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| Tunísia, encontro de culturas |
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| A grande Sinagoga de Túnis, 1995, Micha Bar-Am |
A Tunísia, situada no norte da África, é o menor e o mais a leste dos três países que constituem o chamado Magrebe. Sua posição estratégica, na costa do Mediterrâneo, fez com que no decorrer dos milênios a região fosse ponto de passagem para vários impérios.
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| Edição 41 - Junho de 2003 |
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A história da região sempre foi tumultuada, tendo sido o berço
da antiga e poderosa civilização cartaginesa,
que dominou a região por mais de 700 anos, até ser conquistada
por Roma. O domínio romano se estendeu por vários séculos,
até meados do séc. IX, quando a região se tornou muçulmana – permanecendo
assim até os dias de hoje.
Há muitas versões sobre quando os judeus te-riam chegado à Tunísia.
Há quem acredite que eles participavam ativamente do comércio
da região bem antes da destruição do Primeiro Templo.
Evidências arqueológicas e citações literárias
indicam que o país abrigou uma rica vida comunitária judaica
por mais de 2.300 anos. Escavações feitas em um sítio
conhecido como Garmath, próximo às ruínas da Cartago romana,
revelaram a existência de cemitério judaico datado do século
III desta era. Em outro local, chamado Hamman Lif, foi encontrada uma sinagoga,
do mesmo período, em bom estado de conservação, com um
mosaico contendo os dizeres “Sancta Sinagoga”. Em Naro também
foram encontrados vestígios de uma sinagoga. Em diversos locais encontraram-se
inscrições judaicas ou judaizantes, que atestam a presença
de judeus na Tunísia desde a Antigüidade.
A Tunísia é mencionada nas obras do historiador Flávio
Josefo, bem como em várias passagens do Talmud. Tanto o Talmud Babilônico
como o de Jerusalém reproduzem opiniões dos rabinos Abba e Hanina,
de Cartago.
A comunidade judaica da Tunísia, uma das mais antigas da diáspora,
foi influenciada pelas diversas etnias que passaram pela região – fenícios,
romanos, vândalos, bizantinos, berberes, árabes, espanhóis,
turcos, italianos e franceses. Foi essa diversidade que levou o escritor, Albert
Memmi, judeu tunisiano, a dizer que em cada quarteirão da Tunísia
há uma civilização diferente.
Os fenícios e Cartago
Os fenícios, povo de origem semita, foram a primeira civilização
a se estabelecer na região. Desde o século XII a.E.C. haviam fundado,
ao longo da costa da África Setentrional, modestas colônias, portos
que serviam como ponto de apoio para sua frota de navios e seu comércio
no Mar Mediterrâneo. A expansão dessas atividades, em 814 a.E.C.,
levou os habitantes do reino de Tiro, na Fenícia, a fundar Cartago. A
cidade rapidamente se converteu numa potência marítima, dominando
o comércio mediterrâneo.
Entre as várias versões sobre o surgimento dos primeiros judeus
na África Setentrional, inclui-se uma que remonta ao tempo do rei Salomão.
Segundo a lenda, o monarca associou-se com Hiram, rei de Tiro, para realizar
expedições em direção a Tarshish. Acredita-se que
a esquadra comercial do rei Salomão, além de navegar por todo o
Mediterrâneo, tenha criado vários entrepostos comerciais em locais
mais distantes, alguns dos quais na costa do norte da África.
Porém, a maioria dos estudiosos acredita que os judeus formaram os seus
primeiros núcleos na região em 586 a.E.C., época da destruição
do Primeiro Templo, por Nabucodonosor II. Apesar de a maioria dos judeus terem
sido exilados para a Babilônia, outros se espalharam pelo norte da África,
marcando o início da vida judaica na diáspora. Esses judeus se
teriam unido a outras famílias que viviam com os fenícios, contribuindo
para o crescimento e desenvolvimento de Cartago. Conta-se que alguns dos judeus
que foram para essa região, teriam levado consigo uma pedra do Primeiro
Templo, que foi utilizada na construção da sinagoga de Ghriba,
em Djerba, que data da época. Nessa cidade, existe, até hoje, uma
comunidade judaica.
Na época do Império Romano
No séc III a.E.C. Roma surge como nova potência militar e desafia
a supremacia e o domínio de Cartago no Mediterrâneo. As duas potências
travam, a partir de 264 a.E.C, três guerras que duram mais de 100 anos.
As Guerras Púnicas, como são conhecidas, terminam com a vitória
de Roma e a destruição de Cartago, em 146 a.E.C. É o fim
da hegemonia cartaginense tanto na região como sobre o Mediterrâneo
Ocidental e o começo da dominação romana. Cartago é mais
tarde reconstruída como cidade romana.
Na chamada África romana, os judeus (assim como outras religiões
pagãs) gozavam de um status favorável que lhes permitia seguir
seus preceitos religiosos. Há indícios de que a população
judaica na região que é, hoje, a Tunísia aumentou consideravelmente
durante os primeiros séculos do domínio romano, com muitos judeus
vindos da antiga comunidade judaica de Roma, que datava do século II a.E.C.
