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| Tradições e costumes da Tunísia |
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| Foto Ilustrativa |
Qualquer comunidade
tem certos costumes, tradições
e ritos que lhe são peculiares...
São essas tradições que nos fazem
lembrar com nostalgia de nossa
infância e nos unem a nossas raízes.
Retratamos neste artigo alguns
desses costumes tunisianos que,
infelizmente, com o passar do tempo
tendem a se perder.
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| Edição 41 - Junho de 2003 |
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Ayin Hará, o mau-olhado
O ayin hará é uma das superstições que muitas vezes é mistificada.
A explicação dos sábios é que não se deve
temê-lo, porém se deve tentar evitar certas atitudes que podem
despertar a inveja. Obviamente não há razão para fazer
disto uma preocupação obsessiva.
O “mau-olhado” é um conceito que existe em praticamente
todas as culturas, não sendo portanto, exclusivamente do conjunto de
superstições judaicas, nem da Tunísia. Os sefaraditas
do Oriente Médio costumam usar uma antiga expressão árabe
Mashallah que significa: “Que D´us o livre do mau-olhado” quando
saúdam uma criança ou um jovem. Na Turquia, por exemplo, os pais
não costumam mostrar um recém-nascido a outras pessoas até que
este complete 40 dias, pois a sua beleza poderia despertar inveja. Os italianos
por sua vez chamam o mau-olhado de mal occhio e, em várias cidades do
sul da Itália, é comum a presença de “especialistas”,
geralmente mulheres, que supostamente o “afastam” com um ritual
feito com azeite de oliva. Outras culturas possuem superstições
similares.
O conceito judaico de mau-olhado aparece na Torá e no Talmud, estando
presente em inúmeros comentários, apesar de se considerar de
modo geral a superstição como sendo uma violação
dos valores da Torá.
Na Torá quando Jacob mandou seus filhos para ao Egito para trazer algumas
provisões (Gênesis, 42), instruiu-os a entrar na cidade por portões
diferentes. Por quê ? Se todos os irmãos, que eram excepcionalmente
belos e fortes, entrassem juntos por um mesmo portão, poderiam provocar
nas pessoas que os vissem sentimentos de inveja, “provocariam “o
ayin hará”. José também é imune ao ayin hará,
pois foi abençoado por Jacob (Gênesis, 49:22) para estar acima
do mau-olhado, assim como seus filhos Efraim e Menasseh (Gênesis, 48:16).
Pode-se, então, deduzir que o ayin hará não é mera
superstição.
Os sefaraditas costumam usar um amuleto em forma de mão como “proteção” contra
o mau-olhado. A chamsa -mão-, em árabe, ou chamesh, o número
cinco em hebraico (representando os cinco dedos da mão),– é um
amuleto antigo e popular contra o mau-olhado, assim como os fitilhos vermelhos
e azuis que muitas mães amarram na roupinha de baixo dos bebês
ou de seus berços. O peixe, segundo o Talmud, é um outro símbolo
que também representa proteção contra o mau-olhado. Como
os peixes vivem dentro d´água, não estão na mira
de olhares mal-intencionados. Já, na Turquia, Grécia e Tunísia,
assim como em grande parte do Oriente Médio, usa-se um colar com um
olho azul, que “age” como um espelho, refletindo e “confundindo” o “mau-olhado”.
Billada
Em 1705, o Tribunal Rabínico da Tunísia foi presidido pelo Grande
Rabino Simah Sarfati. Natural do Marrocos (apesar de o nome Sarfati indicar
origem francesa), Rabi Simah, de repente, adoeceu gravemente, tendo sido diagnosticado
como portador de uma doença incurável. Uma noite, Eliahu Hanavi,
que segundo a tradição judaica assiste a todos os nascimentos,
apareceu em sonho diante de Rabi Simah e lhe receitou um remédio: a
cada nascimento de um menino, ele deveria organizar uma noite de estudos do
Zohar (O Livro do Esplendor), no sétimo dia, véspera da Brit
Milá. Essa noite de estudos acabou sendo conhecida como Billada (em
ladino, castelhano ou português antigo: velleda, velada) e perpetuou-se
no judaísmo tunisiano até os dias de hoje. Rabi Sarfati curou-se
e foi para Jerusalém, através de Istambul. Faleceu em 1717 e
foi enterrado no Monte das Oliveiras.
