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| Treblinka, a coragem dos esquecidos |
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| Foto Ilustrativa |
Enfraquecidos, humilhados,
sem esperança, solitários e esquecidos
pelo mundo. Assim estavam os prisioneiros no campo de extermínio
de Treblinka nas semanas
que antecederam o Levante de
2 de agosto de 1943. Há sessenta anos,
um ato de coragem sobre-humano surpreendeu os carrascos nazistas que guardavam
o campo de Treblinka.
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| Edição 41 - Junho de 2003 |
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Foi o gesto derradeiro daqueles que sabiam que não lhes restava outro
destino a não ser a morte e que,
diante dessa certeza, preferiram morrer lutando. A revolta em Treblinka é mais
um, entre tantos outros atos de coragem, que desmentem a versão de que
os judeus foram para as câmaras de gás como “gado para o
matadouro” e se soma à história da luta no Gueto de Varsóvia, à revolta
e fuga do campo de extermínio de Sobibor, Auschwitz, Minsk, Mazowiecki,
Kruszaya, Krychow e de outros. Embora nem sempre registrados nos livros de
História ou documentos, os acontecimentos estão gravados na memória
de quem vivenciou e sobreviveu à tragédia que assolou o povo
judeu na Europa, nas décadas de 30 e 40.
Para alguns, tais levantes e revoltas podem ser considerados “inexpressivos” diante
do número total de judeus – 6 milhões – mortos durante
o massacre, fria e sistematicamente planejado pela máquina nazista com
o objetivo primordial de aniquilar todos os judeus, indiscriminadamente. Para
outros, mais do que o último alento de condenados à morte, foram
atos de inacreditável coragem de homens que escreveram com seu sangue
o legado que deixaram para o futuro: foram combatentes judeus, até o
fim. Não há dúvidas que o exemplo de sua coragem inspirou
os milhares de sobreviventes que deixaram uma Europa que os traíra, à procura
de um novo lar na Terra de Israel, a então Palestina, onde lutaram com
todas suas forças para construir o Estado de Israel.
O Campo
Treblinka foi criado em meados de 1941 como um campo de trabalhos forçados
e foi assim denominado por causa de um vilarejo nas proximidades. Situado a
cerca de 100 quilômetros de Varsóvia, recebia inicialmente prisioneiros
acusados de crimes pelos alemães. Um ano após a sua abertura,
ganhou um anexo, passando a ser chamado de Treblinka I. O novo campo, Treblinka
II, diferentemente de seu antecessor, surgiu como campo de extermínio – mais
uma etapa da famigerada “Solução Final” idealizada
pelo Terceiro Reich para o povo judeu. Localizado a quase dois quilômetros
de Treblinka I, o anexo foi construído por empresas alemãs que
usavam, como mão-de-obra de custo zero, prisioneiros poloneses e judeus,
muitos dos quais trazidos do Gueto de Varsóvia. “Inaugurado” em
23 de julho de 1942 – quando começou a evacuação
do Gueto, Treblinka II abrigou a máquina assassina que exterminou os
265 mil judeus da capital polonesa, no maior sigilo.
Os nazistas não queriam que a verdade sobre a Solução
Final fosse conhecida pelo mundo por dois motivos principais. O primeiro era
simplesmente conseguir “recolher e reassentar no Leste” os judeus
espalhados pela Europa. Não sabendo ou não querendo acreditar
na verdade sobre o verdadeiro destino dessas “viagens”, era mais
fácil para os nazistas “manipularem” as populações
judaicas que recolhiam. O segundo era esconder a verdade do mundo ocidental
por medo que suas ações “não fossem compreendidas” e
que se descobrisse que os locais para “reassentamento” dos judeus
da Europa eram na realidade campos de morte. Mas, apesar de todo o sigilo dos
nazistas, desde 1941 notícias e provas sobre o que estava acontecendo
vinham chegando até os líderes do mundo ocidental. Muitos foram
os que arriscaram suas vidas para tentar alertar o mundo, mas poucos os que
acreditaram e esses poucos, nada fizeram. Os judeus da Europa ficaram entregues à sua
própria sorte.
