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Época de restrições

Naquela época, os poucos judeus de Bolonha estavam sob o domínio do papa Pio IX. Eles não tinham sinagoga e viviam em pequenos guetos. Entre as restrições impostas aos judeus, desde 1814, estava a proibição de terem empregados cristãos. Porém, mesmo com medo, as famílias judias continuavam a ter serviçais para ajudá-los, como por exemplo, no Shabat.

Procurada por Momolo, Anna Morisi confirma que teria pegado água de um balde e batizado Edgardo, quando bebê. Desesperado, ele começa a escrever cartas para o secretário judeu de Roma. As notícias de seu infortúnio correm rápidas pelas cidades italianas. Se o Caso Mortara se transformou rapidamente em causa célebre internacional, isto se deveu à capacidade dos judeus de se organizar rapidamente através das fronteiras nacionais. A ideologia do Iluminismo, segundo a qual os cidadãos tinham certos direitos básicos, alastrava-se rapidamente pela Europa.

Segundo o autor, havia duas narrativas para o Caso Mortara.

"A narrativa judaica falava de uma família amorosa levada à ruína pelo fanatismo religioso do regime papal. Pela narrativa da Igreja, a história era de redenção, pois o menino Edgardo seria colocado ao lado do mais santo e reverenciado líder de todo o mundo, o próprio papa". Momolo dá a sua versão para a visita a seu filho, em agosto daquele ano, na Casa dos Catecúmenos, em Roma, um lugar conhecido pelos "convertidos", onde um judeu podia entrar como tal e sair católico, sendo motivo de grande orgulho para a Igreja. Segue o autor:

"Edgardo disse que quando foi levado de casa chorava e pedia por sua mezuzá, que sempre usava no pescoço. Em vez disso, foi-lhe oferecido um medalhão – uma cruz – que ele recusou". Uma outra versão afirma que o menino, entrando na igreja pela primeira vez na vida, foi um "prodígio", logo se interessando pelos ritos católicos, aprendendo a rezar e a fazer o sinal da cruz.

Destaque na imprensa


O Caso Mortara começa a ser divulgado com destaque pela imprensa francesa. Napoleão III havia tentado, sem sucesso, persuadir o papa a modernizar seu Estado. As notícias do seqüestro do menino judeu em Bolonha deixam-no enraivecido. Também os Rothschild se mobilizam para tentar apressar o retorno do menino à casa dos pais. Na Sardenha, o conde Camillo Cavour, primeiro-ministro e idealizador da Itália unificada pelo rei Vittorio Emanuelle II, começa a escrever cartas condenando o seqüestro. Sir Moses Montefiore, chefe dos representantes da comunidade judaica britânica, decide ir a Roma interceder junto ao Papa. No entanto, fracassa nessa missão.

A partir de 1858, começam os problemas no reinado do papa. Em 1859, o levante de Bolonha proclama a vitória de Vittorio Emanuelle II. Finalmente, em janeiro de 1860, o padre inquisidor Feletti é preso – sob suspeita de incentivar o seqüestro. Este se defende, dizendo ter apenas seguido ordens, e usado somente meios de persuasão "suaves". A empregada Anna Morisi também foi chamada a depôr, mas não foi condenada. O padre Feletti, mesmo depois de julgado culpado, é posto em liberdade.

Enquanto isso, Momolo se havia mudado para Turim, continuando a lutar pela volta do filho. Após dois anos, encontra-se envelhecido e sem esperança. A Alliance Israelite Universelle escreve uma carta de apoio a Momolo. Mesmo assim, os esforços foram inúteis. Passaram-se os anos... Em 1870, finalmente, depois de muitas lutas, aproxima-se o fim do governo papal. A família Mortara, então vivendo na Toscana, ainda espera o regresso de seu filho.

Em outubro, Edgardo e um guia fogem de Roma, atravessam a fronteira austríaca e se refugiam em um convento. Derrotado, Momolo volta para sua mulher. Durante anos tinham rezado pela volta do filho ao seio da família e à religião. "Todo o tempo, nutriram o temor de que o menino seria vencido pelos captores". A vida dos Mortara continuou em tragédia. Momolo é acusado de assassinar uma empregada de sua casa, Rosa Tognazzi, e é preso injustamente. Em 1871, quando é finalmente inocentado, morre.

E Edgardo? Em 1873, é ordenado com grandes honras. Embora sua mãe tenha se reconciliado com ele, o mesmo não aconteceu com seus irmãos. O papa Pio IX sempre considerou Edgardo como seu filho, até sua morte em 1878. Edgardo viveu até 1940, na Bélgica.

A lembrança do Caso Mortara pode ser dolorosa sob muitos pontos de vista, mas o mérito do livro de David Kertzer é inegável: traz à tona fatos pouco conhecidos da chamada Inquisição italiana e de seus métodos cruéis contra aqueles que não abraçavam a sua fé. O livro O seqüestro de Edgardo Mortara foi indicado para o prêmio Pulitzer de 1997.

Bibliografia

David I. Kertzer, O seqüestro de Edgardo Mortara
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