Esta idéia de que os judeus visam conquistar o mundo, mesmo que totalmente falsa, mostrou-se eficiente. "Os Protocolos foram importantes para incitar multidões. Ninguém deseja matar o seu vizinho. Mas quando se explica que o seu vizinho faz parte de um plano para dominar o mundo, tudo pode ser justificado. Embora o anti-semitismo existisse séculos antes de os Protocolos, não tenho dúvidas que facilitaram e incentivaram o trabalho de muitos anti-semitas contemporâneos", explica Ben-Itto.
Alguns fatos comprovam suas palavras: o panfleto foi usado pelos russos para estimular os pogroms e também foi usado por Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, são uma ferramenta útil. Segundo o rabino Joseph Telushkin, em seu livro Jewish Literacy, milhares, talvez milhões de judeus tenham morrido por causa dessa farsa infame". E em O Holocausto, Nora Levin também afirma que "Hitler usou esse livro como um manual em sua guerra para exterminar os judeus". A juíza complementa: "Ou seja, ajudam a explicar a tese de que, matando judeus, está-se, realmente, fazendo uma coisa boa, porque eles estão conspirando para tomar conta do mundo".
Ben-Itto sentiu pela primeira vez a força dos argumentos dos Protocolos quando era representante israelense nas Nações Unidas em 1965. Durante uma sessão da ONU, um delegado da então União Soviética citou um trecho do panfleto para atacar verbalmente o Estado de Israel. Surpreso diante de seu silêncio, um diplomata latino-americano disse-lhe: "Vocês, judeus, devem aprender mais com o passado. Ignoraram o que Hitler havia escrito em Mein Kampf. É proibido, para vocês, ignorar as calúnias do anti-semitismo, principalmente quando falam de uma conspiração criminosa judaica para dominar o mundo, como esta descrita na farsa dos Protocolos".
Dez anos mais tarde, em 1975, a Assembléia Geral das Nações Unidas, votou a resolução que equiparou Sionismo a Racismo. Ben-Itto era, então, novamente membro da delegação israelense. Em uma conversa com a então embaixadora americana na ONU, Jeane Kirkpatrick, ouviu as seguintes palavras: "Eu não posso acreditar que a mesma coisa esteja acontecendo às mesmas pessoas duas vezes em uma geração vocês não leram Mein Kampf com atenção. Se o tivessem feito, saberiam o que estava por vir". Ben-Itto disse: "Devemos tirar uma grande lição deste encontro: os documentos anti-semitas, por mais simples que pareçam, não devem ser considerados levianamente".
Desmentir a farsa
Se os judeus não leram atenciosamente Mein Kampf, também não leram os Protocolos. Na noite de lançamento do livro de Ben-Itto, muitos dos ilustres convidados confirmaram esta afirmação. Entre eles, Aharon Barak, atual presidente da Suprema Corte de Israel, e também o ex-presidente da instituição Meir Shamgar reconheceram não ter lido o panfleto. "Os judeus não levam muito a sério as doutrinas escritas do anti-semitismo. Talvez esta postura seja fruto de um abordagem fatalista de que sempre foi assim e sempre será assim", diz a juíza.
Afirma, no entanto, que seu livro não pretende combater o anti-semitismo. "Anti-semitismo é uma outra história. O meu objetivo é enfrentar e desmentir uma farsa, um documento que foi forjado. Digamos que alguém esteja espalhando coisas terríveis sobre um indivíduo, que ele é um assassino e um ladrão. Será que este indivíduo diria que não importa o que está se dizendo a seu respeito? É claro que não. Ele lutaria para desmentir as acusações. Será que, enquanto povo, não nos importamos com o que as pessoas pensam sobre nós?"
Para ela, o fato de não se rebater o conteúdo dos Protocolos fez com que a teoria de uma conspiração judaica se espalhasse mesmo entre pessoas esclarecidas. Quando diz que o panfleto é falso e foi forjado, perguntam-lhe por que, então, ninguém o desmente. Portanto, pessoas informadas e desinformadas judias ou não são o público alvo de The lie that wouldnt die. Sua obra não visa sensibilizar os anti-semitas, pois eles não a lerão e, se o fizerem, será para negá-la. Não deixarão de ser anti-semitas.
O livro de Ben-Itto foi lançado originalmente em inglês e, posteriormente, traduzido para o hebraico e para o alemão. O jornal Der Spiegel dedicou-lhe quatro páginas e a televisão alemã enviou um repórter a Israel para fazer uma reportagem com a juíza. "Os alemães estão particularmente interessados em mostrar a farsa dos Protocolos, pois sabem muito bem quais os danos que pode causar". Ben-Itto acrescenta:
"As pessoas precisam ter argumentos para refutar uma mentira. É precisar dar-lhes meios para contestar uma mentira. Espero que o livro que escrevi ajude as pessoas a destruir esse instrumento que vem ferindo os judeus há mais de um século. Milhões de cópias dos Protocolos dos Sábios de Sion vêm sendo distribuídas. Será que não temos a responsabilidade de pôr os fatos na mesa, esclarecer os pontos certos e dizer ao mundo que, acredite ou não, esta é a verdade?"
O que são os Protocolos dos Sábios de Sion
Protocolos dos Sábios de Sion, sob a forma como são conhecidos atualmente, é um panfleto baseado em um texto escrito pelo sátiro francês Maurice Joly, em 1864, intitulado Diálogos no inferno entre Maquiavel e Montesquieu. Seu objetivo era atacar Napoleão III e não fazia nenhuma referência aos judeus. |