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| À sombra de um gigante |
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| Foto Ilustrativa |
David Marcus,
assessor de Ben-Gurion,
foi um dos militares
judeus americanos que
participou da luta pela
formação do Estado
de Israel, morrendo
antes de ver florescer a
nova nação.
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| Edição 41 - Junho de 2003 |
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Não há longos capítulos dedicados a Marcus nos livros
da História de Israel. As gerações mais jovens sequer são capazes de dizer com exatidão
quem foi ou o que fez pela criação do Estado. No entanto, na
memória dos mais velhos, o nome de David Daniel Marcus, ou Mickey Marcus,
como se tornou mais conhecido, traz à lembrança a figura de um
militar cuja atuação foi fundamental para a sobrevivência
da comunidade judaica de Jerusalém, em 1948, durante a Guerra da Independência.
Sob seu comando, foi aberta a estrada de Burma, com certeza uma das batalhas
mais importantes e sangrentas de todas as guerras que Israel enfrentou, acabando
com o cerco da Cidade Santa e permitindo a passagem de suprimentos à área
sitiada. Hoje, passando pela estrada para Jerusalém, podemos ver os
restos de veículos militares abatidos na época.
Marcus foi, também, o primeiro aluf – major-general – de
um exército judaico, nomeado por David Ben-Gurion, após dois
mil anos de dispersão. Primeiro filho de uma família romena de
imigrantes a já nascer nos Estados Unidos, em 1902, formou-se na Academia
Militar de West Point, fato não muito comum entre os rapazes judeus
da época. Vencedor de inúmeros campeonatos de boxe enquanto estudante,
com certeza, muitas das lições aprendidas no ringue lhe foram úteis
durante a Guerra da Independência.
Segundo uma reportagem publicada no The Jerusalem Post, em junho de 1998, apesar
de não ser um sionista atuante, a efervescência no Oriente Médio,
em meados de 1947, a iminência da Partilha da Palestina e de um conflito
na região entre judeus e árabes foram atrativos muito fortes
para sua personalidade irrequieta. Sua própria expe-riência na
Europa, em 1944, também influenciou muito a decisão que o levou
a se envolver na luta pela criação de um Lar Nacional.
Nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial foi encarregado de planejar
ações para evitar a morte por inanição de milhões
de pessoas nas regiões libertadas pelos aliados do jugo nazista. Grande
parte de suas atividades envolvia os campos de extermínio alemães.
Foi nesse período que ele pôde ver de perto as pilhas de corpos
de judeus amontoados nos campos de morte, da Europa. Em seguida, foi nomeado
chefe da Divisão de Crimes de Guerra trabalhando, então, no planejamento
dos procedimentos legais para a realização dos julgamentos de
Nuremberg contra os líderes nazistas responsáveis pela Shoá.
Estas experiências afetaram Marcus, que passou a compreender a verdadeira
extensão do anti-semitismo europeu, convencendo-se de que a única
esperança para os sobreviventes do Holocausto era a criação
de um Estado Judaico na então Palestina.
Militar com méritos reconhecidos por sua atuação na Segunda
Guerra Mundial, resolveu atender um pedido de Ben-Gurion, que procurava militares
americanos dispostos a ajudar a Haganá. Marcus obteve permissão
do Ministério da Guerra dos Estados Unidos para se engajar na luta pela
independência de Israel, desde que não utilizasse seu nome verdadeiro
nem sua patente do exército americano. Assim, em janeiro de 1948, chegava
a Tel Aviv sob a identidade de “Michel Stone”.
Shlomo Shamir, então chefe militar da Haganá, foi o encarregado
da missão que visava o recrutamento de Marcus. Os detalhes do encontro
dos dois estão em Cartas de Jerusalém, 1947-1948, da jornalista
Zipporah Porath. Em um depoi-mento concedido a Porath, Yigal Yadin, então
oficial da Haganá, afirmou: “Quando Marcus veio pela primeira
vez à então Palestina, chegou primeiro como soldado e depois
como judeu. Mas quando retornou, era um de nós. Um sionista, verdadeiro
amante de Sion”. Em um outro depoimento, Shamir teria dito: “Eu
tinha a sensação de que o que começara para Marcus, apenas
como uma missão militar, acabou transformando-se em uma missão
de amor”.
Marcus, no entanto, não conseguiu assistir o desenvolvimento do país
que viu nascer. No dia 11 de junho de 1948, poucas horas antes que a Organização
das Nações Unidas decretasse um cessar-fogo na região,
Marcus morreu com um tiro disparado por um sentinela. Sediado com suas tropas
em um mosteiro francês, em Abu Ghosh, levantou-se às 3h50, algumas
horas antes do início da trégua, e foi caminhar, enrolado em
um lençol. Ao voltar, foi interceptado por um vigia, que lhe pediu a
senha para passar. Como não sabia falar hebraico, respondeu em inglês
e tentou pular o muro do mosteiro. O sentinela deu um único tiro, atingindo
Marcus no coração.
Marcus foi enterrado nos Estados Unidos, com honras militares. Em Israel, tornou-se
nome de algumas ruas, da biblioteca na Escola de Comando das Forças
de Defesa de Israel, além de ter um monumento construído no local
onde morreu, no qual está localizada atualmente a comunidade de Telshe
Stone. O pequeno kibutz Mishmar David, próximo ao local onde começa
a estrada de Burma, também recebeu o seu nome.
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