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| Arik Sharon, perfil de um judeu |
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| Foto Ilustrativa |
Conheci Ariel Sharon, ou simplesmente Arik, como prefere ser chamado, em 1971,
no Rio de Janeiro, quando ele visitou a cidade pela primeira vez. Era, então,
um general celebrado desde a Guerra dos Seis Dias durante a qual teve importante
atuação na frente sul. Não posso dizer que era esbelto nos
seus 43 anos de idade, mas com certeza tinha a metade do peso de agora.
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| Edição 40 - Março de 2003 |
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Emitia conceitos com a mesma contundência de hoje e, assim como ainda o
faz, insistia em esgotar qualquer desacordo que por acaso surgisse no meio de
uma conversa. Dizia ser um bom conhecedor de assuntos militares enquanto se declarava
péssimo entendedor de política.
Tornei a ver Arik pessoalmente, em circunstâncias únicas, logo depois
do cessar-fogo da guerra do Yom Kipur, em outubro de 1973. Eu fazia a cobertura
jornalística do conflito e não podia deixar de entrevistá-lo
do outro lado do canal de Suez, ou seja, em parte do território egípcio
por onde ele havia irrompido com seus blindados e tropas, numa audaciosa travessia
que havia mudado radicalmente, a favor de Israel, o destino da guerra. Ir até lá significava
uma extenuante viagem de automóvel de pelo menos sete horas por uma estreita
faixa de asfalto, através do deserto do Sinai. Contando com a ajuda de
Amos Ettinger, bom amigo, bom jornalista e bom poeta, consegui lugar num avião
militar Hércules, aqueles enormes, que mais parecem garagens voadoras.
Sentado na cabine, atrás do piloto, a bolha de vidro que corresponde à frente
do avião, proporcionava uma paisagem fantástica. À direita,
o azul do Mediterrâneo; embaixo, a costa de El Arish com areia branca e
coqueirais que lembravam a Bahia; à esquerda, ao longe, um cintilante
ponto dourado Jerusalém. Quando aterrisamos junto à base militar
comandada por Sharon, uma decepção: ele tinha-se ausentado para
outra missão e só voltaria no dia seguinte. Eu, Amos e mais um
amigo passamos a noite numa casinhola abandonada no meio do deserto. Fui encontrá-lo às
seis da manhã, fazendo a barba junto ao espelho de um jipe. Bati a primeira
foto. Depois, a conversa não mais parou. De início, na base. Em
seguida, a bordo de um monomotor, rumo a Beersheva. Do alto e apontando para
o solo, ele me explicava como havia cercado o Terceiro Exército egípcio,
os locais das batalhas de tanques e sua trajetória para atravessar o canal.
Era tudo como se ele fosse o narrador de um impressionante documentário
que se descortinava perante meus olhos. Continuamos a entrevista por mais horas
em sua casa em Beersheva, forrada no chão e nas paredes com belos tapetes
orientais.
Se me estendo nesses pormenores, é porque naquele dia pude entender quem
era de fato Arik Sharon. Tudo que dele ouvi, serviu como introdução
para o que veio a ser a carreira que empreendeu na política que dizia
desprezar. Até então, era inamovível sua afinidade com o
establishment do Partido Trabalhista, no poder desde a fundação
do Estado. Sharon havia deixado o comando da Região Sul seis meses antes
do início da guerra do Yom Kipur. Em face do inicial insucesso israelense,
Moshe Dayan, responsável pelo Ministério da Defesa, decidiu reconvocá-lo.
Aí começaram os problemas. O substituto de Arik, naquele comando,
era o general Goren. Coube a Sharon expor-lhe um plano que havia traçado
tempos atrás: onde e como, em determinados pontos do canal de Suez, as
forças armadas de Israel deveriam atravessar para o outro lado, considerando
a hipótese de que os egípcios viessem a ser bem sucedidos numa
semelhante operação de travessia e fincassem pé em território
israelense, tal como aconteceu. Em suma, sua tese era no sentido de que a melhor
defesa seria o ataque. Goren ignorou o que ouviu e consta ter dito: Esta guerra
vai levar o meu selo e não o de Sharon.
