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| Assim se iniciou o Levante no Gueto de Varsóvia... |
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| Foto Ilustrativa |
Este ano, na terceira noite de Pessach, terão transcorrido
60 anos do início do movimento de revolta do Gueto de Varsóvia.
Curiosamente, as datas do calendário judaico praticamente coincidem com
as do calendário gregoriano.
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| Edição 40 - Março de 2003 |
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Zivia Lubetkin: O dia 18 de abril de 1943 era a véspera de Pessach. Dois
dias antes, o homem da Gestapo, Brund, entrou no escritório do Conselho
Comunitário (o Judenrat) e disse que achava que o órgão
não estava tomando conta direito das crianças judias.
Não havia comida nem legumes suficientes e ele sugeriu que os jardins
de infância fossem reabertos para que as crianças pudessem brincar
e rir, pois ele tinha certeza de que os judeus que haviam permanecido em Varsóvia
eram produtivos e não havia perigo de deportação. Por experiência
própria sabíamos que quando havia rumores no ar e se ouvia uma
promessa desse tipo, era um mau sinal.
Tinham surgido rumores no gueto nos últimos dias antes de Pessach de que
os alemães estavam-se aprontando para liquidar o gueto de Varsóvia.
Outros tinham ouvido desse ou daquele alemão palavras de encorajamento,
aconselhando-nos a lá permanecer. Mas no dia 18, o nosso policial judeu,
que integrava o movimento clandestino, informou-nos que os policiais poloneses
haviam dito aos policiais judeus que algo estava para acontecer naquela noite,
apesar de não saberem exatamente quando.
A Frente de Combate Judaica existente no gueto, que contava com células
de combatentes, declarou estado de alerta. Naquela noite, por volta da meia-noite,
esse mesmo policial veio ver-nos para dizer que o gueto fora cercado.
Promotor: A essa altura, o Conselho Judaico já perdera o controle. Vocês estavam no controle da si-tuação, correto?
Z. Lubetkin: Isto ocorreu antes, ainda, entre janeiro e abril, talvez antes. O próprio Judenrat obedecia as ordens que emitíamos e fazíamos publicar em Varsóvia. Era uma época em que os judeus obedeciam.
Nós nos dividimos. Eu fui para um posto no número 33 da rua Nalewki.
O comandante do grupo era Zechariah Auster. Os outros camaradas, Anilevich e
outros, também se dirigiram a seus postos. Mordechai Anilevich foi até o
número 29 da rua Mila. Naquela noite dissemos aos judeus que aquele que
tivesse armas, lutaria. Todos nós tínhamos armas – e não
apenas os que fazíamos parte da Frente de Combate. Dissemos: os que não
tiverem armas, descerão aos abrigos subterrâneos. E, na primeira
oportunidade, no tumulto criado pela luta, deixem-nos fugir para a parte ariana
da cidade. Deixem-nos escapar para a floresta. Alguns se salvariam.
Para os grupos de combate, não havia que dar ordens. Aqueles jovens, homens
e mulheres, aguardavam há meses com ansiedade pelo momento de poder atirar
nos alemães. O dia amanheceu. Eu estava num sótão da rua
Nalewki, 33, e vi os milhares de alemães armados com metralhadoras cercando
o gueto. De repente, eles entraram no gueto, aos milhares, armados como se estivessem
indo em direção à frente russa. Nossa célula constava
de vinte homens, mulheres e jovens.
Cada um de nós portava um revólver e uma granada e todo um esquadrão
tinha duas armas – e algumas bombas feitas de forma muito rudimentar. Era
preciso acendê-las com fósforos. Era estranho ver aqueles vinte
judeus, de prontidão contra um inimigo numeroso e fortemente armado, felizes
porque sabiam que seu fim tinha chegado. Sabíamos que eles nos venceriam;
mas sabíamos, também, que eles pagariam um alto preço por
nossas vidas.
Sei que muitos de vocês não acreditarão, mas quando os alemães
avançaram em direção a nossos postos e lançamos contra
eles aquelas bombas e granadas de mão e vimos o sangue alemão jorrando
pelas ruas de Varsóvia, após ter visto tanto sangue judeu derramado,
nós ficamos em júbilo. O amanhã já não nos
preocupava mais.
Aqueles heróis alemães bateram em retirada, atemorizados pelas
bombas domésticas e granadas de mão. Uma hora mais tarde vimos
um oficial ordenar que seus soldados recolhessem os mortos e feridos. Mais tarde,
retiramos as armas deles. Portanto, no primeiro dia, nós, tão poucos
que éramos e com armas que mais pareciam de brinquedo, conseguimos afastar
os alemães do gueto. Mas é claro que eles voltaram. Eles tinham
armas e munição, pão e água suficientes – e
nós, não. Voltaram no mesmo dia, reforçados por tanques,
e nós, com nossas bombinhas de gasolina, ateamos fogo num tanque durante
esse embate. Quando, à noite, nos reunimos para fazer os relatos, constatamos
que nossas baixas tinham sido irrisórias – apenas duas. Sabíamos
que naquele dia centenas de alemães tinham tombado, mortos ou feridos.
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