Séculos mais tarde, no início da era comum, a comunidade cresceu
mais ainda em função de dois fatores. O primeiro e mais importante
foi ter acolhido judeus que se refugiaram na região, vindos da Judéia,
na época também parte do Império Romano. Fugiam à violência
dos exércitos romanos que lutavam contra os judeus que se haviam rebelado
contra o jugo de Roma. A primeira dessas levas de judeus rumo à África
Setentrional ocorreu em 70 desta era, após as tropas romanas terem abafado
a primeira revolta judaica e o exército de Tito ter tomado Jerusalém
e destruído o Segundo Templo. O contingente seguinte veio por volta de
132, durante a segunda revolta na Judéia, liderada por Bar-Kochba. Em
sua obra, Flávio Josefo testemunha que durante o reinado do imperador
romano Tito mais de 30 mil judeus da Terra de Israel foram levados pelos romanos
para a Tunísia. Ainda que lhes fosse permitido pela lei romana seguir
sua religião em relativa liberdade, a vida dos judeus na Tunísia
foi muito dura nessa época, em particular durante o governo dos imperadores
romanos Vespasiano e Adriano.
O segundo fator que contribuiu para o crescimento da comunidade judaica da Tunísia
foi a conversão ao judaísmo de tribos berberes que viviam no norte
da África. Muitas lendas da região relatam tais conversões.
A situação dos judeus em todo o Império Romano piorou sensivelmente
quando, em 392, o cristianismo foi declarado religião do Estado e foram
promulgadas as primeiras restrições legais aos judeus. A população
judaica viu sua liberdade diminuir gradativamente, sendo excluída dos
cargos públicos e proibida de construir novas sinagogas, entre outras
medidas discriminatórias. Uma prova concreta da mudança em relação
aos judeus pode ser vista no trabalho Adversus Judaeorum, do legislador romano
Tertuliano, nascido em Túnis e grande defensor do cristianismo. Em seus
textos, ele descreve os judeus como “fugitivos e vagabundos, condenados
a viver espalhados pelo mundo como resultado do desrespeito que tiveram com o
Salvador” (sic). Conseqüentemente, afirmava, o judaísmo deveria
ser erradicado. Sua obra foi usada como “base” para as perseguições
contra os judeus e como “justificativa” para o tratamento brutal
ao qual eram submetidos. Sinagogas foram transformadas em igrejas e se recorreu à tortura
para obrigar os judeus a se converterem.
Mas os dias do império Romano do Ocidente estavam chegando ao fim e os
séc. V e VI são palco de profunda crise no mundo romano. Ondas
de invasões de bárbaros na Europa e no norte da África levaram à queda
do Império Romano do Ocidente, por volta do ano de 476.
Durante o século V, os reis bárbaros do norte da Europa, dividiram
o antigo Império Romano do Ocidente em diversos reinos. Os vândalos – bárbaros
de origem germânica – estabeleceram um reino na África do
Norte. Durante a dominação destes últimos (439-533), todas
as medidas discriminatórias contra os judeus foram revogadas e a comunidade
judaica passou a viver um novo período de bonança.
Esse período de paz e tolerância durou pouco, pois quando os bizantinos
(Império Romano do Oriente) retomaram a região, em 533, trouxeram
de volta difíceis provações para os judeus. As autoridades
cristãs do Império Bizantino aplicaram sobre a população
judaica uma política de severa intolerância. Um edito promulgado
em 535 pelo imperador Justiniano, além de proibir a prática da
religião judaica, excluía os judeus de todos os serviços
públicos e os coagia, novamente, a se converterem ao cristianismo.
Perseguidos nos territórios sob hegemonia bizantina, deixaram as cidades
grandes e foram para as regiões montanhosas e para os confins do deserto,
mesclando-se às populações berberes, muitas das quais se
converteram ao judaísmo.
O Islã conquista o Magrebe
No séc. VII surge o Islã – uma nova força político-militar,
além de religiosa, que vai mudar a geopolítica do mundo. Em 632,
após a morte do profeta Maomé, seus seguidores iniciam o processo
da expansão muçulmana, conquistando a região do Magrebe
em 642.
Em certas regiões do norte da África, os exércitos árabes
enfrentaram uma longa e feroz resistência por parte de tribos berberes
judaizadas. Segundo uma das tantas lendas da região, quem liderava uma
dessas tribos em 693 era a rainha de Aures, conhecida como Kahena. Segundo o
historiador árabe Ibn Khaldoun, Kahena era judia e seu nome derivaria
da palavra hebraica Cohen.
Após uma longa luta, os conquistadores árabes acabaram tomando
o poder e obrigaram a população pagã a se converter ao islamismo.
No entanto, em todos os territórios dominados pelos muçulmanos,
estes concederam aos “Povos do Livro”, adeptos do monoteísmo – judeus
e cristãos – o direito de praticar sua religião, sob a condição
de pagarem uma taxa por “cabeça”, a djezia ou dhimma, em troca
de proteção. No entanto, considerados cidadãos de segunda
classe, seu status social era inferior ao dos muçulmanos e sua situação
dependia muito dos governantes que estavam no poder. Conforme a interpretação
que cada dinastia dava à legislação que governava os dhimmis,
ou mesmo conforme o capricho de seus governantes, os judeus e os demais dhimmis
eram submetidos – ou não – a uma série de humilhações
públicas. Entre estas, estava a “chtaka” – uma bofetada
dada, em público, uma vez por ano, ao chefe da comunidade judaica.
Porém apesar de todos os possíveis perigos com a conquista árabe
da região, a vida dos judeus melhorou gradativamente, à medida
que os novos conquistadores sedimentavam sua presença na nova capital
Kairouan, fundada em 670.
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