O fato é que enquanto a posição israelense cada vez mais
se tornava vulnerável no Sinai, Arik insistia junto ao general Bar Lev,
também reconvocado em hierarquia supe-rior, que lhe desse luz verde para
a travessia. Bar Lev discordava. Num dos dramáticos dias da guerra do
Yom Kipur, houve uma discussão tão áspera entre os dois
que, conforme Sharon me revelou, ele teve que se conter para não agredi-lo
fisicamente. Por fim, David Elazar, chefe do Estado-Maior, e Dayan deram um basta
e permitiram que Arik fizesse o que julgasse melhor. O resto da história
todos conhecem. Entretanto, a cicatriz da rusga não chegou a ser fechada.
Quando a guerra terminou, Sharon ambicionava e, com razão, a partir de
seu impecável currículo militar, o posto que Elazar deixaria no
ano seguinte. Influenciado por Bar Lev e outros, o establishment vetou-o para
a função. Foi quando Arik, amargurado, deu adeus às armas
e se embrenhou na política, costurando com Menachem Begin, do Herut, a
formação de um novo partido, o Likud, que chegaria ao poder em
1977.
Desde então venho mantendo com Arik Sharon contatos intermitentes e sempre
gratificantes, apesar de algumas divergências factuais e ideológicas.
Certa ocasião, levou-me para conhecer um punhado de novos assentamentos
na Cisjordânia. Discordei da existência deles e, até hoje,
as explicações que deu para a sua implantação não
me convenceram. Ao longo de tudo que dele tenho visto, lido e ouvido, resta-me
uma certeza absoluta: em nenhum momento de sua atuação de trinta
anos na política, Ariel Sharon colocou o seu interesse pessoal acima do
que julgou ser melhor para os interesses do país. Porém, o que
mais me fez admirá-lo, todo esse tempo, é a maneira pela qual se
sente judeu. Antes judeu, depois israelense. Na última semana de fevereiro,
disse ele num discurso pronunciado perante a assembléia geral da Agência
Judaica:
Em primeiro lugar, sou um judeu. E, para mim, ser judeu é o mais importante.
Em todos os meus encontros diplomáticos ao redor do mundo, como ministro
das relações exteriores e como primeiro-ministro, venho repetindo
aos meus interlocutores que sou um judeu, que venho do país do povo judeu,
que venho de Jerusalém, a capital do povo judeu por mais de três
mil anos e que será a capital unida e indivísivel do Estado de
Israel para sempre.
Nos últimos anos, a esquerda israelense ficou tão empenhada em
ter ódio de Ariel Sharon, que não percebeu sua estratégia
de mudança política e que o levou a ser o vencedor, com larga margem
de votos, de duas eleições sucessivas. Assim como Tony Blair seduziu
os ingleses migrando da esquerda para o centro, Sharon migrou da direita para
a mesma direção. Ao contrário do que afirma a mídia
internacional, ele amaciou a linha dura que o caracterizava e fixou-se numa plataforma
que prometeu inflexibilidade em matéria de segurança e flexibilidade
em negociações com os palestinos quando existirem condições
favoráveis. Após seu triunfo eleitoral de janeiro, Sharon propôs
inutilmente que o Partido Trabalhista viesse ao seu encontro para formar um governo
de coalizão. Imagino que tenha feito isso como quem toma um remédio
amargo, mas insistiu nisso por julgar que seria melhor para os interesses do
país.
Assim como Golda Meir tomava importantes decisões na cozinha, Arik costuma
decidir-se depois de reuniões em torno da mesa de jantar de sua fazenda
perto de Ashkelon, vizinha do kibutz brasileiro Bror Chail. É uma bela
e produtiva propriedade. Em seu quarto de dormir há na parede uma fotografia
em que aparece fazendo a barba no espelho de um jipe. Foi a que eu tirei no deserto
do Sinai.n
Zevi Ghivelder
Jornalista e escritor
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