HOMENS DA HISTÓRIA
ANTÔNIO JOSÉ, O JUDEU


Marrano Português

A vida e a obra de Antonio José da Silva, o Judeu, tem atraído o interesse de estudiosos brasileiros. Nascido no Brasil, cresceu e estudou em Portugal, onde conquistou fama como teatrólogo.


Edição 25 - Setembro 1999
Menu Completo
Morashá.com HOME
Revista Morashá
Clique acima e consulte as edições anteriores.
Na história da literatura portuguesa, como na brasileira, figura um nome comum - Antônio José da Silva, o Judeu. Este cognome, Judeu, indica tratar-se da mesma pessoa. Antônio José da Silva, terceira geração de família brasileira, nasceu a 8 de maio de 1705 no Rio de Janeiro, onde passou a primeira fase da infância. Em Portugal cresceu, estudou, criou fama de teatrólogo e, em Portugal, sua vida chegou abruptamente a trágico fim. Antônio José, assim como seus dois irmãos mais velhos, André e Baltazar, recebeu as águas batismais na pia da Sé do Rio de Janeiro. Como eles, todos os tios nada conheciam do judaísmo que os avós haviam abjurado em Portugal antes de se trasladarem para o Brasil. Era uma família numerosa, de médicos, advogados, comerciantes, cristãos-novos abastados. Boa presa para os Tribunais do Santo Oficio, que não só procuravam castigar os hereges, como confiscar todos os seus bens. João Mendes da Silva, pai de Antônio José, parecia estar a salvo de qualquer suspeita. Advogado benquisto, praticante devoto da religião que abraçara, porém sua esposa, Lourença Coutinho, não pôde escapar das malhas inquisitórias. Acusavam-na de fazer a limpeza da casa às sextas-feiras, provavelmente para descansar no sábado.

Foi assim que Antônio José, aos oito anos de idade, ouviu dizer pela primeira vez que seus avós, bisavós e ele próprio, eram judeus. E não podia compreender então o crime pelo qual sua família estava sendo punida. De repente fora retirada da esplêndida vivenda em que morava e jogada no porão de um barco apinhado de outros infelizes. A angústia desgarrando-se do seu peito, à proporção que se distanciava do Rio de Janeiro, só foi traduzida anos mais tarde nos versos de uma das suas "óperas": "Tirana ausência / que me roubaste e me levaste / da alma o melhor / Ai de quem sente / de um bem ausente / a ingrata dor".

Chegando a Portugal os três irmãos entraram num lar sem mãe. Só quando Lourença Coutinho saiu penitenciada, a vida da família se normalizou. Jamais, porém, restabeleceu-se a felicidade completa, porque, como escreveu Antônio José, "Na confusão da dor o bem perdido/nunca se encontra/ainda que achado". Aos 21 anos Antônio José fazia o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Inteligente, poeta, gozava de popularidade entre os amigos, alguns nobres como o conde de Ericeira, em cuja casa se reunia regularmente um grupo de intelectuais, entre eles Francisco Xavier de Oliveira e o padre Álvares de Aguiar. Numa dessas reuniões, estes dois últimos e Antônio José levaram a ridículo um livro infamante contra os judeus. Dias depois os três pagariam pela imprudência. No dia 8 de agosto de 1726, inesperadamente, compareceram na casa dos Silva os Familiares do Santo Ofício, e deram voz de prisão não somente a Antônio José, mas também a sua mãe, Lourença Coutinho. Ao princípio, ele nem sequer mediu a extensão da pena que o esperava. Quando o conde de Villar Mayor entregou-o ao Alcaide Fernando Cardoso, ainda estava altivo e até riu-se quando lhe vasculharam os bolsos e os encontraram vazios. Ao ser interrogado sobre que religião professava, respondeu que nenhuma e "só ia à igreja por cumprimento do mundo". Fizeram-lhe então saber que o acusavam de judaizante e estava obrigado a denun-ciar "todas as pessoas com quem comunicou as Leis de Moisés, fossem vivas ou mortas, parentes ou não". Estupefato, o réu manteve-se em silêncio. Foi recambiado para a enxovia, com a recomendação de recordar nomes e fatos sem nada omitir. Até mortos...

No próximo interrogatório Antônio José denunciou uma tia já falecida, que lhe havia aconselhado jejuar no "Dia Grande". De acordo com o Santo Ofício, porém, uma só pessoa delatada não era bastante para a absolvição do réu. Interrogado seis vezes, na ansiedade de se libertar o moço denunciava parentes e amigos, sem porém afirmar nada. Dizia apenas que se identificavam por uma senha: "Fazes o jejum do 'Dia Grande'?" Contudo o Tribunal considerou que as suas confissões "tinham faltas e diminuições". "Visto deixar de dizer de sua mãe, Lourença Coutinho... seja o réu posto a tormento". Fizeram-no jurar que guardaria segredo absoluto de tudo que visse, ouvisse ou sentisse. Enquanto durou o castigo e ele repetia que nada mais tinha a confessar, continuou o tormento e só foi retirado da "polé" quando perdeu a fala. E foi registrado que ele gritou muito, chamando sempre por D'us somente. Durante o suplício; implorando misericórdia a seu D'us, diria intimamente Antônio José: "Oh! D'us, se sois justo/Como assim tiranamente /a este mísero inocente/chegas hoje a castigar".
Virar Página >>

1 2 3