A Idade de Ouro do judaísmo sefaradita

Recepção no Palácio de Medina Azahara, detalhe da obra de Domingo Baixeras, 1885

Foi na Espanha dominada pelos muçulmanos, durante os séculos X, XI e primeira metade do XII, que os judeus espanhóis criaram uma cultura extraordinária, atingindo altíssimos níveis em todos os aspectos do conhecimento. Este foi o período da chamada “ Idade de Ouro” dos judeus de Sefarad.
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Edição 41 - Junho de 2003
Foi uma época marcada pela genialidade e versatilidade intelectual que, impulsionada pela sofisticada cultura árabe que florescia na Espanha medieval, chamada de Sefarad no hebraico medieval, produziu centenas de obras tanto no campo da filosofia e teologia judaica como em todos os ramos da ciência e da literatura.

Para o judeu sefaradita, durante a Idade de Ouro, o conceito de “ideal” era o de um homem que combinasse em seu espírito, de forma harmoniosa, uma fé absoluta nas leis e preceitos judaicos, vivo interesse pela teologia e filosofia judaicas e elevado apreço pela cultura geral e ciências naturais. Uma afirmação feita pelo historiador e professor Josef H. Yerushalmi, em outubro de 1995, em palestra proferida em São Paulo, na Congregação Beneficente Sefaradi Beit Yaacov, revela esse conceito: “No íntimo da aristocracia judaica espanhola estava a imagem do judeu que combinava harmoniosamente elementos que, outras comunidades, em outra época, considerariam contraditórios ou conflitantes – uma escrupulosa observância religiosa aliada aos modos e costumes cosmopolitas; a Torá e a sabedoria grega; uma intensa devoção à tradição judaica e uma abertura genuína à cultura não-judaica circundante”.

Mas essa era de brilhantes êxitos culturais e intelectuais não foi totalmente “dourada”, como se supõe. O apogeu da cultura hispano–judaica coincidiu exatamente com o de um renovado fanatismo religioso muçulmano que destruiu comunidades inteiras, colocando um fim à permanência dos judeus na Espanha Andaluza.

A invasão muçulmana

A expansão árabe, iniciada após a morte de Maomé, atingiu a Península Ibérica no século VIII, enquanto a região era dominada pelos visigodos. No ano de 711, Tarik ibn Ziyad, general e governador da faixa ocidental do Magrebe, chefiando um exército de sete mil homens e contando com o auxílio de convertidos berberes, venceu o visigodo Rodrigo, rei da Espanha. O poderio islâmico se estendeu com rapidez pela Península Ibérica. Prosseguindo em direção norte, os exércitos muçulmanos chegaram até a cidade de Tours, na França central, onde foram derrotados pelos francos, em 732. A expansão muçulmana tinha alcançado seu ponto máximo no ocidente e as conquistas praticamente cessaram a partir de então. A Espanha chamada de Al-Andaluz ou Andaluzia (denominação árabe da Espanha muçulmana) passou a fazer parte do Império Islâmico.

Os invasores muçulmanos foram bem acolhidos pelos judeus espanhóis que, em muitos casos, ajudaram-nos a sobrepujar os cristãos. Durante o século VII os judeus foram perseguidos pelo reis visigodos. Obrigados a se tornar cristãos para poder viver na Espanha, muitos foram mortos, outros expulsos ou batizados à força. Abertamente, não havia mais judeus na Espanha na época da invasão islâmica, mas assim que os novos governantes assumiram o poder, a vida dos judeus melhorou sensivelmente e muitos judeus “secretos” – chamados de cripto-judeus ou marranos – voltaram a praticar abertamente seu judaísmo enquanto outros se estabeleceram na Al-Andaluz vindos das demais partes da região e da Europa.

A dinastia de califas omíadas, que, sediada em Córdoba, passou a dominar a região durante praticamente três séculos, criou na Andaluzia uma cultura cosmopolita e secular. Para a civilização ocidental, as contribuições da Espanha islâmica foram inestimáveis, pois, quando os muçulmanos entraram no sul da Espanha, grande parte da Europa havia sido devastada por bárbaros vindo do norte, a civilização clássica greco-romana tinha desaparecido e a Europa vivia um longo período de trevas imposto pela Igreja. Enquanto o resto do continente europeu afundava no obscurantismo e na ignorância, os árabes mantiveram por quase cinco séculos uma civilização altamente sofisticada e requintada na Espanha muçulmana.

