Bagdá
A cidade de Bagdá, próxima ao reino da antiga Babilônia, tornou-se
o centro do Califado por volta de 762 da era comum, transformando-se rapidamente
em uma cidade esplendorosa. Acompanhando esse ritmo e valendo-se da tranqüilidade
e do sistema de autogoverno que os califas lhes proporcionavam, as comunidades
judaicas também vivenciaram um período de grande prosperidade e
desenvolvimento. Sua afluente população incluía em seu seio
banqueiros, médicos, engenheiros, astrônomos, lingüistas tradutores,
entre outros.
Essa prosperidade atinge seu ponto culminante durante o reinado de Harun al-Rashid,
no início do século IX. Nesse período, Bagdá viu aumentar
seu contingente de estudiosos e senhores de grandes riquezas. Tornou-se um grande
centro comercial, científico e artístico. Também nesse período
para lá se transferiram os dois grandes centros educacionais judeus, as
ieshivot de Sura e Pumbedita, cada uma liderada por um Gaon (eminência,
em hebraico). O título usado pelos diretores das academias da Babilônia
do séc. VI ao séc. XI denota a sua liderança espiritual como
guardiões da tradição de autoridade emanada do Talmud Babilônico.
Respondiam perguntas formuladas por judeus de todo o mundo sobre o significado
dos textos talmúdicos, iniciando assim a célebre “literatura
das Responsas”. Eram estes Gaonim que, ao lado do Exilarca, governavam todos
os aspectos da vida comunitária.
Foi justamente a importância de Bagdá como centro de estudo judaico
e de grande erudição o que fez com que a autoridade dos Gaonim fosse
aceita pelos judeus do mundo todo. Os primeiros textos sobre leis e preceitos
religiosos foram elaborados na cidade e de lá enviados para outras comunidades
em diferentes países. O primeiro livro de rezas foi preparado especialmente
para as comunidades da Espanha e do Cairo.
Essa autoridade suprema dos Gaonim em questões religiosas continuou até
os séculos X - XI, quando surgiram novos centros de estudos judaicos na
África do Norte, na Europa cristã e na Espanha moura. Segundo os
historiadores, talvez uma das maiores contribuições do período
gaônico tenha sido o desenvolvimento do método de ensino do Talmud,
ainda utilizado nos tempos contemporâneos.
A história continua e sucedem-se os conquistadores. Em 945, a cidade de
Bagdá é conquistada por muçulmanos shiitas, para ser depois
tomada pelos turcos, por volta de 1058.
Assim que Bagdá foi atacada por conquistadores estrangeiros, iniciou-se
um período de decadência e corrupção interna. A liderança
judaica local também foi afetada e, apesar de a comunidade continuar a
prosperar, houve um enfraquecimento da liderança espiritual. Somente no
século XII, o poder do Exilarca volta a crescer junto ao califado. Um texto
desse período revela a sua importância: “Cavaleiros, judeus
e não judeus, escoltavam-no toda quinta-feira quando ele ia visitar o grande
califa. Arautos seguiam à sua frente, proclamando: ‘Abram o caminho
para o nosso senhor, o filho de David’. Ele está montado em um cavalo
e veste roupas de seda...o califa se levanta e o encaminha ao trono...e todos
os príncipes maometanos levantam-se diante dele”.
Segundo um relato de 1170 de Benjamim de Tudela, cerca de 40 mil judeus viviam
pacificamente em Bagdá. A comunidade possuía 28 sinagogas e dez
colégios religiosos. Outros relatos do mesmo período dão
conta de que a comunidade judaica era composta por médicos, perfumistas,
lojistas e acadêmicos, entre outras profissões.
A era áurea de Bagdá encerrou-se definitivamente com a conquista
da região por Hulagu, um neto do Gengis Khan, em 1258. Os exércitos
mongóis saquearam a cidade, massacrando, sem piedade, sua população.
Se, inicialmente, os conquistadores preservaram a população judaica,
até indicando um judeu para o cargo de governador supremo da Babilônia
, a situação foi-se alterando à medida que os mongóis
se convertiam ao islamismo.
A dominação continua se alternando entre persas e turcos. A população
judaica a todos sobrevive, apesar de sua vida ter ora períodos de tranqüilidade,
ora de perseguições.
Império Otomano
Na Baixa Idade Média (século XI ao XV) os otomanos, procedentes
das regiões armênias, iniciaram destemidas conquistas. Em 1453, depois
da tomar Constantinopla, conquistaram o Islã e suas grandes concentrações
urbanas. Em 1534, os turcos-otomanos tomaram Bagdá, lá permanecendo
por quatro séculos. Há poucas informações detalhadas
sobre a mesma até meados do século XVI, quando grupos de judeus
que fugiam da Inquisição refugiaram-se na outrora suntuosa cidade
dos califas. Foi somente a partir dessa época que para lá retornaram
em números significativos. Encontraram uma Bagdá bem diferente.
Os institutos de estudos dirigidos pelos gaonim haviam desaparecido, assim como
também o cargo de “Príncipe do Cativeiro”, com todas
as honras garantidas pelos califas. Em seu lugar, foi instituído o cargo
de Nassi, isto é, presidente da comunidade.
Bagdá, no entanto, ainda mantinha uma posição estratégica
enquanto rota de comércio. Pela cidade passavam mercadorias vindas da Europa
rumo ao Golfo Pérsico, além das caravanas que, atravessando o deserto
de Alepo, na Síria, buscavam o Mediterrâneo e a Europa, garantindo-lhe
o status de importante centro comercial. A cidade prosperava, levando consigo,
nesse ímpeto, os judeus, cujas fortunas aumentaram consideravelmente durante
o império turco-otomano.
