|
|
| O legado de Hirschfeld |
 |
| Foto Ilustrativa |
Um símbolo, uma lenda, um tesouro nacional. Estas são algumas das
inúmeras maneiras pelas quais os fãs e admiradores do norte-americano
Al Hirschfeld se referem ao artista que se tornou célebre nos Estados Unidos
pelas caricaturas que fazia dos artistas da Broadway.
|
|
| Clique acima e consulte as edições anteriores. |
 |
 |
 |
|
|
| Edição 40 - Março de 2003 |
 |
Publicadas por mais de 75 anos na seção de teatro da edição
dominical do jornal The New York Times, suas caricaturas passaram a ser esperadas
ansiosamente pelos leitores não apenas pelo humor, mas por trazerem uma
charada que se tornou uma das principais características do trabalho de
Hirschfeld: o costume de misturar aos traços dos desenhos, várias
vezes, o nome de sua filha Nina. Ao lado de sua assinatura, o artista agregava
um número que indicava quantas vezes o nome aparecia. Ao leitor atento,
cabia a tarefa de localizá-lo. Mais do que um hábito, isto se tornou
um prazer e um passatempo não apenas para os nova-iorquinos, mas para os
norte-americanos em geral pois, ao longo das décadas, as obras de Hirschfeld
foram publicadas em centenas de jornais de todo o país.
Nascido em 1903, em St. Louis, Missouri, Hirschfeld era considerado pela crítica
como uma criança prodígio que cresceu, mas jamais envelheceu. Sua
visão de mundo e principalmente do teatro norte-americano era carregada
de uma alegria que transpôs a suas obras e que se refletia na leveza de
seus traços e na expressão dos personagens. Irônico sem ser
malicioso, repassava com muita sensibilidade para seus desenhos o que captava
da interpretação dos artistas durante os ensaios e nas noites de
estréia. Consagrou-se desde o início de sua carreira como um caricaturista
que transmitia o espírito das obras e dos seus personagens sem jamais ser
caricato. Segundo seus amigos e os próprios artistas a quem retratou, jamais
usou sua pena e seu talento para ridicularizar o trabalho dos outros.
Dono de um senso de humor permanentemente alerta, Hirschfeld dava sempre a mesma
resposta quando lhe perguntavam qual o seu trabalho favorito: O último.
Da mesma maneira, sempre se definia como um judeu cultural, demonstrando jamais
esquecer as suas origens familiares. Sempre disposto a compartilhar
sua história de vida, o caricaturista gostava de contar como um garoto
nascido no Missouri se tornara um dos mais famosos artistas do país. E,
nesta trajetória, jamais deixou de mencionar seus pais, os quais dizia
terem feito inúmeros sacrifícios por ele, sendo os principais responsáveis
pelo seu sucesso. Seu pai, Isaac, nasceu em Albany, no estado de N.Y., e a mãe,
Rebeca Rothberg, na Ucrânia e falava ídiche.
Meus pais tinham fé em mim. E, quando o professor de Arte disse a eles
que eu não teria futuro como artista se permanecesse em St. Louis, não
tiveram dúvida quanto ao que fazer. Assim, com meus dois irmãos,
mudamo-nos para Nova York. Minha mãe logo conseguiu emprego em uma loja
e meu pai ficava a maior parte do tempo em casa, tomando conta de nós.
Ele era maravilhoso, lembrou o artista em uma entrevista concedida à jornalista Alice Burdick
Schweiger, da publicação The Jewish Times.
Nova York mostrou ser o local certo para a família Hirschfeld. Foi nessa
cidade que o jovem Al, além de aprofundar seus estudos de arte, entrou
em contato com o mundo teatral. Depois de, aos 14 anos, assistir a apresentação
de uma peça pela primeira vez, sua paixão pelo desenho misturou-se
ao amor pelo palco. Depois de terminar o segundo grau, conseguiu seu primeiro
emprego na Goldwyn Pictures, ganhando US$ 4 por semana. Um dia, seu chefe, Howard
Dietz, viu um de seus desenhos e lhe pediu que fizesse um anúncio para
a empresa. A partir desse dia, ele começou a fazer cada vez mais anúncios.
Com 18 anos, Hirschfeld conseguiu outra colocação como diretor de
Arte da Szelznick Pictures, onde aperfeiçoou ainda vez mais o seu traço.
Aos 21 anos, já conseguira fazer algumas economias e foi para Paris. Foi
na capital francesa que ele estudou pintura. Esta, no entanto, logo foi esquecida
e ele voltou a se dedicar apenas ao desenho.
Em 1926, com 23 anos, Hirschfeld retornou a Nova York , onde começou a
criar desenhos sobre o teatro. Juntamente com seu agente, Richard Mancy, foi assistir
ao espetáculo de um ator francês, Sacha Guitry, sobre o qual fez
uma caricatura. Bastante impressionado com o trabalho do jovem artista, Mancy
o mostrou ao editor do New York Herald Tribune, que o publicou na edição
dominical. Esta primeira publicação abriu novas perspectivas para
a carreira de Hirschfeld, levando-o a fazer desenhos para outros veículos.
