A partir desses acontecimentos criaram sua
tradição, seguida por seus descendentes, de comemorar
o aniversário do milagre da mesma forma como é comemorado
o Purim tradicional, com uma Seudá (refeição
festiva) anual, como se fosse uma Seudat mitzvá,
uma comemoração especial, com orações
e comidas especiais (conforme atestado por Yam shel Shlomo, Bava
Kamma 37; Chayei Adam 155:41).
Tanto os acontecimentos como as celebrações são
conhecidas na história judaica como "Purim"
especiais. Historiadores registram quase uma centena desses, cada
qual comemorado por um país ou comunidade. Neste artigo de
Morashá, contam-se três histórias
singulares.
O Purim de Basra
Basra é a segunda maior cidade do Iraque, próxima
da capital, Bagdá. O assentamento judaico na região
data de mais de mil anos. Há aproximadamente dois séculos,
antes do grande êxodo da comunidade judaica do Iraque, seus
membros foram beneficiados por um milagre tão grandioso,
que destinaram um Purim especial, em comemoração
ao acontecimento.
Esse milagre ocorreu no reinado de Suleiman Pasha, que governou
Basra com justiça e rigor, tratando os judeus com cordialidade.
Sob a orientação de seu líder, Rabi Jacob ben
Aaron, a comunidade judaica floresceu, até um certo dia do
mês de Nissan, no ano de 5534 (1774). Naquela data,
Karim Khan, o vizir do Xá da Pérsia, chegou com um
grande exército e sitiou a cidade. Suleiman Pasha lutou contra
Karim Khan, mas não o venceu. Uma grande escassez de alimentos
se espalhou por Basra e a cidade não tinha mais como se defender.
No 27º dia de Nissan, a cidade caiu em mãos
dos invasores. Os soldados vencedores roubaram e pilharam a cidade
e muitas mulheres judias atiraram-se nas fogueiras, para escapar
à crueldade dos bárbaros errantes.
No primeiro dia do mês de Iyar, Karim Khan fez conhecer
o regulamento que impôs a Basra, em meio ao qual pesados tributos
aos indivíduos, principalmente à comunidade judaica,
tomando seus líderes como reféns. Rabi Jacob ben Aaron,
sua esposa e filhos foram enviados como prisioneiros do Xá
para Shiraz, juntamente com Suleiman e sua família. E, enquanto
Karim Khan e seus homens embebe-davam-se, a cidade de Basra desesperava-se.
Então, os judeus locais se reuniram em sua sinagoga, proclamando
seu arrependimento, chorando e rogando a D’us para salvá-los
das mãos do malvado Karim Khan e seus asseclas. E D’us
ouviu seus lamentos.
O coração dos reis e legisladores está nas
mãos de D’us, segundo os ensinamentos judaicos. D’us
fortaleceu o vaidoso coração de Karim Khan para que
procurasse mais glória e conquistas. E este foi à
luta contra as tribos árabes vizinhas, mas seu exército
foi derrotado e recuou para Basra, com grandes baixas. Formou um
novo contingente e voltou ao combate contra os árabes. Mas
estes prepararam uma emboscada, massacrando grande parte de seus
homens. Karim Khan conseguiu fugir com sua mulher e retornou a Basra
com o que restara de seu exército. O vizir persa não
perdeu tempo em reunir novas forças para lutar contra os
árabes. No entanto, seus combatentes não tinham mais
condições de lutar. Pelo contrário, uniram-se
para conspirar o assassinato de seu ex-comandante, Karim Khan. No
27º dia de Adar, 13 dias depois da data do Purim
de Esther, o malvado vizir foi encontrado morto, envenenado pelas
mãos de seus próprios empregados.
As notícias sobre a morte de Khan e a derrota de seus exércitos
chegaram ao Xá. Ele ordenou que o que restara de seu contingente
deixasse Basra ao cair da noite e voltasse à Pérsia,
em segredo.
No segundo dia de Nissan, em 5535 (1775), os judeus de
Basra, ao acordar, descobriram que nenhum homem de Karim Khan ficara
na cidade. Foi grande sua alegria diante daquela miraculosa libertação
das mãos de tão terrível inimigo. Reuniram-se
em sua sinagoga para agradecer a D’us pelo milagre e resolveram
observar aquela data, ano após ano, como o "Dia do Milagre".
Um rabino e cabalista muito conceituado viera de Eretz Israel
visitar Basra naquela época. Fora enviado como mensageiro
especial da comunidade judaica de Hebron para conseguir algum aporte
financeiro para os pobres e necessitados da antiga cidade. Seu nome
era Rabi Jacob Elyashar (era o avô do rabino chefe de Jerusalém,
Rabi Jacob Saul Elyashar). Rabi Jacob Elyashar compôs um pergaminho
especial para os judeus de Basra, para ser recitado na sinagoga
naquele "Dia do Milagre"e para ser seguido de uma comemoração
especial, uma Seudá, e de oferendas aos pobres,
como é costume em Purim.
Os judeus de Basra aceitaram de bom grado todas as suas sugestões
e as incorporaram às leis da comunidade e, desde então,
observam o segundo dia de Nissan como um Purim
especial, o
Purim de Basra.
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