“ Por sua sorte”
Primo Levi foi um dos poucos que sobreviveram ao Holocausto e, como ele próprio
afirma em muitos de seus testemunhos, regressar de Auschwitz não foi “pouca
sorte”. A idéia de que a sorte, “mia fortuna”, o ajudou é um
dos temas recorrentes em seu trabalho, onde a frase é repetida centenas
de vezes. Como nas obras clássicas, ao falar de sua “fortuna” Levi
atribui sua sobrevivência a uma série de coincidências favoráveis.
“
Por sua sorte” ele só foi deportado em 1944. E, ao chegar em Auschwitz
ainda vivo, após a terrível viagem, é julgado apto para
o trabalho e enviado a um dos campos de trabalho. Naquela altura da guerra,
devido à escassez de mão-de-obra, os nazistas preferiam destinar
os judeus saudáveis para o trabalho escravo ao invés de mandá-los
diretamente para as câmaras de gás. Mesmo assim, dos 650 judeus
italianos do comboio de Levi, somente 95 homens e 29 mulheres sobreviveram à primeira
seleção. “O restante não viveu mais do que dois
dias”.
Levi sempre afirmava que havia sobrevivido “graças a uma combinação
de rara sorte”. Nos 11 meses que passou trabalhando em Auschwitz, não
ficou doen-te nem física ou mentalmente. Quando foi acometido de escarlatina
e enviado para a enfermaria do campo, por “sua sorte” escapou de
ser levado pelos nazistas, em fuga, para a Marcha da Morte da qual bem poucos
prisioneiros sobreviveram. Aprendeu o alemão rapidamente porque no Lager,
isto é, no campo de aprisionamento, as ordens eram dadas em alemão
e não entendê-las podia significar morte imediata. Durante algum
tempo, a partir de agosto de 1944, recebeu de um italiano não-judeu,
de nome Lourenço, um suplemento da ração de sopa. Nos últimos
meses, foi reconhecido como químico e passou a trabalhar no laboratório
da fábrica – e não mais na neve e na lama.
Auschwitz: o inferno
Em ‘Isto é um homem?’, Levi descreve sua vida e a de todos
os judeus que, após chegarem vivos até Auschwitz e sobreviver à primeira
seleção, ficam trabalhando – e morrendo – nos campos
de trabalho de Auschwitz-III-Monowitz e Birkenau.
O campo de Auschwitz-III-Monowitz, para onde ele foi despachado, também
chamado de Buna-Monovitze ou de Buna, era um gigantesco complexo químico
construído pela empresa IG-Farben. Todos os 15 mil prisioneiros do campo
trabalhavam em regime de escravidão na instalação de uma
fábrica de borracha sintética.
Levi viveu em Buna durante um ano, período em que morreram quatro quintos
de seus companheiros, substituídos imediatamente por outros novos prisioneiros
também destinados a morrer rapidamente. É de importância
primordial para Primo Levi que o leitor entenda o processo usado pelos algozes
alemães para “aniquilar um homem, transformá-lo em nada,
em um número marcado na carne”.
Fazemos nossas as suas palavras: “Então, pela primeira vez, percebemos
que à nossa língua faltam palavras para expressar esta ofensa:
a demolição de um homem. Num instante, com intuição
quase profética, a realidade nos é revelada. Chegamos ao fundo...
Nada mais é nosso: tiraram-nos as roupas, os sapatos, até os
cabelos; se falarmos não nos ouvirão e, se nos ouvirem, não
entenderão... roubaram também nossos nomes e se quisermos manter-nos
teremos que encontrar dentro de nós a força para tanto, para
que, além do nome, sobre alguma coisa do que éramos”.
O primeiro alerta sobre como conseguir manter a humanidade dentro do Lager
vem de um dos prisioneiros, um ex-sargento do exército austro-húngaro,
que avisa Levi: “Campo é uma grande engrenagem para nos transformar
em animais. Mas não devemos nos transformar em animais; até num
lugar como este pode-se sobreviver para relatar a verdade, dar nosso depoi-mento.
Destinados a uma morte quase certa, resta-nos uma única opção,
que devemos defender a qualquer custo, justamente porque é a última:
a de não permitir que nos façam virar um ‘nada’”.
Levi compara Auschwitz ao inferno retratado por Dante em sua obra “A
Divina Comédia”. Em apenas duas linhas consegue descrever a vida
nesse inferno: “Todos os dias, segundo o ritmo pré-estabelecido,
Ausrücken ed Einrücken, sair e regressar; trabalhar, dormir e comer;
adoecer, restabelecer-se ou morrer”.
