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| Primo Levi |
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| Foto Ilustrativa |
Primo Levi, 1919-1987, judeu italiano
foi um dos poucos sobreviventes de Auschwitz, o campo de concentração
onde milhões de prisioneiros, judeus como ele, foram assassinados pelos
nazistas. Sobreviveu para regressar a Turim, sua cidade-natal, e escrever um
dos mais extraordinários e comoventes testemunhos dos campos de
extermínio nazista.
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| Edição 41 - Junho de 2003 |
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Dedicou o resto da sua vida à procura incessante da resposta para a
pergunta essencial de Auschwitz: “O que é um homem?”Químico
por formação, mas escritor por força do destino, Levi escreveu
dezena de títulos, entre memórias, ensaios, ficção
e poesia. Sua obra é freqüentemente vista como uma ponte entre
dois mundos: antes e após Auschwitz. Primo Levi é, às
vezes, lembrado por ter dito que quem passou por campos de concentração
nazistas se divide em duas categorias “os que calam e os que falam”.
Foi justamente a necessidade de falar, de curar suas feridas espirituais, que
levou Primo Levi a construir uma das obras fundamentais sobre os horrores criados
pelo regime nazista. Sua obra é uma penosa interrogação
sobre a natureza humana. Um testemunho sobre o “mal absoluto” e
de como seres humanos conseguiram preservar sua humanidade intacta em face
deste mal.
Sua obra, um testemunho
Primo Levi é a testemunha que precisa e quer narrar sua experiência – sabendo
não ser esta somente sua, mas de todo o povo judeu – com a máxima
transparência e precisão possíveis. A precisão que
lhe advém de sua formação de químico, com que ele
dosa de forma adequada suas palavras, que são pesadas e repesadas, repensadas
e lapidadas. A linguagem é breve para tornar claro e visual tudo o que
acontecia em Auschwitz para um judeu que como Levi fora selecionado para viver “por
mais algum tempo”.
Levi é a testemunha que precisa fazer justiça às vítimas
contando o processo de desumanização e degradação
que sofreram e todas as aberrações cometidas pela espécie
humana nos campos de aniquilamento nazistas. Em seu primeiro e mais impressionante
livro, “Se questo è un uomo” (Se isto é um homem),
escrito em 1947, Levi relata o ano que passou em Auschwitz. Os capítulos
não obedecem a uma sucessão lógica, mas são escritos
segundo a ordem de urgência que o autor sente em narrar o que vivera.
O livro inicia-se (assim como seus outros livros) com uma poesia, com versos
duros e amargos. O poema escrito por Levi em janeiro de 1946, que leva o título “Shemá”,
quando é publicado separadamente do livro faz eco à oração
primor-dial do judaísmo o “Shemá Israel”, oração
que Levi aprendeu com 12 anos por ocasião de seus estudos de seu bar-mitzvá.
A poesia é um alerta endereçado a todos que vivem em segurança
para que meditem sobre os sofrimentos de nosso povo, gravando-os em pedra no
coração e os contando a seus filhos para que nunca sejam esquecidos.
Mas, nos anos após a Segunda Guerra Mundial, poucos no mundo queriam
saber a verdade sobre a Shoá e os campos de morte nazistas e o livro é recusado
por vários editores que o consideraram muito triste. Quando é,
finalmente, publicado, apesar de ser bem recebido pelos críticos, vende
muito pouco. Reeditado em 1958, ‘Se isto é um homem’ se
torna um sucesso de público.
Em 1963, Primo Levi publica seu segundo livro ‘A Trégua’,
em que narra os últimos dias em Auschwitz, após os nazistas terem
abandonado o campo, e sua viagem de volta para casa, na Itália. O livro é muito
bem acolhido pela crítica e pelo publico. Levi passa a ser reconhecido
como um grande escritor.
Recordar, contar, refletir e testemunhar continua-rão a ser o tema de
todos os seus livros. Em 1963, logo depois de publicar ‘A Trégua’,
Levi declara que considerava encerrado seu trabalho testemunhal. Mas nunca
lhe foi possível manter esse propósito. Já que ele afirmava... “Com
o passar dos anos, essas recordações não empalidecem nem
se dissipam, ao contrário, se enriquecem com detalhes que eu acreditava
esquecidos e que, às vezes, adquirem sentido à luz das recordações
de outras pessoas, de cartas que recebo ou de livros que leio”. Seu último
livro, ‘Os afogados e os sobreviventes’ é publicado em 1986.
No ano seguinte é indicado para o Prêmio Nobel.
Sua morte:
suicídio ou acidente?
Em abril de 1987, aos 68 anos, Primo Levi é encontrado morto no poço
da escadaria do apartamento no qual vivera toda a vida. Deixou Lucia, sua esposa,
e dois filhos, além de sua mãe. Na época, sua morte foi
atribuída a suicídio. Acreditou-se que o grande escritor havia
posto um fim à vida, pois esta se tornara pesada demais. Mas, nos últimos
anos, três importantes biografias (duas na Inglaterra e uma na França)
colocam em dúvida esse suposto suicídio. Afirmam que, provavelmente,
foi um acidente provocado pelos remédios que Primo Levi tomava na época.
