Raízes na Rússia
por Jaime Spitzcovsky

Chovia a cântaros naquela manhã fria de domingo. O clima prenunciava o fim do inverno e a despedida das nevascas. Meus pais e eu nos apertamos no banco traseiro do decrépito carro soviético.
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Edição 42 - Setembro de 2003
À frente, na direção, nossos guias e anfitriões, judeus da comunidade de Belz, cidade num dos corações da região historicamente conhecida como Bessarábia e atualmente parte da Moldávia, uma das ex-repúblicas da URSS. Deixamos nosso hotel rumo ao cemitério da pequena localidade de Britchon. Ao chegar, fomos recebidos por cães que misturavam latidos e uivos. O vento cortante também soava.

O cemitério estava semi-abandonado. Protegidos por capas plásticas, enfrentamos a chuva e caminhamos entre várias lápides destruídas. De golpe, a busca se interrompeu. Encontramos o que procurávamos: o túmulo de meu bisavô materno, Yaakov Koifman, falecido no final da década de 10. Um momento de emoção ímpar, premiado com a sensação de se restabelecer um elo rompido pelas turbulências da nossa história.

O episódio em Britchon, cidadezinha natal de parte meus antepassados maternos, ilustra o mergulho genealógico proporcionado pelo período que morei em Moscou. Naqueles anos, vasculhei ainda a região de Pinsk, atual Bielorrússia e onde nasceram meus avós paternos. Lá, no entanto, pouco encontrei.

Partia para essas explorações genealógicas de Moscou, onde desembarquei em 1990, como correspondente da Folha de S. Paulo. Deixei a cidade quatro anos depois, quando o império soviético já havia desmoronado.

Testemunhar um fato histórico como o colapso do regime criado por Vladimir Lênin representou um privilégio não apenas jornalístico. Marcou, de forma indelével, minha vivência judaica. Pude assistir – e em alguns momentos, participar – do renascimento da nossa comunidade, depois de décadas asfixiada pelo sistema soviético. A perestroika permitiu as primeiras lufadas de oxigênio para o judaísmo russo, que se beneficiou ainda mais com a atual democratização nas terras dos czares.

Em 1991, em minha casa, organizei o primeiro seder de Pessach na vida de um grupo de universitários judeus. Nenhum deles jamais havia participado daquela cerimônia. Juntos, lemos a Hagadá. Misturamos textos em hebraico, inglês e russo. Celebramos ainda a emoção de poder, finalmente, comemorar em Moscou uma festa tão ligada à idéia de liberdade.

A emigração judaica, naqueles anos, se intensificava numa URSS arruinada. Israel, naturalmente, despontava como destino principal. Alguns, no entanto, rumavam aos Estados Unidos. Acompanhei várias famílias em seu processo de mudança de país, chegando, em viagens entre Jerusalém e Moscou, a atuar como um "courier", levando encomendas e mensagens entre familiares divididos pela nova situação.

Lembro-me de forma especial de uma cerimônia de Chanucá organizada pela comunidade judaica em Moscou. O evento não seria embebido em tanto simbolismo não fosse o local de sua realização: um dos edifícios que ficam dentro das muralhas do Kremlin. Aquela comemoração religiosa encontrara seu espaço exatamente no coração do poder que, em tempos soviéticos ou czaristas, buscara sufocar atividades judaicas.

Meus "anos russos" também me proporcionaram a convivência com um lado obscuro do cenário europeu oriental: seu anti-semitismo que insiste em sobreviver. Pude observar e sentir como proliferam preconceitos seculares. Enxerguei a intolerância voltada contra nós, por meio de manifestações políticas ou do cotidiano, como jamais havia testemunhado. Ouvi histórias de como crianças russas, em suas rusgas, podiam usar a expressão "cara de judeu" como uma grave ofensa. Entendi que, se a situação não é tão grave como aquela que levou meus antepassados a saírem de Britchon e a buscarem vida nova em um longínquo continente, seguramente eu não podia festejar o fim do anti-semitismo na Europa oriental. Longe disso.