Sim, Ben-Gurion está vivo para todos
os judeus, tanto em Israel como na diáspora, que se mantêm
fiéis à sua visão de que uma vez constituído
um Israel soberano, este seria um estado judaico e não somente
um estado para os judeus. De acordo com a autêntica visão
messiânica que permeou toda a sua existência, Ben-Gurion
avistou no horizonte da história um estado judaico que, conforme
registrou em suas memórias, não se destacaria no mundo
por sua riqueza material ou conquistas tecnológicas, mas
através de sua consistência espiritual, a partir de
inamovíveis valores éticos e morais. Essa visão
de Ben-Gurion, que pode até parecer utópica, está
presente até os dias atuais quando a sociedade israelense
se debruça em autocrítica, sobretudo no que diz respeito
à manutenção de territórios ocupados.
A par das condições políticas e de segurança
estratégica que sustentam tal ocupação, há
vozes importantes em Israel que a vêem como uma agressão
aos princípios éticos que devem pautar a existência
de um estado judaico, segundo o postulado de Ben-Gurion. É
difícil avaliar como ele reagiria, hoje, diante dessa questão.
Em 1967, logo depois da Guerra dos Seis Dias, declarou que o país
deveria eliminar qualquer anseio no tocante a ganhos de territórios
e que deveria abandoná-los em troca da paz. Mas, na verdade,
Ben-Gurion era cético quanto às perspectivas de paz
com os países árabes. Disso sou testemunha pessoal.
Em janeiro de 1972, estava eu visitando o doutor Albert Sabin, então
presidente do Instituto Weizmann, quando ele me disse que tinha
um encontro com Ben-Gurion no dia seguinte, a quem apresentaria
um projeto educacional cujo conteúdo já não
me lembro. A entrevista seria em Sde Boker, no Neguev, e ele indagou
se eu gostaria de acompanhá-lo. Ora, que pergunta. Graças
ao meu amigo Sabin, pude viver momentos inesquecíveis, talvez
os mais significativos em meus anos de profissão. Ben-Gurion
chegou ao meio-dia, exatamente na hora marcada, vestindo terno e
um casaco de lã pretos, seguido por dois guarda-costas. Apesar
de seus 86 anos, vinha com passos determinados. Antes da reunião,
falando em inglês, disse que estava com fome. Fomos a um refeitório,
acompanhados por um judeu residente na Califórnia, que tinha
feito a viagem até o deserto só para tirar uma fotografia
ao lado de Ben-Gurion. À mesa, sentou-se ao lado do grande
líder, eu mesmo bati a foto e, em seguida, ocupei seu lugar.
Serviram-lhe uma sopa de cenouras sobre a qual se concentrou, quase
sem falar durante a refeição. Dispensou a sobremesa
e, ato contínuo, nos encaminhamos para uma sala onde ele
examinaria os papéis levados pelo doutor Sabin. Quando me
vi ali fechado, junto aos dois, mal acreditei. Antes de entrar no
assunto, o cientista tirou uma fotografia de Ben-Gurion da pasta
e pediu que ele a autografasse. O velho, como sempre foi chamado
em Israel apesar de ter sido primeiro-ministro com apenas 62 anos
de idade, começou a escrever uma dedicatória na margem
branca da foto. Parou, virou-se para mim e perguntou: Affection
se escreve com um ou dois efes? Respondi os dois efes, mal conseguindo
conter a emoção. Parecia incrível, mas numa
dedicatória do grande patriarca moderno do povo judeu, endereçada
a outro judeu, nascido na Rússia e naturalizado norte-americano,
consagrado benfeitor da humanidade, havia uma interferência
minha de uma letra, somente uma letra, mas que me significava uma
imensidão.
Depois dos assuntos objetivos, passei a entrevistar Ben-Gurion,
sem fazer qualquer anotação, para extrair o caráter
de uma entrevista formal e de modo a deixá-lo à vontade.
Primeiro, falou sobre a China, argumentando que um país tão
importante, daquela dimensão e com tamanha população,
não poderia continuar à margem do contexto internacional.
Acreditava que Mao Tse Tung teria que se abrir para o Ocidente,
o que acabou acontecendo, naquele mesmo ano, com a histórica
viagem de Richard Nixon a Pequim. Abordou a questão dos territórios
ocupados. Insistiu que se tratava do único trunfo de Israel
para alcançar a paz. Disse-lhe, a propósito, que havia
uma notícia no Herald Tribune daquele dia, na qual
lhe atribuíam uma declaração segundo a qual
ele considerava a viabilidade de ser alcançada a paz. Ben-Gurion
respondeu: "A notícia está incorreta. Omitiram
minha formulação de paz completa. Eu considero como
paz aquilo que a Alemanha e a França, ou os Estados Unidos
e o Japão, fizeram depois da guerra. Uma paz que inclua confiança
mútua e francas relações comerciais e culturais.
