Morashá
A verdade sempre liberta Foto Ilustrativa

A verdade sempre liberta

Solomon Schwarz tinha uma união muito feliz, ele e sua esposa Minnie eram parceiros de verdade, apenas algo faltava para completar sua felicidade, um filho.  Entretanto de repente suas vidas saíram de seu controle e tomaram um rumo inesperado.

Edição 83 - Abril de 2014


Amavam-se profundamente, compartilhavam os mesmos valores e ideais e desfrutavam de um companheirismo fora do comum. Havia apenas algo que faltava em sua vida a dois para torná-la completa – um presente de D’us, um filho. Mas o casal tinha certeza de que esta espera seria temporária.

Ano após ano eles aguardavam, pois a legião de médicos que haviam consultado garantira que não havia nada de errado com ambos e que, com certeza, teriam filhos. Conforme o tempo passava, era cada vez mais difícil para Minnie ver uma mãe empurrando, radiante, um carrinho de bebê pelas ruas, sem derramar uma lágrima. Um nó formava-se em sua garganta cada vez que ouvia o inconfundível choro de um recém-nascido. No passado, ela costumava parar diante das vitrines de lojas infantis acariciando, com os olhos, os delicados lacinhos nas roupas e acessórios. Agora, no entanto, quando passava em frente a uma dessas lojas, apressava o passo e seguia em frente.

Os Schwartz já estavam casados há 12 anos quando  o patriarca da família, seu tio mais velho, inesperadamente, chamou Solomon para uma conversa. “Você sabe que uma das mais importantes mitzvot da Torá é o mandamento de pru urevu - frutificai e multiplicai-vos. Trazer filhos ao mundo não é apenas um prazer, mas uma obrigação. Somos os responsáveis pela perpetuação das espécies, pela perpetuação do Povo Judeu. Se sua esposa é estéril há mais de dez anos, a Torá diz que você deve divorciar-se”.

“Não”, gritou Solomon, sem acreditar no que ouvia.  “É a Lei”, afirmou duramente seu tio. “Não é possível  que a Torá quisesse dissolver um casamento amoroso – com filhos ou sem filhos”. O tio, por sua vez, acrescentou: “Se você não acredita em mim, pergunte ao seu rabino... De qualquer maneira, eu já tomei a liberdade de falar com a Minnie e lhe explicar a situação. E ela é uma mulher de grande valor: concordou em não atrapalhar sua felicidade e cumprir os mandamentos. Ela não quer impedi-lo de ter filhos com outra mulher. Ela vai lhe conceder o divórcio sem qualquer problema ou discussão. Ela o ama e lhe deseja o melhor”.

“Quem é você para decidir o que é melhor para mim?”, Solomon perguntou, furioso. “Minha esposa Minnie, a quem amo. Ela é o melhor para mim. Ela é todo o meu mundo. Não vou me divorciar. Não acredito sequer que tal lei exista de fato. Provavelmente é você quem está inventando tudo isso”.

Posteriormente, no entanto, quando Solomon foi averiguar pessoalmente junto a um rabino que era seu amigo, ouviu as seguintes palavras: “Tal lei existe, de fato. Em outras épocas, as pessoas seguiam rigorosamente este mandamento. Atualmente, porém, os rabinos estão mais tolerantes em sua interpretação e a maioria não recomenda o divórcio. No seu caso, como Minnie e você têm um lindo relacionamento e um amor especial, poucos o aconselhariam a tomar uma medida tão drástica. Esqueça a conversa com seu tio e siga com sua vida”.

Mas as coisas já haviam tomado tal rumo que não havia nada mais a fazer. A situação saíra de controle. Tendo sido convencida de que era a causa da infelicidade de seu marido e do drama das futuras gerações dos Schwartz, Minnie não permitiria que nada a detivesse e estava determinada a seguir em frente com o processo de divórcio.

