de hábitos.
Após “caminhar com D’us”, de forma solitária,
durante 500 anos, Noé se conscientiza de que o futuro da
humanidade dependeria exclusivamente dele e decide ser pai. Teve
três filhos - Shem, Cham e Yafet - cujas diferenças
em caráter e personalidade se tornaram evidentes durante
suas vidas; suas ações influen-ciaram significativamente
o destino de seus respectivos descendentes. Shem representa a sabedoria,
Cham, as paixões, e Yafet, a beleza e o apreço pela
arte. Todos os três se salvam na Arca da Noé e posteriormente
constróem as bases para povoar o mundo, novamente. É
curioso que Shem, como seu pai, nasce circunciso, pois é
ele quem estava destinado a se tornar ancestral de nosso patriarca
Abraham.
Noé: a serenidade
A segunda porção da Torá assim começa:
“Estas são as gerações de Noé;
Noé foi um homem justo” (Gênese 6:9). O Midrash
pergunta o porquê do nome de Noé ser mencionado duas
vezes neste único verso. E responde que o nome Noé
também quer dizer Neiachá - serenidade. De
fato, Lemech, pai de Noé, escolhera o nome do filho conscientemente,
afirmando que, um dia, o recém-nascido traria “alívio
de todo nosso trabalho e do tormento de nossas mãos”
(Gênese 5:29). Explica o Midrash: Noé trouxe
serenidade para si mesmo e para o mundo; serenidade para seus antecessores
- que agora poderiam descansar em paz - e para seus descendentes;
serenidade nos mundos superiores e nos mundos inferiores; serenidade
no nosso mundo e no mundo vindouro (Bereshit Rabá
30:5 e Rashi). Portanto, seu nome é mencionado duas
vezes, indicando que Noé trouxe serenidade às realidades
e forças opostas do mundo.
Essa serenidade veio ao mundo através do Dilúvio,
apelidado pela Torá de “águas de Noé”
(Isaías 54:9). O misticismo judaico revela que antes do Dilúvio,
o mundo físico era insensível à realidade espiritual.
Os homens se corromperam porque não acreditavam ter qualquer
obrigação ou responsabilidade moral.
A Cabalá revela que as águas do Dilúvio
foram um grande mikvê o banho ritual que purifica
objetos e, principalmente, o corpo e alma de seres humanos. As “águas
de Noé” que inundaram o mundo purificaram a matéria
física; tanto o mundo quanto seus habitantes adquiriram uma
maior consciência da realidade Divina. É por isso que
após o Dilúvio o mundo foi abençoado com uma
serenidade perpétua: o acordar espiritual dos seres humanos
permitiu uma maior ligação espiritual entre o homem
e seu Criador.
Noé, o homem justo de sua geração
“Noé foi um homem justo. Ele foi perfeitamente justo
em sua geração” (Gênese 6:9). Alguns de
nossos sábios interpretam estas palavras de forma favorável.
Explicam que a Torá está revelando que se
Noé tivesse vivido numa geração menos corrupta,
ele teria sido um homem até mais justo. Outros, porém,
interpretam esse verso de forma bem diferente: sim, Noé foi
um homem correto comparado à geração corrupta
de sua época, mas se tivesse vivido na época de nosso
patriarca Abraham, não teria sido considerado tão
bom e justo, pois não teve força suficiente para conter
a imoralidade à sua volta.
Rashi, o maior comentarista da Torá, pergunta por
que D’us teria ordenado a Noé que construísse
uma Arca - trabalho árduo e cansativo, que levou 120 anos.
Não há dúvida que o Todo-Poderoso poderia ter
empregado uma forma mais fácil e rápida de salvar
Noé e sua família. Rashi responde sua própria
pergunta ao revelar que, apesar do decreto ter sido pronunciado,
D’us, em Sua imensa Misericórdia, estava concedendo
à humanidade mais 120 anos de existência - tempo suficiente
para que os homens se arrependessem de seus atos e se salvassem.
Durante mais de um século, os homens certamente perguntariam
a Noé o motivo de estar construindo uma Arca tão grande.
Ao serem alertados sobre a destruição que se abateria
sobre toda a humanidade, seriam compelidos a se corrigir, evitando
assim a catástrofe. Durante os anos em que trabalhou na construção
da Arca, Noé nunca cessou de alertar seus contemporâneos
sobre o decreto Divino. Apesar do sarcasmo e das ameaças
que tinha que enfrentar, Noé pedia, implorava mesmo, para
que os homens não mais praticassem a maldade. Porém,
afirmam alguns de nossos sábios, seus pedidos não
eram absolutamente sinceros. Talvez não tenha tido sucesso
porque sempre quis isolar-se e manter certa distância dos
homens de sua geração. Temia ele próprio ser
corrompido. Ele foi o homem justo que permaneceu fechado em sua
“arca”, mantendo-se íntegro, mas abandonando
o resto da humanidade a seu destino.