Nós até poderemos ter convivência com nossos
vizinhos, mas nossas estruturas sociais e políticas são
tão diferentes das deles, que dificilmente teremos uma paz
completa". Foram palavras proféticas quando se constata
o nível de paz que Israel hoje mantém com a Jordânia
e com o Egito, na medida que esses dois países emitem, com
relação a Israel, um tipo de declaração
convencional em inglês e outra, inamistosa, em árabe.
Por causa da idade avançada, Ben-Gurion já não
falava com absoluta desenvoltura. Perguntou meu nome pelos menos
umas cinco vezes e, a cada resposta minha, dizia: "Vem para
Israel! Vem para Israel!" Recordou-se vagamente de sua visita
ao Brasil, três anos antes, quando o vi de perto pela primeira
vez, durante uma recepção na embaixada de Israel,
no Rio de Janeiro. Ao ser a ele apresentado pelo então embaixador
Itzhak Harkavi, certificou-se do meu nome e disse: "Vem para
Israel". Fui, sim, diversas vezes, mas sem me radicar, como
"o velho" queria, ou melhor, exigia - não somente
de mim, mas de todo o povo judeu na diáspora.
David Ben-Gurion, Gruen de família, nasceu em Plonsk, Polônia,
no dia 16 de outubro de 1886. Sua mãe, Sheindel, morreu quando
ele tinha onze anos de idade, exatamente no ano em que Theodor Herzl
promovia, na Basiléia, o Primeiro Congresso Sionista Mundial.
Para aquele menino judeu do interior polonês, a Suíça
estava mais longe do que a lua e o sionismo, com este rótulo
específico, apenas começava a existir. Mas seu pai,
Avigdor, advogado e comerciante, já era um sionista. A casa
dos Gruen era o centro, em Plonsk, do movimento Chovevei Tsion,
Amantes de Sion, precursor do sionismo político. Em vez de
estudar numa ieshivá, o jovem David teve uma educação
secular, que manteve pelo resto da vida, e foi o fundador do movimento
juvenil sionista Ezra, cujos membros renegavam o idioma
ídiche, falando apenas hebraico entre si. O restante de sua
biografia oficial é mais do que conhecida. Com 18 anos de
idade, passou a lecionar numa escola judaica de Varsóvia
e aderiu ao movimento sionista socialista Poalei Tsion.
Aportou em Jaffa, na antiga Palestina, em 1906, trabalhando a terra
em sucessivos agrupamentos coletivos, quando enfrentou toda a sorte
de dificuldades e doenças. Como a Palestina estava sob domínio
otomano, entendeu que deveria dominar as leis otomanas para defender
a causa judaica. Foi estudar direito na Turquia com seu amigo Itzhak
Ben Zvi, que viria a ser presidente de Israel. Por causa da primeira
guerra mundial, ambos foram considerados suspeitos e expulsos do
país.
David Gruen, já com o nome hebraizado para Ben-Gurion, rumou
em 1915 para os Estados Unidos, onde permaneceu durante três
anos. Dedicou-se a aprender inglês e fortaleceu em Nova York
o movimento sionista socialista. Ali conheceu a jovem Paula Monbesz,
com quem se casou. Se, por um lado, sentiu-se mobilizado pela revolução
russa e com o estilo de liderança exercido por Lênin,
por outro lado ficou impactado com a democracia norte-americana,
que sempre o inspirou. Voltou para a Palestina e deslanchou uma
carreira de ativista que o levaria à liderança da
comunidade judaica ali existente e a uma posição proe-minente
no sionismo internacional. Foi no decorrer desses anos que desenvolveu
e solidificou as características de sua personalidade, ímpar
em muitos sentidos. Apesar das inúmeras tarefas políticas
e sindicais que acumulou e, além dos embates enfrentados
tanto dentro como fora do âmbito judaico, encontrou tempo
para se tornar um intelectual erudito. Devorou livros de filosofia;
leu e escreveu comentários sobre a Bíblia, concluindo
que não era somente D’us que havia escolhido os judeus,
os judeus também O haviam escolhido; aprendeu o idioma grego
para ler Platão no original (já primeiro-ministro
estudou espanhol para melhor aproveitar o Dom Quixote, de Cervantes);
aprofundou-se no budismo e na obra de Spinoza. Conforme assinalou
o escritor israelense Amos Oz, sua forma habitual de comunicação
se voltava para a batalha verbal em vez do diálogo; mais
do que um filósofo era um ponto de exclamação
com temperamento vulcânico; um judeu secular nacionalista
que combinava visões messiânicas judaicas com ideais
socialistas; um homem com feroz ambição de liderança,
extraordinária habilidade política e um senso mais
chegado ao sarcasmo do que ao humor. Tinha curiosidade pelas ciências
naturais e ignorava obras de ficção, exceto os clássicos.