Para tentar garantir o segredo sobre os crimes cometidos em Treblinka, o campo
era protegido por duas cercas de arame farpado, sendo que a interna era camuflada
com árvores e plantas, justamente para encobrir suas atividades macabras.
Para reforçar esta farsa, a câmara de gás ostentava uma
Estrela de David e uma cortina, com os seguintes dizeres: “Este é o
portão pelo qual passam os justos”.
Trazidos até o campo de extermínio em vagões lacrados,
superlotados como se fossem gado, sem água, alimento ou qualquer tipo
de atendimento às suas necessidades básicas, cerca de cinco a
sete mil pessoas chegavam em cada comboio. Ao desembarque, deparavam-se com
a Estrela de David e ouviam um discurso de um oficial da SS explicando-lhes
que haviam chegado a um campo de trânsito. Em seguida, as mulheres e
crianças eram separadas dos homens; os doentes eram também separados
e os mortos jogados em local afastado. Começava então o “macabro
ritual” de corte de cabelo e o encaminhamento para as câmaras de
gás. Era nesse momento que os guardas incentivavam as pessoas a escreverem
para seus familiares – a correspondência seria posteriormente enviada,
para reafirmar ao mundo ocidental a impressão de que o processo de transferência
judaica não passava de um reassen-tamento. Enquanto Treblinka II funcionou,
estas cenas – assim como nos outros campos de extermínio instituídos
pelos nazistas – repetiram-se milhares de vezes. Aos que sobreviviam às
seleções para as câmaras de gás, era imposta uma
rotina rígida e desumana. A meta era reduzi-los a zero, tanto física
como moralmente; queriam que perdessem qualquer traço de dignidade humana.
As chances de rebelião ou resistência eram nulas.
A resposta à pergunta tantas vezes repetida sobre como tudo isso pode
ter acontecido talvez esteja, em parte, no sigilo mantido sobre toda a operação
e segmen-tação de suas etapas. Tre-blinka era uma verdadeira “linha
de produção” da morte, eficiente, rápida, sem falhas.
Talvez esteja, também, no isolamento no qual eram mantidos os prisioneiros
de Treblinka I e Treblinka II, rompido apenas quando alguém passava
de um campo para o outro. No entanto, geralmente esta era uma viagem sem volta
e dificilmente quem passava de um campo para o outro voltava para contar a
história. Os prisioneiros escalados para trabalhar no campo de extermínio
vinham, geralmente, nos trens superlotados e, portanto, também não
tinham contato com os detidos no campo de trabalho forçado.
O campo também era dividido em duas áreas – uma que incluía
a plataforma dos trens, as moradias para os comandantes, a administração,
marcenarias e um espaço reservado para os “recém-chegados” e
seus pertences. A outra área incluía o setor de exterminação
propriamente dito, com as câmaras de gás, as covas abertas e os
locais para cremação, além dos barracos para os prisioneiros
judeus. Cercas separavam os dois setores.
Os funcionários – se é que podem ser chamados assim – de
Treblinka II eram alemães, ucranianos, havendo entre eles também
prisioneiros judeus. Enquanto os dois primeiros grupos eram responsáveis
pela vigilância, pela rígida e brutal disciplina e pela operação
das câmaras de gás, os judeus brutalizados pela fome e aterrorizados,
realizavam as tarefas mais pesadas – as mais terríveis – pois
separavam as roupas e objetos de valor de seus irmãos mortos e eram
obrigados a jogar nos fornos crematórios ou em valas abertas os cadáveres
que outros prisioneiros judeus retiravam das câmaras de gás. Muitas
vezes, entre os pertences – ou pior ainda – entre os corpos, reconheciam
parentes, filhos, amigos, vizinhos. Em Treblinka, a expectativa de vida destes
prisioneiros não ia além de duas semanas, no máximo dois
meses. Sobreviver era um grande feito.
O campo de extermínio começou a operar com três câmaras
de gás, chegando em pouco tempo a seis. De julho de 1942 a abril de
1943, aproximadamente 870 mil pessoas morreram no local. Em sua grande maioria,
os judeus eram friamente assassinados apenas duas horas após sua chegada.
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