Marcas heterogêneas
As diferenças entre os costumes de Pessach não se restringem à alimentação.
Como e quando se preparar para a festa é outro ponto de diferenciação.
Muitos dos preparativos para Pessach são realizados com grande cerimônia,
sendo recomendado que haja um envolvimento pessoal de todos os membros da família
e da comunidade. Em alguns núcleos, por exemplo, alguns membros participam
do processo da assar as matzot para a noite do Seder.
Nas ruelas do bairro de Mea Shearim, em Jerusalém, nas pequenas fábricas
que só funcionam durante os dois ou três meses que precedem a festa
os homens podem reservar um horário para produzir com suas próprias
mãos as matzot para seu consumo familiar. Muitos tentam fazê-lo
em comemoração ao sacrifício do carneiro pascal, que ocorreu
naquela hora do dia. Vestidos em suas roupas de festa, chassidim e seus Rebbes
assam as matzot de Erev Pessach, cantando capítulos do Hallel enquanto
trabalham. Há também aqueles que na noite anterior vão pessoalmente
aos poços buscar água (mayim shelanu) para ser usada para assar
as matzot.
O próprio Seder é marcado por muitos costumes diferentes entre
ashquenazitas e sefaraditas, apesar do texto da Hagadá ser basicamente
o mesmo. Há variações nas canções que encerram
o ritual e que são cantadas em diversas línguas.
Judeus iraquianos, por exemplo, começam o Seder com uma encenação
durante a qual uma das crianças bate na porta e a pessoa que está conduzindo
a cerimônia pergunta:
- De onde você veio?
- Do Egito.
- Para onde está indo?
- Jerusalém.
- E onde estão as provisões?
A criança responde recitando o Ma Nishtaná, dando início,
assim, ao Seder.
Os judeus sírios também seguem uma tradição similar
segundo a qual o aficoman (um pedaço de matzá) é embrulhado
em um pano especial e passado de mão em mão. Cada um que o recebe
coloca o pano por cima do ombro e recita o Micharotam zerurot besimelotam al
shichmam ubenei Yisrael Assu kidebar Moshe (Êxodo 12:34). Os presentes
perguntam, então, em árabe: “De onde você vem?” (Min
uen jaie) e cada um, por sua vez, responde “Egito” (Mitzraim). Depois, “Para
onde você vai?” (La uen rayeh) e a resposta é “Para Jerusalém” (Le-Yerushalaim).
Um costume similar é observado entre os judeus iemenitas. O condutor do
Seder põe-se de pé, coloca o aficoman em uma sacola por cima do
ombro e anda em volta da mesa relatando como ele acabou de sair do Egito e falando
sobre todos os milagres que lhe aconteceram.
Mesmo na keará (bandeja usada na noite do Seder), cada comunidade usa
diferentes alimentos para compô-la. O zeroá, que significa braço, é um
osso tostado com pouca carne. Embora qualquer osso possa ser usado, os sefaraditas
usam geralmente pedaço de perna do cordeiro ou ovelha, enquanto comunidades
ashquenazitas utilizam asas ou o pescoço do frango. O marór, a
erva amarga colocada no centro da bandeja, simboliza o sofrimento dos judeus
escravos no Egito. Enquanto os ashquenazitas a representam com raiz forte crua,
descascada ou ralada, ou folhas de endívia, talo ou folhas de alface romana,
os judeus sírios usam a escarola, verdura mais amarga que alface. Segundo
o costume sefaradita, para o carpás é usado o salsão, enquanto
os ashquenazitas usam cebola crua, batata cozida ou salsinha.
Há também várias maneiras de se celebrar a divisão
do Mar Vermelho, no sétimo dia de Pessach. Em várias comunidades
fica-se na sinagoga até depois da meia-noite para recitar a Canção
do Mar (Êxodo 15), com muito canto, dança e alegria. É costume
também encerrar a festa com uma refeição durante a tarde
do último dia, em casa ou na sinagoga. Tal refeição possui
vários nomes, dependendo de cada comunidade. Chama-se Seudat Mashiach
entre os Chassidim Chabad. Para os judeus marroquinos, o final de Pessach é dedicado
para a Mimona, uma grande festa em homenagem ao Rabi Maimon, pai de Moses Maimônides.
Durante a noite da Mimona (ver Morashá nš 24), as pessoas tradicionalmente
fazem visitas umas às outras, oferecendo iguarias chametz recém-preparadas,
como panquecas, doces e outras delícias.
Mas a pergunta permanece. Será que não há uma maneira de
os rabinos unificarem os costumes especialmente em Israel, onde ashquenazitas
e sefaraditas convivem e formam uma única sociedade?
Sob uma perspectiva haláchica, qualquer costume aceito por uma comunidade
durante um período de tempo significativo tem um grande peso. O que os
rabinos das várias comunidades afirmam é que um costume antigo,
observado há centenas de anos, não pode ser mudado.
Bibliografia:
•
Pessach – Passover – Its observance and significance, ArtScroll Mesorah
Series.
•
Rabbi Yaakov Weil, “The Hagada with answers”, Artscroll Mesorah Series.
•
Rabbi Jonathan Chipman, “Why are Pessach customs so different?” “The
Jerusalem Post”, março 1999.
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