O SEQUËSTRO DE EDGARDO MORTARA


Foto Ilustrativa

Fim de regimes que duravam há séculos, a iminência da unificação da Itália e a forte influência do Iluminismo e dos ideais da Revolução francesa: este foi o pano de fundo para o Caso Mortara.


Edição 23
Menu Completo
Morashá.com HOME
Revista Morashá
Clique acima e consulte as edições anteriores.
Por que um caso tão importante, ocorrido em Bolonha, Itália, em 1858, é pouco divulgado até os dias de hoje? Por que o seqüestro de um menino judeu, de sete anos, por inquisidores, envolveu o papa Pio IX, mobilizou países da Europa e os Estados Unidos, envolveu personalidades políticas de peso, como sir Moses Montefiore, o conde Cavour e Napoleão Bonaparte III? Por que o Caso Mortara, como ficou conhecido, afetou tanto o governo pontifício e provocou indignação de entidades como a Alliance Israelite?

Enfim, por que esse drama com lances de suspense chamou a atenção do professor David I. Kertzer que, há alguns anos, decidiu escrever "O seqüestro de Edgardo Mortara", um fascinante livro-documento? Essas e muitas outras perguntas encontram explicações ricas e envolventes em uma trama que analisa detalhadamente a situação dos judeus na Itália do século passado.

Segundo o autor do livro, o Caso Mortara tem muitas ligações com acontecimentos da época, permitindo que se detecte muitas das importantes forças em ação em um dos pontos decisivos da história italiana. Reflete, claramente, o conflito entre a Santa Sé, que queria domínio total sobre as idéias e as crenças, e a nova ideologia secular e liberal que se espalhou pela Europa no século 19, quando era forte a influência do Iluminismo e da Revolução Francesa.

A Igreja já sofrera derrotas em alguns países europeus, que anunciavam o fim dos estados papais, e a Inquisição já não tinha a força do passado em algumas regiões. Os conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, pregados pela França de Napoleão III, já se faziam sentir, tornando compreensível o envolvimento de muitos dos principais protagonistas da luta pela unificação da Itália no Caso Mortara.

Por trás do seqüestro de um garoto de sete anos, sob justificativa religiosa, estava a manutenção de uma ordem que via suas raízes enfraquecerem.

Início da tragédia

O primeiro capítulo, "Batidas na porta", já antecipa a tragédia. Quarta-feira, 23 de junho de 1858. A empregada de Momolo (Salomono) Mortara abre a porta para dois policiais dos estados papais. O sargento explica que tem ordens para ver cada um dos sete filhos de Momolo. Mariana, sua esposa, treme. O sargento informa: "Seu filho Edgardo foi batizado, e tenho ordens para levá-lo comigo ".

Na casa dos Mortara é o começo da agonia. Enlouquecidos, os pais pedem para ver o padre Felleti, inquisidor impassível que lhes diz que seu filho havia sido batizado secretamente, era católico e não podia ser criado em casas de judeus. Em Reggio e Módena, onde cresceram Momolo e Mariana, não era raro a polícia aparecer à noite e exigir que uma criança judia batizada lhes fosse entregue. Os pais de Edgardo demoraram a compreender o motivo alegado para o seqüestro: uma antiga empregada, Anna Morisi, teria batizado o menino com a intenção de curá-lo de uma doença supostamente grave.
Virar Página >>

1 2