No ano seguinte, recebeu um telegrama do The New York Times pedindo-lhe um trabalho
sobre o artista escocês Harry Lauder. Fiz um desenho que acabou sendo publicado.
A partir de então, durante dois anos, eu mandava obras para o jornal, sem
jamais ter ido até lá e sem conhecer pessoalmente ninguém
do veículo, contou o caricaturista a Alice Sch-weiger. Uma noite, no entanto, no intervalo
do espetáculo, ele conheceu o editor do Times, que lhe disse: Al, você
é o homem mais misterioso do jornal. Desde então, ele passou a levar pessoalmente seus desenhos.
Mais de 70 anos se passaram desde a publicação do primeiro trabalho
de Hirschfeld no The New York Times. Ao longo de sua carreira, ele assistiu a
tantos espetáculos e fez tantas caricaturas que é praticamente impossível
precisar-se o número exato de suas obras. Assistindo aos ensaios, estando
presente às pré-estréias e repetidas vezes aos mesmos shows
da Broadway e também de outros palcos, ele conseguiu capturar com sensibilidade
a essência dos artistas e de seus personagens, estudando seus gestos, a
expressão de seus rostos e sua linguagem corporal. Criador de um estilo
singular, retratava com traços simples e bem definidos o mundo artístico.
Seu acervo inclui rostos famosos do passado, como Charlie Chaplin, Al Johnson
e Louis Amstrong e sucessos mais recentes como o violinista Yitzhak Perlman e
o apresentador de televisão David Letterman, apenas para citar alguns.
O traço de Hirschfeld foi inicialmente influenciado por Charles Dana Gibson,
criador do personagem Gibson Girl, e John Held, ilustrador do Jazz Age. Mas segundo
o próprio caricaturista, sua maior influência veio de uma viagem
que fez ao Extremo Oriente, em 1932. Sobre esse período, conta: Quando
visitei Bali, fiquei intrigado pelos relevos japoneses. Aprendi muito com a arte
asiática, que elimina as cores em função do traço.
O artista norte-americano seguiu esta inspiração para criar seu
estilo. Em 1945, acrescentou o toque especial mencionado acima de diluir o nome
de sua filha Nina em meio aos seus trabalhos escondidos em cabelos, sobrancelhas,
dobras ou como fundo. Segundo o próprio artista, ele incluiu 40 vezes a
palavra Nina em um desenho da atriz Whoopi Goldberg um recorde não superado
até a sua morte.
A história do teatro nova-iorquino pode ser acompanhada pelos trabalhos
de Hirschfeld. Durante a década de 1930, o caricaturista viu o surgimento
de uma nova geração de autores, entre os quais, Orson Welles, bem
como de atores, como Alfred Lunt e Lynn Fointaine. A década de 1940 trouxer
à tona o talento de Tennessee William e as montagens de Oklahoma e South Pacific.
São desse período, também, as litografias coloridas, como
Lindy Hop, e uma presença maior de texturas. Entre a década de 1950
e 1960, ganham força o traço e as brincadeiras com o nome de sua
filha, com o aumento do número das caricaturas sobre a Broadway. Nas décadas
seguintes, o preto e o branco tornam-se predominantes em seus trabalhos.
Personalidade das mais marcantes de seu tempo, Hirschfeld é tema de cursos
nas faculdades de Artes dos Estados Unidos. Sua obra é comparada pelos
críticos aos trabalhos de Daumier e Toulouse-Lautrec, tendo sido publicada
em livros e em coleções de inúmeros museus, inclusive no
Metropolitan, no Museu de Arte Moderna e no Museu Whitney de Arte Americana, em
Nova York, e no de St. Louis, sua cidade natal.
No prefácio do livro O Mundo de Hirschfeld, publicado em 1970, ele afirmava: Não é meu objetivo destruir a
peça ou o ator, ridicularizando-os. A paixão da convicção
pessoal pertence ao escritor; a interpretação física dos
personagens, ao ator; e o traço, a mim. Minha contribuição
é pegar o personagem criado pelo escritor e tornado vivo pelo ator e reinventá-los
para o leitor. Estas palavras, ainda que escritas há mais de 30 anos, permanecem atuais
quando se analisa o acervo criado pelo artista, que inclui livros como Manhattan
Oasis, de 1932, sobre os bares e barmen da cidade; a edição limitada
de Harlem; Westward Ha!, entre outros. Em 1996, foi exibido pela televisão
o documentário The Line King (O Rei do Traço), sobre sua vida, indicado para o Oscar. Hirschfeld morreu aos 99 anos, em 20
de janeiro de 2003.
|
|