GRANDE TEMPLO ISRAELITA


Foto Ilustrativa

Fundado em 1932, o Grande Templo Israelita é o maior monumento da comunidade judaica do Rio de Janeiro e faz parte da história do ishuv e da cidade. No passado, teve sua época áurea como ponto de referência para os judeus cariocas. Tombado em 1987, atualmente abre só para as Grandes Festas, eventos especiais e visitação turística.
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Edição 39 - Dezembro de 2002
Após sete décadas da sua fundação, busca agora um revigoramento, podendo abrigar um Museu Judaico e outras iniciativas. Iniciada em 1925, não foi à toa que a construção do Grande Templo Israelita se deu naquela região do Centro do Rio. A poucas quadras dali estava a Praça Onze, que abrigava a maior concentração judaica da cidade, na época. De acordo com Ruy Flaks Schneider, atual presidente do Templo, ] "era o centro da vida judaica na capital do Brasil". O próprio presidente da República, Washington Luiz, foi quem colocou a pedra fundamental da construção. Segundo Schneider, o Grande Templo foi a primeira sinagoga no Rio erguida com o intuito de ser uma casa de oração, isto é, não foi uma casa que se transformou em sinagoga. "Em São Paulo, talvez, a Beth-El seja mais antiga", arrisca. Na verdade, o templo paulistano começou a ser construído mais tarde, em 1929.

Além de berço do samba carioca, a Praça Onze permitia uma perfeita convivência das famílias judias chegadas da Europa Oriental, que ali desenvolveram intensas atividades políticas, culturais e religiosas. Era a região das ídishe vende, isto é, as lojas que vendiam alimentos típicos judaicos. Era a área por onde passavam os klienteltchikes (mascates). Mais tarde, foi destruída para a construção da Avenida Getúlio Vargas, uma das principais vias do Centro do Rio, onde depois se construiu a região cha-mada Cidade Nova, que hoje abriga ultramodernos arranha-céus e os chamados 'edifícios inteligentes'.

"Desconheço as razões que levaram aqueles primeiros imigrantes judeus, provenientes dos países daquela região e que se radicaram no Rio de Janeiro, a escolher o bairro da Praça Onze para nele se instalarem. É bem possível que, do ponto de vista comercial, o bairro tivesse então, geograficamente, uma localização privilegiada. Ficava nas proximidades da estação final da Estrada de Ferro Central do Brasil. O Rio, na época capital do país, contava com uma população de aproximadamente um milhão de habitantes, na maioria gente das classes média e pobre, que vivia na Zona Norte e cujo principal meio de transporte era o trem suburbano. A Praça Onze podia ser considerada a porta de acesso à parte central da cidade", explica o saudoso Samuel Malamud em seu livro Recordando a Praça Onze.

"No sentido literal, a denominação Praça Onze refere-se apenas a uma praça pública. Entretanto, para a comunidade judaica do Rio de Janeiro, no decorrer dos anos de 1920 e 1930, essa denominação referia-se não só à própria praça, mas também aos seus arredores, onde viviam centenas de famílias judias, funcionavam dezenas de casas comerciais e pequenas oficinas exploradas por judeus de várias procedências da Europa Oriental e onde funcionavam a maioria das suas instituições religiosas, filantrópicas, culturais, sociais, recreativas e ideológicas. Naquele bairro estavam também localizadas as redações e tipografias dos vários órgãos de imprensa que, então, apareciam no Rio, em ídiche", completa.

O avô materno de Ruy Schneider, Jacob Schneider, que era um desses comerciantes, foi um dos fundadores do Grande Templo Israelita. Oriundo da Bessarábia, Jacob Schneider chegou ao Brasil em 1903, aos 16 anos, tendo a referência da irmã Elisa, que já vivia em Franca, interior de São Paulo, casada com Isaac Tabacow. Mais tarde, Jacob se mudou para o Rio. "Meu avô foi um dos maiores líderes judeus não só do Rio de Janeiro, mas do Brasil. Pode-se dizer que foi um dos iniciadores da vida judaica organizada a partir do início do século XX; a fundação de grande parte das instituições teve sua participação, incluindo o Grande Templo", orgulha-se Ruy, cujos pais, Tzipora Schneider e Israel Flaks, figuraram o segundo casamento realizado no Templo, em 1935. O próprio Ruy casou-se com Helena Guertzenstein também no Templo, em 1967.

