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Os perigos em
Al-Andaluz

A vida judaica na Espanha muçulmana não estava isenta de ameaças. De um lado, havia os perigos inerentes à dinâmica da política islâmica vigente em qualquer território governado por muçulmanos. Do outro, a pressão imposta sobre os governantes muçulmanos pelos exércitos cristãos determinados a reconquistar a Península Ibérica do domínio mouro resultou na entrada, na Espanha, de tribos islâmicas vindas do norte da África.

Em todo o mundo muçulmano o conflito entre as grandes dinastias religiosas que se sucediam no poder era exacerbado por disputas doutrinárias sobre o rigor na aplicação da lei islâmica. Quanto mais rica e mais liberal uma dinastia, mais vulnerável se tornava ao fanatismo de fundamentalistas. E quando uma dinastia liberal era substituída por uma mais fanática, os judeus (assim como os cristãos e outras minorias) eram imediatamente expostos aos riscos inerentes à sua condição de dhimmis. O estatuto de dhimmis era mais do que um acordo que obrigava judeus e cristãos a pagarem certas taxas e impostos para que lhes fosse permitido viver em terras muçulmanas sem aceitar o Corão. A dhimma, na realidade, era um pacto que suspendia, mas não abolia, o “direito” do conquistador muçulmano de matar e confiscar a propriedade do “infiel” conquistado. Os dhimmis eram cidadãos de segunda classe e sobre eles podia ser aplicada uma série de leis destinadas a rebaixá-los social e economicamente. O rigor na aplicação das leis dependia de cada governante muçulmano que podia revogá-las ou aplicá-las com maior ou menor severidade, a seu bel prazer.

Existiu, durante muito tempo, entre os governantes da Espanha muçulmana, um certo consenso sobre a “utilidade“ dos judeus espanhóis e uma decisão de ignorar algumas das exigências mais rigorosas da lei muçulmana no tratamento das minorias. Mas essa posição foi abandonada quando o fanatismo religioso tomou conta dos novos governantes da Espanha islâmica.

Quando, no século XI, desmembrou-se a dinastia omíada, dando inicío à Reconquista Espanhola, tornou-se evidente a causa maior que iria determinar o fim desse período: a inabilidade dos sucessivos governantes da Espanha islâmica em manter uma unidade política para enfrentar os exércitos cristãos. Quando, se sentem ameaçados pelos exércitos cristãos, os muçulmanos procuram auxílio nas seitas berberes fundamentalistas do Norte da África. Chegava ao fim a vida judaica na Espanha muçulmana.

A invasão almorávida

O desmembramento da dinastia omíada e a ausência de um poder forte por todo o século XI permitiram, na Andaluzia, o estabelecimento de uma série de pequenos estados islâmicos que variavam em extensão, recursos e poder. Os mais poderosos eram os de Toledo, Sevilha, Badajós e Granada. Em alguns destes, os judeus se sobressaíram ocupando cargos administrativos. O caso mais famoso foi o de Rabi Samuel Ibn Nagral Ha-Naguid (905-1055). Nascido em Córdoba, fugiu dos berberes que tomaram a cidade e se refugiou em Granada, onde se tornou vizir e comandante-chefe do exército. Rabi Ha-Naguid era o epítome do judeu sefaradita, uma síntese harmoniosa de feitos seculares e religiosos. Estudioso da Halachá, líder comunitário, estadista e poeta, considerava sua função política um “chamado Divino” para proteger seu povo e se empenhava pelo seu bem-estar. Além de ser pródigo com os pobres e os necessitados, patrocinou os estudos de um grande número de eruditos e intelectuais judeus.

