Morashá
Nada é por acaso Foto Ilustrativa

Nada é por acaso

Às vezes, o Todo Poderoso coloca diante de nós aquilo que tanto almejamos na vida, mas não temos a capacidade de perceber. Assim, percorremos caminhos tortuosos em busca do que nosso coração anseia, enfrentando obstáculos que poderiam ser evitados. Mas, os desígnios Divinos estão acima da nossa teimosia e se realizam, levando-nos de encontro à felicidade.

Edição 79 - Março de 2013


Nos anos que anteciparam a 2ª Guerra Mundial, antes mesmo que os ventos do conflito atingissem a Europa Oriental, os judeus da região, cansados dos pogroms, da pobreza e levados pelo desespero decorrente de incessantes dificuldades, lutavam para enviar seus filhos aos Estados Unidos, país no qual acreditavam existiam oportunidades para que pudessem construir uma vida melhor.

A partir de 1900, os casais sacrificavam-se no dia-a-dia para economizar o dinheiro que poderia pagar a longa e árdua viagem de seus filhos e filhas que, geralmente, viajavam sozinhos em navios inseguros e em condições sub-humanas. Como as passagens eram muito caras, a alternativa encontrada era enviar os filhos um a um. Financiar a viagem de todos de uma vez era impossível, à época. Sua esperança era que, um dia, todos chegariam ao que acreditavam ser o “paraíso norte-americano” – primeiro iam os filhos e, em seguida, os pais. Enquanto este reencontro não acontecesse, as crianças ou jovens ficariam com parentes próximos que deles cuidariam e os ajudariam. Esta espera poderia durar semanas, meses e até anos.  Este encontro, às vezes, poderia nem acontecer.

Era o ano de 1930 na Polônia. Anya Gold, por ser a primogênita dentre oito irmãos, foi a escolhida pelos pais para partir primeiro. Eles haviam conseguido economizar o suficiente para uma única passagem. Disseram-lhe que, em breve, todos se reencontrariam.

Assim, Anya foi para os EUA e cresceu em Baltimore, protegida pelo carinho de uma tia. Mas não deixava de pensar um dia sequer sobre o momento do reencontro com sua família. Infelizmente, este sonho jamais se realizou, pois quando seus pais conseguiram juntar os recursos para partir já era tarde demais.
A Polônia e os judeus haviam sido apanhados pela teia do nazismo.

A menina recebia, esporadicamente, cartas da Polônia com notícias sobre a família e eventos como bar-mitzvot, casamentos, nascimentos e outros. Esperava ansiosamente pelas cartas e saboreava cada linha que chegava. Um dia, porém, as cartas pararam de vir. Anya temia o pior, e que de fato aconteceu. Ao final da 2ª Guerra, quando alguns poucos sobreviventes da Polônia chegaram a Baltimore, no final da década de 1940, trouxeram consigo as tristes notícias que ela já pressentia: sua família fora exterminada. Todos haviam perecido nos campos de morte.

Apesar de ser difícil e parecer impossível seguir em frente, não havia outro jeito e até os sobreviventes estavam começando a reconstruir suas vidas. As lembranças da família estavam encravadas em sua mente, sua alma e seu coração, mas Anya sabia que a melhor maneira de honrar o seu legado era criando seu próprio núcleo familiar.

Prometeu a si mesma que se casaria, teria muitos filhos e, cada um deles, receberia o nome de um parente.

Anya realmente se casou com homem maravilhoso chamado Sol e juntos construíram uma vida marcada pelo amor e pelo afeto. Eram o que se poderia chamar de almas gêmeas, unidos por um amor profundo. Ambos desejavam ter filhos – sangue de seu sangue, mas não conseguiam. Esta era a única nuvem que toldava sua união.

Após anos de consultas a médicos e especialistas de todo o mundo, foram obrigados a aceitar a realidade de que não teriam seus próprios filhos. Então, certo dia, Anya perguntou a Sol, com a voz insegura, se ele gostaria de adotar uma criança. Ela já vinha pensando nessa possibilidade há muito tempo, mas intimamente a rejeitava. Não gostaria de criar filhos de outras pessoas. Sempre sonhara em envolver, com todo o seu amor, seu próprio filho recém-nascido e não acreditava que poderia ter este mesmo sentimento em relação a uma criança adotada. No entanto, parecia não haver outra alternativa. Os médicos haviam sido taxativos ao afirmar que jamais teriam filhos – um golpe fatal para todos os seus sonhos e esperanças. Sol, no entanto, estava seguro sobre o que fazer e lhe disse: “Vamos adotar”.

