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| Após o ataque: a dolorosa tarefa |
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| Foto Ilustrativa |
Uma das missões
mais dolorosas ocorre
na esteira de uma
operação terrorista,
quando os voluntários
do “Hatzalah”
embrenham-se em meio
aos escombros e corpos,
iniciando seu trabalho ao
lado das equipes policiais,
militares e médicas.
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| Edição 41 - Junho de 2003 |
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Dispersos em meio à multidão de sapadores da polícia,
equipes de resgate, militares e para-médicos, que
têm a si a nada invejável tarefa de separar os vivos dos mortos,
encontram-se os hoje, já familiares, homens de kipá preta e colete
laranja, com a inscrição “Chessed Shel Emet”, a verdadeira
compaixão, ou voluntários da verdadeira piedade.
Esses mais de cem voluntários do movimento charedi, ultra-religioso,
muitos dos quais com as longas peyot ao estilo tradicional em Mea-Shearim,
com as túnicas na altura dos joelhos e os chapéus de abas largas,
chegam em qualquer local onde ocorreu um ataque e cumprem a mitzvá de
proporcionar às vítimas um enterro judaico ritual. Mas quem imaginaria
que, após uma explosão terrorista, essa missão tão
nobre levaria alguém a escalar terraços e telhados, na busca
incessante de membros e outras partes do corpo, sem falar na raspagem de paredes
tingidas de sangue e vestígios de carne humana?
Quem está no cenário da tragédia já sabe que os
voluntários da verdadeira compaixão ficarão trabalhando
nos arredores do local do ataque durante horas, enquanto são suspensos
por guindastes aos telhados e terraços dos andares mais altos e recebem
dos especialistas em explosivos as orientações sobre a extensão
da distância até onde podem ter sido lançados os fragmentos
dos corpos. Muitos têm telefones celulares ou bipes de mensagens, mas,
num país onde apenas cinco minutos após um ataque terrorista
a notícia já voou e está em edição extraordinária
nos noticiá-rios, os voluntários muitas vezes chegam antes que
toquem os seus bipes. Eles vêm equipados com luvas de borracha, raspadores
de cimento e os execráveis sacos plásticos usados para coletar
os restos das vítimas.
“É
algo para o qual não há como se preparar emocionalmente”,
diz o rabino Elazar Gelbstein, fundador e chefe do Chessed Shel Emet. “Quando
chegamos ao local, nos reprogramamos
mentalmente e trabalhamos como que em transe. Se pararmos para pensar, ficamos paralisados. Depois, tentamos falar sobre
o assunto com nossos companheiros para desanuviar um pouco a tensão. Mas,
na calada da noite, na cama, cada um de nós está sozinho – ele
e seus pensamentos”.
Por que razão esse serviço tem que ser feito por um grupo separado,
quando há tantas outras pessoas das equipes de resgate no local do incidente?
A polícia está interessada em fazer a identificação
legal dos cadáveres e os encarregados do resgate trabalham contra o tempo,
tentando salvar o que podem dos sobreviventes. É que o conceito haláchico
de um funeral digno, o Kavod hamet, a honra ao morto, necessitava ter alguém
dos seus defendendo tão nobre missão.
O rabino Gelbstein, diretor de uma das sociedades funerárias de Jerusalém
e motorista voluntário de ambulância, há mais de vinte anos,
do grupo “Hatzalah”, conseguiu reunir seu pessoal entre outros voluntários
ortodoxos do “Hatzalah”, através de classificados em jornais
e de indicações boca-a-boca. Entretanto, do grupo inicial de futuros
estagiários, muitos desistiram. Alguns não agüentaram os filmes
de treinamento, mostrando horas e horas de explosões terroristas horrorosas,
chocantes até mesmo para os mais atrozes filmes de terror. Outros desistiram
depois de participar do primeiro ataque.
“
Poucas pessoas conseguem fazer este tipo de trabalho”, declara o rabino. “Mas
para os que conseguem, D’us dá a força necessária,
pois estão desempenhando uma mitzvá das mais importantes. Pode
ser um ataque terrorista ou qualquer acidente fatal de carro. Se um de nossos
voluntários não chegar a tempo, a polícia, após reunir
o que necessita para a identificação legal, lança mão
de uma mangueira e lava tudo o que encontra pela frente”.
Gelbstein afirma que sua organização faz mais do que dar às
vítimas de ataques terroristas um funeral digno, que exige que também
se enterrem os restos de carne e de sangue. Os voluntários do Chessed
Shel Emet asseguram, também, que haja uma identificação
adequada dos corpos, segundo a Halachá. Pois, do contrário, poderão
surgir problemas haláchicos de herança e, principalmente, de agunot – mulheres
que, pela lei religiosa judaica, não têm certeza da morte do marido
e, portanto, estão proibidas de se casar novamente.
Moshe Hotzman, voluntário da Chessed Shel Emet, declara que demora alguns
dias para voltar a si, após fazer o recolhimento dos despojos humanos
que restam de um ataque. “Não dá para se acostumar, se você for
uma pessoa com sentimentos e coração. Em geral, pensam que somos
como os cirurgiões, que após a primeira operação
se acostumam a ver sangue. Mas quem consegue se acostumar a ver um menino de
dez anos completamente implodido, em pedacinhos, pernas e braços espalhados
em volta do quarteirão?”
Depois do último ataque a um ônibus, em Jerusalém, Holtzman,
um chassid trajado com as vestes tradicionais, que é o supervisor haláchico
das mikvaot em comunidades da Judéia e Samaria, viu-se no telhado do prédio
do Ministério do Interior, na esquina das ruas Jaffa e Shlomzion Hamalka,
onde encontrou uma cabeça e outros membros de algumas vítimas.
“
Não conto para minha mulher nem meus filhos essas coisas”, afirma
Holtzman. “Não saio por aí contando que havia uma cabeça
dentro de um saco plástico, no banco do meu carro”.
Talvez a prova mais dura para os voluntários do Chessed Shel Emet seja
voltar para o seio de suas famílias e tentar agir naturalmente, como se
nada tivesse acontecido.
“
Após o primeiro curso de treinamento, meu marido não conseguiu
comer nem dormir durante dias”, contou Esther Holtzman. “Para falar
a verdade, tenho orgulho de sua força interior, de sua mesirut nefesh,
mas preferia que ele não fizesse esse trabalho sagrado. Vejo o estrago
que tudo isso faz nele. Não posso reclamar pois é uma enorme mitzvá;
estou em paz comigo mesma, mas gostaria que outro fizesse a mitzvá no
lugar dele”...
Tradução:Lilia Wachsmann
Fonte: Artigo de Rachel Ginsberg publicado na revista The Jewish Homemaker
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