A carreira de Eban chegou ao ápice em 1967, durante a Guerra dos Seis
Dias, quando ele ocupava o cargo de ministro das Relações Exteriores.
Na véspera da guerra, com Nasser (então presidente do Egito) apertando
o cerco sobre Israel, fez visitas dramáticas a Paris, Londres e Washington
para conquistar apoio para seu país: ‘’Era uma guerra que
queria aniquilar-nos , dizia. Perigo e solidão eram as realidades daquele tempo”. Os
norte-americanos estavam em guerra no Vietnã e não queriam envolver-se
em outro conflito. Os europeus tinham uma atitude reservada, aconselhando a diplomacia
a esperar pelo ataque inimigo para entrar no conflito. Eban conseguiu o apoio
do presidente norte-americano Lyndon Johnson.
O discurso de Eban nas Nações Unidas, após a vitória
de Israel na Guerra dos Seis Dias que resultou na ocupação da Margem
Ocidental do rio Jordão, do deserto do Sinai e das montanhas do Golã,
e na libertação da Cidade Velha de Jerusalém é um
clássico na história da diplomacia. Mostra que o conflito não
concerne só a Israel, mas ao mundo inteiro e que o desafio a Israel, na
realidade, ameaça os fundamentos da ordem internacional. Oferece a seus
vizinhos livre negociação e uma paz justa e duradoura. Rejeitando
a possibilidade de que o status quo anterior à guerra possa ser restaurado,
vislumbra um futuro com um Oriente Médio maduro, farto da guerra e disposto
a não perder as oportunidades de paz. Foi Abba Eban quem em 1973, durante
a Guerra de Yom Kipur, ajudou a convencer o presidente norte-americano Richard
Nixon a reabastecer Israel de armamentos e suprimentos.
Paradoxalmente Eban se tornou mais popular entre os judeus da diáspora
do que em seu próprio país. Chegou à liderança do
Partido Trabalhista, de cujo gabinete foi membro entre 1959 e 1974, inicialmente
como ministro sem pasta, depois como ministro da Educação e Cultura,
depois como vice do primeiro-ministro e, enfim, como ministro das Relações
Exterioriores. Foi membro do Knesset (Parlamento) até 1988, mas nunca
se tornou primeiro-ministro. Com um papel primordial nos bastidores da diplomacia
internacional, não tinha a mesma ressonância em casa.
Efetivamente, Eban parecia um pouco deslocado entre seus colegas do Knesset.
Elegantemente trajando terno escuro e gravata, tinha um jeito nobre e formal
que não combinava com as maneiras rudes e espontâneas de seus companheiros
bronzeados, com camisa de manga curta e colarinho aberto. Estas diferenças
foram-se acentuando com os anos, especialmente devido à guinada para a
direita do eleitorado israelense e ao enfraquecimento do peso político
da primeira onda dos imigrantes europeus seculares que fundaram o Partido Trabalhista.
Sobre o declínio de seu partido, que causou seu afastamento da política
ativa, dizia: O único erro dos trabalhistas foi ter perdido as eleições
em 1977.
Moderado, tinha o apelido de pomba.
Quando, na década de 1970, a primeira geração de líderes
do Partido Trabalhista saía da cena política, os falcões
da nova geração, liderados por Yitzhak Rabin, isolaram-no politicamente.
Na década de 1980 o partido modificou o sistema de nomeação
e Eban recebeu a humilhação de ficar fora da lista dos candidatos
a aquele Knesset.
Fez sua afirmação mais famosa quando a então OLP (Organização
para a Libertação da Palestina) rejeitou o plano para o controle
palestino sobre a maior parte da Margem Ocidental e da Faixa de Gaza, conforme
constava nos acordos de Camp David, assinados entre Israel e o Egito em 1978:
Os palestinos nunca perdem a oportunidade de perder uma oportunidade.
Mesmo deixado de lado, continuava sendo uma voz de prestígio, com um público
fiel no exterior, especialmente nos Estados Unidos. Além da cultura profunda,
também chamava atenção a sua fluência em dez idiomas.
