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| Rabi Abraão Ibn Ezra |
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| Foto Ilustrativa |
Rabi Abraão ben Meir Ibn Ezra, famoso comentarista da Torá, foi uma das mais brilhantes personalidades da Idade de Ouro da Espanha medieval. Durante o período em que viveu, a Espanha, então sob domínio muçulmano, tornara-se o maior centro cultural judaico do mundo.
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| Edição 41 - Junho de 2003 |
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Rabi Ibn Ezra conseguiu harmonizar os princí-pios da religião
judaica com o mundo da ciência e da filosofia.
Dotado de mente privilegiada aliada a um espírito crítico, Ibn
Ezra explorou e se destacou em praticamente todas as ciências da época.
Além de profundo estudioso e conhecedor da Torá, era também
um grande exegeta, poeta litúrgico e secular, filosofo, gramático,
tradutor, matemático, médico e astrólogo. Para ele, não
havia conflito entre ciência e religião, pois considerava que
a ciência e a astrologia constituíam a base dos ensinamentos judaicos.
Escritor extremamente prolixo, Rabi Ibn Ezra produziu uma extensa literatura
da qual, infelizmente, grande parte se perdeu. Entre suas maiores obras estão
Comentários do Pentateuco, Sefer Ha-Shem, Comentários sobre Cinco
Meguilot, Comentários do Livro de Jó, entre outros. Seu legado
espiritual é inestimável, pois ajudou a aproximar judeus de diferentes
níveis sociais e intelectuais da Torá. Seu monumental trabalho
tem influen-ciado gerações inteiras, até os dias de hoje.
Ibn Ezra tornou-se uma figura lendária; suas obras conseguem despertar
no coração do povo judeu sentimentos de amor para todo Israel
e de identidade com o sofrimento de nosso povo. Rabi Abraham ibn Daud, o ‘Raavad’ (1110-1180),
contemporâneo e conterrâneo de Ibn Ezra, escreveu sobre ele: “Ibn
Ezra fortalece o povo de Israel com canções e com palavras de
conforto”.
Sua vida
Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Rabi Abraão Ibn Ezra, assim como
a de muitas outras personalidades judaicas do passado. Sabe-se que nasceu por
volta de 1090, uma época incerta e perturbada para os judeus da Espanha
moura. Historiadores não concordam sobre o local exato de seu nascimento.
Alguns acreditam que tenha sido em Toledo, outros em Tudela ou mesmo Córdoba.
O pano de fundo de sua vida é a Espanha medieval, no final do século
XI até meados do século XII. Uma época esplendorosa e
também turbulenta, marcada por dois fatos principais: a Idade de Ouro
da cultura judaica na Espanha muçulmana e uma nova onda de seu renomado
fanatismo religioso, que destruiu comunidades inteiras matando ou convertendo à força
muitos de seus membros.
Rabi Abraão Ibn Ezra era um homem dotado de espírito e mente
extraordinários. Coabitavam nele harmoniosamente o sábio da Torá e
o filósofo, o médico, o astrólogo, o racionalista e o
místico. Ibn Ezra acreditava que a mais importante atividade do homem
era buscar e conhecer D´us. Para ele, a Revelação Divina
e a razão eram perfeitamente congruentes, não havia discrepância
entre fé e misticismo judaico e as ciências naturais ou exatas.
Rabi Ibn Ezra acreditava na interpretação dos sonhos, nas propriedades
místicas dos números, na astrologia e na matemática como
ciências exatas. Acreditava que as estrelas e os planetas influenciavam
a vida e o destino dos homens. Seus conhecimentos em astrologia e astronomia,
bem como seus dons matemáticos, garantiram-lhe grande fama entre todo
tipo de pessoas.
Seu raciocínio lógico era aliado à eloqüência
poética. Poliglota, era fluente tanto no árabe como no hebraico.
Dotado de um delicado senso de humor, amava brincar, argumentar com filósofos
e livre-pensadores atiçando-os com sua mente rápida. Era também
um mestre no xadrez.
