Morashá
O PRATO DE YAKOVLEV Foto Ilustrativa

O PRATO DE YAKOVLEV

No final do século XVIII, Yakovlev, um dos melhores ourives da Europa Oriental, vivia em Cracow. Especializado em trabalhar a prata, produzia verdadeiras obras de arte. Suas peças eram inconfundíveis e tão apreciadas, que ainda que o dia tivesse 48 horas, mesmo assim ele não conseguiria produzir o suficiente para satisfazer todos os pedidos que recebia.

Edição 32 - Abril de 2001


Homem dotado de grande sensibilidade e bondade, Yakovlev nunca machucou um ser vivo. Para ele, todos eram criaturas de D’us. Solitário, passava metade de seu dia orando e estudando livros de Cabalá. Somente após encher seu coração e sua alma de inspiração e sabedoria, sentava perto do fogo munido da bigorna e martelos e se punha a gravar na prata seus pensamentos e visões.

Ao anoitecer, parava de trabalhar e ia para a sinagoga, onde ficava até tarde, mergulhado nos mistérios da Criação do mundo e do universo. Só após a meia-noite, ao concluir o Tikun Chatzot, As Lamentações da Meia-noite, voltava novamente para sua loja e trabalhava por mais algumas horas já quase ao raiar do dia.

Anos antes, em um momento de profunda inspiração, havia começado a trabalhar numa Keará, uma bandeja para o Seder de Pessach. Yakovlev queria produzir algo que pudesse transmitir, para as gerações futuras, seu amor por D’us e a profunda fé que lhe transbordavam do coração e da alma.

Não era o primeiro prato de Seder que Yakovlev produzia; já fizera inúmeros e todos belíssimos, mas este era diferente, ia ser uma verdadeira Hagadá. Gravada na prata estava toda a história do êxodo do povo judeu da escravidão no Egito. Estavam lá as amarguras e o sofrimento dos hebreus e os milagres que D’us realizara para seu povo.Yakovlev elaborara cada uma das partes que compunha a Keará com paciência e dedicação, deixando gravada, em cada uma, sua fé no Eterno, D’us de Israel.

Ninguém jamais vira a obra-prima que o ourives estava produzindo, nem mesmo Dinah, sua única filha, uma linda jovem que herdara do pai a fé e a sensibilidade artística. Às vezes, quando conversava com ela, Yakovlev mencionava algo sobre sua obra, mas Dinah conhecia bem o pai, sabia que só a mostraria na hora em que ele a julgasse pronta.

“Minha filha, dinheiro algum me faria vender esta bandeja”, dizia Yakovlev. “Será meu presente de casamento para você. Quero através dela transmitir e ensinar a seus filhos e aos filhos de seus filhos, e a todas as gerações futuras, o amor que D’us sente por Seu povo e os milagres que Ele mesmo realizou para libertar Israel da escravidão”.

O prato do Seder estava quase pronto. Três colunas esbeltas seguravam os compartimentos para as três matzot. Graciosos pratos estavam prontos para receber as ervas e as outras comidas rituais que, através de sua simbologia, recontam a história de Pessach. Um copo alto, que trazia a história do Profeta Eliyahu e a do Messias, enfeitava o centro da Keará.

No dia em que ia terminar sua obra, Yakovlev não trabalhou, passando o dia todo em estudo e contemplação. Imergiu no mikve antes de cada oração. Só à noite, após pronunciar a última palavra dos Salmos do rei David, Yakovlev foi para sua loja e, vestido com seu melhor traje de festa, acendeu a chama e preparou-se para dar o toque final à sua maior criação.

Purificado pelas orações e o serviço ao Eterno, Yakovlev era só “alma”; sua mente perdera cons-ciência do que acontecia ao seu redor. Nem ouviu o barulho súbito que interrompeu a quietude da noite. Só quando os soldados bêbados que haviam arrombado sua casa começaram a demolir as portas de sua loja, percebeu que algo ocorria e olhou para cima. Viu um rosto vermelho, olhos gananciosos, viu uma espada. Um grito rouco saiu de sua garganta enquanto pulava sobre o homem. “Para trás”, gritou. “Não vou deixá-lo tocar com suas mãos impuras neste trabalho sagrado”.

Os soldados apenas gargalharam, cada vez mais alto. Curvando-se diante dos artefatos de prata que compunham os adornos da bandeja do Seder, espalhados na mesa, voltavam a gargalhar.

De repente, Yakovlev agarrou seu maior martelo, mas nem teve tempo de levantá-lo. Seu corpo foi varado pela lâmina das espadas. Ao ver o sangue jorrar, os soldados, agarrando as peças da bandeja de prata que estavam sobre a mesa, puseram-se em fuga.

