Aspectos da vida judaica...

Foto Ilustrativa

Sobre a participação dos judeus durante o domínio holandês no Brasil, foram escritos, divulgados e até ensinados conceitos enganosos, baseados em mitos e preconceitos, relatos e abordagens parciais.
Menu Completo
Morashá.com HOME
Revista Morashá
Clique acima e consulte as edições anteriores.
Edição 40 - Março de 2003
O assunto é vasto, e é necessário situar o momento histórico. O período do domínio dos holandeses começa em 1630 e finda em 1654, sem contar com o ano de 1625, de forma efêmera, na Bahia. Em 1630 Portugal ainda pertencia à Espanha, que desdenhava dos portugueses, dando-lhes a alcunha de “judeus”. Em 1640, Portugal volta a ser independente. Os judeus, nesse período, atingiram um número relevante, tornando-os conspícuos, formando o que alguns chamam de nação hebréia, nação judaica, incomodando por sua visibilidade tanto o conquistado como o conquistador.

Um dos erros refere-se à grande participação financeira na WIC (Companhia das Índias Ocidentais). Fundada em 1621, tinha por objetivo quebrar o monopólio comercial das colônias nas mãos das potências ibéricas e a obtenção do lucro. Havia uma administração central de dezenove diretores, os Heeren XIX. Do capital inicial de três milhões de florins, os judeus entraram somente com trinta e seis mil. Em 1630 havia em Amsterdã cerca de mil judeus e apenas 21 eram considerados ricos.

A participação financeira compulsória de cristãos-novos em diversos empreendimentos portugueses é notória. Segundo Varnhagen, dois cristãos-novos que emprestaram ao rei 300 mil cruzados, por influência do padre Antonio Vieira, foram logo depois perseguidos e presos pela Inquisição. A Companhia Geral do Comércio do Brasil foi viabilizada graças ao contato de Vieira com os cristãos-novos de Lisboa e a sefaraditas portugueses de Rouen, na França. Encontrou forte oposição do Santo Ofício, mas D. João IV a criou formalmente em 1649.

Uma das acusações que pesam sobre os judeus, a de terem eles ou os cristãos-novos aberto as portas do Brasil para o invasor, pressupondo deslealdade, impõe algumas reflexões: Quem traiu quem? Só os judeus foram traidores? A perfídia é apanágio dos israelitas ou um dos estereótipos?

Lembremos que até 1580 urcas* flamengas transportavam mercadorias da Europa para Lisboa, daí levando vinho e especiarias orientais em direção à África, onde trocavam diversos artigos por escravos que vinham ao Brasil, cambiados por pau-brasil e açúcar, produtos redistribuídos pela Europa. Essas viagens triangulares não foram afetadas no início do domínio espanhol. Os oficiais e marinheiros holandeses não teriam conhecimento das regiões que iriam atacar, sobretudo os portos da Bahia e Pernambuco, que lhes eram familiares?

Southey comenta: “Aos judeus …nem lhes faleciam motivos para recearem que o mais infernal sistema de perseguição que jamais inventou a maldade dos homens estivesse a ponto de ampliar-se a uma parte dos domínios portugueses… A Inquisição prendera ultimamente no Porto quase todos os mercadores de origem judaica… fora a superstição pretexto, a cobiça motivo”. Frei Manoel Calado escreveu que o inimigo de tudo sabia porque recebiam avisos dos cristãos-novos, mas pondera: “Nesta guerra nunca faltaram traidores”.

A deserção ou traição de mercenários era comum. Passaram-se para o lado dos holandeses até sacerdotes católicos como o padre Manuel de Morais, frei Antonio Caldeira, além dos muitos e ricos senhores de engenho que, mais tarde, entraram para a guerra no lado contrário, por muito endividamento com o governo holandês…”. Uma Companhia inteira, 280 ao todo, traiu os holandeses. A tentativa de subornar, corromper e o estímulo à traição eram freqüentes nos dois lados. A delação era muito usada, inclusive pelos escravos negros, que por diversos motivos ameaçavam contar sobre a existência de armas.

Após a restauração de 1640, o governo portu-guês fazia diplomaticamente, como convinha, o jogo duplo. Havia espionagem recíproca e guerrilha permanente com a seqüência de mortes, incêndios e pilhagens nos engenhos, ensejando atrocidades mútuas.

Sujeito também a acusações, o item referente à ocupação exercida pelos judeus no Brasil pode ser submetido a várias abordagens e ângulos. Judeus e cristãos-novos exerceram o comércio em Portugal durante a era medieval, emergindo nos tempos modernos como artesãos, mercadores, sempre estigmatizados e proibidos de exercerem outras funções, profissões e cargos. Fornecedores do capital necessário para a aventura oceânica dos descobrimentos, participaram, passo a passo, dos grandes eventos. Devido ao papel de intérpretes, ao sucesso e ao enriquecimento de alguns, os judeus eram olhados com animosidade pela concorrência cristã, tanto católicos ou papistas, como por pregadores fanáticos.

Poucos judeus puderam comprar engenhos de açúcar, porém de todo modo estavam envolvidos com o comércio açucareiro. Também ocuparam ramos do comércio negligenciados pelos cristãos, tais como as vendas a varejo, a corretagem e as cobranças de impostos. Os holandeses preferiam os corretores judeus, que conheciam sua língua e eram mais confiáveis.

Os judeus foram acoimados pelo exercício do comércio ilícito, o que é refutado por Wätjen. Frei Manoel Calado afirma sobre os judeus: “…não trazendo mais que um vestidinho roto… em breves dias se fizeram ricos com tratos e mofatras… (trapaças)“. Boxer contesta, afirmando que se alguns chegaram pobres e conseguiram enriquecer, muitos somente tinham uma modesta habilidade, enquanto outros permaneceram em pobreza abjeta. Apenas oito eram mercadores ricos e proprietários de sobrados.

Quando o Conselho dos Dezenove resolveu que os escravos só poderiam ser vendidos por dinheiro, alguns judeus e cristãos-novos uniram-se comprando-os por preço baixo e revendendo-os mais caro, embora aceitassem pagamentos em prestações e em açúcar. Foram acusados de especuladores quando as dívidas cresceram por causa da crise açucareira (1641-44). Todavia, o débito não era privilégio dos flamengos ou dos cristãos-velhos. Alguns judeus foram presos e Moisés Abendana, porque devia 12.000 florins, suicidou-se em 1642. Daniel Gabilho, fora condenado à forca por dívidas e fuga; amigos conseguiram comutar a sentença mediante o pagamento de 15.000 florins: foi banido para a ilha São Tomé por dez anos.


Virar Página >>

1 2