O Zohar revela uma falha de Noé, até mais
grave, e que acabou sendo decisiva para o fim de sua geração.
Diferentemente de Moisés e Abraham, que intercederam perante
D’us para que Ele preservasse a vida de grandes pecadores,
Noé não rezou para que D’us poupasse a humanidade.
Alguns sábios afirmam que não teria sido simples negligência.
Noé não implorara pela vida de seus contemporâneos
porque sabia que entre os de sua geração não
se podia contar sequer com 10 homens justos.
Quaisquer que sejam as críticas feitas a Noé, a Torá
o honra com o título de tzadik um homem justo e
correto. Foi Noé que, frente à maior catástrofe
que os seres humanos já conheceram, não apenas foi
poupado, como teve o mérito de salvar a humanidade e todo
o reino animal da completa extinção.
A Arca de Noé
Após alertar Noé sobre o Dilúvio que faria
cair sobre a Terra, D’us lhe ordena: “Faz para ti uma
arca”. D’us, Ele mesmo, instrui Noé acerca de
como construí-la. A arca seria feita de madeira de cipreste
e totalmente revestida de piche; mediria 150 metros de comprimento,
25 de largura e 15 de altura. Teria três andares e seria iluminada
em seu interior por pedras luminosas.
Noé obedece todas as ordens Divinas e, ao final de 120 anos,
termina a construção. D’us novamente se revela
a Noé e lhe ordena que adentre a arca junto com seus familiares
e que leve também os animais.
“Em sete dias”, alerta o Todo Poderoso, “... farei
chover 40 dias e 40 noites e Eu farei desaparecer toda a existência
que criei sobre a face da Terra”. Em Sua Misericórdia,
D’us concede mais sete dias para que os homens se arrependam.
Terremotos, raios e trovões anunciam a iminência da
catástrofe. Sem resultado, no entanto.
Ao mesmo tempo, seguindo as instruções de D’us,
Noé leva à arca sete pares - macho e fêmea -
de toda espécie de animal não casher e um
par de toda espécie de animal não casher. Os peixes
foram os únicos seres vivos que permaneceram fora da arca
- abaixo d’água - e sobreviveram ao Dilúvio.
Quando as grandes chuvas começam, Noé, sua esposa,
filhos e noras entram na arca. O futuro pai da humanidade havia
estocado comida para seu sustento, bem como o de sua família
e dos animais, durante o Dilúvio. Foi o que fizera durante
o ano que passou na arca - dia e noite, trabalhando para alimentar
e cuidar de cada um dos animais.
O episódio da arca é repleto de milagres: o número
de animais que coube dentro da embarcação, a habilidade
de Noé de cuidar de todos e o fato das provisões terem
sido suficientes para alimentá-los foram fenômenos
sobrenaturais. Apesar da grande destruição que consumia
os habitantes da terra, D’us não havia abandonado os
progenitores de seu Novo Mundo.
O Grande Dilúvio
O Grande Dilúvio iniciou-se no dia 16 do mês hebraico
de Cheshvan. As águas de cima e de baixo aniquilaram
todos os seres vivos sobre a face da Terra. A chuva incessante e
as águas subterrâneas inundaram o planeta. Choveu,
dia e noite, até a data de 28 de Kislev: “Choveu na
terra durante 40 dias e 40 noites” (Gênese 7:12). Por
que 40 dias exatos? O número 40 está ligado à
purificação e o propósito do Dilúvio
era limpar e purificar o mundo. Para ser válida, uma mikvê
necessita de um mínimo de 40 medidas de água de chuva
ou de fonte natural. Da mesma forma, as águas do Dilúvio
se originaram da chuva e de fontes naturais da Terra e inundaram
o planeta progressivamente durante 40 dias.
Após esse período, as chuvas pararam, mas a Terra
continuou coberta por água enquanto correntes poderosas se
abatiam contra ela. Os últimos seres vivos a morrer foram
os homens, pois D’us, em mais uma demonstração
de misericórdia, deu uma última chance a eles: mesmo
após o início do Dilúvio, a humanidade poderia
mostrar-se arrependida e evitar ser destruída.
No primeiro dia de Sivan, o nível das águas
começou a baixar; no dia 17 do mesmo mês, a Arca de
Noé estacionou sobre as montanhas de Ararat. Finalmente,
no primeiro dia de Av, os picos das montanhas se tornaram
visíveis. Transcorridos 40 dias, na data de 10 de Elul,
Noé abriu a janela da arca e incumbiu um corvo de investigar
o estado do mundo. Mas o corvo recusou a missão e passou
a circular a arca continuamente.