"É surpreendente como aquela coletividade conseguiu fazer uma edificação com tamanho requinte, com aquele simbolismo. Não fizeram apenas uma sinagoga. Houve o intuito de realmente projetar uma identidade judaica através de um prédio que fosse um símbolo não só arquitetônico, mas espiritual, nacional. Houve uma mobilização geral". De acordo com histórias que seu avô lhe contava, "todas as noites ele ia de bonde aos mais afastados lugares onde vivesse uma família judia para colher a menor das doações que fosse", afirma Ruy.

Segundo a simpática Anna Bentes Bloch, viúva de Adolpho Bloch – que foi ex-presidente do Templo, havia uma sinagoga mais antiga que o Grande Templo Israelita construída em suas redondezas, no começo da década de 20: a Beit Israel, na Rua Santana. "Beit Yisruel, conforme a pronúncia ídiche", frisa. "Mas foi destruída para a construção do metrô e todos os que rezavam lá passaram a fazê-lo no Grande Templo", garante Anna, lembrando que outra sinagoga próxima era a Bene Herzl, sefaradita. Em tempo: o casal Bloch também se casou no Templo.

De acordo com Schneider, o Grande Templo Israelita teve grandes rabinos. Na época em que funcionava com serviços religiosos regulares, as mulheres ficavam no andar de cima. "Um dos principais líderes que teve foi o rabino Tzekinovsky, além do grande chazan Steinberg", conta. Rabinos muitos importantes que chegavam ao Rio de Janeiro passavam pelo púlpito do Templo para palestras, discursos e prédicas, ainda segundo Schneider. O próprio grão-rabino Henrique Lemle, trazido ao Rio pelos ashquenazitas alemães, foi um dos que passaram pela bimá do Grande Templo.

Anna Bentes Bloch conta que grande parte do terreno em torno do prédio do Templo foi vendido posteriormente para se angariar dinheiro para a construção das duas torres. ""Em um edifício construído ao lado viveu a família do Sílvio Santos", conta, referindo-se à família do judeu Senior Abravanel, camelô que virou um dos maiores empresários do Brasil.

O acadêmico Arnaldo Niskier, 67, declara-se freqüentador do Grande Templo. "Na minha infância e adolescência era o grande espaço comunitário judaico, sobretudo para os moradores da Zona Norte, e era o meu caso. Assisti a muitas cerimônias no Templo. Meus pais também o freqüentaram". Na década de 1970, o prédio do Grande Templo passou por uma grande obra, liderada por Adolpho Bloch. "Eu fui o 'devastador dos morcegos'. Eles infestavam o teto do Grande Templo e, como conhecia as autoridades do governo estadual, fui pelo Adolpho encarregado de providenciar a expulsão dos 'intrusos'. Dava medo. As obras recuperaram o conforto do Grande Templo, impediram que ele saísse de moda", afirma.

"O Templo sempre foi freqüentado por judeus de todas as classes sociais, daí o seu sentido de entidade eminentemente democrática", assinala Niskier. "Hoje em dia, com a migração da comunidade para a Zona Sul, tudo ficou muito mais difícil, razão pela qual penso que o melhor a ser feito é transformar o Templo da Tenente Possolo num grande Centro de Memória do Judaísmo Brasileiro, com características de museu vivo", sugere o acadêmico.

Ruth e Arnaldo Niskier casaram-se no Grande Templo, em 1962, com o rabino Rachmil Blumenfeld. "Estava lotado, apesar da chuva. Seguramente, mais de 600 pessoas", orgulha-se. Jornalista, professor e escritor, o carioca Arnaldo Niskier foi o primeiro judeu a entrar para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1984, presidindo a Casa de Machado de Assis de 1998 a 1999.

O Templo hoje

Definitivamente, o Centro do Rio não é área residencial, há várias décadas. Além disso, a vizinhança não é das mais seguras, qualquer carioca o sabe. "Gradativamente, devido à ascensão econômica e social, os judeus deixaram a região do Grande Templo e criaram outras sinagogas, em locais mais nobres, mais próximos de suas residências", reconhece Schneider. "Um verdadeiro êxodo", resume.

