Os preparativos do Levante
Com a aproximação das forças aliadas, no outono de 1943,
os alemães começaram a evacuar o campo. Berlim deu ordens para
que Treblinka, assim como outros campos, fossem totalmente destruídos.
Não queriam deixar provas sobre a existência ou atividades do
local. O processo de desativação foi sendo percebido pelos prisioneiros
judeus, à medida que o número de transportes diários diminuía
e aumentava o volume das cremações dos corpos jogados nas valas.
As covas coletivas eram fechadas como se jamais tivessem existido. Foi nesse
contexto que o levante começou a ser planejado por aqueles que não
tinham outra certeza senão a da morte nas mãos de seus carrascos.
Era apenas uma questão de tempo.
Antes de agosto de 1943, já haviam ocorrido atos isolados de resistência
judaica em Treblinka I e II. A cada ato de rebelião que provocasse a
morte de oficiais da SS e de guardas ucranianos, as represálias eram
terríveis, um número infinitamente maior de prisioneiros eram
mortos. A suposição de que o campo de extermínio seria
desativado, no entanto, fez com que começasse a ser organizado um movimento
clandestino que incluiria detentos dos dois campos e estes liderariam a revolta.
O objetivo era permitir a fuga do maior número possível de prisioneiros,
além de tentar destruir as instalações mortíferas
e eliminar o maior número possível de guardas. Sabia-se que assim
que o levante eclodisse, centenas de judeus se uniriam ao movimento e lutariam
contra os carrascos. Os preparativos incluíam também a obtenção
de algumas armas – inicialmente, subornando guardas ucranianos e, posteriormente,
roubando-as do depósito do campo. As dificuldades enfrentadas foram
imensas.
Um fato, no entanto, acabou ajudando os prisioneiros na obtenção
das armas. Em julho de 1943, o comandante de trabalho do campo, Carl Gustav
Farfi, precisou de uma cirurgia que acabou sendo feita pelo médico judeu
Julian Choransky. Durante a cirurgia, a chave do depósito de munições
do campo foi roubada e copiada. Como “agradecimento” por seus serviços
como médico, Dr. Choransky foi mandado às câmaras de gás
logo após a cirurgia e não participou da rebelião, apesar
de ter sido um de seus mentores.
O Levante
À
s 15h35 do dia 2 de agosto de 1943, começou o levante em Treblinka.
A data foi marcada para coincidir com a chegada do trem que traria quatro mil
judeus ao campo. O plano foi colocado em prática na noite anterior,
quando Eliahu Grinsbach roubou do depósito de armas três pistolas
e dez granadas que seriam utilizadas para dar início à revolta.
Poucas armas para enfrentar os nazistas, mas se um número maior de armas
desaparecesse do depósito poderia chamar a atenção dos
nazistas. Combinaram, então, que assim que a ação começasse,
um grupo de rebelados obteria mais armamentos. Os responsáveis pela
revolta dividiram-se em vários grupos, cada um encarregado de uma missão
específica. Todos tentariam, envolver o maior número de judeus
na luta.
No dia seguinte com a chegada do trem na plataforma de Treblinka, eclodiu o
levante. O sinal foi dado quando o prisioneiro judeu Josef Gross lançou
uma granada de mão sobre os guardas de uma das torres de vigilância.
Simultaneamente à explosão, Gross atirou num oficial da SS, o
vice-comandante do campo Kurt Hubert Franz (ver box), um dos mais odiados,
que escapou e ordenou ao seu cão que atacasse o detento. O cão
estraçalhou Gross. Antes mesmo que Kurt Franz pudesse perceber o que
estava acontecendo e dar o alarme para os guardas ucranianos, os judeus começaram
a atirar e incendiaram algumas construções. A desproporção
entre as partes era inegável – de um lado, homens pobremente armados,
enfraquecidos por maus-tratos, subnutridos e totalmente destruídos psicologicamente,
e, do outro, soldados do Reich, bem alimentados, treinados e armados. Mesmo
assim, os judeus atacaram seus carrascos sem hesitar. Esperar por sucesso seria
muito mais que um delírio, mas poderiam tentar matar o maior número
de nazistas e, quem sabe, alguns deles poderia sobreviver para contar ao mundo
como um pequeno grupo de judeus enfrentara seus carrascos.
O portão principal foi derrubado por uma explosão, outras atingiram
as torres de observação e as portas do depósito de armas
foram arrombadas pelos revoltosos, que distribuíram as armas aos seus
companheiros. Centenas de pessoas tentaram derrubar a cerca e fugir, mas a
maioria foi morta pelos guardas que começaram a atirar para todos os
lados e pelos cães que os dilaceravam. Às 15h46, a revolta terminou.
Durou apenas onze minutos e deixou um saldo negro: 1.100 judeus mortos. Somente
180 prisioneiros conseguiram fugir. Entre os SS e os guardas ucranianos foram
117 os mortos e feridos. No chão, imóveis sob a mira dos nazistas,
deitados em meio ao sangue de seus irmãos, os judeus que sobreviveram.
Os fugitivos foram impiedosamente caçados pelos nazistas e seus asseclas
e brutalmente assassinados quando encontrados.
Dezoito, no entanto, foram resgatados, famintos e no fim de suas forças,
por um grupo de resistentes judeus que havia sobrevivido à Revolta do
Gueto de Varsóvia e que se escondera na floresta.
Esses sobreviventes foram a memória viva dos fatos ocorridos no dia
2 de agosto de 1943 em Treblinka. Mostraram ao mundo a nova face de um judeu
que, mesmo diante das piores adversidades, não se entrega e luta, se
necessário, até a morte. Esta verdade, gravada no coração
de cada judeu, conseguiu ser traduzida em palavras por Menachem Beguin em seu
famoso livro, “A Grande Revolta”:
“
Foi do sangue, do fogo, das lágrimas e das cinzas que um novo tipo de
ser humano nasceu, um gênero absolutamente des- conhecido pelo mundo
por mais de mil e oitocentos anos, o judeu combatente”.
KURT HUBERT FRANZ, um dos membros mais sádicos e cruéis do SS,
temido entre os prisioneiros por sua bestialidade, foi promovido após
a revolta para o posto de comandante supremo de Treblinka. Responsável
pela morte de 300 mil judeus, ficou no campo até seu total desmantelamento,
em novembro de 1943. Inutilmente, um dos organizadores da revolta que conseguira
se salvar, Judah Klein, tentou levá-lo a julgamento e fazer justiça.
Quando do término da guerra, Kurt Franz permaneceu livre na Alemanha e,
usando seu próprio nome, trabalhou em uma fábrica de Düsseldorf
até 1961, quando, por insistência do governo de Israel, foi julgado.
Condenado à prisão perpétua, foi libertado em maio de 1993.
O governo alemão alegou, na época, que após 15 anos de prisão
a lei alemã permite que se solte qualquer detento mesmo que seus crimes
tenham sido hediondos. Morreu como um homem livre na Alemanha, em 1998.
Bibliografia:
•
“Jewish Prisoner Uprisings in The Treblinka And Sobibor Extermination
Camps;
•
The Fourth Yad Vashem International Historical Conference , Jerusalem, Janeiro
de 1980;
•
Acts of Resistance and the Organization of the Revolt in Treblinka, The Nizkor
Project The Nizkor Project , www.nizkor.org <http://www.nizkor.org>;
•
Marrus, Michael The holocaust in History
, 1987;
•
Elkins, Michael ,
Forged in Fury .
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