Nos anos seguintes a seu afastamento político, Eban se dedicou a dar palestras
e a escrever. Seus temas prediletos eram a expe-riência judaica, a política
e as realizações de Israel. Em sua obra enfatizava a centralidade
da história judaica e suas contribuições à civilização
contemporânea. Enfatizava também a necessidade de envolver os palestinos
na busca da paz. Membro da Academia Americana de Ciências, seus livros
principais são: Herança, civilização e os judeus,
que se tornou um aclamado programa de televisão em nove capítulos,
com o próprio Eban como narrador; A Terra Prometida; Minha Terra: História
do moderno Israel; Abba Eban; A voz de Israel; A corrente do nacionalismo; Meu
Povo, uma história dos judeus; Testemunho pessoal: nasce uma nação,
que também se tornou um programa de televisão produzido em cinco
capítulos; e Diplomacia para o próximo século. Em 2001,
recebeu o Prêmio Israel, mas este reconhecimento foi muito pequeno e muito
tardio para tão notável personalidade.
Sua posição política era contrária à ocupação
da Margem Ocidental e da Faixa de Gaza e favorável ao estabelecimento
de um estado palestino. Dizia que a origem de Israel estava intrínseca
e intimamente ligada à idéia de compartilhar território
e soberania. Afirmava que em 1967 os territórios eram um grande trunfo
na mão de Israel, por ser um instrumento de barganha muito útil,
só que Israel não soube usar esta carta a seu favor. Foi um erro
acreditar que podíamos manter os territórios do Golã ao
Suez. É necessária uma compreensão mais profunda da realidade
geopolítica.
Esta, em sua opinião, seria expressa pelos Acordos de Oslo. Mas, lamentavelmente,
as lideranças atuais não aceitam que Israel esteja diante de uma
nova realidade.
Embora não concordasse com os rumos recentes da política, Eban
era um entusiasta das realizações obtidas por Israel – o
país era definitivamente um estado judeu graças à força
unificadora do judaísmo e ao sucesso da língua e da literatura
judaicas. ‘’Vejo este sucesso como um motivo de orgulho. Nunca imaginei
Israel com 5,8 milhões de habitantes, uma potência estratégica,
um exército moderno, seguindo os avanços da tecnologia.
Foi lamentável o fato de Eban não ter sido aproveitado em todo
seu potencial até seus últimos dias. Foi de extrema importância
para Israel ter tido uma personalidade dessas como seu representante perante
o mundo durante o governo de Ben-Gurion. Que sua memória como homem e
como diplomata sirva de exemplo e de inspiração aos políticos
atuais pelo sucesso e pelo profissionalismo com que conduziu os assuntos públicos.
Eban deixa a esposa Suzy, os filhos Eli e Gila, netos e sobrinhos.
Bibliografia:
•
National Security Archives, George Washington Interview “Interview with
Abba Eban”. Tel Aviv, 13/5/97
•
Hadassah magazine. “Portrait of Abba Eban: The Poetic Option” by
Rochelle Furstenberg
Singela homenagem
Caro tio Aubrey,
Uma figura exemplar como você, admirada em Israel e no mundo, teve uma
vida pessoal, particular, um círculo familiar que sempre foi parte de
sua vida e o acompanhou o tempo todo.
Durante as décadas em que você esteve na linha de frente, sempre
o acompanharam o amor e o apoio infinitos de sua família, especialmente
de Suzy, sempre ao seu lado. Sua vida pessoal e sua vida pública eram
uma só. As reuniões familiares das tardes de sábado eram
sempre algo maravilhoso, viagens através da história, da política,
dos povos e da cultura.
Caro tio, se eu tivesse que definir o que nós todos recebemos de você,
além de sua rara e singular contribuição para a reconstituição
da nação de Israel em sua terra, eu resumiria em uma única
palavra: cultura. Você foi um homem de cultura: a cultura que impregnava
seu estilo de vida, seja público ou pessoal, era a verdadeira cultura,
no sentido pleno do termo. Você tratava as pessoas com lealdade, integridade
e honestidade. Você respeitava a diversidade das pessoas e honrava as minorias
em Israel. Você respeitava seus inimigos e adversários... Você tratava
os poderosos e os destituídos com a mesma dignidade. Você transmitia
esta sua cultura a todos seus ouvintes pelo mundo afora... Você era um
homem de estilo e benevolência, erudição e senso de humor...
Um encontro com você era uma experiência rara de humor, calor humano
e sabedoria em uma palavra, cultura de verdade.
Este mesmo Abba Eban brincava com seus netos em cima do tapete e se emocionava
com as realizações e com os sucessos dos filhos no campo da música.
Nós, em seu lar caloroso, sempre o lembraremos como o marido, o pai, o
avô compreensivo e amoroso, como nosso grande e especial tio Abba.
Possa sua alma descansar em paz.
Discurso pronunciado pelo sobrinho Isaac Herzog durante os funerais de Abba Eban
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