Seudat Yitró
(A Festa dos Meninos)
Essa linda celebração, conhecida apenas pelos tunisianos, acontece
na quinta-feira da semana em que é lida a parashá de Yitró (durante
o mês de Shevat). Os meninos da casa são tratados como reis por
um dia. Uma mesa em miniatura é posta para eles, com pratos, copos e
talheres em miniatura. É preparado um banquete para cada menino da casa,
assim como mini doces e bolos, o que contribui para criar uma atmosfera sem
igual. Há muitas teorias para a origem dessa festa e a mais válida
seria a seguinte: aconteceu num passado distante uma séria epidemia
de difteria que assolou a Tunísia, deixando um saldo enorme de vítimas
entre as crianças do sexo masculino. Como por milagre, essa epidemia
parou na semana em que se lê a parashá de Yitró. Daí a
celebração.
El Telet Laila
(A terceira noite)
Na terceira noite após a circuncisão, os parentes e amigos da
família vão à casa do recém-nascido, sem serem
formalmente convidados, para uma celebração especial. A origem
desse costume vem do patriarca Abraão, que no anoitecer do terceiro
dia depois de ter sido circuncidado (com a idade de 99 anos), é visitado
por D´us. Costuma-se dizer que o terceiro dia após a circuncisão é o
momento mais difícil para a criança. E, por isso, quando o sol
se põe nesse dia, o menino é considerado fora de perigo, o que
enseja a celebração de El Telet Laila. Geralmente pratos típicos
como “kemia” e peixe “hraimi” são oferecidos
aos convidados, enquanto ouve-se música judeu-árabe numa atmosfera
bem descontraída.
A festa das filhas: Rosh Chodesh El Bnot
O sexto dia de Chanucá, que coincide com o Rosh Chodesh, Tevet, – início
de um novo mês, é também para os judeus tunisianos o momento
de celebrar “a festa das filhas”, ou Rosh Chodesh El Bnot. De origem
não identificada, esse costume provavelmente se deve a uma homenagem
a duas mulheres de destaque na Bíblia, Esther e Judith, justamente nesse
mês. A sociedade judaica da Tunísia, ainda que bastante patriarcal,
quis assim honrar igualmente as meninas. Mesmo não tendo a importância
da festa dos meninos, a data sempre foi comemorada em todas as famílias,
com uma bela mesa preparada com doces e confeitos.
Nar Agayne
O Nove de Av representa um dia de luto extremo, para todos os judeus. Justamente
nesse dia, o primeiro e também o segundo Templo de Jerusalém
foram destruídos; em 586 a.E.C. e 70 desta era; os judeus foram expulsos
da Inglaterra, em 1205; e, em 1492, da Espanha. Os rabinos promulgaram, há muito
tempo atrás, um dia completo de jejum e também a interdição
de comer carne na semana que precede esse dia. Em 9 de Av, os judeus tunisianos
têm por costume não tomar banho de mar ou de piscina. Um fato
interessante: conta-se que em 1492, Cristóvão Colombo, que muitos
consideram judeu, deveria partir para sua lendária viagem no dia 9 de
Av, mas recusou-se, só partindo na caída da noite, que já era
10 de Av. O costume de jejuar, que era muito observado antigamente, foi-se
perdendo durante o período colonial, mas hoje é levado muito
a sério, terminando, geralmente, com uma deliciosa refeição
com lentilhas.
Costumes da Henna
O costume de colocar henna nas mãos da noiva era praticado geralmente
três dias antes de um casamento. A palavra “Henna” teria
como simbologia as iniciais de três preceitos primordiais em um lar judeu, “Chalá,
Nidá, Adlakat Nerot”. Durante os três dias que precediam
o casamento, mães, avós e tias ensinavam à futura noiva
as regras de como fazer o pão trançado de Shabat, a quantidade
de massa a separar para queimar antes de assar as Chalot, relembrando o dízimo
de cada fornada que era consagrado aos Cohanim). Depois, as leis da Nidá,
ou seja, da pureza familiar. Finalmente, a Adlakat Nerot, ou o acender das
velas no Shabat e nas festas. Além do mais, a colocação
do pó vermelho nos pés da noiva visava afastar o mau-olhado.
O principal objetivo da celebração da festa da henna era a homenagem à noiva,
oferecendo-lhe saúde e riqueza enquanto se preparava para deixar a casa
dos pais e começar uma vida nova ao lado do marido. (V. Morashá n:
18: “Os mistérios da henna”).
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