Sete dias mais tarde, Noé enviou uma pomba para averiguar
se as águas ainda cobriam toda a Terra. A pomba, não
encontrando lugar algum para repousar na superfície terrestre,
voltou à arca. Mais sete dias se passaram e Noé novamente
enviou a pomba. O pássaro retornou à noite, trazendo
uma folha de oliveira. Isso era um sinal que o nível das
águas havia baixado, pois as árvores não mais
estavam completamente sub-mersas. Noé aguardou mais sete
dias e enviou a pomba novamente; desta vez, o pássaro não
retornou à arca.
No primeiro dia de Tishrei - data de Rosh Hashaná
- as águas do Dilúvio começaram a desaparecer
da superfície terrestre. Mas apenas dois meses mais tarde,
no dia 27 de Cheshvan, é que a Terra secou por completo.
O Grande Dilúvio inundara o mundo por 365 dias - exatamente
um ano solar.
A volta à Terra
Mesmo tendo as águas do Dilúvio secado, Noé
e sua família permaneceram na arca até que D’us
ordenou-lhes que saíssem. O Zohar revela que Noé,
ao ver um mundo destruído, virou-se para D’us e chorou.
O Criador respondeu: “Tolo pastor! Eu te dei 120 anos para
construir uma arca - tempo suficiente para que rezasses pelo mundo
e o salvasses. Agora que o mundo foi destruído, choras a
Mim?”
Após sair da arca, Noé constrói um altar para
D’us e Lhe oferece sacrifícios. O Todo-Poderoso então
promete que nunca mais destruirá todos os seres vivos, como
fizera por meio do Dilúvio. O Criador abençoa Noé
e seus filhos e lhes ordena: “Frutificai e multiplicai-vos
e enchei a terra” (Gênese 9:1). Mas, vendo que Noé
temia ter outros filhos, preocupado que, um dia, eles também
perecessem num Grande Dilúvio, D’us lhe assegura que
nunca mais haveria um dilúvio que destruísse todos
os habitantes da Terra.
O sinal dessa promessa Divina foi simbolizado pelo arco-íris.
Rashi explica que o arco-íris aparece no mundo quando D’us
cogita enviar um outro Grande Dilúvio à Terra, mas
não o faz por causa de sua promessa a Noé. Um sábio
de nossa geração explicou que o aparecimento de um
arco-íris não significa que o mundo inteiro está
moralmente corrompido, como à época do Grande Dilúvio.
Porém, é um sinal de que, em algum lugar da Terra,
as pessoas são tão malvadas que D’us as destruiria,
não fosse pelo pacto que fizera com Noé.
A Torá conclui a história da vida de Noé
relatando que ainda viveu 350 anos após o Dilúvio.
Faleceu aos 950 anos de idade, no ano 2006 do calendário
judaico. O Midrash revela que o ano do Dilúvio,
no qual Noé viveu na arca cuidando dos animais, não
está incluído nessa contagem. D’us lhe deu um
ano a mais de vida em recompensa por seu árduo trabalho na
arca. Pois durante os 12 meses em que nela permaneceram, nem Noé
nem seus filhos dormiram sequer um minuto. Foi mais um milagre Divino
que lhes permitiu cuidar dos animais.
Com exceção dos peixes, todos os seres vivos da Terra,
inclusive os pássaros, pereceram no Dilúvio. Todos
os descendentes de Adão e Eva morreram. Apenas Noé,
sua família e os animais na arca se salvaram. Coube a Noé
e a seus familiares a missão e o mérito de repovoar
o mundo. Os homens que viveram durante as primeiras 10 gerações
do mundo são chamados de “filhos de Adão”.
Depois disso, são chamados de “filhos de Noé”,
que se tornara o Pai da Humanidade.
Bibliografia
• The Call of the Torah, An Anthology of Interpretations on
the Five Books of Moses, Bereishis, Rabbi Elie Munk, ArtScroll Mesorah
Series
• A Torá Viva - O Pentateuco e as Haftarot, por Rabino
Aryeh Kaplan, Tradução por Adolpho Wasserman, Editora
Maayanot
• Chumash - The Book of Genesis - The Gutnick Edition with
commentary from Classic Rabbinic Texts and the Lubavitcher Rebbe
• The Torah Anthology, Genesis 1, MeAm Loez by Rabbi Yaacov
Culi (1689-1732) traduzido pelo Rabino Aryeh Kaplan.
• Chasidah, Yishai, The Encyclopedia of Biblical Personalities,
Shaar Press
“Foram três justos os pilares do mundo:
Adão, Noé e Abrahão”
(Midrash Schocher Tov 34:1). |