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| Pessach, diferenças e semelhanças nos costumes |
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| Foto Ilustrativa |
No decorrer dos séculos, as várias comunidades desenvolveram
hábitos e costumes diversos para as comemorações judaicas.
Dentre estas, Pessach é a festa que apresenta uma maior
variedade de costumes, diferenciando especialmente os
judeus sefaraditas e ashquenazitas.
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| Edição 40 - Março de 2003 |
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Dizem os sábios, que quando há discrepância entre os costumes
mantidos, cada comunidade deve seguir os seus próprios. Uma das perguntas
mais comuns quando se aproxima a comemoração de Pessach refere-se
ao que é permitido e o que não se deve comer nessa festa. É uma
dúvida justificada, pois, atualmente, judeus de origens diversas convivem
juntos em Israel e na diáspora. Segundo a Halachá (Lei judaica),
em Pessach é absolutamente proibido consumir, possuir ou tirar proveito
do chametz, ou seja, qualquer tipo de alimento levedado. De acordo com a Lei
judaica, cinco cereais podem tornar-se chametz: trigo, centeio, cevada, aveia
e espelta. Sendo proibido consumir até a mais ínfima quantidade
de chametz, a grande questão é como cumprir a Lei.
A primeira e mais marcante diferença entre os costumes ashquenazitas e
sefaraditas em relação a Pessach diz respeito a um grupo de alimentos
chamado kitniot. Traduzido literalmente, kitniot significa leguminosas, mas,
na realidade, o termo engloba uma grande variedade de grãos e sementes
comestíveis. Arroz e milho são considerados kitniot, assim como
todos os tipos de feijão, lentilha, soja, ervilhas, grão-de-bico
(seco, fresco ou enlatado). Da lista constam, também, legumes frescos
como vagens e favas. Mesmo não sendo consideradas chametz pelas Leis judaicas,
os sábios ashquenazitas, há séculos, decretaram a proibição
de comer qualquer espécie de kitniot. Apesar de não poder ingeri-las,
não é vedado tê-las em casa (já que não são
consideradas chametz). Para os ashquenazitas, a proibição dos kitniot
se estende a quase todas sementes comestíveis, como o amendoim, por exemplo,
aos óleos derivados destes grãos e a qualquer alimento que contenha
estes ingredientes. Há comunidades, inclusive, que sequer usam alho em
Pessach.
Já os sefaraditas, por sua vez, seguem os ensinamentos do Rabi Joseph
Caro que, em sua obra Shulchan Aruch, declara que arroz e outros grãos
podem ser consumidos. Assim, segundo a halachá e o ensinamento de nossos
sábios, cada indivíduo deve seguir os costumes de sua comunidade
e, em caso de dúvida, consultar seu rabino.
Mas qual a origem da proibição das kitniot? Não há uma
resposta definitiva, pois sua origem está perdida na história haláchica.
A primeira menção sobre o tema pode ser encontrada nos escritos
de Rabi Isaac de Corbeil – um codificador de leis do século XIII,
autor do Sefer Mitzvot Katan (S’mak). Ele descreve esta proibição
como sendo uma prática antiga observada desde o tempo dos kadmonim. Os
kadmonim, fundadores da tradição haláchica ashquenazita,
viveram na Europa em meados do século X.
Segundo Rabi Isaac Corbeil, o S’mak, a proibição não
se deve ao fato do arroz ou a lentilha serem considerados chametz, mas sim para
prevenir qualquer confusão eventual entre alimentos elaborados com as
leguminosas e o chametz verdadeiro. Para os sábios ashquenazitas havia
uma semelhança entre as ktniot e os cereais que podiam tornar-se chametz.
O problema se complica ainda mais pelo fato de vários tipos desses grãos
ou sementes, ao serem moídos, transformarem-se em farinha, o que torna
mais difícil a sua diferenciação. Levando em conta que é proibida
a ingestão até da mais ínfima quantidade de grãos
que seja chametz, regras cada vez mais severas foram criadas em Pessach nas diferentes
comunidades, justamente para prevenir qualquer erro.
De fato, mesmo entre os sefaraditas que consomem kitniot toma-se o maior cuidado
para não misturá-las com um grão sequer de chametz. O arroz,
por exemplo, é cuidadosamente selecionado pelas donas de casas para ver
se no meio não há algum grão de trigo. Entre os judeus sírios,
este é três vezes despejado em uma toalha branca e meticulosamente
limpo para se ter certeza de que nenhum grão escapou.
Nos seus primórdios, o costume de não comer kitniot causou surpresa
e provocou polêmicas. Mesmo entre os ashquenazitas havia rabinos, como
o Rabi Yehiel de Paris, que argumentavam contra a proibição, afirmando
que “não havia razão para que fosse adotada como regra”.
Mas o costume acabou gradualmente se enraizando em todas as comunidades ashquenazitas.
No século XVII, autoridades como o rabino Zvi Hirsch Ashkenazi, de Morávia,
(o chamado Hacham Zvi), que achava o costume questionável e sem sentido,
declarou que ele, sozinho, não tinha o poder de abolir a prática
e que, para isso, era necessário que todos os grandes rabinos da sua geração
se unissem.
Mas nada foi feito e, como no judaísmo, a prática se torna tradição,
esta deve portanto ser respeitada dentro das comunidades que a adotaram. Somente
em situações de extrema necessidade, como fome e guerra, os rabinos
ashquenazitas retiraram temporariamente o decreto.
Paradoxalmente, a dificuldade em observar a proibição referente às
kitniot é muito mais difícil para os judeus residentes em Israel
do que para os da Diáspora. Isso porque em Israel há uma grande
população sefaradita observante e são os seus costumes que
determinam o que é vendido nos supermercados. Muitos ashquenazitas já passaram
pela situação de entrar em um supermercado, em Pessach, e encontrar
vários produtos marcados Casher le Pessach desde óleos até maionese,
margarina e bolos os quais não
podem comprar, pois ao lado da certificação de casher aparece somente
para consumidores de kitniot.
Mas mesmo entre os ashquenazitas há grandes variações sobre
o que comer ou não comer em Pessach. Os costumes adotados por diferentes
grupos chassídicos também podem variar. Alguns adotaram o costume
de não comer gebrochts (palavra em ídiche para quebrado). Segundo
este costume, durante Pessach é proibido molhar matzá ou farinha
de matzá, bem como cozinhar ou assar a matzá e a farinha misturadas
com algum líquido. Isto significa não comer bolos feitos com farinha
de matzá, incluindo até a famosa sopa de bolas de matzá,
ou kneidlach. A proibição de gebrochts adotada entre certas comunidades
chassídicas baseia-se na suspeita de que a matzá constituída
de farinha de trigo e água mesmo quando devidamente assada, pode ainda
conter algum resquício de farinha que não foi cozido, pequenas
partículas de farinha crua que, em contato com o líquido, podem
fermentar e se tornar chametz.
Atualmente este costume está profundamente enraizado em muitas comunidades,
apesar de este tipo de dúvida não ser mencionado pela Lei judaica.
Pelo contrário, alguns rabinos se pronunciaram explicitamente afirmando
que a matzá, após ser assada, não se torna chametz. Mas
originalmente desaprovado no seio das comunidades lituanas, este costume está sendo
respeitado por um grande número de pessoas, pelo menos entre os ortodoxos
de origem ashquenazita.
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