Ao conversar com Solomon, ela disse, entre lágrimas: “Tenho sido egoísta durante todos esses anos. Com outra esposa você terá a chance de ter muitos filhos. Não posso ficar no seu caminho. Eu o amo demais para privá-lo desta bênção”. Quanto mais o marido argumentava, protestava e tentava fazê-la raciocinar, mais ela permanecia irredutível. Seu maior sacrifício, seu derradeiro ato de amor seria entregar seu amado marido para outra. Quando ele lhe entregou o guet (divórcio judaico), Solomon se ajoelhou desesperado e com o coração partido afirmou: “Eu amarei você para sempre”. Em resposta, ela sussurrou, condoída: “Eternamente”.

Duas semanas depois, ela lhe telefonou para contar que estava grávida. Em resposta, ele disse: “Vamos nos casar novamente. Tenho certeza que será permitido. Vou perguntar ao meu tio”. Quando o sobrinho lhe falou sobre as novidades, o patriarca deu a seguinte resposta: “Bem, sim, em casos normais o casal pode casar novamente... Mas, este não é um caso normal”.

Impaciente, Solomon perguntou:  “O que você quer dizer com este não é um caso normal?”. O tio, então, explicou-lhe: “Solomon, meu filho, você é um Cohen, pertencente à casta dos Sumos Sacerdotes que serviram no Templo. Um Cohen está sujeito a leis mais rigorosas do que os descendentes das outras tribos. Um Cohen, sinto muito em lhe dizer, não pode se casar com uma mulher divorciada. E Minnie, agora, pertence a este grupo”.

“Mas eu me divorciei dela, ela era minha esposa”, retrucou. “Tecnicamente, não faz diferença. Ainda assim, ela é uma mulher divorciada e você ainda é um Cohen. Não vejo como vocês podem se casar novamente”, afirmou o tio.

Solomon estava chocado. Minnie, seu grande amor, sua preciosa esposa, estava finalmente grávida e eles não poderiam se casar novamente? Não era possível, era? Infelizmente, todos os rabinos consultados sobre o tema concordavam com a informação dada pelo tio. Ele era um Cohen, ela era divorciada, não havia o que discutir.

“Não há nada que possa ser feito? Uma dispensa, uma anulação? Não há nenhuma filigrana legal que vocês possam encontrar para fazer com que a lei seja interpretada a meu favor?” Não havia brechas, todos respondiam com tristeza.

“Será que ninguém pode fazer nada?”, perguntou, alquebrado, no gabinete de estudo de um rabino, certo dia. O rabino teve vontade de lhe dizer que seu pedido era impossível. Que nenhum estudioso que seguisse a Halachá seria capaz de encontrar uma solução para ele. No entanto, ele se viu dizendo: “Por que você não vai se aconselhar com o Lubavitcher Rebe?”

O Lubavitcher Rebe era um sábio muito conceituado em Crown Heights, no Brooklyn. Tinha milhares de discípulos – seguidores e admiradores mundo afora, que acreditavam fervorosamente na inspiração Divina de sua sabedoria e inteligência, bem como nos pressentimentos e poderes de consolo e cura desse homem santo. Muitos afirmavam que ele realizava milagres e salvava vidas. Para uma multidão de pessoas, judeus e não judeus, ele era a última chance, a última parada, o último tribunal de apelação. Era pleno de amor e aceitava incondicionalmente cada judeu, independentemente de sua tendência religiosa. Não era raro que judeus seculares fizessem peregrinações até seu famoso endereço - 770 Eastern Parkway - e dali saíssem reconfortados.

Solomon Schwartz era observante o suficiente para desejar cumprir a lei, mas não era um Lubavitcher. Vivia na Califórnia e nunca tinha sido atingido pelo carisma do Rebe. Ainda assim, as histórias sobre ele corriam pelo país e ele já havia ouvido falar sobre os milagres do Rebe. Então, quando o último rabino que consultara lhe sugeriu que se consultasse com o Lubavitcher Rebe, sentiu que poderia ser uma opção. Disseram-lhe que o Rebe abria suas portas ao público aos domingos e que os interessados em uma consulta com ele eram recebidos de acordo com a ordem de chegada. Quando Solomon chegou ao Brooklyn, no domingo de manhã cedo, a fila de pessoas que esperavam para ver o Rebe era muito grande e espalhava-se como uma serpente ao redor da Eastern Parkway e pelas ruas próximas. Centenas de judeus de todas as correntes atraídos ao local em busca de seu milagre pessoal. Solomon não pregara o olho durante o vôo noturno de sábado à noite. Esperando na interminável fila, estava irritado e impaciente. Ainda faltavam horas para chegar a sua vez, mas consolava-se dizendo que talvez a espera valesse a pena.

