Seus últimos anos
Ao retornar à Itália, em 1945, Primo Levi encontra tudo como
antes, sua casa, sua família, seus amigos. Ele havia sido o único
que fora deportado. Volta também à sua profissão. Entretanto,
sente uma premente necessidade de se libertar do peso da horrível experiência
pela qual passara, contando “aos outros”, tornando-os “participantes” e,
assim, alertar as gerações por vir. Por isso se torna escritor.
Levi faz uma obra embebida de lembranças com reflexões sobre
o poder, a violência gratuita, a piedade, a memória, a dor e todos
os mecanismos que usamos para superá-la. Será que vale à pena
ter memória em tal situação? Ele responde que sim. Está convencido
de que nenhuma experiência humana é vazia de conteúdo.
E ele acreditava que as ações humanas só podem ser julgadas
individualmente, caso a caso, apesar do gênero humano ser potencialmente
capaz de infligir uma quantidade infinita de dor. Pois a dor surge do nada,
sem custo, sem esforço.
Cada palavra, cada recordação, cada ponto de vista relatado tem
um só objetivo: esclarecer às novas gerações, que
não vivenciaram o horror, o que foi a Segunda Guerra Mundial, os nazistas
e os campos de extermínio. Que tudo aquilo realmente aconteceu. E que
apenas quarenta anos haviam transcorrido. E que, portanto, pode acontecer novamente.
Basta não ouvir e não falar da grande vergonha do mundo nos doze
anos que Hitler esteve no poder, na ilusão de que não ver significa
não saber e que o não saber, ou melhor, não querer saber,
livra o ser humano de sua cumplicidade ou de conivência.
Em seu último livro, Os afogados e os sobreviventes, Levi volta a falar
sobre a sua lembrança do terror nazista e reflete sobre o tema que mais
o angustiava: será que o mundo que permitiu o Lager desapareceu, para
nunca mais voltar? “Não!” alerta Primo Levi. Se aconteceu,
pode acontecer de novo...
Shemá
Primo Levi
Vós que viveis tranqüilos
Nas vossas casas aquecidas
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não
Considerai se isto é uma mulher
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no inverno.
Meditai que isto aconteceu
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração.
Estando em casa andando pela rua
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara
“Destinados a uma morte quase certa, resta-nos uma única opção, a de não permitir que nos façam virar um ‘nada’ ”.
Bibliografia:
•
Primo Levi, “Se isto é um homem”, Editora Rocco, Rio de
Janeiro 2000;
•
Primo Levi “A trégua”, Editora Companhia das Letras, São
Paulo ;
•
The New York Times, artigo de Victor Brombert “A Biography of the Italian
Chemist who Survived Auschwitz to Bear Witness to the Holocaust “;
•
L’HUMANITÉ, artigo de Arnaud Spire “Primo Levi: « Je
Suis Devenu Juif A Auschwitz”, 16 Novembro 1996;
•
The Overlook Press, Extracts from the book by Myriam Anissimov “Primo
Levi Ou La Tragédie D’un Optimiste “;
•
The New Republic, artigo de Michael Andre Bernstein: “A Review of Primo
Levi: Tragedy Of An Optimist”, by Myriam Anissimov”;
•
SPADI, Milvia. Le parole di un uomo - Incontro con Primo Levi. Roma: Di Renzo
Editore, 1997.
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