À frente, na direção, nossos guias e anfitriões, judeus
da comunidade de Belz, cidade num dos corações da região
historicamente conhecida como Bessarábia e atualmente parte da Moldávia,
uma das ex-repúblicas da URSS. Deixamos nosso hotel rumo ao cemitério
da pequena localidade de Britchon. Ao chegar, fomos recebidos por cães
que misturavam latidos e uivos. O vento cortante também soava.
O cemitério estava semi-abandonado. Protegidos por capas plásticas,
enfrentamos a chuva e caminhamos entre várias lápides destruídas.
De golpe, a busca se interrompeu. Encontramos o que procurávamos: o túmulo
de meu bisavô materno, Yaakov Koifman, falecido no final da década
de 10. Um momento de emoção ímpar, premiado com a sensação
de se restabelecer um elo rompido pelas turbulências da nossa história.
O episódio em Britchon, cidadezinha natal de parte meus antepassados maternos,
ilustra o mergulho genealógico proporcionado pelo período que morei
em Moscou. Naqueles anos, vasculhei ainda a região de Pinsk, atual Bielorrússia
e onde nasceram meus avós paternos. Lá, no entanto, pouco encontrei.
Partia para essas explorações genealógicas de Moscou, onde
desembarquei em 1990, como correspondente da Folha de S. Paulo. Deixei a cidade
quatro anos depois, quando o império soviético já havia desmoronado.
Testemunhar um fato histórico como o colapso do regime criado por Vladimir
Lênin representou um privilégio não apenas jornalístico.
Marcou, de forma indelével, minha vivência judaica. Pude assistir
– e em alguns momentos, participar – do renascimento da nossa comunidade,
depois de décadas asfixiada pelo sistema soviético. A perestroika
permitiu as primeiras lufadas de oxigênio para o judaísmo russo,
que se beneficiou ainda mais com a atual democratização nas terras
dos czares.
Em 1991, em minha casa, organizei o primeiro seder de Pessach na vida de um grupo
de universitários judeus. Nenhum deles jamais havia participado daquela
cerimônia. Juntos, lemos a Hagadá. Misturamos textos em hebraico,
inglês e russo. Celebramos ainda a emoção de poder, finalmente,
comemorar em Moscou uma festa tão ligada à idéia de liberdade.
A emigração judaica, naqueles anos, se intensificava numa URSS arruinada.
Israel, naturalmente, despontava como destino principal. Alguns, no entanto, rumavam
aos Estados Unidos. Acompanhei várias famílias em seu processo de
mudança de país, chegando, em viagens entre Jerusalém e Moscou,
a atuar como um "courier", levando encomendas e mensagens entre familiares
divididos pela nova situação.
Lembro-me de forma especial de uma cerimônia de Chanucá organizada
pela comunidade judaica em Moscou. O evento não seria embebido em tanto
simbolismo não fosse o local de sua realização: um dos edifícios
que ficam dentro das muralhas do Kremlin. Aquela comemoração religiosa
encontrara seu espaço exatamente no coração do poder que,
em tempos soviéticos ou czaristas, buscara sufocar atividades judaicas.
Meus "anos russos" também me proporcionaram a convivência
com um lado obscuro do cenário europeu oriental: seu anti-semitismo que
insiste em sobreviver. Pude observar e sentir como proliferam preconceitos seculares.
Enxerguei a intolerância voltada contra nós, por meio de manifestações
políticas ou do cotidiano, como jamais havia testemunhado. Ouvi histórias
de como crianças russas, em suas rusgas, podiam usar a expressão
"cara de judeu" como uma grave ofensa. Entendi que, se a situação
não é tão grave como aquela que levou meus antepassados a
saírem de Britchon e a buscarem vida nova em um longínquo continente,
seguramente eu não podia festejar o fim do anti-semitismo na Europa oriental.
Longe disso.
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