Os judeus de Kairouan
Os governantes permitiram o estabelecimento, em Kairouan, de academias de estudos
que chegaram a um nível comparável às da Babilônia.
A erudição judaica também encontrou campo fértil
para seu desenvolvimento. Foram editadas muitas obras, inclusive um famoso livro
de gramática, e os judeus da Tunísia chegaram a manter relações
com seus correligionários em muitos outros países e até na
Terra de Israel. Dois dos mais destacados sábios medievais, os rabinos
Jacob e Nissim, por exemplo, estavam na vanguarda dos estudos religiosos bem
como dos seculares.
Os judeus, gozando de liberdade para o exercício de várias atividades
comerciais, ajudaram a desenvolver o país e praticamente monopolizaram
o comércio de diversos produtos, como peles e sedas. As favoráveis
condições de vida acabaram atraindo judeus vindos da Itália,
Sicília e Espanha, que formaram novas comunidades em cidades costeiras
e em portos, como Sousse, Monastir, Sfax e Gabès.
Eles lá viveram e formaram estudiosos como Rabi Isaac Israeli e Rabi Abu
Sahl Dunash ben Tamin, este último, médico e autor do tratado místico
Sefer Yetzirá (O Livro da Criação). Os estudos talmúdicos
floresceram sob o estímulo de Rabi Houshiel b. Ihanan. O médico
e filósofo Yitzhak b. Sulayman Israeli, nascido no Cairo, mas que vivia
em Kairouan, foi responsável por importantes tratados médicos e
obras filosóficas. O sábio Nissim ben Jacob deixou, entre outros,
uma compilação de contos intitulada Hibur Yafé me-Hayeshuá (Livro
do Consolo) – esta obra é o primeiro livro de contos da literatura
judaica medieval.
No séc X, Kairouan já era um importante centro de estudo e atividade
econômica judaica. Lá foram encontrados textos que mencionam um
bairro judeu chamado “hara al yahoud ”. Uma lenda do século
X sobre a criação do bairro judaico conta que, até então,
os judeus eram obrigados a viver fora das muralhas de Túnis. Tentando
mudar essa situação, pediram a um renomado jurista tunisiano, Sidi
Mahrez, que intercedesse em seu favor junto ao soberano: “Quantos vocês
são?”, teria perguntado o jurista. E os judeus, temendo assustá-lo,
responderam: hara, que significa bairro. Sidi Mahrez então jogou um bastão
para longe e disse: “Onde cair meu bastão será o hara de
vocês”. Foi assim que, segundo a lenda, teria nascido na Tunísia
o primeiro bairro judeu.
Os almorávidas e os almôadas
Durante o século XII, assumiram o poder, no Magrebe, dinastias muçulmanas
mais fanáticas. Primeiro foram os almorávidas (1055-1157) e, em
seguida, os almôadas. Com a conquista da região pelos almorávidas,
os judeus são expulsos de Kairouan, só sendo readmitidos em 1881.
Tanto os almorávidas quanto os almôadas comandavam tribos berberes do
norte da África, recém-convertidas ao islamismo. Fanáticos,
tinham como meta estabelecer uma comunidade política, na qual os princípios
islâmicos fossem rigorosamente aplicados. Ambas não demonstravam
a menor tolerância em relação aos judeus, que enfrentaram
mais um período de perseguições. Em muitas ocasiões
foram forçados a escolher entre a morte e a conversão ao islamismo.
Os que se converteram, no entanto, continuavam a seguir o judaísmo em
segredo.
Quando em 1147 os almôadas sitiaram Marrakesh e, em 1172, conquistaram
todo o Império Almorávida, a situação dos judeus
piorou ainda mais. Os almôadas, ainda mais fanáticos que os almorávidas,
determinaram que os judeus do Magrebe usassem vestimentas de modelos e cores
diferenciados, para poderem ser facilmente reconhecidos. Um poema de Rabi Abraham
Ibn Ezra, uma das grandes figuras do judaísmo medieval espanhol, retrata
o sofrimento pelo qual passaram as comunidades de Túnis, Sousse, Mahdia,
Sfax, Gafsa, Gabès e Djerba: “O sangue de nossos filhos e filhas
foi derramado neste dia de Shabat.”
Os Hafsidas
Em 1269, chega ao fim o domínio dos almôadas no Magrebe e uma dinastia
mais tolerante – os Hafsidas, assume o poder. Novamente foi permitido aos
judeus praticar abertamente sua religião. Grande parte das leis discriminatórias,
no entanto, permaneceram em vigor, inclusive a djezia (imposto para os judeus),
a obrigação de usar vestimentas diferenciadas e a segregação
em bairros separados, os chamados Harat-al-Yahud (bairro de judeus).
A dinastia Hafsida, que reina na região até 1574, fez de Túnis
sua capital e, além de liberdade religiosa, deu mais uma vez aos judeus
o direito de exercer diversas profissões, como ourives, tintureiros e
alfaiates. Podiam também exercer cargos públicos. Novamente, os
estudos talmúdicos foram beneficiados por essa liberdade que permitia,
entre outros, que fossem consultados rabinos da Argélia sobre questões
religiosas. As “responsas” dos rabinos da Argélia constituem
as melhores fontes de informação sobre os judeus da Tunísia
durante o domínio dos Hafsidas.
No final do século XV, a relativa liberdade no país levou à Tunísia
diversos eruditos banidos da Espanha pelos Reis católicos, em 1492. Entre
eles estava Abraham Zacuto, o astrônomo e matemático de Colombo.