A vida sob os omíadas

Os califas omíadas eram governantes liberais e não exerceram qualquer tipo de discriminação opressiva contra os judeus. Pelo contrário, eram considerados um segmento útil e leal da população, sendo tratados com dignidade e respeito. Livres para exercer qualquer atividade cultural ou econômica, os judeus de Sefarad ingressaram em vários setores da economia, incluindo o comércio, as finanças e as profissões liberais. Desenvolveram habilidades políticas e se destacaram na administração pública. Tornaram-se médicos famosos, poetas ilustres, filósofos, astrônomos, cartógrafos de renome e também diplomatas e generais. A relação que a comunidade judaica estabelecera com os califas trouxe para os judeus sefaraditas uma maneira de viver agradável, produtiva e satisfatória.

Foi este contexto em Sefarad que, em pouco tempo, atraiu milhares de judeus de outras partes do Oriente Médio e da África do Norte, que logo se estabeleceram nas cidades de Córdoba, Granada, Sevilha, Lucena e Toledo. A comunidade judaica de Sefarad tornou-se a mais populosa e rica fora da Babilônia. O estudo e o saber eram incentivados em todas as áreas, sábios e eruditos judeus gozavam de privilégios e honras parecidos aos dispensados aos estudiosos muçulmanos.

O judaísmo andaluz entrou na chamada Idade de Ouro da cultura judaica no século X, ao se tornar independente do protecionismo religioso e intelectual da comunidade da Babilônia. Os laços que prendiam os judeus sefaraditas às autoridades gaônicas daquela região começaram a se afrouxar quando, em 929, o califa Abd-al-Rahman III rompeu com o Califado Central e declarou o Califado de Córdoba independente de Bagdá e da autoridade religiosa muçulmana do Oriente.

O califa Abd-al-Rahman III foi um governante extraordinário, liberal e tolerante tanto na forma de pensar quanto nas suas ações. Durante seu reinado, o Califado de Córdoba tornou-se um importante centro econômico e cultural. Foi a primeira economia urbana e comercial a florescer na Europa, depois do desaparecimento do Império Romano. Um apaixonado pela filosofia, poesia, teologia e ciências seculares, Rahman estimulou e patrocinou o conhecimento sob todas as formas e em todas as áreas.

Sem medir esforços, importou livros de Bagdá e recrutou sábios, poetas, filósofos, historiadores e músicos. Construiu uma infra-estrutura composta de bibliotecas, hospitais, instituições de pesquisa e centros de estudos, criando a tradição intelectual e o sistema educacional que tornariam a Espanha um centro de referência pelos quatro séculos seguintes. No século X, Córdoba, com uma população de mais de 500 mil habitantes, perto de 60 mil palácios e 70 bibliotecas (uma das quais abrigava 500 mil manuscritos e uma equipe de pesquisadores, tradutores e encadernadores), tornara-se um centro mundial e rivalizava em opulência cultural e econômica com o Cairo, Damasco e Bagdá.

Para os judeus, também foi o início de uma época áurea. Na Espanha do século X havia prósperas comunidades em não menos de 44 cidades, muitas com suas próprias ieshivot. Foi neste período que o judeu Hasdai Ibn Shaprut (915-970), um dos homens de confiança do califa Abd-al-Rahman, lançou as bases para o florescimento da cultura judaica. Excelente médico e diplomata, Ibn Shaprut tornou-se líder da comunidade judaica de Córdoba e passou a incentivar o estudo da Torá, do Talmud, fazendo renascer o hebraico. Generoso patrono, Ibn Shaprut convidava para visitar a cidade sábios tal-múdicos, filósofos, poetas e médicos judeus.

A erudição e a sede pelo conhecimento dos judeus sefaraditas ia muito além da excelência nos campos da Torá e do Talmud e da língua hebraica. Incluía – de forma paralela e harmoniosa – todos os outros ramos do conhecimento humano. Os sábios e eruditos judeus eram também grandes médicos, poetas, filósofos, matemáticos, cartógrafos e astrônomos. Os judeus espanhóis – assim como os cristãos – tornaram-se emissários das atividades cientificas e culturais da Espanha pelo resto da Europa.

Mas a supremacia do Califado de Córdoba não era sólida e ventos desfavoráveis estavam prestes a derrubá-lo do poder, sinalizando para os judeus sefaraditas o início do fim da era de tranqüilidade na Espanha muçulmana. Quando berberes muçulmanos tomaram Córdoba, fazendo desmoronar a dinastia dos califas omíadas, os judeus viram-se diante de um dos primeiros momentos negros da Idade de Ouro. No entanto, por algum tempo, a situação ainda se manteve estável.

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