Uma das mais completas biografias é da escritora e pesquisadora Myriam
Anissimov, publicada na França em 1996. Primo Levi é retratado
como um homem gentil, um tanto reservado. Em sua essência, era um otimista.
Enfrentou a crueldade em sua forma mais irracional. Foi forçado a testar
suas certezas racionais e humanas contra a máquina nazista, determinada
a transformar suas vítimas em seres desprezíveis antes de exterminá-los.
Mas, mesmo assim, não perdeu a lucidez, nem sua fé na racionalidade,
sua curiosidade em observar e analisar, mesmo nas horas mais desesperadoras.
Por que um homem assim escolheria o suicídio, pergunta Myriam Anissimov
em seu livro. E se ele realmente queria acabar com sua vida, por que, sendo
químico, não usou uma forma menos traumática? Por que
não deixou algo escrito, uma última mensagem? Acreditar que um
homem assim se suicidou é difícil, porém a verdade sobre
os últimos instantes do grande escritor nunca será descoberta.
Talvez, no fim, Auschwitz tenha atingido seu objetivo, cobrando-lhe a vida
tantos anos depois. Mas não resta dúvida que a vida de Primo
Levi pode ser dividida em dois períodos distintos: antes e depois de
Auschwitz.
A vida antes de Auschwitz
Primo Levi nasceu em Turim, no dia 31 de julho de 1919, no seio de uma família
judaica burguesa de origem sefaradita. A família Levi, apesar de manter
a maior parte das tradições e festas judaicas, assim como grande
parte dos judeus italianos era muito bem integrada na tolerante sociedade da
Itália pré-fascista. Mesmo após a subida de Mussolini
ao poder havia na Itália um clima de relativa tolerância em relação
aos judeus. Seu próprio pai se torna a contra-gosto, assim como outros
judeus, membro do partido fascista. Mas, mesmo na Itália, as doutrinas
raciais e as idéias fascistas tomaram conta de grande parte da sociedade
italiana. Em 1938, Mussolini anuncia as leis raciais italianas inspiradas nas
Leis de Nuremberg. Um regime de segregação é instituído
contra os judeus; muitos são afastados de seus cargos públicos
ou demitidos de escolas e faculdades. Bens e moradias são seqüestrados.
Mas apesar do que via em sua volta, Primo Levi estava convencido que a “razão
iria triunfar”, que “a ciência com seu discurso objetivo” acabaria
por colocar em dúvida as idéias fascistas, derrotando-as.
Em 1941, um ano depois de a Itália ter entrado na guerra ao lado de
Hitler, Levi recebe seu doutorado em Química pela Universidade de Turim.
Apesar de excluírem os judeus das universidades, havia na área
das ciências exatas muitos professores antifascistas e um deles, Nicola
Dallaporta, aceitou Levi como aluno no curso de pós-graduação.
Dois anos mais tarde, após o colapso do regime de Mussolini, em 1943,
Primo Levi toma a decisão que vai marcar sua vida para sempre. Decide
com alguns amigos formar um grupo de “partigiani” para lutar contra
os fascistas. Inexperiente, acaba sendo preso num esconderijo nos Alpes, a
13 de dezembro de 1943, por milícias fascistas. Interrogado, declara-se “cidadão
italia-no de raça judaica” e como judeu é enviado a um
campo de concentração fascista perto de Módena. No mesmo
campo, encontra centenas de outros judeus italianos, famílias inteiras.
Quando em fevereiro, dois meses após sua prisão, tropas das SS
chegam ao campo com a ordem de deportar imediatamente todos os judeus, o medo
se alastra entre eles. Já era o final de 1943. As notícias vindas
da Alemanha, da Polônia e da Rússia sobre o terrível destino
que esperava qualquer judeu que caía em mãos nazistas já circulavam
entre os judeus. A maioria sabia que a deportação era uma condenação à morte.
No fatídico 22 de fevereiro, 650 judeus foram jogados dentro de 12 vagões
chumbados, num “dos famosos comboios alemães, desses que não
retornam, dos quais com um calafrio e com uma pontinha de dúvida tantas
vezes tinham ouvido falar”, relata Levi. A viagem durou cinco dias. O
destino era um lugar que nunca antes ninguém ouvira falar: Auschwitz.
Do total dos 650 judeus italianos deportados naquele comboio, só 29
sobreviveram. Os restantes morreram em Auschwitz, uma morte anônima.
Primo Levi conta que antes de Auschwitz, para ele, “ser judeu” era
algo vago.Tinha plena consciência da história de seu povo e uma
espécie de incredulidade benéfica frente à religião.
Porém, não se sentia diferente de seus amigos cristãos
em cuja companhia se sentia à vontade. Sua paixão era o mundo
das idéias abstratas, da cultura humanista italiana, das ciências,
dos livros. Primo Levi escreve: “Me tornei judeu em Auschwitz. A plena
consciência da minha diferença me foi imposta. Alguém,
sem nenhuma razão, decidiu que sou diferente e inferior. Por uma reação
normal, me senti diferente e superior. Neste sentido, Auschwitz me deu algo
que ficou, recuperei meu patrimônio cultural, minha identidade como judeu”.
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