Quando os reis cristãos começaram a representar uma ameaça real para os domínios islâmicos e Alfonso VI retomou Toledo, em 1085, os governantes muçulmanos pediram auxílio aos almorávidas, uma dinastia berbere islâmica do norte da África. Os almorávidas atenderam o chamado e derrotaram os cristãos, mas, em contra-partida, tomaram o poder para si próprios. A meta inicial dos almorávidas era estabelecer uma comunidade política na qual os princípios islâmicos fossem aplicados. Violentos e impre-visíveis, introduziram na Espanha muçulmana uma intolerância até então desconhecida. Por algum tempo, a situação dos judeus tornou-se precária. Os governantes almorávidas os excluíram da administração do estado. Ameaçaram a rica comunidade judaica de Lucena com a conversão forçada, mas aceitaram um pagamento vultuoso, um alto resgate, para aceitar que a comunidade não reconhecesse o Islã.

Mas os judeus tinham muito a oferecer aos novos conquistadores em todos os setores, em particular na área administrativa e diplomática, e com o tempo conseguiram reconquistar um tratamento favorável. Assim, a primeira metade do século XII assistiu o clímax da Idade de Ouro do judaísmo sefaradita. A maioria de seus maiores expoentes viveram justamente entre os séculos XI e XII.

Almôadas e a fuga dos judeus

O derradeiro e abrupto fim das comunidades judaicas na Espanha muçulmana ocorreu 50 anos mais tarde, com a chegada à Espanha, em 1146, de novas tropas muçulmanas ainda mais fanáticas – os almôadas. Berberes do norte da África, os almôadas se uniram para lutar contra os almorávidas. Seu objetivo era terminar com a corrupção e a lassidão dos governantes islâmicos em seguir e aplicar as leis do Corão. Esses novos guerreiros sitiaram Marrakesh e rapidamente passaram a controlar toda a Espanha muçulmana, terminando com o domínio almorávida.

O fanatismo reli-gioso e a intolerância incondicional trouxeram insatisfação à população, em geral, e grande sofrimento e destruição para as comunidades judaicas do sul da Espanha. Fecharam sinagogas e ieshivot. Os judeus passaram a ser obrigados a usar roupas que os diferenciassem e não podiam mais nego-ciar livremente. E como na época dos visigodos, passaram a ser obrigados a se converter – desta vez ao islamismo – sob a ponta de espada. A emigração de boa parte dos judeus da Andaluzia a partir do século XII, provocada pela intolerância de seus governantes, fez a cultura judaico-hispânica perder o antigo brilho.

As comunidades judaicas do sul da Espanha não conseguiram sobreviver à perseguição. Muitos judeus, entre os quais Maimônides, fugiram para a África à procura de governantes muçulmanos mais tolerantes; outros foram para o norte da Espanha, então sob domínio cristão. Sentiam-se mais seguros sob domínio cristão, que os recebia de braços abertos. Os judeus tentaram reconstruir na Espanha cristã a cultura e o modo de vida que haviam desenvolvido nos séculos precedentes no sul da Espanha, o que conseguiram por algum tempo. Mas, quando, em 1492, Granada, a última fortaleza muçulmana, foi reconquistada pelos exércitos cristãos, os reis espanhóis decidiram colocar fim à presença judaica na Espanha. Expulsaram, no mesmo ano, todos os judeus de seus territórios. Era o fim da vida judaica na Espanha, os judeus espanhóis sefaraditas se espalharam pelo mundo levando consigo sua cultura e suas tradições que perduram até nossos dias.n

Bibliografia:

• Prof. Yosef H. Yerushalmi palestra proferida na Sinagoga Beit Yaacov no dia 25 de outubro 1995 “Os judeus sefaraditas entre o cristianismo e o islamismo Suplemento Especial Morashá;
• Samelson, William, El legado Sefaradi: romances y relatos judeo-espanõles;
• Borger , Hans, “Uma História do povo judeu”, de Canaã à Espanha.
Editora Sefer;
• Johnson, Paul “História dos Judeus, Editora Imago;
• Seltzer, Robert, “Povo judeu, pensamento judaico “, editor A Koogan.
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