O primeiro passo foi contatar uma agência de adoção judaica em Nova York. Imediatamente foram informados de que uma criança recém-nascida havia sido colocada para adoção pela sua mãe, uma adolescente. Mas assim que lá chegaram, viram suas esperanças serem destruídas. A responsável pelo processo disse-lhes que a avó do bebê havia decidido criá-lo. 

Abatidos pela tristeza, Anya e Sol preparavam-se para retornar ao seu lar, quando esta mesma atendente informou-lhes que havia uma menina de oito anos, chamada Miriam, que precisava desesperadamente de uma família. No entanto, apesar de encontrarem a garota e terem sido cativados pelo seu sorriso, não a adotaram. “Eu realmente queria uma criança pequena o suficiente para saber que eu sou sua única mãe. Quero segurar um recém-nascido em meus braços. Sinto muito, mas não vai dar certo”, explicou Anya.

“Eu entendo a sua posição. Mas Miriam já passou por tantas dificuldades em sua curta vida, ela realmente daria valor a um lar amoroso”, disse a funcionária da agência, sem, no entanto, convencer o casal.

Um ano transcorreu desde aquela data e Anya e Sol ainda não haviam conseguido adotar um recém-nascido, apesar de terem contatado várias agências em todo o país. Anya consumia-se intimamente e, um dia, disse ao marido que talvez tivessem se precipitado ao rejeitar a adoção de Miriam. “Ela era uma criança extremamente cativante. Há algo nela que me tocou de uma forma especial”, disse. Sol então retrucou: “Já se passou um ano. Será que ninguém a adotou, ainda?”

Ao entrar em contato com a agência de Nova York foram informados que a menina ainda não encontrara um lar. Afinal, não havia muitas pessoas interessadas em crianças de nove anos. Mas a funcionária disse que surgira um fato novo que talvez complicasse a adoção. Seu irmão mais novo, Moishe, de seis anos, sobrevivera à guerra na Europa, e tinha sido localizado e agora ambos estavam no mesmo orfanato. “Eles são inseparáveis e nós lhes prometemos que permaneceriam juntos. Vocês considerariam a hipótese de adotar os dois”, perguntou.

Mais uma vez o casal foi a Nova York para se encontrar com as crianças. Encantados com os pequenos, Anya e Sol se entreolharam e tiveram o mesmo pensamento: “Vamos adotar os dois”. Ao retornarem a Baltimore com seus dois filhos, Anya começou a lhes mostrar o novo lar. O pequeno Moishe olhava tudo timidamente e continha suas emoções, mas Miriam, aventureira e curiosa, caminhava pela sala de estar e mexia nos enfeites. De repente, ela parou em frente ao piano e seu rosto ficou branco. Com a voz trêmula, perguntou a Anya: “Por que você tem uma foto da minha bobbe (vovó) sobre seu piano?”

Confusa, Anya perguntou: “O quê?”, “Minha bobbe. Por que a foto da minha bobbe está sobre o seu piano?”  Anya olhou para o retrato de sua mãe. O que aquela menina estava falando?

Miriam correu em direção à única mala que tinha trazido do orfanato, retirou uma foto antiga e levou-a para Anya. “Veja, eu tenho a mesma foto. É minha bobbe”, disse. “É minha mãe”, sussurrou Anya. E Miriam lhe perguntou se ela queria ver a foto de sua mãe, ao mesmo tempo em que lhe entregava um retrato de alguém que Anya conhecia muito bem. “Sara”, sussurrou enquanto se sentava no chão. “Como você sabe o nome da minha mãe?”, perguntou-lhe Miriam, confusa.

Assim, de uma forma totalmente inimaginável, Anya havia adotado os filhos órfãos de sua falecida irmã. Eles eram de fato sangue de seu sangue. Eles eram um pedaço dela própria...

Conto extraído da obra Small Miracles for the Jewish Heart – Extraordinary Coincidences from Yesterday and Today, de Yitta Halberstam & Judith Leventhalx.