Pós Declaração
Atacado por todos os lados, Israel tinha que lidar, diariamente, com milhares
de bombas e responder com seus parcos recursos. Numerosos assentamentos na
Galiléia e na região do Neguev estavam isolados, vulneráveis
a ataques árabes por todas as fronteiras. Para se defender, contavam
com alguns armamentos e muita perseverança. As forças organizadas
israelenses deveriam concentrar-se em ações ofensivas para garantir
posições-chave, bloquear o avanço das colunas inimigas
e fechar brechas na defesa israelense. Ou seja, uma árdua e gigantesca
tarefa para a qual contavam com apenas dois aliados: sua determinação
em vencer e a rivalidade entre os países árabes que, apesar de
unidos pelo seu ódio a Israel, estavam divididos segundo seus diferentes
interesses na região.
Na madrugada de 14 para 15 de maio, unidades do Egito tentaram conquistar o
kibutz religioso de Kfar Darom, a onze quilômetros ao sul de Gaza. Ao
mesmo tempo, os sírios iniciaram um ataque ao Kibutz Nirim, mais ao
sul. Nos dois casos, os moradores conseguiram repelir os ataques, provocando
perdas e mostrando aos inimigos que ações ofensivas contra assentamentos
judaicos causariam baixas em ambos os lados. Nas primeiras horas do dia 15
de maio de 1948, as forças egípcias atravessaram a fronteira,
internacionalmente reconhecida, que separava Israel do Egito e avançaram
em duas direções: ao norte, ao longo da estrada costeira, e,
ao sul, rumo a Beersheva.
No dia 19 de maio, os egípcios – incluindo dois batalhões
de infantaria, um de blindados e um regimento de artilharia – partiram
rumo ao Kibutz Yad Mordechai, iniciando uma série de combates para capturar
o local, atingindo o seu objetivo alguns dias depois, quando os comandantes
judeus decidiram evacuar a área. A luta e a conquista de Yad Mordechai
duraram cinco dias e custaram aos egípcios 400 vidas. Ao mesmo tempo,
permitiram às forças israelenses construir uma linha defensiva
ao norte de Ashdod. A vitória em Yad Mordechai abriu caminho para os
egípcios rumo ao interior de Israel, trajetória marcada por violentos
combates e reveses para os dois lados.
Enquanto as forças israelenses lutavam em regiões fronteiriças,
os combates em Jerusalém também aumentavam de intensidade. Duas
semanas após a Declaração da Independência, os que
ainda permaneciam no bairro judaico renderam-se aos inimigos. A violência,
na verdade, vinha crescendo desde dezembro de 1947, quando os britânicos
reduziram a passagem de suprimentos para a população, visando
justamente que o bairro fosse abandonado.
A rendição ou não do bairro judaico, na parte antiga de
Jerusalém, foi uma entre as inúmeras decisões difíceis
que os militares tiveram de enfrentar ao longo da Guerra de Independência.
O local não tinha nenhum valor estratégico, apenas histórico
e emocional. Cercados pelos inimigos, os combatentes judeus lutaram durante
duas semanas depois de declarada a independência, enfrentando bombardeios
contínuos, meses de escassez de suprimentos, alimentos e água,
além de munições. Assim, no dia 28 de maio, um domingo,
apesar de inúmeras tentativas de unidades do Palmach para romper o cerco,
os moradores do bairro renderam-se aos jordanianos, tornando-se prisioneiros.
Segundo os historiadores, a luta para impedir a rendição do bairro
foi uma das mais sangrentas do início da Guerra de Independência.
Em um relatório sobre a situação, Dov Joseph, o governador
militar da cidade, descreveu como a região foi defendida pelos moradores: “Durante
36 horas, de sexta-feira de manhã até domingo à noite,
a cidade inteira foi uma espécie de front, com bombas explodindo e o
fogo se espalhando durante o dia e a noite. Locais estratégicos mudaram
de controle por várias vezes – ora assumidos pelos árabes,
ora pelos israelenses. Apesar de tudo, a população judaica não
estava apavorada e cada um procurava cumprir a tarefa para a qual fora designado – homens
e mulheres. Era um exército do povo. Cada indivíduo sentia que
estes poucos dias seriam decisivos para o destino da cidade”.
As negociações para a rendição foram conduzidas
por dois rabinos e um general árabe que, ao ver a quantidade de armas
e homens envolvidos no combate, afirmou: “Se nós soubéssemos
que vocês eram tão poucos, nós os teríamos enfrentado
com varas de madeira ao invés de armas e morteiros”. Abrir mão
de Jerusalém, com certeza, não foi uma decisão fácil
de ser tomada pelas lideranças militares sob o governo do primeiro-ministro
Ben-Gurion. A incerteza, no entanto, sobre a vinda de mais recursos bélicos
retardava novas ofensivas. Havia rumores de que a ajuda viria da Rússia,
da então Checoslováquia, da França e dos Estados Unidos.
Apesar das preces, porém, nada acontecia.
De 15 de maio até 11 de junho, quando foi imposta pela ONU a primeira
trégua, 10 mil bombas caíram sobre a Cidade Velha de Jerusalém.
Havia mais de 1.700 feridos, entre militares e civis. Os árabes continuavam
avançando e conseguiram capturar o Monte Scopus, onde estavam localizados
e ainda hoje estão a Universidade Hebraica de Jerusalém e o Hospital
Hadassah, áreas que permaneceram sob controle jordaniano até 1967.
O número de refu-giados vindos da Cidade Velha, em busca de abrigo na
parte ocidental de Jeru-salém, aumentava diariamente. Sinagogas eram
transformadas em abrigos durante a noite, havia ra-cionamento de água
e de energia elétrica.
Ainda assim, os israelenses tentavam criar uma normalidade, mantendo as escolas
em funcionamento, ignorando o barulho das bombas e dos tiros. E, mesmo durante
a trégua, os israelenses lutavam para impedir o avanço árabe
sobre Jerusalém Ocidental. Foram registrados violentos combates no setor
ocidental, nas proximidades do hospital de Notre Dame e do convento francês,
nos arredores dos Portões Novo e de Damasco, na entrada da Cidade Velha.
"Para Israel não havia outra alternativa a não ser a vitória. A derrota nessa guerra representaria a certeza de seu desaparecimento como nação."
Bibliografia:
•
Sachar, L. Abram, The Redemption of the Unwanted;
•
Mishal, Nissim (organizador), Those Were the Years…;
•
http://www.mfa.gov.il.
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