Dinah, despertada pelo barulho, correu até a loja e encontrou seu pai já sem vida. Vestindo sua melhor roupa, estava deitado numa poça de sangue, sua mão direita ainda segurando o martelo. A mão esquerda segurava o copo de Eliyahu, no qual gravara, poucos instantes antes de morrer, o segredo da Redenção.

Lágrimas quentes rolavam-lhe pelo rosto enquanto Dinah beijava a mão do pai, uma mão que a havia acariciado quando pequena; uma mão que criara tantas obras de arte. Pensou que nunca iria ver o fruto de anos de trabalho e dedicação do pai, o seu presente de casamento. De repente, a mão do pai se abriu e o copo de Eliyahu rolou até seus pés. Em sua angústia, curvou-se para pegar o copo e o segurou. Só mais tarde, mais calma e resignada, iria examiná-lo com cuidado e admirar sua beleza.

Enquanto isto, longe da cidade de Cracow, numa pequena cidade de Polônia chamada Medziboz, o Baal Shem Tov estava reunido com seus discípulos mais chegados. Durante toda a noite haviam refletido sobre os ocultos caminhos da Divina Providência. Subitamente, o Baal Shem Tov parou de falar. Seus olhos pareciam olhar para dentro de si próprio e seu rosto ficou profundamente pálido. Depois de um silêncio doloroso, o Baal Shem Tov disse:

“Enquanto as partes da bandeja de Yakovlev estiverem separadas, o Mashiach não virá. Yakovlev, o ourives, com uma devoção que só era igualada por sua habilidade artística, conseguiu penetrar nos mistérios da Criação e gravou em cada parte de uma Keará de Pessach um dos nomes Sagrados do Eterno. Procurem por toda parte, não poupem esforços”, disse o Baal Shem Tov a seus discípulos. “Tentem recuperar as partes da bandeja”.

Com o passar dos anos conseguira juntar ao redor do Copo de Eliyahu algumas partes da bandeja já recuperadas. Já tinha as colunas e compartimentos para as três matzot e metade dos pratos. Mas a obra ainda não estava completa.

Alguns dias antes de Pessach, Dinah recebeu um dos discípulos do Baal Shem Tov, que lhe trazia uma mensagem. “Venha à nossa casa”, pedira o sábio, “e traga o copo de Eliyahu para que seja usado na noite do Seder”.

Na noite de Pessach centenas de pessoas aglomeraram-se ao redor da casa onde o Baal Shem Tov celebrava o Seder. No meio das mulheres estava Dinah, ainda perplexa com aquele convite inesperado. A leitura da Hagadá progredia lentamente e todos ouviam com atenção o relato da saída do Egito, os milagres e tudo mais. De repente, a multidão ouviu gritos e ordens. Um grupo de soldados conduzidos por um jovem oficial dirigia-se ao centro da grande sala onde estava o Baal Shem Tov. “Parem-nos! Parem-nos!”, gritava a multidão, pronta a subjugar os soldados. Mas o grande sábio fez um sinal, pedindo que dessem passagem aos soldados.

Ao chegar perto do Baal Shem Tov, o jovem oficial, com tom autoritário, dirigiu-se ao sábio e disse: “Você está preso, por ordem do governador ”. Mas, antes mesmo de conseguir terminar a frase, sentiu-se tomado por um suor frio, seus olhos fixos no copo de Eliyahu que Dinah trouxera e que era parte da bandeja do Seder de Yakovlev.

Transtornado, o oficial colocou as mãos nos bolsos e tirou vários pratos de prata. Eram os pratos que faltavam. “Pegue aqui, Rabino, tome-os de mim e, por favor, reze por mim”, balbuciava. Colocando as mãos em sua própria garganta, parecia sufocar. Caiu ao chão, inconsciente. Os soldados, amedrontados, carregaram-no, levando-o pelo meio da multidão que silenciosamente os deixava passar.

“Venha até aqui, Dinah”, disse o Baal Shem Tov. “Pegue estes pratos pois são seus. Leve-os para casa. Agora a obra de seu pai está completa. Finalmente o espírito de seu pai descansará em paz”.

Tempos depois Dinah encontrou um jovem com quem se casou. Durante gerações, em Pessach, a Keará do Seder de Yakovlev era colocada na mesa. O fabuloso tesouro serviu, assim como pretendia Yakovlev, de fonte de inspiração para todos os que tiveram o privilégio de ver sua graciosa perfeição.

Mas poucos foram os grandes homens que puderam ler a mensagem de Redenção e esperança que Yakolev forjara na prata...