Quando o sultão Suleimã, o Magnífico, entrou em Bagdá,
em 1534, vinha acompanhado por um médico e vários estudiosos judeus.
No entanto, apesar da tolerância do soberano, cada cidade tinha um governante
local e o tratamento destinado à população judaica dependia
de suas idéias e desejos. As perseguições das autoridades
não eram, no entanto, o único problema enfrentado pela comunidade.
As molés-tias e as intempéries climáticas também os
afetavam. Em 1742, uma epidemia matou quase todos os mais importantes rabinos
da cidade e os membros do Beth Din. O novo líder espiritual vindo de Alepo
também caiu vitimado pela moléstia. Cinco famílias oriundas
da mesma cidade conseguiram sobreviver e ajudaram a aumentar a população
judaica local, que decrescera sensivelmente.
A Era Moderna
Assim sendo, em função das mudanças na relação
entre judeus e governantes que variavam a cada novo califa, a partir do século
XIX os judeus começaram a buscar outros locais para viver, entre eles a
Índia, Pérsia e também Alepo, antes de finalmente chegarem
à Europa e, posteriormente, às Américas. Os que permaneceram
em Bagdá, porém, tentaram fazer reviver o brilho do passado, chegando
a fundar um instituto de ensino superior, o Beth Zilkha, em 1840. Foi nesse local
que estudaram rabinos que, anos mais tarde, deslocaram-se para outros países,
no desempenho de sua função. Grande parte dos rabinos sefaraditas
de Israel é oriunda do Iraque. A instrução, no entanto, manteve-se
restrita a determinados círculos e o papel de difundir o ensino entre a
população coube às escolas ocidentais, da rede da conhecida
“Alliance Israélite Universelle”. Como resultado, o ensino
laico substituiu gradativamente a educação religiosa.
No início do século XX viviam no Iraque mais de 80 mil judeus, dois
terços dos quais em Bagdá. Em 1908, o governo turco fez uma série
de reformas, concedendo aos judeus igualdade de direitos. A partir de então,
poderiam ocupar cadeiras no parlamento e trabalhar em instituições
públicas nas cidades de Bagdá, Basra e Mosul. Os mercadores ampliaram
suas atividades e, pela primeira vez em sua história, a comunidade judaica
da região vislumbrava um futuro no qual seus membros não mais seriam
considerados “cidadãos de segunda classe”. Quando a Grã-Bretanha
assumiu o mandato sobre a região, depois da Primeira Guerra Mundial, criou
o Reino de Iraque. O rei Faisal, o novo monarca imposto pelo Mandato Britânico,
concedeu liberdade religiosa, de educação e de trabalho para todos
os judeus de Bagdá, os quais, segundo ele, tiveram papel determinante para
o desenvolvimento e progresso da região. Constituíam cerca de 25%
da população de Bagdá e controlavam o comércio da
cidade. Muitos foram indicados para cargos de confiança no governo e outros
tantos tornaram-se representantes no Parlamento e no Senado. No entanto, esse
período de tranqüilidade para os judeus terminou com a morte do rei
Fasal em 1932, um ano após a independência do Iraque.
A bonança terminou com a ascensão ao poder de seu filho Ghazi, que
o sucedeu e não nutria os mesmos sentimentos pelos judeus. Coincidentemente,
no mesmo período, Hitler chegava ao poder, sendo seu livro “Mein
Kampf” traduzido para o árabe e uma embaixada alemã era aberta
no Iraque. Rapidamente começaram as perseguições contra todas
as minorias, não apenas a judia.
O governo de Ghazi foi vítima de um golpe de estado em 1936, mas o ódio
contra a população judaica se perpetrou através dos anos,
como decorrência da crescente simpatia oficial pelas idéias e táticas
nazistas. Atentados a bombas contra instalações judaicas tornaram-se
cada vez mais comuns, sob o pretexto de abrigarem atividades sionistas –
o que era totalmente proibido no Iraque . Ademais, em 1939, Bagdá tornou-se
o refúgio do abertamente anti-semita e totalmente pró-Alemanha Raschid
Ali, o Grande Mufti de Jerusalém.
Em seu ápice, na década de 1940, a comunidade judaica do Iraque
totalizava 130 mil pessoas, que despontavam em cargos governamentais, no comércio,
na medicina e nas artes. Viviam, em sua maioria, em Bagdá, e a segunda
maior concentração de população ocorria na cidade
portuária de Basra. Nos anos que antecederam a II Guerra Mundial, mais
da metade dos importadores e exportadores do Iraque eram judeus, segundo Itamar
Levin, autor do livro “Locked Doors: The Seizure of Jewish Property in Arab
Countries” (A portas trancadas: o confisco das propriedades de judeus nos
países árabes). A comunidade orgulhava-se, também, de seus
quatro grandes colégios judeus, que formava seus alunos em inglês,
árabe, francês e hebraico.
Em 1941, simpatizantes do nazismo e do Grande Mufti incentivaram uma rebelião
contra o governo iraquiano, partidário da Grã Bretanha. Derrotado,
o Mufti fugiu para Berlim. Apesar da derrota e da repressão a seus adeptos,
um violento pogrom tomou conta de Bagdá. As tropas britânicas na
região recusaram-se a intervir, alegando não ter recebido ordens
para tal. Foi uma das datas mais sangrentas na história de violência
contra a população judaica do país. Cerca de 180 pessoas
foram assassinadas e mais de mil feridas por uma multidão armada, com a
complacência da polícia e do exército. A violência desses
eventos levou muitos judeus a deixaram o Iraque, rumo à Índia, Pérsia,
Indonésia e Cingapura, onde, graças a seus contatos comerciais,
algumas comunidades de judeus iraquianos conseguiram estabelecer-se.
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