Sua mente privilegiada era aliada a uma humildade proverbial. Extremamente
pobre durante toda sua vida, caçoava ele próprio de seus fracassos
nos negó-cios, tendo escrito: “Se me coubesse vender velas, o
sol jamais desapareceria; se lidasse com mortalhas funerárias, ninguém
mais morreria (...) enquanto eu vivesse”. Suas dificuldades não
conseguiam dobrar seu espírito alegre e sempre aceitava as dificuldades
da vida com um sorriso. Quando chorava e se entristecia, era pelos sofrimentos
e desastres que se abatiam sobre seu povo.
Era conhecido e respeitado pelas maiores mentes da Espanha como grande sábio
e poeta. Moisés Ibn Ezra (1080-1139), seu conterrâneo e também
grande poeta, afirmava que Ibn Ezra era um homem de grande eloqüência,
além de ser um grande filósofo religioso. Maimônides, em
suas advertências para seu filho, exorta-o a estudar as obras de Rabi
Ibn Ezra.
Sabe-se que era amigo íntimo de Rabi Yehuda Ha-Levi (c. 1075-1141),
um dos maiores poetas do período. Há quem acredite que Ibn Ezra
era casado com a filha de Yehuda Ha-Levi. O primeiro encontro dos dois sábios
tornou-se lendário. Conta-se que Rabi Yehuda Ha-Levi conhecia as obras
de Ibn Ezra, mas nunca o tinha visto. Um dia um pobre andarilho entrou na casa
de Ha-Levi, mas o rabi não o notou de tão concentrado que estava
em compor as últimas linhas de um poema. Não conseguindo encontrar
as rimas apropriadas desistiu e foi-se deitar. Na manhã seguinte, quando
se sentou à mesa de trabalho, viu que a poesia havia sido terminada
de forma admirável. Espantado, afirmou: “Esta maravilha só pode
ser o trabalho de um anjo vindo do Céu ou de Rabi Abraão Ibn
Ezra”. Naquele mesmo instante, o pobre andarilho se apresentou e os dois
sábios se tornaram amigos íntimos, viajando juntos para o Marrocos,
Tunísia e Argélia.
Irrequieto, Ibn Ezra não conseguia fixar-se em lugar algum por muito
tempo. Durante os primeiros anos de sua vida, perambulou pela Espanha, mas,
em 1140, deixou seu país natal e começou a viajar pelo mundo.
Foi durante esse período de sua vida que escreveu suas mais famosas
obras. Morou em várias cidades da Europa, no norte da África,
visitou, provavelmente, o Egito e chegou até a Índia.
Roma foi a primeira cidade que visitou e lá permaneceu durante alguns
anos. A comunidade judaica local o acolheu com honras. Ao perceber que os judeus
de Roma não conheciam a língua hebraica redigiu uma gramática
da língua. Mas seu espírito inquieto não permitia que
vivesse muito tempo em um lugar e passou por muitas cidades italianas antes
de se mudar para a França, onde permaneceu por dez anos. Durante suas
viagens pela França e Provença, conheceu Rabenu Jacob Tam, sábio
talmúdico e neto de Rashi que escreveu sobre ele: “Ibn Ezra foi
agraciado com nove dentre as dez fontes de sabedoria que desceram à Terra”.
A vida de exilado errante que levou por quase três décadas lhe
deu a oportunidade de empreender uma missão que se tornou histórica.
Tornou-se o propagador da extraordinária cultura judaica que florescia
na Espanha andaluza entre os judeus da Europa cristã. Como não
conheciam o árabe, não tinham acesso a uma variedade imensa de
obras que estavam sendo produzidas em Sefarad. Ibn Ezra era mais do que adequado
para essa missão por seus conhecimentos diversificados e pelo seu estilo
claro.
Após anos de viagens e tendo acabado sua grande obra – seus comentários
sobre a Torá – decidiu voltar à Espanha, mas antes de chegar
na fronteira ficou muito doente. Morreu aos 75 anos, no dia 28 de janeiro de
1167, provavelmente na cidade de Calahorra.
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