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Tempos modernos

Considerada uma das comunidades judaicas mais antigas do mundo, cuja origem remonta a quase 2.700 anos, os judeus do Iraque têm sido vítima de perseguições constantes pelos governos que se sucederam no poder. A partir do violento pogrom de 1941 e, mais especificamente, após a criação do Estado de Israel, em 1948, uma certeza tomou conta dos judeus iraquianos: sua vida, já bastante difícil, tornar-se-ia cada vez mais complicada. As medidas adotadas pelas autoridades nos anos seguintes infelizmente o comprovaram.

Em 1948, havia aproximadamente 150 mil judeus no Iraque, mas a perseguição orientada pelo governo forçou-os a fugir e, segundo os dados do The Jerusalem Post de 28 de setembro de 2002, atualmente sobraram apenas 38 judeus em Bagdá e mais uma meia dúzia no norte do Iraque, região controlada pelos curdos.

Os judeus iraquianos foram, em sua maioria, para Israel, apesar de o Iraque congelar todo o patrimônio dos que para lá se dirigiam. As autoridades permitiam a partida dos judeus devido à pressão internacional, aliada ao desejo de apossar-se dos seus bens e à idéia de que a absorção de grandes contingentes causaria o colapso do jovem Estado Judeu, relata Itamar Levin na obra acima citada. Hoje em dia, uma das mais ricas famílias judias do Iraque, que era proprietária do terreno onde fica o palácio presidencial de Saddam Hussein, vive praticamente na miséria. Os bens judeus confiscados pelo Iraque são avaliados em mais de US$ 4 bilhões, em termos atuais, conta o autor.

Entre as determinações impostas pelo Iraque aos judeus estavam restrições de caráter econômico e de liberdade pessoal, além da constante violência física incentivada pela retórica anti-semita, disfarçada de anti-sionismo. A situação tornou-se tão grave que, em 1949 e 1951, o governo do recém criado Estado de Israel ordenou a realização das operações “Ezra” e “Nehe-mias”, com o objetivo de resgatar os judeus daquele país. Cerca de 104 mil foram evacuados e mais 20 mil conseguiram sair clandestinamente através da fronteira com o Irã.

Em represália, em 1952, os judeus foram proibidos de emigrar e, a partir de 1960, de vender suas propriedades, além de serem obrigados a ostentar uma estrela amarela em seus cartões de identidade – medida semelhante à adotada durante a II Guerra Mundial, quando os nazistas os obrigavam a colocar uma estrela amarela em suas roupas. Foram-lhes também vedados os cargos públicos.Tiveram seus bens confiscados, seus negócios fechados, seus telefones desligados e as autorizações de viagem canceladas, além de serem mantidos em prisão domiciliar por longos períodos, de acordo com o humor das autoridades iraquianas.

A Guerra de Seis Dias de 1967 fez recrudescer ainda mais o anti-semitismo, que chegou ao ápice em 1969. Naquele ano, o julgamento e posterior enforcamento público de onze judeus, acusados de pertencer a uma rede de espionagem, provocou forte condenação internacional. O governo, no entanto, negou as acusações de anti-semitismo, afirmando que “apenas enforcara 11 espiões”. O mais chocante no episódio foi o fato de as autoridades terem convocado a população para assistir o enforcamento, conclamando-os a “vir para se divertir”. Cerca de 500 mil pessoas – homens, mulheres e crianças – desfilaram e dançaram diante dos corpos expostos, cantando “morte a Israel” e “morte a todos os traidores”.

No início da década de 1970, as autoridades permitiram a saída dos judeus que ainda estavam no país. No entanto, muitos do que haviam permanecido eram muito idosos e já não tinham condições de partir. Raramente eram realizados casamentos e bar-mitzvot. O último casamento foi realizado em 1980. Em 1991 só restavam no Iraque 150 judeus. O último rabino morreu em 1996. Os rituais fúnebres não puderam ser realizados, pois ninguém os conhecia. Atualmente há apenas uma sinagoga aberta no Iraque, na cidade de Bataween, outrora um dos principais bairros judaicos de Bagdá.

Até hoje, apesar de poderem seguir a sua religião, os pouquíssimos judeus que restam ainda são proibidos de ocupar cargos públicos ou trabalhar em empresas estatais. A retórica anti-semita e antiisraelense se manteve até os dias atuais. Nos discursos oficiais, os judeus são denominados de “descendentes de macacos e porcos e adoradores do tirano infiel”. Durante a Guerra do Golfo, em 1991, os membros remanescentes da comunidade continuaram proibidos de viajar e de manter contatos com grupos judaicos do exterior. Agora, com a nova Guerra no Iraque, os poucos judeus que ainda lá vivem se perguntam qual será o seu destino.

Os judeus do Iraque têm um antigo ditado:  “Bagdá é um barril de ouro, mas em seu interior, há uma serpente”.  Alguns dos judeus que saíram do Iraque vêem o ouro; outros vêem a serpente.  Mas, pensando melhor, devem ser unânimes no fato de que jamais haverá um futuro judeu no Iraque.

N.R.: Esta matéria foi ilustrada com fotos antigas. Infelizmente o regime iraquiano não permite que locais judaicos, nem mesmo as sinagogas, sejam fotografados, as fotos de 1994 são de judeus do Curdistão ao norte do Iraque.

Bibliografia:
• Stillman, Norman A., The Jews of Arab Lands in Modern Times, Ed. The Jewish Publication Society
• Gubbay, Lucien e Levy, Abraham, The Sephardim - Their Glorious Tradition from the Babylonian Exile to the Present Day, Ed. Carnell Limited
• Levin, Itamar, Locked Doors: The Seizure of Jewish Property in Arab Countries.

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