Relata os detalhes do “cotidiano”: a impiedosa luta pela sobrevivência,
as “seleções” feitas pelos nazistas dos prisioneiros
destinados à exterminação, a fome insaciável, o
trabalho desumano, a violência dos guardas, o frio e a imundície,
as doenças físicas e mentais, as humilhações, a
apatia que os derrotava... Acima de tudo, a necessidade de se adaptar ao inferno,
onde tudo é proibido pela única razão de ser proibido. “A
nossa sabedoria era não procurar entender, não premeditar o futuro,
não nos atormentarmos acerca de como e de quando tudo acabaria, não
fazer perguntas aos outros nem a nós mesmos”.
Primo Levi não se limita a deixar que os fatos falem por si sós.
Ele os comenta. Enquanto escreve, tenta ele mesmo compreender a “lógica” por
trás da barbárie nazista; e como a vida no Lager ia transformando,
ou melhor, “deformando”, física e mentalmente, aqueles que
conseguiam sobreviver. Estuda, com passiva aflição, o que resta
de humano em quem é submetido à prova terrível de perder
tudo que o identifica como tal. Em suas páginas lembra tanto dos que
não agüentaram, sucumbindo perante o mal absoluto, como dos que
sobreviveram, conseguindo manter sua humanidade.
Em janeiro de 1945, pressionados pelo avanço do exército russo,
os alemães abandonam o campo levando consigo, a pé, no inverno
polonês, os prisioneiros sadios. A maioria morreu durante a chamada “Marcha
da Morte”. Mais uma vez a sorte fica ao lado de Primo Levi que, doente,
com escarlatina, é abandonado na enfermaria do Lager com outros 800
prisioneiros doentes, mais de 700 dos quais acabam morrendo. Levi é um
dos poucos que sobreviveu ao campo de extermínio do qual não
estava previsto que alguém sobrevivesse.
A volta para casa
Em 1962, Primo Levi escreve seu segundo livro, A trégua, onde narra
o longo caminho que percorreu para voltar para casa, em Turim. Dez meses transcorreram
do dia em que os soviéticos entraram em Auschwitz até sua chegada
em casa, em Turim. O livro se inicia no ponto em que o anterior termina. Ou
seja, nos primeiros dias de janeiro de 1945, quando os alemães abandonam
Auschwitz.
Entre os que perderam a vida depois dessa retirada, havia uma criança,
Hurbinek, talvez de três anos, nascida em Auschwitz, e de quem nenhum
vestígio restou a não ser a referência no livro de Levi. “Morreu
no começo de março, sem nome, sem jamais ter visto uma árvore,
liberto, mas não redimido. Nada resta dele: seu testemunho se dá por
meio de minhas palavras”.
A volta para casa é longa e difícil para os poucos que haviam
conseguido sobreviver. Para a maioria, não havia mais para onde voltar.
Nenhum país os queria, seus lares estavam destruídos, seus bens
haviam sido confiscados, suas famílias e amigos estavam entre os milhões
de judeus mortos. Outros, como Levi, que tinham para onde voltar, passaram
longos meses tentando esse caminho de volta no meio a uma Europa devastada.
Primo Levi conta a sua difícil viagem de volta. Restabelecido, deixa
Auschwitz. Vive alguns meses em um campo de refugiados russo, em Katowice,
no inte-rior da Polônia, às portas de Cracóvia. Por ser
químico, Levi se torna o farmacêutico do campo, o que lhe propiciava
certos benefícios, como uma ração suplementar de comida,
podendo repetir três ou quatro vezes cada refeição. Ele
sofria de uma fome descontrolada, insa-ciável, acumulada nos meses que
viveu no Lager.
Em junho, após o fim da guerra, inicia a viagem de regresso, imprevisível
e absurda e que duraria até outubro. Percorrendo intermináveis
quilômetros a pé ou de trem, atravessa a Polônia, passa
pela Rússia, Ucrânia, Romênia, Hungria e Áustria,
até chegar à Itália. Durante algum tempo é acompanhado
por um grego, Mordo Nahum, que lhe ensina coisas fundamentais. A primeira é que,
em tempos de guerra, deve-se pensar primeiro nos sapatos e depois na comida. “Porque
quem tem sapatos pode ir em busca de comida, enquanto o inverso não
funciona”. O argumento do grego está errado, diz Levi, porque
a guerra já terminara. “Guerra não termina, continua para
sempre”, responde Nahum.
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