Para o recém-eleito presidente da Federação Israelita do Estado Rio de Janeiro (Fierj), Osias Wurman, que foi diretor-tesoureiro do Grande Templo Israelita por 14 anos, "a tendência do Templo é se tornar um espaço que possa ser aproveitado de forma múltipla, principalmente sob o aspecto histórico. Além de uma pequena sinagoga que respeitaria o atual Aron Hakodesh, acredito que o local tem um grande potencial de abrigar uma exposição permanente sobre a história dos judeus do Rio de Janeiro, um museu fotográfico da comunidade e até um museu do Holocausto. Acredito também que o subsolo do Templo possa abrigar o acervo do Museu Judaico, além de um auditório com recursos audiovisuais".

A própria Federação Israelita ocupava, até o último mês de outubro, o subsolo do Grande Templo. Com o fechamento do Consulado de Israel no Rio, o imóvel em Copacabana foi cedido, em regime de comodato, à Fierj, que já se instalou na ampla cobertura no coração da Av. Nossa Senhora de Copacabana, a principal do bairro, que tem uma das maiores concentrações judaicas da cidade.

"Concordo com as palavras do Osias. Por todos os aspectos, o Grande Templo e sua atmosfera ímpar na cidade do Rio de Janeiro será sempre o local das grandes festas religiosas. Com a saída da Federação, concordo que o melhor é sediar o Museu Judaico", declara Ruy Schneider, presidente do Templo, acrescentando a idéia de um Centro de Pesquisas de Famílias e Descendentes "e outras atividades que hoje configuram o dinamismo de um museu". Schneider afirma que o fechamento do Templo para atividades regulares foi uma opção estratégica, por questões financeiras e de segurança. "Nos últimos anos, a comunidade sofreu um processo de empobrecimento, sofreu um processo de evasão para São Paulo. Quando assumi o templo promovi um saneamento financeiro, mas é difícil", desabafa. "E cabe ressaltar: nenhum casal de noivos judeus deixará de se casar no Templo por falta de condições financeiras", garante.

Tombado em 1987, o Grande Templo hoje em dia só abre para as Grandes Festas, eventos especiais e para visitação turística, geralmente de judeus norte-americanos de passagem pela cidade. Ruy Schneider garante que não sabe como eles ficam sabendo do Templo, mas certamente a edificação deve constar de catálogos e guias de viagem no exterior, seja pela sua importância histórica quanto arquitetônica. "Ao que parece, o traçado do Grande Templo foi baseado numa antiga sinagoga de Trieste, na Itália, o que é interessante, pois a comunidade que ergueu o Templo era predominantemente ashquenazi, mas o traçado tem muito do sefaradi. Um dos aspectos mais intrigantes é a reprodução dos signos do zodíaco, o que é raríssimo numa sinagoga". Infelizmente, grande parte dos registros fotográficos antigos foi totalmente perdida devido a uma enchente que arrasou o subsolo do templo.

Uma vez ao ano, em Rosh Hashaná e Yom Kipur, o Templo revive os momentos do apogeu. Segundo Schneider, não só aqueles que participaram daqueles tempos áureos e seus descendentes visitam a sinagoga nas Festas, mas também alguns judeus de outras áreas da cidade, das Zonas Sul e Oeste, que dispõem de outras 24 sinagogas, da mais ortodoxa à mais reformista. "Na Neilá deste ano tivemos perto de mil pessoas. Costumamos trazer um coro, rabino e chazan da Argentina", completa. São estes líderes religiosos que verificam, anualmente, o acervo do material religioso da sinagoga, como Sifrei Torá, talitot e demais artigos judaicos.

Em ocasiões especiais, o Templo também reabre suas portas. Em parceria com a Lar da Criança Israelita, por exemplo, realizou-se, no final de agosto, um recital com o pianista Arthur Moreira Lima. "O ambiente tem tudo a ver", afirma Schneider, referindo-se à acústica. Um recente Cabalat Shabat superlotou os mil assentos da sinagoga. Muitos dos que compareceram entravam no Templo – ou mesmo o viam – pela primeira vez e não escondiam o encantamento com sua grandiosidade.

O presidente do Grande Templo afirma que qualquer rabino, de qualquer sinagoga, é bem-vindo a realizar uma cerimônia judaica no Templo. "O Grande Templo Israelita é um patrimônio de toda a coletivadade judaica do Rio de Janeiro", garante Ruy Schneider.

Marcus Moraes

Jornalista responsável pelas notícias do site morasha.com e correspondente da JTA (Jewish Telegraphic Agency) no Brasil e Portugal