Acima de tudo, era um trabalhador infatigável. Certa ocasião,
quando primeiro-ministro, segurou sua equipe no trabalho até
tarde da noite. Uma secretária tomou coragem e lhe perguntou:
"O senhor nunca descansa?" - "Como descansar, você
quer dizer dormir?", respondeu. - "Não, primeiro-ministro,
eu me refiro a repousar". - "Eu não entendo. Como
é possível alguém ficar sentado olhando para
a parede?"
Ao longo da trajetória política e humana que percorreu,
Ben-Gurion viveu, no meu entender, três acontecimentos absolutamente
cruciais e em todos foi bem- sucedido. Se apenas um deles tivesse
falhado, a corrente se romperia e é impossível imaginar
qual teria sido, em função disso, o destino judaico.
O primeiro grande momento deu-se durante e logo depois da Segunda
Guerra Mundial. Assim como encorajou milhares de jovens da comunidade
judaica da Palestina a se engajarem no exército inglês
na luta contra o nazismo, após o conflito passou a combater
o poder mandatário britânico, trazendo levas de imigrantes
ilegais para a futura nação em embrião. As
interceptações efetuadas pelos ingleses, colocando
os refugiados do Holocausto novamente atrás de cercas de
arame farpado, levantaram a opinião pública mundial
a favor do sionismo e culminaram com a votação da
partilha da Palestina, nas Nações Unidas, em 1947.
Enquanto isso acontecia às claras, Ben-Gurion criou um exército
nas sombras, encarregado de comprar armas para a futura guerra pela
independência, que ele estava certo que viria. O quartel-general,
disfarçado como empresa comercial, ficava em Nova York, num
andar do prédio onde se situava a boate Copacabana, comandado
com notável eficiência por Teddy Kollek, o hoje legendário
prefeito de Jerusalém. O trabalho desenvolvido por Kollek,
envolvendo inclusive a compra de navios e aviões, vai além
da imaginação, antecipando uma frase que Ben-Gurion
diria anos mais tarde: "O difícil a gente faz imediatamente.
O impossível leva um pouco mais de tempo"
.
O segundo grande momento correspondeu ao da declaração
da independência de Israel. No dia 13 de maio de 1948, véspera
da data marcada, a liderança sionista foi notificada de que
os Estados Unidos, mais precisamente o secretário de estado,
general George Marshall, opunham-se à independência,
temerosos das conseqüências que tal ação
unilateral poderia causar em todo o Oriente Médio. Parte
considerável dos líderes sionistas também se
opunha à independência imediata com base em previsões
sinistras de derrota. Entretanto, mesmo ciente de que o novo país
sofreria um forte e imprevisível ataque armado por parte
dos países árabes, Ben-Gurion sabia que, se aquela
oportunidade fosse perdida, era impossível dizer quando haveria
outra, se é que haveria. Na manhã do dia 14, os membros
do futuro gabinete ainda discutiam os termos da declaração
de independência. Uns queriam que o texto fizesse menção
às fronteiras, tais como definidas pela partilha. Ben-Gurion
se opôs: a declaração norte-americana não
falava em fronteiras. Na verdade, ele pressentia que estas poderiam
vir a ser alteradas em função das batalhas, tal como
aconteceu após a celebração do armistício,
em Rodes. Os ortodoxos insistiam na inserção do termo
"D’us, Todo Poderoso". Os seculares rejeitavam.
Prevaleceu a opinião de Ben-Gurion: constaria o termo Rocha
de Israel (Tsur Israel), equivalente a D’us. E o
nome do país? Uns disseram Judéia, outros Sion. Mais
uma vez, Ben-Gurion bateu o martelo: Israel.
A cerimônia estava marcada para as quatro da tarde. Enquanto
o texto era polido, um artista plástico, Otto Wallisch, percorria
a cidade em busca de adereços que ornassem condignamente
o salão do Museu de Tel Aviv, onde seria realizada a cerimônia
oficial. Depois de muita procura, acabou encontrando um retrato
de Theodor Herzl, cujo tamanho insatisfatório foi aumentado
com uma larga moldura. Achou duas bandeiras com as estrelas de David,
mas estavam tão sujas que tiveram que passar por uma lavanderia
rápida antes de serem levadas para o museu. Ben-Gurion tinha
corrido até sua casa na rua Keren Kayemet, número
5, para trocar de roupa. O texto final lhe seria entregue na entrada
do salão. Seu assistente direto, Zeev Sharef, de posse do
documento final, providenciou conduções para os líderes
e ele mesmo acabou ficando a pé. Nem sombra de um táxi.
