Um herói americano
No entanto, ainda que desconhecido por grande parte da população
israelense, Marcus é familiar aos judeus norte-americanos. “Ele
foi um norte-americano que deu sua vida para ajudar a treinar o Exército
de Israel. Portanto, nada mais justo do que ser homenageado por nós”,
disse Dan Nadel, ex-comandante da Associação Americana dos Veteranos
de Guerra Judeus.
Marcus passou sua vida alternando períodos de carreira militar com outros
de atuação civil. Ao deixar West Point, estudou Direito, exercendo
a profissão de advogado no gabinete do Procurador-Geral dos Estados
Unidos e, em seguida, no Departamento de Penitenciárias. Com a eclosão
da Segunda Guerra Mundial, retornou à vida militar, alistando-se com
patente de tenente-coronel. Atuou inicialmente em uma vara de justiça,
foi posteriormente transferido para o Departamento de Assuntos Civis do Ministério
da Guerra, servindo, também, como assessor do Presidente Franklin Roosevelt,
na Conferência de Yalta, e do Presidente Truman, na de Potsdam.
Como pára-quedista, Marcus participou do Dia D, na Normandia, apesar
de sua falta de treinamento. Após a guerra, foi nomeado para o governo
militar americano na Alemanha. Participou ativamente do fornecimento de suprimentos
para os sobreviventes do Holocausto e, com base em sua formação
em Direito, ajudou a esboçar os termos da rendição dos
alemães. Foi diretor da Divisão de Crimes de Guerra na seção
americana, afastando-se do exército em 1947.
Uma figura polêmica
“
Eu não sou o melhor homem que poderia ter vindo, mas sou o único
que veio”, disse, certa vez, Marcus a um dos membros da Haganá.
Esta era sua opinião sobre si mesmo, que não correspondia ao
que pensavam os outros. Shamir costumava dizer que, ao conhecê-lo, teve
imediatamente a certeza de que era a pessoa que estava procurando. Acima de
tudo, Marcus estava disposto a ir ao Oriente Médio, pois se sentia solidário
e identificado com a Nação Judaica, seu povo. Na ocasião,
teria dito a Shamir: “Você vê este braço? O sangue
de Abraham corre em suas veias”.
Poucos meses após o primeiro contato, já em janeiro de 1948,
partiu para a então Palestina, disfarçado de negociante de vinhos.
Seu verdadeiro objetivo era analisar a estrutura e o desempenho do exército
judaico. Desde os seus primeiros momentos na região, Marcus entrou em
conflito com a liderança militar judaica, que não acreditava
que sua experiência militar pudesse realmente ajudá-los. Esta
impressão, no entanto, logo se modificou.
Marcus visitava as tropas, conversava com os soldados, surpreendendo-os, muitas
vezes, com sua capacidade de adaptação às situações
mais adversas. Incentivava-os a não esmorecer, apesar das dificuldades. “Ele
conseguia transmitir força a cada homem, ressaltando suas habilidades.
Ensinou-nos a usar o nosso espírito de luta como se fosse uma arma,
principalmente diante da escassez de arsenais”, conta o primeiro chefe
das FDI, Ya’akov Dori.
Mesmo elogiando os combatentes, Marcus não deixava de apontar as falhas
que constatava no Pal-mach e na Haganá. Sugeriu maior mobilidade às
unidades, a utilização dos homens mais motivados e salientou
as vantagens de um ataque surpresa sobre seus inimigos, ao invés de
uma postura defensiva. Sobre esse assunto, costumava mencionar sua experiência
nos ringues: “No boxe, os ataques são súbitos e poderosos,
atingindo-se o oponente por todos os lados. Atacando, recuando e confundindo-o.
Na guerra, deve-se fazer o mesmo”.
Segundo o historiador militar Uri Milstein, apesar da aparente cordialidade,
as lideranças do Palmach e da Haganá não aceitaram muito
bem as críticas, principalmente as feitas após a derrota na Batalha
de Latrun. Talvez seja uma das razões pelas quais Marcus não é muito
lembrado em Israel. Esta não é, no entanto, a opinião
de Meir Pa’il, outro historiador. Para ele, Marcus foi muito bem recebido
na época, justificando a falta de prestígio póstumo da
seguinte maneira: “A maioria dos israelenses sequer sabe que houve uma
Guerra de Independência. Alguns conhecem Ben-Gurion. É assim que
as coisas acontecem. Pessoas como Marcus desaparecem no turbilhão da
História...”
Segundo outros, Marcus nunca foi valorizado, pois, sendo americano, jamais
conseguiu deixar de ser visto como estrangeiro – e também porque
os israelenses não admitem o fato de que necessitavam de ajuda externa
para vencer a ‘sua’ guerra.
Hollywood, no entanto, interessou-se pela epopéia de Marcus e, em 1965,
lançou o filme À Sombra de um gigante, narrando sua trajetória.
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