Foi em Túnis, em 1504, que Zacuto escreveu o famoso livro de genealogia
Sefer Yuhasin. Outros nomes de destaque no período foram os rabinos Abraham
Levy Bucrat, que redigiu famoso comentário sobre Rashi, e Moses Alashkar,
autor de um celebrado comentário do Talmud.
No século XVI, os judeus se viram no meio da luta entre os turcos e espanhóis,
na disputa pelo poder. Sofreram durante os combates entre as duas potências
inimigas tanto quanto os demais membros da população local. Quando
os espanhóis tomaram o poder na Tunísia, em 1535, numerosos judeus
foram presos e vendidos como escravos para muitos países cristãos.
Mas, apesar de tão terrível prática, não parece ter
havido perseguições sistemáticas aos judeus durante a ocupação
espanhola, que durou 40 anos.
Império Otomano
Após a vitória dos turcos sobre os espanhóis, em 1574, a
Tunísia tornou-se uma província do Império Otomano, passando
a ser governada por uma dinastia muçulmana indicada pelo poder em Istambul – os
Bey.
O domínio otomano foi um período de tranqüilidade e ascensão
econômica e cultural para a população judaica, que viu aumentar
consideravelmente o número de estudiosos, banqueiros e diplomatas. Os
judeus monopolizavam o comércio de atum, coral e fios de lã, a
tal ponto que, em 1810, chegaram a exportar mais de 200 mil xales, sendo mais
da metade para a confecção de talitot, na Polônia.
Uma significativa mudança social, no entanto, aconteceu no seio da comunidade
judaica tunisiana, dividida em dois grupos: por um lado, o núcleo “nativo”,
chamado em judeu-árabe de Tuansa – os tunisianos; e, pelo outro,
judeus vindos da Itália, “imigrantes”, que se autodenominavam
Gornim, palavra derivada da cidade italiana de Ligorno, atual Livorno. Os Tuansa,
por sua vez, os chamavam de Grana. Apesar das diferenças, as duas comunidades,
viviam no mesmo bairro – Haral-al-Yahud, porém, os imigrantes tinham
seu próprio mercado – o Souk-al-Grana. Cada comunidade tinha suas
sinagogas, escolas, açougues, tribunal rabínico, contabilidade
e cemitério. Posteriormente, com a ascensão sócio-econômica
dos Granas, estes passaram a viver em outras áreas da cidade.
No século XVIII, houve um florescimento dos estudos talmúdicos
em todas as comunidades da Tunísia, particularmente em Túnis. No
final do século XVIII, o rabino emissário de Hebron, Haim Yossef
David Azulay, de passagem pelo país, prestou homenagem aos rabinos de
Túnis, “cidade de grandes sábios e escritores”. Foi
nessa época que os judeus da cidade foram a Livorno para imprimir as obras
manuscritas de vários sábios, apadrinhados por mecenas, como Ros
e Chemana. Autoridades rabínicas, como Yitzhak Lumbroso (falecido em 1752),
Messaoud El Fassi (falecido em 1774) e Uziel el-Haïk (falecido em 1810)
escreveram obras que foram impressas em Livorno muito após sua morte.
Em 1768 foi também publicado o primeiro livro hebraico, Zera Yitzhak,
do rabino Yitzhak Lumbroso. Mais de cem obras foram publicadas entre os séculos
XVIII e XIX, ao ritmo de dois a três volumes ao ano.
A partir do século XIX, aumenta cada vez mais a influência européia
sobre a Tunísia. O soberano Ahmed Bey (1837-1855) decide modernizar sua
administração e seu exército e instaura uma política
de reformas. Sua legislação liberal permitiu a inúmeros
judeus ascender a importantes posições econômicas e políticas
durante seu governo. Em virtude de um acordo assinado durante o ano de 1846,
os judeus da Toscana que vinham estabelecer-se na Tunísia e os que vieram
mais tarde obtiveram o direito de conservar sua nacionalidade por tempo indeterminado.
Isto encorajou muitos outros a virem se instalar no país e eles constituíram,
diferentemente dos livornenses, uma minoria estrangeira sob a proteção
do cônsul da Toscana.
O século XIX foi marcado por um grande interesse das nações
européias em relação à África. Em 1830, a
França assumiu a Argélia, e uma grande esperança tomou conta
dos judeus da Tunísia. O desejo dos judeus de passar a viver sob o domínio
das potências européias era incentivado pelas explosões de
violência contra os judeus que, às vezes, ocorriam sob os mais diferentes
pretextos. Em 1856, um judeu tunisiano, Batto Sfez, falsamente acusado de blasfemar
contra o Islã, foi linchado nas ruas por uma turba de muçulmanos
enfurecidos.
A influência da Europa atingia também o plano cultural. Os filhos
das famílias judias da burguesia tunisiana, à procura de um ensino
laico de nível mais alto, freqüentavam escolas protestantes. Com
a inauguração, em 1878, da Aliança Israelita Universal em
Túnis, as famílias judias de todas as classes sociais puderam lá matricular
seus filhos. O currículo incluía história judaica e o ensino
do hebraico e os dispensava dos programas das escolas francesas. Desde então,
a população judaica iniciou um processo de evolução
que se ampliaria sob o Protetorado Francês, instituído em 12 de
maio de 1881 pelo Tratado Pardo.
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