Pediu ajuda a um policial que parou o primeiro carro, pedindo ao
motorista que levasse Zeev. O homem respondeu: "Não
posso. Estou indo para casa. Quero ouvir pelo rádio a declaração
da independência". Ao que Zeev atalhou:"Pois se
você não me levar, não haverá declaração
a ser ouvida". Ele chegou ao museu quando faltava exatamente
um minuto para as quatro horas e entregou a declaração
a Ben-Gurion.
O terceiro momento crucial vivido por Ben-Gurion corresponde ao
episódio do navio "Altalena". No dia 12 de junho,
Menachem Begin, líder da organização Irgun,
que havia cometido ações armadas contra militares
ingleses, anunciou que dali a cinco dias chegaria a Israel um navio
com mil imigrantes e armas e munições que dariam para
abastecer dez batalhões. Begin queria que seus homens, lutando
em Jerusalém, ficassem com vinte por cento da preciosa carga.
Ben-Gurion respondeu que tudo deveria ser entregue aos combatentes
da nova nação, inclusive as armas que a Irgun ainda
mantinha em seu poder. Era imprescindível, naquela quadra
dos acontecimentos, a união nacional. Begin não se
conformou e ameaçou ficar com tudo. "O Altalena"
deitou âncora em frente a Kfar Vitkin e os caixotes começaram
a ser descarregados. Um oficial da Haganá (ainda
não havia o exército regular israelense) entregou
a Begin um ultimato: ou as armas eram entregues, ou tudo seria confiscado.
Diante da recusa, Ben-Gurion decidiu usar a força. O navio
deslocou-se até a costa de Tel Aviv e encalhou sobre os destroços
de um velho navio afundado pelos ingleses. Na manhã do dia
22, Ben-Gurion reuniu o gabinete. Seus olhos flamejavam enquanto
dizia: "O que está acontecendo coloca em perigo nosso
esforço de guerra e, mais importante ainda, ameaça
a existência do país. Um estado não pode sobreviver
sem que o seu exército seja controlado pelo próprio
estado". E enquanto Ben-Gurion se dirigia ao gabinete, Menachem
Begin falava de um alto-falante no navio: "Povo de Tel Aviv!
Nós, da Irgun, trouxemos armas para combater o inimigo,
mas o governo está negando o acesso a elas. Ajude-nos a descarregar.
Se há diferenças entre nós, vamos resolvê-las
depois". Ao mesmo tempo, no quartel-general da Palmach,
corporação ligada à Haganá de
Ben-Gurion, seus comandantes, Ygal Allon e Itzhak Rabin, começaram
a distribuir granadas a seus homens. Uma lancha passou a trazer
a carga para a praia e Ben-Gurion estava perfeitamente calmo quando
disse: "Não há jeito. Vamos ter que bombardear
o navio". Em seguida, o "Altalena" foi atingido por
um petardo e pegou fogo. Mais de cem pessoas morreram. Outras se
jogaram ao mar e foram recolhidas por botes, inclusive Begin que,
naquela noite, voltou a falar através de sua estação
de rádio secreta: "Os soldados da Irgun não
vão entrar numa guerra fratricida, mas também não
vão aceitar a disciplina de Ben-Gurion". Mas a história
demonstrou que a disciplina de Ben-Gurion acabou mesmo prevalecendo.
A rigor, ele não conferia ao Exército de Defesa de
Israel apenas um valor militar, mas encarava-o como um poderoso
centro de integração social, como uma instituição
que traria homogeneidade nacional aos jovens judeus que tinham chegado
ao país provenientes de todos os cantos do mundo.
Foi no trágico episódio do "Altalena", até
hoje encravado no âmago dos entrechoques políticos
israelenses, que Ben-Gurion promoveu a união do povo de Israel.
Ele fez dessa inabalável necessidade de união a sua
prática e teoria, partindo do princípio segundo o
qual a nova e emergente sociedade judaica, que estivera dividida
por dois mil anos, desconhecia qualquer forma de se governar e sequer
possuía uma autoridade espiritual centralizada. Na biografia
Ben-Gurion, Prophet of Fire, o autor Dan Kurzman escreve
que Ben-Gurion era, ao mesmo tempo, humilde e arrogante, tímido
e agressivo, alerta e ausente, generoso e mesquinho, comiserado
e cruel, sentimental e frio. Muitas vezes tratou aliados com desprezo
e admirou adversários, justamente porque estes se atreviam
a desafiá-lo. Manobrava o Parlamento como um ditador, mas
obedecia cegamente às regras da democracia. Quanto aos seus
sentimentos religiosos, confidenciou a um amigo; "Depois de
muito ler e de muito meditar, acho impossível provar que
D’us não exista".
Zevi Ghivelder
Jornalista e escritor
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