Mas não valeu. Cinco horas haviam transcorrido quando finalmente chegou sua vez. Ele sussurrou sua triste história e a imposição da Halachá no ouvido atentos do Rebe. O que ele esperava ouvir daquele homem conhecido por seu brilhantismo e sabedoria era, quem sabe, algo inédito, quem sabe uma brecha na Halachá que pudesse libertá-lo. Ou, no mínimo, uma bênção que aliviasse o seu coração. Ao invés disso, o Rebe simplesmente analisou Solomon por uma fração de segundo, perfurando sua alma com uma ardente intensidade, e disse: “Vá falar com sua mãe”.

Atônito, Solomon gaguejou, entre frustrado e desesperado: “O quê???”. “Vá falar com sua mãe”, repetiu o Rebe. Foi aí que o rapaz estourou: “Eu viajei três mil milhas para o senhor me dizer para falar com minha mãe? Isto é tudo que o senhor tem para me dizer?”, falou já alterado, descrédito. Pela terceira vez, o Rebe repetiu: “Vá falar com sua mãe”, e fez sinal para que ele saísse.

Solomon andou pelas ruas de Crown Heights; era o desconsolo em pessoa. Sentia-se enganado, traído. No final das contas, o Rebe não era um homem santo. Era um charlatão, um logro, uma fraude. “Vá falar com sua mãe”. Que espécie de conselho era esse? Ainda assim, ele parou para reconsiderar o que ouvira. Era interessante como o Rebe parecia estar certo de que ele tinha mãe e que ela ainda estava viva. E como sabia que ele não falava com ela há muito tempo?

Ao longo dos anos, infelizmente, eles haviam-se distanciado. Tinham tido muitas discussões que haviam desgastado seu relacionamento, e a reaproximação jamais ocorrera. Haviam-se passado meses desde a última vez que conversaram e ela desconhecia os últimos eventos graves que tinham ocorrido em sua vida: o divórcio, a gravidez de Minnie e sua busca frenética por uma brecha haláchica para que pudessem casar-se novamente.

“Vá falar com sua mãe”, dissera o Rebe. Solomon não sabia o que o sábio quisera dizer com essa mensagem enigmática, mas talvez fosse o momento de ver sua mãe, de qualquer maneira. Seu rosto se iluminou quando ela abriu a porta e o envolveu em um forte abraço. “Há quanto tempo”, ela chorou.  E por causa de tanta narishkeit - tanta besteira... Venha para a cozinha. Tenho café fresco e acabei de fazer folheados de queijo, ainda estão quentinhos! Onde está Minnie?”.

Então ele lhe contou tudo: a intervenção do patriarca da família, a insistência de Minnie em se divorciar para que ele pudesse ter filhos com outra mulher; a repentina alegria por causa da gravidez inesperada e a busca por uma brecha na Halachá. Finalizou aquela litania dizendo: “Mãe, você poderia imaginar tamanho problema?”.

Então, vagarosamente, sua mãe começou a falar, olhando fixamente em seus olhos: “Não há problema algum! Eu nunca consegui lhe contar antes, mas, chegou a hora de fazê-lo.  É verdade que seu pai era um Cohen, portanto, naturalmente, você supôs que também fosse, pois passa de pai para filho. Mas você não é Cohen de fato e, portanto, está livre para se casar novamente com Minnie...O Rebe estava certo quando lhe disse para falar comigo...Sabe...você foi adotado”.

Extraído da coletânea Small Miracles for the Jewish Heart – Extraordinary Coincidences from Yesterday and Today, de Yitta Halberstam e Judith Leventhal