Sua obra
Rabi Ibn Ezra deixou uma vasta obra sobre temas diversos. Segundo a tradição,
escreveu cerca de 200 obras. Estudioso e pesquisador da língua hebraica,
escreveu vários trabalhos sobre gramática. Um de seus traços
mais marcantes foi escrever unicamente em hebraico. Em seus trabalhos, adverte
seus leitores sobre a necessidade de manter a beleza e a pureza da “língua
do sagrado”.
Seus comentários bíblicos são considerados alguns dos
mais importantes da época e ajudaram gerações de judeus
a conhecer a Torá em sua língua original. Seu estilo é sucinto
e tem como objetivo explorar o significado literal da Torá. Em várias
ocasiões suas interpretações bíblicas diferem dos
clássicos de seu tempo, revelando uma mente crítica e independente.
Apesar de diferir dos mais tradicionalistas, Rabi Ibn Ezra acreditava na tradição
oral e em todos os ensinamentos do judaísmo rabínico. Diversas
vezes usou seus comentários bíblicos para defender a tradição
oral contra os ataques dos caraítas. Os comentários dos Cinco
Livros de Moisés de Rabi Ibn Ezra são de tal importância,
que quando o italiano Daniel Bamberg, (o primeiro não judeu fundador
de uma gráfica judaica) publicou uma edição da Torá,
decidiu incluir os comentários de Ibn Ezra com os do Rashi e Rambam.
Escreveu poemas sagrados e seculares. Os primeiros expressavam sua profunda
ligação com D’us e com Israel. Expressavam também
seu profundo pesar em relação ao sofrimento de seu povo – do
povo de Israel, em geral, e dos judeus sefaraditas, em particular. Seus poemas
litúrgicos estiveram nos lábios de judeus através dos
séculos. No campo da poesia secular, escreveu sobre temas como a amizade
e o amor. Ibn Ezra marcou o fim do período clássico da poesia
secular judaica e sua transição a um novo período na literatura
hebraica.
Graças a seu vasto conhecimento da gramática árabe, foi
o primeiro a traduzir obras escritas nesse idio-ma para o hebraico.
Como já foi dito, Rabi Ibn Ezra teve importante papel na divulgação
da ciência greco-árabe na Europa Ocidental. Na matemática,
Ibn Ezra é citado como um de seus maiores expoentes na era medieval.
Escreveu vários textos sobre esta ciência. Três de seus
tratados sobre números ajudaram a atrair a atenção de
eruditos europeus para o conceito e os símbolos indianos e a importância
do número zero. No Sefer ha-Echad (O Livro da Unidade) descreve os símbolos
hindus para a seqüência dos algarismos arábicos de 1 a 9.
No Sefer ha-Mispar, (O Livro do Número), no qual descreve o sistema
decimal, utiliza o zero, o qual representa com uma circunferência à qual
chama de galgal (roda ou círculo, em hebraico).
Rabi Ibn Ezra escreveu também diversos livros sobre navegação
marítima, astronomia e astrologia. Vale notar que a proibição
em consultar astrólogos não diminui em nada os conhecimentos
dos sábios judeus sobre a astronomia. Os judeus sempre possuíram
conhecimentos profundos nessa ciência e Rabi Abraão Ibn Ezra é um
de seus grandes mestres, o maior da época medieval. Em seu mais famoso
tratado sobre astrologia – Sefer ha-Olam (O Livro do Mundo), sua mensagem
principal é alertar sobre o uso errôneo da astrologia, pois esta
ciência só poderia ser usada quando praticada de forma correta.n
Quando meus inimigos me caluniam
Rabi A. Ibn Ezra
Quando meus inimigos me caluniam
E eu temo que possa cair,
O D’us de Abrahão me fortalece;
O medo de Isaac é meu consolo!
Eu me aprofundo nos livros do profetas:
As palavras de Isaías
Aparecem diante de mim: “A Redenção está próxima!”
Quando eu procuro mais profundamente por D’us na Torá
Lá encontro o que vinha procurando:
D’us vai redimir o povo cativo,
Até mesmo os que foram levados aos confins da terra!
Isso me conforta.
Sobre isto devo falar e nisto encontrar alívio!
Fonte: (Twilight of a Golden Ag Selecteal poemes of Abraham Ibn Ezra)
Amplo florescimento cultural
A Idade Média assistiu o renascimento da língua hebraica e a
melhor ilustração literária desse renascimento está na
constelação de
extraordinários poetas, filósofos e estudiosos da liturgia que
surgiu na Espanha nos séculos XI e XII. Entre eles se destacam Salomão
Ibn Gabirol, Yehuda Ha-levi, Moisés Ibn Ezra e Abraão Ibn Ezra.
A língua hebraica que empregavam era mais rica, mais variada e também
mais sutil do que nunca. Conseguiram alcançar sonoridades verbais e
nuances diversas de expressão e significado.
Suas poesias em hebraico, apesar de inequívoca influência árabe
tanto nos temas como na forma, destacam-se por sua inspiração,
tanto em matéria religiosa como profana. O objetivo primordial dos poetas
judeus era exaltar a grandeza do Criador, Suas obras e as sagradas leis do
judaísmo. Era, sobretudo uma poesia espiritual, mas tratou também
de temas como a essência da vida e o sofrimento do povo judeu. A natureza
desse tipo de poesia era muito mais didática e era recitada em coro
nas reuniões sociais e nas sinagogas.
As meditações voca-cionais em versos destes extraordinários
poetas ainda conservam o brilho interior e em vários pontos se equiparam à melhor
poesia encontrada nos Salmos hebraicos. Seus hinos para as orações
nas sinagogas são famosos até hoje. Uma vez organizado o culto
coletivo, adquiriram grande importância os hinos litúrgicos – piyutim,
caracterizados pelo fervor messiânico e pela exuberância religiosa
que seriam cultivados por todos os judeus na diáspora.
Bibliografia:
•
Gutwirth, Israel, “The Kabbalah and Jewish Mysticism”, Samelson William, El legado Sefaradi: romances y relatos judeo-espanõles;
•
Borger, Hans, “Uma História do povo judeu, de Canaã à Espanha”, Editora Sefer.
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